• Sonuç bulunamadı

Pouco tempo após a morte do arcebispo Zbyněk, Hus entra em nova querela, agora por causa do papa João XXIII. A oposição de Hus à bula do papa João XXIII foi um dos mais decisivos eventos de sua vida. Workman e Pope183a consideram ―uma controvérsia de ampla importância‖ e Spinka184 ―o agravamento mais sério‖ da situação de Hus, um conflito que se

provou ―fatal‖. Emitida em 9 de setembro de 1411, a Bulla indulgentiarum Pape Joannis XXIII prometia indulgências a quem lutasse contra os adversários de João XXIII: o papa de Roma, Gregório XII, e o rei de Nápoles, Ladislau, que apoiou Gregório. Eis uma síntese do conteúdo da bula, segundo Spinka:

Ele ordenou a todos os patriarcas, arcebispos, bispos e outros prelados, sob a

pena da excomunhão, que ‗publicamente, e em voz alta e inteligível‘,

declarassem Ladislau ‗excomungado, mentiroso, cismático, blasfemo, um herege relapso, protetor dos hereges, culpado do crime de lèse majesté, um

conspirador contra nós e contra a Igreja.‘ Incluídos nesta condenação um tanto ofensiva ‗os cúmplices ligados a ele e seus seguidores‘. (...) O papa, então, implorou ‗pelo sangue derramado pelo Salvador‘, que todos os

imperadores, reis, príncipes seculares, eclesiásticos e monásticos, bem como os prelados, universidades e indivíduos de ambos os sexos tomassem a

espada, ‗em defesa da Igreja e de nós‘, para exterminarem Ladislau e seus cúmplices. O papa prometeu ‗a todos os verdadeiros penitentes e que

2007. OBERG, op. cit., p. 185 corrobora essa interpretação. Ele afirma que Hus ―Usou a língua tcheca para escrever, porque o seu grande púlpito sendo agora a pena, empunhou-a para se comunicar com o povo.‖ 183 WORKMAN; POPE, op. cit., p. 67.

confessam‘ que pegarem a cruz (ou seja, as armas) às suas próprias despesas ou equiparem e sustentarem um soldado por um mês, ‗a remissão de todos os

pecados dos quais eles estivessem arrependidos de coração e que tivessem confessado.185

O rei Venceslau apoiou a venda das indulgências, participando delas em suas terras. Hus posicionou-se contrário ao modo ―sacrílego‖186 pelo qual a venda era feita e a guerra era promulgada. Seus amigos não o apoiaram, com destaque para seu companheiro de estudos universitários Štěpán Páleč e seu professor Stanislav de Znojmo. Hus afirma, em seu tratado Contra Páleč187, que o evento da bula papal foi decisivo para o rompimento da amizade com eles e utiliza uma frase que vai ao encontro de sua defesa da verdade ―Páleč é um amigo, a verdade é uma amiga. Sendo ambos amigos, é sagrado preferir a verdade.‖ Dos poucos que o apoiaram, destacam-se Jerônimo de Praga e Jakoubek de Stříbro.

Páleč, quando diretor da faculdade de teologia, acusou Hus de ter chamado o papa de Anticristo num Quodlibet que lá ocorreu em janeiro de 1412, o que não foi verdade, pois fora Jakoubek quem fizera a acusação. Mas poucos da faculdade o sabiam. Hus defendeu-se de modo irônico às acusações da faculdade, afirmando que o rei deveria criar uma prisão acadêmica se ele quisesse impor sua vontade188. Isso o afastou também do apoio real.

O conflito a respeito da bula papal reforçou o debate sobre os artigos de Wyclif, com reuniões da Universidade para definir uma posição perante eles e respostas escritas de Hus a essas posições. Em julho de 1412, ele foi novamente excomungado por não-obediência e deveria apresentar-se perante a cúria ou haveria interdito sobre Praga. Todos os fiéis estavam proibidos de se comunicar com ele

por meio da comida, bebida, cumprimentos, discursos, compra e venda, conversação, abrigo ou qualquer outro meio. Em qualquer lugar que ele procurasse por abrigo, todos os serviços e administrações das igrejas deveriam ser interrompidos e mantidos em suspensão por três dias após sua saída. Se ele morresse, ele não deveria ser enterrado; se ele fosse enterrado, seu corpo deveria ser exumado.189

185 SPINKA, John Huss: a biography, pp. 132-133. 186 ibidem, p. 134.

187 ibidem, p. 135 188 ibidem, p. 151 189 ibidem, p. 161.

