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YUGOSLAVYA’NIN DAĞILMA SÜRECĠNĠN ULUSLARARASI PLATFORMA YANSIMASI VE DAYTON BARIġ

A sociedade brasileira expressa hoje uma complexidade de interesses em que seus indivíduos buscam, sobretudo, a afirmação dos seus direitos, sendo que, hodiernamente, o que se anseia é a efetividade da justiça e dos direitos consagrados constitucionalmente.

No final da década de 1980, o país vivenciava a redemocratização, assim, surge no seio da sociedade a necessidade de garantir os direitos sociais previstos na Constituição de 1988. Nesse cenário social e político, as organizações sociais da sociedade civil e os movimentos sociais começam a se articular e conjuntamente exigem do Estado respostas e

novos instrumentos para o enfrentamento das desigualdades sociais que marcam a vida de muitos brasileiros.

Nesse contexto, as Organizações Não Governamentais – ONGs começam a se reproduzir e o crescente aumento no número dessas organizações no Brasil resultou numa consequência marcante: a interferência dessas organizações em ações que deveriam ser de inteira responsabilidade do Estado.

Hoje, existem inúmeros estudos acadêmicos que estão voltados sobre a temática com o objetivo de compreender o fenômeno que se tornou o “Terceiro Setor”, suas organizações e a responsabilidade social que as empresas desempenham na sociedade. Estes estudos buscam compreender os efeitos nas posições e no entendimento dos sujeitos dentro desse processo. Além disso, para se compreender esse fenômeno social de ampliação dessas organizações da sociedade civil, é preciso, antes de tudo, entender a evolução histórica dos direitos sociais na Constituição Federal e a organização do Estado brasileiro.

A Constituição Federal de 1988 representou um marco jurídico e também político no Brasil ao permitir o resgate dos direitos e garantias individuais e fez nascer uma nova ordem jurídica constitucional.

Desde o final da década de 1990 é visível o aparecimento de uma nova relação entre o poder público e as organizações da sociedade civil que estão incumbidas de atuar na área social. Como foi descrito, a formação do Estado brasileiro, após a Constituição de 1988, tomou outros rumos, como por exemplo, a reforma da estrutura administrativa do Estado que fez surgir as Organizações Sociais (OS) e as Organizações da Sociedade de Interesse Público (OCIPs).

As ONGs passam a assumir responsabilidades próprias do Estado e interferem na vida das pessoas. A responsabilidade social desenvolvida pelo “Terceiro Setor” é objeto de estudo e de controvérsia conceitual e teórica. As críticas são frequentes, mais especificamente à ambiguidade de um tipo de organização que, conhecida como “não-governamental”, no entanto, depende hoje fortemente de financiamento do Estado e/ou das empresas capitalistas. A Constituição estabeleceu os princípios fundamentais como um conjunto de regras basilares que irradiam essas inspirações nos direitos sociais e na ordem social.

Reconhece-se que a democracia recente do país precisa avançar em muitos aspectos, bem mais no plano da efetivação dos direitos do que na garantia destes, já extensamente previstos. Hoje, tenta-se afirmar a ideologia de uma sociedade civil que se denomina sociedade civil organizada, separada da esfera estatal que, em suma, vem tentando assumir novas formas de participação, afastando-se do conceito de sociedade civil na concepção

gramsciana de totalidade. O “Terceiro Setor” está tomando uma proporção de grande destaque e de referência para os membros dessa sociedade civil organizada, contudo, este modelo deve ser criticado, pois suas ações pouco modificam a sociedade e somente reproduzem um discurso que legitima a pobreza e a miséria.

Destaca-se mais uma vez que as ações do “Terceiro Setor” são fragmentadas e focalizadas ao se relacionarem com determinado público ou grupos da sociedade que estão em situações precárias. O público selecionado para as atividades pertence às camadas mais pobres da população e que não estão assistidas pelo poder público, vulneráveis a qualquer oferta, por isso são alvos preferidos do “Terceiro Setor”.

Não se pode pensar esse processo de crescimento econômico do país sem deixar de retratar, mesmo que sucintamente, o governo do Partido dos Trabalhadores (PT), quando historicamente, depois de perder sucessivas campanhas para o cargo em 2002, Luís Inácio da Silva, mais conhecido como Lula, se torna eleito presidente do país. A eleição de Lula é histórica porque pela primeira vez um homem de pouco estudo, oriundo das classes populares, nascido no Nordeste, mais precisamente no Estado de Pernambuco, metalúrgico, sem curso superior e militante de esquerda, um dos ícones do Partido dos Trabalhadores – PT é eleito para o cargo de presidente.

