O novo regime cambial precedeu cronologicamente a instituição do regime de metas de inflação, ocorrido em junho de 1999. O regime de metas de inflação consiste na adoção de meta para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), elaborado pelo IBGE e estipulada pelo Conselho Monetário Nacional. Tal meta deve ser perseguida pelo Banco Central, que tem autonomia total para atingir esse resultado. O instrumento utilizado pelo Banco Central para o alcance das metas inflacionárias é a taxa de juros básica Selic, definida pelo Conselho de Política Monetária (COPOM). No caso brasileiro, existe a margem de erro de dois pontos percentuais para cima e para baixo da meta de inflação, permitindo à economia absorver choques inesperados. Segundo Eichengreen (2002, p. 36):
O regime de metas de inflação é uma forma de condução de política monetária utilizando-se de quatro elementos: compromisso institucionalizado de que a estabilidade de preços seja o objetivo principal da política monetária; mecanismos que permitam ao Banco Central a mensuração do alcance ou não de seus objetivos; anúncio público das metas de inflação e política de comunicação entre Banco Central e o público em geral, a respeito das decisões tomadas e das razões destas.
Essa nova forma de realizar a política monetária começou a ser aplicada, no início da década de 1990, em países como Nova Zelândia, Canadá e Reino Unido. A ideia é propor um limite para o crescimento de um índice de preços pré-estabelecido, sendo essa meta o único objetivo que deve ser perseguido pelo Banco Central. Tem como pressuposto teórico a crença de que a política monetária é ineficaz para afetar as variáveis reais da economia (níveis de produto e do emprego, por exemplo) de maneira consistente e duradoura. Portanto, ao se adotar esse tipo de regime, há um reconhecimento implícito de que o objetivo exclusivo da política monetária em questão é a manutenção de uma taxa de inflação em um patamar pré- estabelecido (em geral, taxa baixa e estável).
O regime se apoia na ideia de que há um hiato de produto (diferença entre produto real e potencial). Caso a economia cresça mais que o produto potencial, a autoridade monetária prevê a possível ação de pressões inflacionárias, já que o aumento da demanda criará maior procura por bens e serviços, o que pressionaria os preços desses para cima, pois a oferta não consegue acompanhar a demanda. A qualquer manifestação semelhante, o Banco
Central faz uso de seu mecanismo principal – alterações na taxa de juros (no caso, elevação da taxa) para tentar conter as pressões.
Não há consenso quanto à adoção de um regime de metas de inflação combinado ao regime de câmbio flutuante. Como afirma MaryseFarhi (2007), a combinação de metas inflacionárias e a taxa de câmbio flutuante sujeita a grandes oscilações tem se mostrado, no Brasil, uma combinação de políticas econômicas particularmente perversa, levando a recorrentes episódios de stop and go. Isso porque, em economias emergentes como a brasileira, há uma grande vulnerabilidade externa em relação aos fluxos internacionais de capital, gerando expressivas desvalorizações da taxa de câmbio, como visto anteriormente.
Tal volatilidade tem provocado surtos inflacionários por meio da transmissão (passtrough) da desvalorização cambial aos preços, segundo Farhi (2007, p. 15):
A correia de transmissão parte das taxas de juros para a taxa de câmbio por meio da paridade descoberta de juros que liga os diferenciais de taxas de juros a movimentos esperados da taxa de câmbio. Assim, um aumenta das taxas de juros domésticas, e relação às taxas dos demais países, conduz a uma apreciação cambial e a uma redução tanto das exportações como da demanda agregada total.
Ou seja, evidencia-se assim a correlação entre política cambial e política monetária. Correlação que se torna ainda mais intensa, no caso brasileiro, devido à estrutura de formação dos preços do país, visto que as variações nas taxas de câmbio influenciam os preços dos bens e serviços. Segundo Farhi, 69% do índice perseguido pelo Banco Central, o IPCA, é composto por bens comercializáveis (que compõem a pauta do comércio exterior) e por produtos e serviços de preços administrados (contratos que são reajustados com base nos Índices Gerais de Preços, o IGP´s), que são particularmente sensíveis à taxa de câmbio e aos demais choques de oferta. Logo, prossegue Farhi, “essa particularidade faz com que a evolução do índice de preços que condiciona a política monetária brasileira seja muito mais sensível aos choques exógenos e à variação cambial do que as demais economias emergentes” (p.24).
Assim, a combinação destas políticas macroeconômicas (câmbio flutuante e regime de metas de inflação) deixava evidente sua capacidade de transmitir a instabilidade gerada nos mercados financeiros à atividade econômica. Fica, portanto difícil acreditar que a política
monetária não influencie o lado real da economia. Ao contrário: salta à vista a sua intenção de privilegiar a esfera financeira (FARHI; 2007).
Superávit Primário
Assim como a política monetária e cambial, a política fiscal adotada pelo governo brasileiro na última década vislumbrava obter maior credibilidade do mercado internacional. O que vale aqui destacar, no entanto, é que a necessidade de destinar os recursos públicos para a obtenção de superávits primários, exigidos para garantir a sustentabilidade da dívida pública, tirou do governo a capacidade de investir. Além disso, a política monetária conservadora criou efeitos perversos sobre a política fiscal, que se viu obrigada a exercer forte corte na expansão dos gastos para não colocar em risco o movimento da dívida pública, o que acabaria por comprometer o superávit primário, influenciando negativamente a imagem do país no cenário externo.
A necessidade de o setor público alcançar elevados superávits primários refletiu uma das principais bandeiras da política ortodoxa neoliberal. A criação do superávit primário permite uma divisão entre as despesas orçamentárias e os gastos financeiros realizados pelo Estado. Mais: esses gastos financeiros, com juros e pagamento de serviços da dívida pública, não são contabilizados como despesas. Assim, o setor público é forçado a fazer um grande esforço fiscal de corte das despesas orçamentárias, que incluem gastos de saúde, educação, investimento. Com isso, os resultados dos cortes de gastos do orçamento são dirigidos para o pagamento das despesas financeiras, ou seja, os cortes acontecem nas despesas “não- financeiras” de modo a assegurar que as despesas que beneficiam o setor financeiro não sofram mudanças.
Com a hegemonia financeira verificada nas últimas décadas, a dívida dos países tem servido de grande fonte de especulação e financiamento do setor financeiro – inúmeros governos chegam a ser literalmente chantageados pelos mercados: se não aceitarem a orientação fiscal sugerida, vão sofrer os efeitos de ataques especulativos (criação de expectativas negativas, por exemplo), que provocam instabilidade política e acuam os governantes.
Nessas condições, é fundamental para o Estado manter a relação Dívida/PIB controlada, além de aumentar o percentual da dívida em títulos pré-fixados, de modo a diminuir o risco de ataques especulativos do mercado sobre a sua situação fiscal. O que afeta
as expectativas dos empresários nacionais, bem como dos investidores estrangeiros, colocando em cheque a economia do País. Ter a questão fiscal controlada é, portanto condição vital para a saúde econômica.