Dado que não havia possibilidade de qualquer apelo ao papa, pois seria inútil, Hus apelou, então, para Deus e Cristo. Essa carta, que numeramos como 28a190, apresenta uma longa justificativa com trechos bíblicos, a maioria extraída do livro dos Salmos, para a possibilidade de se entregar sua causa nas mãos de Deus. Na sequência, escreve seu apelo:

Eu apelo a Deus pela opressão terrível, sentença injusta e falsa excomunhão do pontífice, os escribas e os fariseus e os juízes sentados no trono de Moisés. A Ele eu entrego minha causa, seguindo os passos do salvador Jesus Cristo, como fez o santo e grande patriarca de Constantinopla, João Crisóstomo, nos dois sínodos de bispos e clérigos.

Ele, então, critica a recusa do papa em recebê-lo ou a algum de seus procuradores e apresenta uma breve argumentação do motivo pelo qual não foi considerado herege na querela com Zbyněk. Afirma que não possui segurança para aparecer em Roma e, por isso, Deus o perdoará. Conclui com uma renovação de seu pedido inicial, apresentando seu lugar naquela sociedade:

Eu, Jan Hus de Husinec, mestre em artes e formatus bacharel em sagrada teologia na Universidade de Praga, clérigo e pastor designado para a capela chamada Belém, faço este apelo a Jesus Cristo, o mais justo Juiz, que conhece, protege e julga, declara e recompensa sem erro a causa justa de cada homem.

Hus se identifica como o homem de saber, o clérigo e o pregador da verdade ao povo que, por uma circunstância extrema, corre o risco de não estar mais presente. E se não puder pregar presencialmente, ele o fará por escrito pelas cartas. Continuar a pregar, mesmo que por meio de cartas é, contudo, uma escolha que vai ainda além de uma vontade pessoal. Ela é condizente com o espaço-tempo no qual Hus atua. No século XV, o pregador é uma figura que tem o apoio do povo, entusiasmado com a atuação desse tipo humano, como afirma Vauchez:

no século XV (...) em todo o Ocidente, os únicos religiosos, à excepção dos eremitas, que suscitaram o entusiasmo das multidões são pregadores que consagraram sua vida e as suas forças ao ministério da palavra. Percorrendo o Ocidente, desde Aragão até a Bretanha e desde a Itália até a Polônia e à Croácia, esses religiosos distinguiam-se claramente do clero a que os fiéis estavam habituados: iam de cidade em cidade, viviam na maior pobreza, mas tinham tempo para se fazer conhecer pelos seus auditores, dado que, muitas vezes, lhe dedicavam um ciclo completo de sermões – por exemplo, durante

190 Como afirmamos no capítulo 1, as cartas que, na edição de Spinka, foram apresentadas como apêndice, nós as inserimos em nossa numeração, seguidas da letra ―a‖.

a Quaresma –, o que lhes dava a possibilidade de se familiarizarem com os problemas desta ou daquela cidade e dos seus habitantes.191

A despeito de sua excomunhão, Hus não se apresentou à cúria e continuou a pregar. O papa chegou até a ordenar a destruição da Capela de Belém, o que nos mostra o papel simbólico que esse lugar possuía para a atuação de Hus, o que não foi levado a cabo pelos tchecos, confirmando a influência do clérigo e a importância daquele lugar.

Vinte dias após a sentença de excomunhão, novo interdito foi imposto sobre Praga e Hus questiona-se a respeito de permanecer ou sair. Após os conselhos de seus assistentes na Belém, a ordem do rei e a oferta de abrigo por parte de nobres do sul da Boêmia (em Kozí situa-se o principal castelo onde ficou), ele deixa Praga em outubro de 1412192. Workman e Pope não apresentam certeza da data de saída de Hus da cidade, afirmando que ele talvez tenha saído em 12 de agosto e retornado para pregações193. Atestam, também, que em outubro ele, com certeza, estava fora. Mas sua saída definitiva foi em dezembro de 1412. Schaff afirma que Hus esteve ausente de outubro de 1412 a outubro de 1414194. Ironicamente, no mesmo mês de outubro de 1412, chegou à cidade a notícia de que o papa concluíra um acordo de paz com o rei Ladislau quatro meses antes e, portanto, o principal motivo que levou Hus a entrar em conflito com o papa e que desencadeou seu exílio já não existia mais.

