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Diversas pesquisas produzidas na área da Educação nos últimos anos demonstram grande preocupação com o papel docente nas instituições de ensino, abordando os diferentes níveis em que este atua. No entanto o que vêm inquietando muitos pesquisadores, e que se tornou um tema de pesquisa na década de 80 do século passado, é o mal-estar docente.

Esteve (1999, p. 25) considera que os docentes sofrem de mal-estar por estarem expostos a tensões cada vez maiores, devido às diversas fragmentações da atuação docente e que, consequentemente, aumentam suas responsabilidades e exigências. Segundo o autor, a

expressão mal-estar docente vem sendo empregada para “descrever os efeitos permanetes de

caráter negativo que afetam a personalidade do professor, como resultado das condições psicológicas e sociais em que se exerce a docência”.

No entendimento de Jesus (2001b, p. 125) o mal-estar docente é um fenômeno produzido pela atual sociedade uma vez que está interligado às mudanças sociais que ocorreram nas últimas décadas, e continuam a acontecer, com implicações, principalmente, no comportamento dos alunos.

As transformações no papel do professor e dos agentes tradicionais de socialização se

deram nessas mudanças aceleradas do contexto social, assim como de necessidades – por

exemplo, de preparação para manejar as tecnologias de informação e comunicação –, porém

perece que muitos docentes não estavam preparados para lidar com tantas exigências, o que de certa forma vem acarretando inúmeras situações de mal-estar.

A respeito disso, Esteve (2004, p. 24) salienta que, ao refletirem sobre seu trabalho, muitos professores, bem como os médicos e outros profissionais, não conseguem entender e custam a perceber o que lhes aconteceu pessoal e profissionalmente. Esse autor recorda que, na introdução de um livro de Dilthey, Ortega y Gasset faz um alerta para o fato de muitas pessoas não conseguirem conscientizar-se das épocas históricas que elas mesmas viveram,

daqueles fatos que nos “permitem entender os problemas do presente como elementos de um

processo histórico no qual a possibilidade de compreender os problemas atuais depende de nossa capacidade para reconstruir o processo que os gerou, buscando no passado as raízes de onde procedem”.

Esta consciência histórica é de suma importância, pois muito do que hoje evidenciamos dentro das instituições de ensino são apenas uma pequena parcela e repercussão do que vivemos em nossa sociedade, que também vem sofrendo mudanças ao longo dos anos

e que precisa estar alerta e preparada para lidar com o novo, com a diversidade, com os desafios do acelerado e inevitável progresso.

Mosquera, Stobäus e Santos (2007, p. 262) complementam lembrando que os

problemas que angustiam a profissão docente estão ligados a sua própria origem, ao desenvolvimento histórico e à valorização social dessa profissão, sendo que o mais instigante é o ininterrupto acirramento de tais problemáticas, também em contextos internacionais, e como socialmente a docência vem sendo desgastada frente às insatisfações amplamente justificadas dos professores, os descontentamentos por parte dos discentes, a má qualidade do ensino e a desconfiança no aproveitamento social.

Mandra (1980) ressalta que tanto a função docente modificou-se frente à pressão de mudanças dos contextos sociais em que desempenha sua profissão, como se modificaram as expectativas, apoio e julgamento desses contextos sociais sobre os docentes.

Dohms (2011), em sua pesquisa realizada em uma escola privada de Porto Alegre, encontrou como as principais fontes de pressão sofridas pelos docentes: as relações e reuniões com os pais dos alunos, falta de recursos, confrontos diários em sala de aula, agressões verbais e físicas por parte dos alunos, falta de consenso sobre assuntos disciplinares, o fato de lecionar em turmas desmotivadas e/ou para quem não valoriza o ensino e quer as coisas prontas, levar trabalho para casa e que acaba interferindo na vida familiar, falta de perspectiva

de promoção, baixa remuneração em relação ao volume de trabalho, trabalho no horário das

refeições ou nos intervalos, tarefas administrativas, ter que avaliar os alunos, decréscimo do respeito e valorização da sociedade para com a profissão docente, insegurança dentro da profissão, a pressão por parte das chefias, má comunicação entre o pessoal da instituição, a tensão nas relações dentro da escola e a integração de alunos com necessidades educativas especiais.

Esses docentes que participaram da pesquisa de Dohms (2011) também indicaram fatores que amenizam essas pressões: as boas relações com seus alunos, apoio por parte dos seus colegas de profissão, apoio do seu sindicato, ter clareza quanto ao seu papel na escola, duração das férias escolares, currículo unificado, envolvimento com temas pastorais, sentir que sua formação é adequada, uso da campainha na escola e o bairro em que a escola está localizada. Logo é possível observar que os professores identificam mais fontes de pressão do que estratégias para amenizá-las.

