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A partir dessas mudanças desencadeadas, uma nova maneira de ver o Império otomano estava sendo construída. Primeiramente pelos maronitas, que já haviam tido contato com as idéias nacionalistas emergentes na Europa e as assimilaram de maneira toda particular, principalmente por estarem vivendo sob um complexo dilema, como Salibi explicita:

…it [nacionalismo árabe] meant different things to its Muslim and Christian adherents. Although Muslim Arab nationalists, usually with great sincerity, spoke of Arabism as being

secular, they could not dissociate it from Islam: if for no other reason, because Arab history is difficult to dissociate from Islamic history. The Christian view of Arabism could only be secular; but the Christian Arab nationalists could not deny that the central fact of Arab history was the mission of Muhammad, who was not only the Prophet of Islam but also the first leader to give the Arabs political unity under its religious and political banner. In this respect, he was the pre-eminent hero of historical Arabism, and they [maronitas] had to accept him as such. (Salibi, 1988: 48)

Partindo dessa difícil assimilação de nacionalismo árabe, para os maronitas, nem todo o grupo religioso o adotou da mesma maneira. A divergência surgia sob múltiplos aspectos e as respostas eram dissonantes. Tínhamos os ‘pró-ocidentais’, como Buluis Nujaym, literato maronita, que defendia a tese de um Líbano livre, um país cristão independente, mas sob a guarda da França. Contudo, cobrava a anexação das cidades que representavam valor histórico e econômico à emergente nação. Nesse aspecto, Nujaym apontava para o surgimento do que pode ser considerado um ‘protonacionalismo libanês’. Contrariando os argumentos de Nujaym, havia os ‘pró-autonomia total’ ou ‘nacionalistas libaneses’, esses analisavam os fatos de maneira distinta e entendiam que estabelecer o desligamento total de suas origens árabes para vincular-se à cultura ocidental configurava-se numa escolha de alto risco agregado, uma atitude que não representaria a independência tão almejada pelos libaneses, seria, sim, apenas uma troca de dominação. O melhor caminho seria aquele que pudesse ser traçado preservando a autonomia do povo libanês e respeitando seu direito de autodeterminação.

Ainda, pensadores como Butrus Bustani, ‘pan-arabistas’, buscavam estabelecer ligações com os povos árabes antes do surgimento do Islã e, para isso, utilizavam da narrativa histórica árabe para dirimir diferenças entre muçulmanos e cristãos. Dessa maneira, mantinham o foco da discussão na dominação otomana e reforçavam a tese de que não mais cabia o domínio dos turcos sobre os árabes, um povo historicamente detentor de seus desígnios. Assim, os laços árabes apresentavam-se mais fortes, inclusive, que a presença francesa recente, o que, por conseguinte, possibilitaria a real criação de um Estado que abrangesse a ‘Grande Síria’ e estendesse seus domínios até o Sinai. Um país onde pudessem viver livremente cristãos, muçulmanos, judeus e drusos. Para os adeptos dessa corrente de pensamento o Islã não era tido como um obstáculo para a união, contudo, não se referiam ao Islã praticado pelo sultão – que estava impregnado de arbitrariedades – lançavam olhares para o Islã considerado justo, que respeitava o indivíduo; talvez, até um tanto idealizado para alcançar os objetivos dos defensores dessa proposta.

Apesar da congregadora proposta de Bustani, não se pode afirmar que essa era a voz dominante junto à comunidade maronita, também havia aqueles que entendiam que a preservação cristã no mundo árabe somente se daria com o total abraçamento da cultura ocidental, os ‘pró-ocidentais puros’, e com o Líbano sendo transformado num prolongamento da França. A justificativa era simples: eram minoria no Oriente Médio muçulmano e não contavam com qualquer proteção especial que pudesse lhes proporcionar segurança, apesar disso, já haviam assumido a vanguarda econômica e intelectual na região, muitas vezes, com

status político diferenciado. Por que, então, permanecerem ligados a um povo que

culturalmente não os aceitavam e que era considerado inferior? A situação ideal acabava sendo a efetiva ligação à França – que lhes garantiria segurança – e, concomitantemente, os possibilitaria aprimoramento intelectual.

Para as questões e dilemas maronitas não havia respostas absolutas, apenas tentava-se defender suas idéias a partir de publicações e movimentos organizados. “As décadas de 1860 e 1870 foram anos em que havia certa liberdade de expressão, e encontramos periódicos árabes em Beirute que manifestavam idéias mais ou menos equivalentes às dos Jovens Otomanos23 e de Midhat Paxá24, embora com aquele caráter secularista que era característico dos escritores cristãos” (Hourani, 2005: 278) Mesmo assim, nem sempre as idéias eram proferidas de maneira explícita devido a seu vanguardismo para o mundo árabe.