Na primeira carta pastoral, escrita logo após sua partida no outono de 1412, a de número 25, Hus expressa seu ponto de viragem, um momento de grande dúvida para ele:

Refleti longamente, também, a respeito da carta de Santo Agostinho ao Bispo Honoratus195, que procurou por seus conselhos em uma situação

semelhante. Em sua resposta, Agostinho conclui: ‗Aquele que fugir de tal

modo que sua fuga não prive sua igreja do ministério evangélico faz o que o Senhor lhe recomendou e permitiu. Mas aquele que fugir de tal modo que o rebanho do Cristo seja privado de seu alimento espiritual é como o mercenário que, vendo o lobo se aproximar, foge, porque não se preocupa

com as ovelhas.‘ (...)

Avisem-me, portanto, se vocês concordam com o conselho de Agostinho, pois minha consciência adverte-me da ofensa que minha ausência pode causar, embora não esteja faltando ao rebanho o alimento necessário da

191 VAUCHEZ, André. O santo. In: LE GOFF, O homem medieval, p. 222. 192 ibidem, p. 165.

193 WORKMAN; POPE, op. cit, p. 80. 194 SCHAFF, John Huss, p. 133.

195 Spinka afirma que esta é a carta de número 228 do volume de Epistolas de Agostinho, número 33 da Patrologia Latina de Migne. A única informação que dispomos da carta de Agostinho é o comentário que Hus fez logo em seguida na citação que transcrevemos.

palavra de Deus. Por outro lado, temo que minha presença, durante o período do interdito execravelmente obtido, possa causar a suspensão desse alimento, privando o rebanho do santo sacramento da comunhão e de outros recursos para a salvação.

Deixar o ―rebanho‖ para acabar com o interdito à Praga, correndo o risco de não poder oferecer a ―palavra de Deus‖, o ―sacramento da comunhão‖ e ―outros recursos para a salvação‖ ou permanecer, oferecendo esses elementos? O que é mais prejudicial, a sua ausência ou a sua presença nestas circunstâncias? Ao compor sua carta, Hus busca uma autoridade que lhe sirva de referência tanto para encontrar uma solução para seu problema, quanto para lhe indicar uma maneira de se comunicar na situação de exilado: escrever cartas.

As referências à ―palavra de Deus‖ e às epístolas de ―São Paulo‖ no final da carta são indícios que reforçam nossa percepção do exemplo paulino na correspondência escrita do exílio:

O apóstolo Paulo, dos teólogos o mais avançado, exortou seus discípulos convertidos a orarem o tempo todo, no espírito, por ele (...) como encontramos em Efésios 6, Tessalonicenses 3 e Colossenses 4.(...)

Suplico-lhes, portanto, em nome do Senhor, que lhe despejem súplicas em

espírito e verdade, para que ―a palavra viva de Deus seja-me dada ao abrir minha boca e eu possa falar como devo‖, tal qual foi dada a São Paulo por

causa das orações de outros.

Neste momento, por ser talvez a primeira carta pastoral escrita por Hus, parece que ele começa a elaborar seu padrão de escrita e, por isso, parte de modelos como as epístolas de São Paulo e autoridades como Agostinho. Esta é uma carta que embora apresente as características de uma carta pastoral, também cita nomes de destinatários. Os três nomes citados, Mikulaš (Nicolau) de Miličín, Martin de Volyně e Havlík, são também pregadores. Há indícios de uma resposta esperada por Hus da parte deles (―avisem-me se vocês concordam com a resposta de Agostinho‖), mas a inclusão de um quarto destinatário coletivo (―aos outros irmãos na sagrada Belém‖), aponta para um padrão de escrita pastoral que ele está experimentando, misturando o coletivo com o individual, diante das questões prementes que ele precisa resolver.