Muitos dos problemas sociais são delegados e entendidos pela própria sociedade, e por grande parte do sistema político, como sendo de responsabilidade da Educação, como se as instituições de ensino, em seus diferentes níveis, pudessem, sozinhas, dar conta de tamanhas

adversidades e problematizações. Delegar à Educação tamanha responsabilidade demandaria também maiores investimentos, qualificações, infraestruturas e, acima de tudo, reconhecimento, pois o que vemos são instituições com ambientes, profissionais e processos de ensino e de aprendizagem defasados, precisando se adaptar, com os poucos recursos que possuem, em relação à demanda que existe fora de seus ambientes educacionais.

Para Esteve (1999, p. 144) “o mal-estar docente é uma doença social produzida pela falta de apoio da sociedade aos professores, tanto no terreno dos objetivos do ensino como no das recompensas materiais e no reconhecimento do status que lhe atribui”. Atrelado a estes efeitos, Esteve (2004), refletindo sobre o mal-estar docente, acredita que o que permeia este problema seja que a capacidade de mudança dos sistemas educacionais é menor do que a do ambiente social, consequência da acelerada evolução mundial.

Milstein, Golaszewski e Duquete (1984) comentam que nesses contextos sociais de ensino, quando estamos em um contexto estável, a maior parte de nós docentes consegue enfrentá-lo, porém quando este se transforma ligeiramente até o docente mais saudável depara-se com dificuldades para enfrentar o estresse.

Os autores relatam as situações estáveis, que de certa forma tornam-se confortáveis, na medida em que as mudanças que ocorrem são tão sutis que pequenos ajustes conseguem dar conta dos contextos educacionais, e quando estas mudanças ocorrem de maneira brusca, às pessoas se veem frente a uma situação de estresse, que pode chegar em alguns casos ao extremo, e muitas vezes não conseguem lidar com tais situações por serem pegas de surpresa. O que devemos levar em consideração é que nas últimas décadas, como já mencionava Jesus (1996), estas mudanças vêm acontecendo de forma acelerada, e se não estivermos preparados para lidar com o novo, estaremos fadados a inúmeras situações de mal-estar, que poderão variar, de acordo com as exigências, das mais sutis as mais severas podendo gerar sérias consequências.

Em seus estudos, Esteve (2004, p. 158) encontrou textos de Sócrates (século IV a.C.) e de Melanchthon (1497- 1560), que já no século XVI queixavam-se da perda de valores na nova geração:

Nossa juventude prefere agora o luxo e a comodidade. Tem maneiras grosseiras e despreza a autoridade. Perdeu o respeito pelos mais velhos. Prefere a tagarelice e o divertimento ao honrado esforço do trabalho. Os jovens de hoje contradizem seus pais. Comem sem cortesia e tiranizam os mestres. [...]. A criança não traz de sua casa afeição ou qualquer admiração pelas letras, mas um ódio profundo, desprezo pelo preceptor e maus exemplos. [...]. Encontrarás crianças que claramente se atrevem a zombar do preceptor, fazendo caretas, abanado as mãos nas orelhas e rindo-se. As crianças, além disso, transmitem os costumes de suas famílias, pois não tratam antes melhor seus pais do que agora tratam seus professores. [...]. É muito

duro ensinar com tanta angústia e trabalho, consumindo-se e matando-se em vão. [...]. A criança nunca pega em suas mãos um livro, a não ser quando obrigada pelo preceptor, e, quando o faz, seus olhos e sua mente se dispersam. [...]. Sua atenção está ausente, como em outro mundo.

Resgatando estes escritos, Esteve (2004, p. 158) alega que “educar continua sendo o mesmo compromisso, difícil e equilibrado, com os valores que dão qualidade à vida humana”. Como educadores, ressalta o autor, de tempos em tempos precisamos afirmar o desafio de analisar o contexto atual em que estamos inseridos, bem como das tendências educacionais, para então definir em meio aos valores vigentes, os que serão reportados e os que serão

criticados. E complementa dizendo que “não existe lei ou norma ministerial que consiga

evitar os conflitos de nossa época”.