O governo do PT desenvolveu muitas políticas sociais e destaca-se principalmente a de transferência de renda, como por exemplo, o bolsa família, programa governamental que abrange milhões de cidadãos brasileiros que estão ainda abaixo da linha de pobreza (REGO e PINZANI, 2013, p. 11-12). O bolsa família não é o único programa governamental que existe, mas é sem dúvida o mais conhecido e o que massivamente é criticado pela classe média e alta, pois no ideal neoliberal - é o de focalizar, o Estado não deve se preocupar com os problemas sociais, nem investir na garantia de direitos e em políticas públicas.

Com o fim do Governo Lula e posteriormente a eleição e reeleição da Presidente Dilma Rousseff, ocorreu tão somente uma transmissão de cargo, pois o mesmo partido continuou no poder e os programas já realizados na gestão passada prosseguiram.

No decorrer desta década, os movimentos sociais foram sendo desarticulados. É importante refletir que o modelo neoliberal implantado no Brasil repercutiu nas diferentes áreas da sociedade quando o capitalismo também determinou os rumos dos movimentos e de suas lideranças. Assim, as lideranças dos movimentos e muitos de seus membros foram sendo cooptados através da “ideologia onguizadora”.

Nas duas últimas décadas (1990 e 2000), os líderes dos movimentos sociais foram cooptados para trabalharem em órgãos do governo. Para isso, mudaram seus discursos e suas

práticas, saíram do combate, da luta e da reivindicação. Os movimentos sociais foram sendo domesticados, os movimentos populares saíram das ruas, o processo de politização e de luta foi enfraquecido, além disso, o grande capital com seus interesses alienou a população com sua lógica consumista e mistificou o processo de luta de classes no seio da sociedade.

Ao longo destes dez últimos anos do governo PT, as classes populares e subalternas não foram chamadas para irem às ruas. O mais gritante foi a perda de diálogo com as bases, com os movimentos, pois o partido classificado de esquerda fez novas alianças antes de chegar ao poder. Essa forma de governabilidade e de alianças do PT desmobilizou os movimentos sociais, ora, as alianças com o PTB, PMDB e com Paulo Maluf não deram espaço para o povo ir para as ruas. O PT pactuou primeiro com a burguesia, com os interesses do capital, esquecendo que o governo deveria atuar em nome do povo e das classes populares. É certo que os grandes setores da sociedade brasileira, formado pelos empresários e proprietários das empresas, estavam felizes com os acordos e com a aliança realizada pelo PT para o apassivamento das classes sociais e da sociedade civil. Mas eles esqueceram que a luta de classes ainda existia, bem mais que isso, que essa luta é permanente e em um determinado momento da história os conflitos e contradições se expressam. A esse respeito é necessário refletir que a sociedade civil, entendida em sentido amplo, na totalidade de seu conceito “se apresenta como uma riquíssima arena de luta de classes, ainda que muitos não quisessem pensar nesses termos”, como afirma Virgínia Fontes (2010, p. 250).

Retomando as reflexões sobre o “Terceiro Setor”, observa-se que o crescente aumento no número de ONGs está produzindo uma consequência marcante: a interferência dessas organizações em ações que deveriam ser de inteira responsabilidade do Estado, como por exemplo, a prestação de serviços públicos para a sociedade.

A história brasileira demonstra que os serviços públicos sempre foram direcionados e limitados para uma determinada classe social, ou seja, para os que já detinham recursos financeiros ou estavam inseridos legalmente no mercado de trabalho. Somente posteriormente ocorreu a ampliação dos serviços básicos.

O Brasil nunca desenvolveu em sua plenitude o Estado de bem-estar social, já que ao longo de todo o seu processo de formação história ocorreu no país a exploração das classes mais pobres, a manutenção de interesses de uma minoria, a ausência de uma democracia efetiva, novas formas de exploração foram constantemente realizadas. Além disso, o longo período de ditadura militar retirou os direitos dos cidadãos que sequer possuíam liberdades básicas.

A realização de ações sociais esteve e ainda permanece vinculada à filantropia e com a focalização das ações, só que esta relação era mais estreita antes da Constituição de 88. Primeiro, o Estado não tem como meta ou ideal a proteção social da população carente, a formação da sociedade brasileira fica marcada pela exclusão dos pobres, pela sua exploração e pela reprodução durante gerações do aumento da pobreza e da desigualdade social. Segundo, as ações desenvolvidas pelo Estado não são caracterizadas como direitos, ou seja, a ideia de descrever legalmente a proteção, as políticas públicas e a assistência social como direitos e de responsabilidade do Estado é recente. Terceiro, a igreja e outros grupos sociais, financiados por organizações internacionais ou por pessoas que pertencem a classes mais abastadas, estão relacionadas com a ideia de assistencialismo e benemerência, pois não são contestadas pela população atendida e o sentimento de gratidão e favor são transmitidos. Quarto, é recorrente a realização de ações sociais desenvolvidas pelas prefeituras que aproveitavam a situação para manter o eleitorado e a reproduzir uma lógica clientelista, não por acaso, a esposa de muitos prefeitos, até recentemente, era responsável por cuidar da assistência social e até mesmo geriam sem nenhuma legitimidade os recursos públicos.