Na mesma época em que escreveu a carta 25, outono de 1412, escreve aos ―nobres e mestres‖ em Praga, carta número 26, pedindo-lhes apoio e apresentando seus argumentos para não abjurar. O destinatário, por ser coletivo, não dará uma resposta escrita. O que Hus espera é um apoio dos membros da nobreza e dos intelectuais para sua causa. Além disso, escreveu a carta em tcheco ao invés do latim, como fizera na anterior. Essas características começam a

compor o padrão de escrita das cartas pastorais hussitas. Hus explica que a abjuração pode servir tanto para a verdade quanto para a mentira. Inicia com seus pedidos:

Suplico-lhes, em primeiro lugar, que apóiem a causa de Deus, pois um grande erro está sendo feito a Ele. Eles querem suprimir sua santa Palavra, destruir a capela tão útil para a pregação da palavra de Deus, e, assim, obstruir a salvação das pessoas. Em segundo lugar, considerem a desgraça de vossas terras e de vossa nação ou povo196. Em terceiro lugar, considerem a vergonha e o erro que são cometidos contra vocês sem motivo. Em quarto lugar, considerem e aceitem alegremente o fato que o demônio está se enfurecendo contra vocês e o Anticristo está fazendo caretas para vocês. Mas, como um cachorro acorrentado ele não lhes fará mal se vocês amarem a verdade de Deus.

E segue, apresentando sua explicação sobre abjurar:

Além disso, vocês devem saber que ‗abjurar‘ é renunciar às suas crenças. Deste modo, aquele que abjura, ou renuncia a uma crença que ele realmente acredite ou a heresias e erros que ele acredite. (...) Vocês devem saber, portanto, que se qualquer um de vocês abjurar – como eles escrevem na carta

– essa pessoa irá abjurar tanto a verdadeira fé e a verdade quanto uma

heresia ou um erro. Desse modo, após abjurar, ela acreditará tanto numa heresia ou erro, quanto naquilo que ele está abjurando.

Entendam disso que na carta eles lhes consideram hereges e exigem que vocês abjurem das heresias que vocês supostamente acreditam. Segue-se disto que cada um de seus filhos ou amigos pode ser interpelado e reprimido

– se qualquer um de vocês abjurar – por ter um pai ou um amigo herege. Em

segundo lugar, significa que a todos os que abjurarem pode-se dizer

corretamente ‗você abjurou uma heresia que acreditara e não é digno de mim‘. Em terceiro lugar, se alguém abjurar, mas não manter no coração a

verdade que ele renunciou sob coerção, ele é perjuro.

Próximo ao fim desta carta, Hus apresenta uma definição de vida eterna como recompensa por viver na verdade e correção:

Considerando estas coisas, colocando em primeiro lugar a verdade e o louvor a Deus e vivendo corretamente, permaneçamos no amor para terminar com a mentira do Anticristo, tendo o Grande Salvador em nossa ajuda. Ninguém pode superá-lo e ele não nos abandonará jamais se nós não o abandonarmos. Ele nos dará a recompensa eterna, que consiste na satisfação

196 Palavra de difícil tradução, visto que o original em tcheco (pokolení) pode significar geração, gênero (humano) ou raça. Spinka e Workman e Pope traduziram por race. A palavra ―povo‖ foi uma escolha que nos pareceu mais próxima do sentido original, especialmente porque é antecedida de terras e nação. Hus está se referindo, aqui, às pessoas que compõem a nação tcheca. Mas sabemos da insuficiência desta palavra para exprimir o sentido.

de nossa vontade, razão, memória e todos os sentidos do corpo sem economia.

Como lembramos anteriormente, trabalhar com cartas é lidar com temporalidades bem diferentes e um protocolo de escrita que segue outro ritmo. O que para nós está aqui distante apenas alguns parágrafos, para Hus há uma gama de eventos interpostos dos quais não temos informações. Não temos nenhuma escrita epistolar no período de um mês após a escrita deste pedido de apoio. Não sabemos se houve mudanças na relação com a nobreza e com os intelectuais da Boêmia. Sabemos apenas que ele continuou a escrever e a consolidar seu padrão de escrita de carta pastoral.