Ou seja, precisamos estar constantemente nos atualizando para dar conta e conseguir

acompanhar os inúmeros progressos de nossa sociedade, e mesmo com toda essa

problematização e exigências que abrangem a profissão docente, que precisa dar conta de um verdadeiro acúmulo de funções, é preciso olhar além, buscando subsídios para que se tenha melhores condições e motivação para exercer a docência, e consequentemente, tornando os processos de ensino e aprendizagem mais qualificados e satisfatórios. Dentro desta perspectiva e preocupados com a saúde dos professores, surgem os estudos abordando como temática o bem-estar docente.

Timm (2010, p. 114) salienta que “o mal-estar campeia solto no magistério”, no

entanto “é possível perceber que existem vidas de professores que são construídas na perspectiva de uma estética da existência que considera o cuidado de si como dimensão fundamental para sentir-se bem na docência”.

Jesus (2004, p. 198) chama atenção de que,:

Embora consideremos importante a investigação sobre factores de mal-estar docente, na perspectiva de serem encontradas soluções para este problema, parece- nos que a ênfase nesta perspectiva da docência pode levar a que, entre os próprios professores, seja considerado ‘normal’ este mal-estar e se acentuem os mais negativos da profissão, dificultando a percepção dos aspectos positivos desta atividade profissional, que também os há.

O conceito de bem-estar, segundo Jesus (2007), está relacionado à motivação e à realização do docente, em virtude do conjunto de competências (resiliência) e estratégias (coping) que este desenvolve, a fim de enfrentar as exigências e dificuldades profissionais, superando-as e potencializando o seu próprio funcionamento.

Atrelado a este conceito está a Psicologia Positiva que, segundo Snyder e López

(2009), está direcionada para a identificação e compreensão de qualidades e virtudes humanas, e ao auxílio, no sentido de que as pessoas tenham vidas mais felizes e produtivas.

Estes dois conceitos atrelados, constituem fortes subsídios que caminham em direção à saúde docente. Encontrar maneiras de lidar com as situações de fracasso, estresse, e demais dificuldades que os docentes se deparam no dia-a-dia da profissão é essencial, mas um olhar voltado para o desvelo e ressignificação da motivação, realização, qualidades e virtudes destes profissionais auxilia na promoção e manutenção do docente saudável e satisfeito.

O bem-estar docente, para Jesus (2001b), está conectado às atitudes positivas dos professores que repercutem em seus alunos, colegas e, inclusive, em relação a si mesmos, buscando aproveitar suas qualidades pessoais e relacionais, e a valorização dos aspectos positivos e dos pequenos sucessos diários que consegue alcançar.

Kelchtermans (2009, p. 74- 75), em seus estudos, identificou cinco componentes característicos da autocompreensão docente, que podem ser distintas, mas estão interligadas e articulam-se entre si, e que também estão ligados ao bem-estar. O autor (p. 73) usa o termo ‘autocompreensão’ considerando que este faz referência tanto à compreensão que uma pessoa tem do seu Self num determinado momento (produto), quanto ao fato deste produto resultar de um processo contínuo de dar sentido às próprias experiências como ao impacto destas no Self. “A autocompreensão apenas se revela na altura da ‘narração’ (ou na auto-reflexão explícita e enquanto ‘ narração para si próprio’)”.

 Autoimagem, componente descritiva de como os professores tipificam a si próprios;  Autoestima, componente avaliativa de apreciação dos professores sobre seus

desempenhos profissionais;

 Percepção para a tarefa, por parte do docente, daquilo que constitui seu programa profissional, tarefas e deveres para que venha a desempenhar bem sua função (componente normativa);

 Motivação profissional, como noção das razões ou caminhos que os levaram a tornarem-se professores, bem como a permanecerem ou desistirem desta profissão (componente volitiva); e

 Perspectiva futura, que revela as expectativas sobre o seu futuro na profissão docente (elemento tempo).

Segundo Esteve (2004) é crescente o número de professores que analisam e aceitam as mudanças sociais da realidade em que atuam, considerando-as inevitáveis para sua profissão, contribuindo na elaboração de novas estratégias de melhoria, demonstrando-as frente às exigências de capacidade de adaptação. O autor ainda adverte que um dos grandes problemas

atuais das instituições educacionais é que ainda formam docentes como se eles fossem trabalhar no antigo sistema educacional.

A formação é um elemento primordial na vida dos seres humanos, e não pode ser vista

ou entendida como mero ‘treinamento de habilidades’ para exercer determinada função e/ou

profissão. Banalizamos o termo formação, no sentido de que este hoje é percebido apenas pelo aspecto de tornar as pessoas aptas para exercerem uma profissão, e com isso reduzimos seu real significado, sua historicidade, conceitual e semântica. Entender este conceito é o primeiro passo para mudanças de atitude e ação.

Benzer Belgeler