Recentemente as políticas públicas foram consagradas como direitos sociais que devem ser de inteira responsabilidade do Estado, devem abranger a universalidade de cidadãos e podem ser exigidas. Nesse sentido, é importante esclarecer dois conceitos que por várias vezes são usados como sinônimos e que geram uma confusão conceitual no que se refere à política pública e à política social.

As políticas públicas são ações desenvolvidas pelo Estado que possuem caráter geral e são universais, ou seja, seu alcance é amplo e todos podem ser contemplados. Já a política social é uma política pública e também um direito de cidadania.

A lógica do mercado passou a interferir diretamente nas decisões políticas, a lógica privada influenciou a administração pública, ou seja, o modelo gerencial de administração, antes estabelecia as regras na esfera privada, nos interesses dos particulares, sempre regidas pela busca do lucro.

Durante a década de 1990 e até os dias atuais, a administração pública passou a incorporar e a realizar a administração gerencial. Todo esse processo interfere diretamente nas políticas públicas, tenta-se, sobretudo, retirar a responsabilidade do Estado e passa-se a transferir, mesmo que precariamente, essa tarefa para a iniciativa privada, na qual organizações sociais instituídas por particulares se dizem preocupadas com as questões sociais. Transfere-se uma atribuição que só competia ao Estado para o “Terceiro Setor”.

O conceito do “Terceiro Setor” em si é equivocado, com falta de precisão teórica e metodológica, pois vários tipos de associações se enquadram dentro do “Terceiro Setor”: fundações, organizações não lucrativas e não governamentais, ONGs, instituições de caridade, entidades sem fins lucrativos, ações solidárias, ações voluntárias, organizações mantidas por políticos profissionais, atividades pontuais e informais, e até mesmo locais que prestam serviços pagos.

Com isso, os direitos sociais que são previstos em lei e que em tese devem ser garantidos pelo Estado estão sendo transferidos para outra esfera que se diz pública, porém não estatal. É nesse contexto de contrarreforma do Estado, ou seja, de diminuição da intervenção estatal na resolução dos problemas sociais, da retirada de investimentos públicos e da crescente responsabilização do indivíduo, que o “Terceiro Setor” ganha força norteado pelos ideais neoliberais, se diz um legítimo representante da defesa da questão social.

O que se percebe é um desajuste social, pois os direitos sociais estão previstos, porém a sua efetividade é diariamente contestada. Isso reflete diretamente na precária elaboração de políticas públicas e até mesmo na diminuição do seu alcance. Os desafios na concretização dessas políticas impõem ao Estado repensar sua intervenção, já que o novo trato da questão social, norteado pelo discurso gerencial da administração pública, trouxe consigo sérias consequências para a sociedade, aumentou as desigualdades sociais, aprofundou a pobreza e colocou os cidadãos à própria sorte, fazendo com que as práticas do assistencialismo, da filantropia e da benemerência ganhassem força em uma sociedade que está em desenvolvimento e que se afirma democrática. Enquanto isso, os direitos sociais, que foram historicamente conquistados, estão sendo privatizados, passam a ser geridos por particulares e pedem a dimensão de direitos, seja pela falta de políticas públicas ou por sua precária elaboração. Em suma, o Estado transferiu parte da sua responsabilidade, pelo menos na esfera social, para o “Terceiro Setor”.

O “Terceiro Setor”, formado pelas organizações não governamentais – ONGs, OCIPS, pelas fundações, associações, entidades da sociedade civil, entre outras organizações que se autodenominam assim, desenvolvem ações que antes eram de responsabilidade do Estado, algumas delas eram delegadas à igreja católica. Agora, pretensamente, o “Terceiro Setor” se propõe a gerir os recursos públicos através do discurso da responsabilidade social.

Em síntese, o “Terceiro Setor”, através das ações das ONGs, vem assumindo pretensamente atividades e responsabilidades que deveriam ser de inteira responsabilidade do Estado, usam os recursos públicos para desenvolverem ações que não conseguem abranger a

universalidade das pessoas, o que diminui o entendimento do que é uma política pública que tem o caráter universalizador como objetivo enfrentar os problemas sociais.