Em cerca de novembro de 1412, Hus escreve uma carta (número 27), também em tcheco, para o povo de Praga, na qual ensina as pessoas a reconhecerem o que denominou de ―armadilhas do Anticristo e de seus mensageiros‖. Neste trecho, justifica ter se exilado para proteger seus fiéis e defender a verdade:

Tenham certeza de que eu não hesito entregar minha pobre vida pela verdade de Deus perante o perigo ou a morte, pois nada falta para nós em Sua palavra e, dia após dia, a verdade evangélica se espalha mais. No entanto, eu desejo viver por aqueles que sofrem a violência e precisam da pregação da Palavra de Deus, para que a maldade do Anticristo possa ser exposta e os devotos escapem dela. É por isso que eu estou pregando em outros lugares e exercendo o ministério para todos, sabendo que assim a vontade de Deus se realiza em mim, mesmo que eu morra ou caia doente pelas mãos do Anticristo. Se eu for para Praga, os meus inimigos, que não servem a Deus e impedem os outros de servi-lo, com certeza, prepararão armadilhas para mim e perseguirão a vocês. Contudo, rezemos a Deus para que, se houver entre eles alguns dos escolhidos, que estes se voltem para o conhecimento da verdade.

Enquanto na carta 26 Hus utiliza de uma argumentação lógica a respeito da abjuração e da verdade, a carta 27 é escrita como uma exortação pela verdade. Hus defende-se das acusações que sofreu, cita diversas autoridades bíblicas e dá conselhos a respeito da conduta moral de seus destinatários que ouvirão a leitura daquela carta na Capela de Belém. Estes elementos farão parte do padrão de escrita de suas cartas pastorais deste momento em diante. No entanto, eles já estavam presentes na correspondência anterior ao exílio, em cartas escritas para habitantes de outras cidades. É o caso de uma carta (número 16) escrita para os habitantes da cidade de Louny.

Louny é uma cidade localizada a noroeste de Praga, local que Hus considera um lugar no qual ―a harmonia e unanimidade‖ pela ―fé, paz, caridade e atenção à palavra do Salvador‖ são maiores do que em qualquer outra cidade. Hus escreve a seus habitantes exortando-os a

permanecerem no caminho correto que já seguem. Não sabemos por que Hus escreveu-lhes essa carta, mas o tipo de escrita tendo por destinatário um sujeito coletivo e o tom de sermão assemelham-se às cartas pastorais que estamos analisando.

Ao povo dessa cidade propõe uma postura perante os cismas e conflitos entre as pessoas:

Caso haja ali alguém perturbador e obstinado em disseminar a discórdia, admoesta-o como um irmão.197 Não leve a questão perante um tribunal, pois isso trará para ambos grandes prejuízos para sua alma, seu corpo e seus bens. Prefiram vindicar o mal causado a Deus ao mal causado a vocês mesmos. O clérigo afirma que a humanidade está errando, preocupando-se em vindicar as coisas pessoais mais do que as divinas. Escreve, então, como o clero está incoerente com as recomendações das escrituras, mostrando os erros que combatia, bem como a perseguição que ele próprio estava sofrendo:

Um clérigo, monge ou prelado pode ser um fornicador ou um adúltero e sair livre de sua falta, mas se ele ensinar algo segundo sua vontade, isso será visto como um motivo para o anátema. Acontece o mesmo com os leigos: se alguém desonrar a Deus, eles não o punirão, mas se alguém lhes disser

‗Padres designados, vocês me condenaram injustamente‘, o que acontece

com frequência, imediatamente eles o punem com a espada, porque afirmam que ele acusou injustamente aos juízes clericais.

Voltando-se a seus destinatários, afirma acreditar que eles não seguirão esse caminho e discorre, como um tema para reflexão, sobre a Justiça Divina. Nela, aparece a ideia da obediência antes a Deus do que aos homens no início do trecho:

Eu tenho fé em Deus que Ele irá livrá-los desses males, de modo que vocês poderão observar Sua lei mais do que as normas humanas. Observando sua lei, ninguém poderá causar-lhes mal. Portanto, meus bem-amados, reflitam profundamente sobre estas duas coisas que são eternas e imperecíveis: condenação e vida. Na primeira, há o fogo perpétuo, escuridão, sofrimento martirizante e um queimar sem fim junto dos demônios. Já na vida eterna, há alegria perfeita, luz, ausência de qualquer angústia ou sofrimento e comunhão com o próprio Deus e Seus anjos.

E apresenta, em termos simples, o caminho para a salvação, escrevendo: ―seremos, então, abençoados se perseveramos no caminho do bem até o fim‖. Termina sua carta com uma exortação para que eles vivam devotamente:

197

Benzer Belgeler