...os periódicos tendiam a evitar qualquer coisa que dissesse respeito diretamente à política local ou à religião, que poderia provocar hostilidade. Mas, por trás de ambos [Al-Manar e Al- Muqtataf], e de outros desse tipo, havia certas idéias positivas sobre o que era a verdade, como devia ser buscada, e o que o público leitor árabe devia conhecer. Que a civilização era um bem em si mesma, e criá-la e mantê-la devia ser o critério da ação e a norma da moralidade; que a ciência era a base da civilização, e as ciências européias tinham valor universal; que podiam e deviam ser aceitas pela mente árabe por meio da língua árabe; que das descobertas da ciência se podia inferir um sistema de moralidade social que era o segredo da força social; e que a base desse sistema moral era o espírito público ou patriotismo, o amor ao país e aos conterrâneos que devia transcender todos os outros laços sociais, mesmo os da religião: foi em grande parte

23 Grupo político formado por personalidades do império otomano – muçulmanos turcos – que, logo no seu

surgimento, defendiam o pensamento liberal e contestavam a política imperial dos sultões. Devido a isso, o grupo foi perseguido e passou a difundir suas idéias a partir de Paris, Londres e do Cairo. Como proposta inicial, defendiam que o império só poderia ser mantido se fosse transformado numa monarquia constitucional, e cessasse a distinção entre muçulmanos e não-muçulmanos, assim como entre turcos e não-turcos, tratando todos como cidadãos do Império Otomano.

24 Alto funcionário do Império Otomano, que serviu de influência para os “Jovens Otomanos”. Em 1876 liderou

o golpe de Estado que depôs Abdülaziz e substituiu-o por seu sobrinho, Murad V e, posteriormente por Abdülhamid II. Reconhecido por ser um reformista do império, Midhat Paxá conseguiu influenciar politicamente para que fosse estabelecida uma constituição para o império. Em 1879, Midhat ocupou com cargo de governador de Damasco por alguns meses e difundiu suas idéias constitucionais, mesmo já sofrendo perseguição do sultão Abdülhamid II, que divergia completamente de sua visão constitucional.

pelo trabalho desses periódicos que essas idéias mais tarde se tornaram lugares-comuns. (Hourani, 2005: 262)

Como campo para difusão de idéias e ideais, Beirute e Cairo foram cidades de fundamental importância devido à sua efervescência cultural. Contando com certa liberdade de imprensa, muitos jornais eram publicados defendendo suas causas e, algumas vezes, atacando o império através de Abdülhamid II. Alcançaram destaque na propagação dessas críticas, dois periódicos libaneses, publicados no Cairo, al-Muqattam e al-Ahram. Além dos periódicos contidos na citação de Hourani, Al-Hilal (Cairo, 1892-) e Al-Muqtataf (Beirute e Cairo 1876-1950), que não eram tão contundentes na crítica direta ao Império mas cumpriam sua função de difusores de idéias, ainda podemos elencar outro exemplar de grande importância para o período, e que surgiu sob o nome de Bustani, mas que na verdade era publicado por seu filho, Salim, trata-se do Al-Jinan (Beirute, 1870-85), grande propagador do nacionalismo árabe.

Junto às demais comunidades do Monte Líbano o nacionalismo também passou a florescer, mas não era uniforme em sua concepção e ambições. Os sunitas, já incorporados ao Monte Líbano e alcançando posições de destaques – como mutasarrif – em várias regiões, procuravam identificar-se com o nacionalismo

islâmico que o sultanato tentou difundir no final do século XIX; de certa forma, ambos defendiam a figura do califado e mantinham laços religiosos em comum. Os drusos, por sua vez, partiam de um projeto nacionalista fundamentado na língua árabe, o que os ligavam à Síria e fazia com que defendessem uma nação sírio-libanesa. Na verdade, desconfiavam do projeto nacionalista puramente libanês e que contasse com o endosso da França, pois, acreditavam que seria a abertura do caminho para a dominação cristã e um possível sentimento revanchista.

