O modelo HILUXSW428 transporta os policiais da boa vizinhança, ao adentrá-lo, o estofado marrom-claro de couro sintético junto à parafernália tecnológica, que se pode visualizar do banco traseiro, chega a capturar o olhar de tal forma que não é necessário nem ver das janelas o que se passa fora da viatura. Há um monitor, na região central do painel do carro reproduzindo imagens do interior e do exterior da viatura do Ronda do quarteirão. Do monitor
27 Aquino (2009), por exemplo, por ser mulher, conseguiu construir mediações de gênero tornando-se amiga de
mulheres de “assaltantes de instituições financeiras”, convertendo tal experiência numa imersão privilegiada em seu campo de pesquisa.
28 Modelo de carro da Toyota conhecido no estado do Ceará como um automóvel pouco acessível às camadas mais
pobres da população. Além disso é um símbolo de status social através do consumo, os significados dos veículos estão disseminados em músicas e categorizações simbólicas da população local.
os policiais podem ver a si mesmos e o exterior da viatura. No interior da viatura há um equipamento de comunicação por rádio, de cor preta, localizado no teto e outro móvel. No painel central, ao lado do monitor que reproduz as imagens das câmeras, existe, ainda, um telefone móvel muito próximo ao TMD29, no lado direito. Através do rádio e do TMD os policiais são contatados e contatam a central de informações da polícia local, pelo telefone móvel os moradores é que fazem o contato com os policiais. Abaixo das câmeras, no painel, se encontra, ainda, os botões acionadores dos sinais sonoros e visuais da sirene usados em eventualidades específicas30. Essas são as principais fontes de comunicação, no que diz respeito ao recebimento dos chamados que se convertem nas ocorrências policiais e os recursos utilizados durante as mesmas.
29 Espécie de microcomputador que processa os dados online com a central de informações da polícia local através
de mensagens de texto.
30 Os alertas sonoros e visuais podem ser ligados para informar, no trânsito, o deslocamento da viatura em direção
à ocorrência, mas podem, também, ser acionados para facilitar o deslocamento da viatura mesmo não estando em atendimento. Em alguns casos, o alerta sonoro, ligado após a efetivação de uma prisão, é um sinal que designa alertar, aos considerados “vagabundos”, que um deles foi pego, durante o percurso da viatura pelos Bairros até a chegada à delegacia.
Figura 1. Elementos da Viatura do programa de Policiamento Ronda do Quarteirão Fonte: Jornal Diário do Nordeste
As câmeras objetivam vigiar os policiais, tendo suas imagens registradas pelo comando do programa na capital Fortaleza. Os policiais veem a câmera sob ângulos discrepantes: um em que ela pode vir a prejudicá-los “enrolando-os” — por cochilar, fugir de algum aspecto da disciplina militar e/ou mesmo por ações ilegais envolvendo muitas vezes o uso excessivo da força —; por outro é uma oportunidade de registro de operações policiais bem sucedidas como perseguições, abordagens e atendimentos de chamados da população. Ao “se enrolar”, pelos registros de vídeos, os policiais passam a envolver-se, negativamente, por alguma ação inadequada ou ilegal em instâncias de julgamento que, em seu último grau, pode significar a expulsão do policial militar da corporação.
Tal aparelhagem está, diretamente, relacionada à forma de atribuir sentido as suas ações, do modo como operam suas racionalidades contingenciais para atuar em ocorrências e agir diante de dificuldades. Trata-se de dispositivos implicados na relação que envolve os chamados e as ações da polícia eclodidas por eles. Dessa forma, o que permite as relações entre
os policiais do programa e os moradores está, também, atrelado aos elementos simbólicos da própria viatura, na materialidade do seu TMD, do rádio, dos telefones móvel da viatura, do metal, da pintura e do motor da viatura, na dimensão de sua presença física circulando nos bairros.
É importante, além disso, considerar os mundos que se separam e se conectam dentro e fora da viatura, condição, esta, potencializada por uma configuração peculiar. O calor das ruas, das pessoas, se interliga ao clima artificial da viatura, em seu cenário de tecnologia no seu interior (TMD, monitor, rádio etc.). O veículo-viatura destoa dos carros e motos populares, bicicletas, casas rústicas com portas de madeira, pintadas à cal, ou ao cru dos tijolos à mostra de um observador transeunte qualquer. Essa conexão, entre objetos e humanos, é a condição de interação da polícia com os moradores, não podendo ser desconsiderada ao pensar essas relações, manifestando-se, também, na construção das alteridades relativas que diferenciam a rede de policiais em relação às populações locais.
Do banco traseiro do automóvel não é possível ver o que se passa na parte traseira do veículo, devido ao posicionamento do “xadrez”, onde são encurralados os corpos de moradores após a efetuação da prisão. É possível, no entanto, ver pelos monitores, com certo
delay, o que está a ocorrer do lado de fora. Pelas janelas laterais do veículo é possível observar
o bairro se movimentando, os acenos de algumas crianças para viatura, a passagem das fachadas das residências da população, as condições precárias de urbanização dos bairros, o deslocamento dos moradores para padarias, mercearias movimentando a economia do lugar. É possível notar o olhar atento de alguns moradores e a indiferença de outros à passagem da viatura. Com o tempo, o próprio clima de observação é dinamizado pela conversação sobre o bairro, sobre acontecimentos de outrora. É possível observar quase tudo, porém, com o deslocamento do veículo, a observação não é duradoura e sim instantânea.
Observar, ao mesmo tempo, interações, conversações, lugares, objetos e pessoas, é ser, a tal ponto reflexivo de saber compreender (BOURDIEU, 1997) os interlocutores, conduzindo as conversações evitando violências simbólicas e assimetrias entre pesquisadores e pesquisados. Percebendo-se na condição participante de pesquisador na “comunidade de interconhecimento”, revelando nossas implicações nas interações descritas e analisadas (BEAUD e WEBER, 2007). E, além disso, entender como as interações de conhecimento com os interlocutores, são possíveis na medida que revelam interações entre as diferenças simbólicas de disputas de definição do real (SÁ, 2010).