O nacionalismo árabe, tão discutido e ambicionado como solução para suceder o

Império Otomano, também passou a sofrer reveses por parte do sultão. Durante o sultanato de Abdülhamid II (1876-1909) houve a promulgação da Constituição para o Império, em 1876, mas logo foi suspensa e o sultão passou a implementar sua política pan-islâmica. Percebendo

a necessidade de arregimentar os árabes muçulmanos para o império, mais que os turcos – que já possuíam ligação bastante forte devido à descendência étnica – Abdülhamid utilizou o pan- islamismo para refrear as forças nacionalistas árabes que ambicionavam a fragmentação do império otomano. Uma estratégia política utilizada pelo sultão que não alcançou o resultado esperado e levou-o, assim, a partir para uma ofensiva mais enfática contra tais movimentos. Antes, contudo, há de salientar que ao assumir o poder, Abdülhamid deu continuidade à política de modernização do Império que vinha sendo implantada por seus antecessores, o

Tanzimat. Colocou em prática a modernização do sistema de Justiça e da Administração; a

centralização do poder foi facilitada pelo uso do telégrafo e da construção de ferrovias; a repressão aos beduínos e apoio às colônias agrícolas; e, criação de escolas primárias, secundárias e universidades. Entretanto, apesar da imagem liberal que transparecia, já não mais acreditava ser possível preservar a unidade imperial sob as mesmas bases. A tolerância para com os não-muçulmanos mudara de face e seu projeto se dava no sentido de que somente através da implementação de uma mudança radical seria possível manter unido o Império e evitar a ação das Potências européias. O projeto de Abdülhamid era ambicioso, primeiramente ele queria que o sultão sofresse uma modificação de status e passasse a ser reconhecido como califa. Entendia que tal fato repercutiria diretamente no fortalecimento do Islã e, para tanto, não negava esforços ao expressar-se como o autêntico detentor das virtudes necessárias de um califa. (Hourani, 2005: 124)

Os movimentos contrários à proposta do sultão já não mais podiam ser calados. Em grande parte porque a intelectualidade muçulmana já possuía veículos para manifestar suas inquietações e desejos. Jornais e livros eram publicados no Cairo, em Beirute e na Europa difundindo idéias de desaprovação ao projeto de Abdülhamid. Alguns, propunham que houvesse a transferência do sultanato para o Cairo e o califado para Meca. Dessa forma o Islã voltaria às mãos dos árabes, haja vista que congraçavam a idéia de que os turcos, por mais que tenham se dedicado à Fé, acabaram por desvirtuá-la. Uma segunda proposta também defendia que o poder temporal e espiritual poderia voltar a ser concentrado na figura do Califa – retomando à Meca –, para tanto, os xarifes de Meca, tentando distanciar-se da situação de desprestígio e, muitas vezes, submissão aos sultões, utilizavam como analogia o período em que o Profeta Maomé era a única autoridade do Islã.

A conclusão a que muitos pensadores chegavam era de que o Islã estava em decadência; apontavam para vários fatores históricos, mas, de acordo com Abd al-Rahman al- Kawakibi (1849-1903), era evidente que “...o Islã decaiu por causa da inovação ilegal (bid’a), em particular da introdução de excessos místicos alheios ao seu espírito, e por causa da

imitação (taqlid), da negação dos direitos da razão e do fracasso em distinguir o que é essencial do que não é...(...)...O Estado justo, em que os homens se realizam, é aquele em que o indivíduo é livre e serve livremente à comunidade, e em que o governo vigia essa liberdade, mas é ele próprio controlado pelo povo; isso é que é o verdadeiro Estado Islâmico.” (Hourani, 2005: 287) Em complementação a esse pensamento, Kawakibi salienta os males provocados pelos sultões que modificaram o Islã para que obtivessem o poder absoluto, mas que acabaram se transformando em déspotas.

Os governantes despóticos têm apoiado a falsa religião, mas os males que fizeram não se limitam a isso, o despotismo como tal corrompe a sociedade. (...) O Estado despótico (...) usurpa os direitos de seus cidadãos, mantém-nos ignorantes para que continuem passivos, nega-lhes o direito de participar ativamente na vida humana. No final, destrói a relação moral dos governantes com os governados e dos cidadãos uns com os outros; distorce a estrutura moral do indivíduo, destruindo a coragem, a integridade, a sensação de pertencer, tanto religiosa como nacional. (Hourani, 2005: 287)

Retomando à questão da política nacionalista turca implementada por Abdülhamid; dentro do Império e mesmo na França e Itália, um grupo de oponentes ganhava a simpatia dos nacionalistas árabes – os Jovens Turcos. Eles atacavam veemente o despotismo do sultão e clamavam pela volta do regime constitucional que havia sido extirpado. Com propostas que reforçavam o espírito de união dentro do Império, independentemente da religião confessa, representavam uma esperança de restauração do equilíbrio para os muçulmanos. Através de uma grande revolta em 1908 conseguiram depor o sultão e chegaram ao poder, entretanto, a realidade dos fatos falou mais alto que a ideologia.

Os Jovens Turcos, para colocar em vigor a Constituição que era emblemática em sua proposta, deveriam partir do pressuposto de que todos os cidadãos do Império eram iguais e gozavam dos menos direitos e deveres; que as diferenças religiosas e mesmo entre muçulmanos e não-muçulmanos não deveriam existir. Porém, não foi dessa maneira que ocorreu. Para a manutenção do Império, que também era parte integrante do projeto dos Jovens Turcos, houve a necessidade de preterirem turcos a outros cidadãos quaisquer do império. Essa prática se fazia necessária por eles acreditarem, mesmo que de maneira indireta, que a relação com o Império estaria mais enraizada no turco que em outro cidadão qualquer. Também, para a manutenção do Império não poderiam abrir mão da centralização administrativa, o que ia de encontro à ambição das várias províncias que buscavam com veemência a autonomia.

Ao final do governo dos Jovens Turcos, em 1913, o Império estava bastante fragilizado e desacreditado devido à mudança radical pela qual as diretrizes governamentais sofreram e, naquela ocasião, a visão liberal do grupo se confundia com o antigo nacionalismo de Abdülhamid – tão contestado e renegado. Ziya Gökalp, ideólogo dos Jovens Turcos, procurou analisar onde o projeto político de seu grupo falhou.

O ponto de partida foi a idéia de que a única maneira de resolver o dilema inerente ao império era lhe impor um único sentimento nacional; mas aos poucos tornou-se claro que o sentimento nacional otomano não podia desempenhar esse papel, pois era demasiado fraco e artificial, e em última análise não se baseava em nada exceto na lealdade à família regente. (Hourani, 2005: 296)

No Líbano, onde ainda não havia uma única leitura para os acontecimentos inerentes ao Império, a frustração com a mudança política dos Jovens Turcos serviu para reforçar o “nacionalismo libanês” e apontar um caminho a ser seguido. A grande maioria cristã, e parte dos sunitas que ora habitavam o Monte Líbano, convalescidos e frustrados pela mudança dos Jovens Turcos, convictamente assumiram que deveriam trabalhar em prol da independência através de quaisquer meios que fossem necessários. Questionava-se se a ajuda deveria vir da Europa, onde as Potências facilmente se prontificariam a dar suporte militar; ou se a integração com a Síria, cujos laços históricos eram ressaltados, seria a melhor maneira de iniciar o movimento de independência.

A inquietação foi mantida até 1914, quando a Primeira Guerra Mundial teve início e o Império Otomano assumiu o posicionamento que o levaria à ruína total. Aliado da Alemanha e do Império Austro-húngaro, logo suspendeu a semi-autonomia do Monte Líbano e designou Jamal Pasha para assumir o governo daquela localidade, assim como da Síria. Jamal tentou buscar entendimento com os libaneses para que se sujeitassem à sua autoridade, mas a população não mais estava disposta a reverter o status quo adquirido. A saída encontrada por Jamal foi a tomada militar da região. Em pouco tempo a situação sócio-econômica libanesa sofreu um forte revés. Muitos habitantes da região foram obrigados a se alistar no exército otomano, enquanto outros passaram a desempenhar atividades estratégicas, como a derrubada de árvores para a construção da estrada de ferro até a Palestina, além de a construção de estradas de rodagem e campos de treinamento, ambos para fins militares. Também, animais – cavalos, camelos e burros – foram confiscados para servir ao exército otomano. Médicos foram obrigados a deixar seus pacientes das cidades para prestar assistência aos soldados otomanos. De fato, a ação de Jamal Pasha sobre o Líbano demonstrava que o Império não

mediria a força de suas ações para alcançar seus objetivos, que, naquele momento, era a manutenção da unidade imperial.

Em 1915, tendo suas expectativas frustradas com relação ao ataque às forças britânicas no canal de Suez – o que gerou o bloqueio da entrada de suprimentos para os turcos através da parte oriental do Mediterrâneo –, Jamal resolveu vingar-se dos libaneses e colocar um fim na soma de problemas que tinha naquela região, para tanto confiscou todo o suprimento de alimentos da população e direcionou-o aos turcos. A ação de Jamal gerou a morte de centenas de milhares de pessoas devido à fome e as doenças que lá se instalaram. Por fim, a grande exportadora de seda e tabaco de outrora, viu seus campos serem destruídos. A província otomana libanesa, ao final da guerra, havia perdido mais de um terço de sua população, aproximadamente 150.000 habitantes. Os libaneses que conseguiram, optaram por fugir do país e escolheram com destino a América do Sul e do Norte. (Collelo, 1987).