3. YAŞAM BOYU ÖĞRENMENİN ÇEVRİMİÇİ ÖĞRENMEYE
3.3. Bulgular
3.3.7. Yol Analizi
No período de coleta foram obtidos 17.379 registros 14 de grupos de crianças/adolescentes em situação de brincadeira na rua. A alta freqüência de atividade na rua reforça sua importância como espaço socializador de crianças e adolescentes. A rua parece funcionar como um grande “centro de convivência”, de participação, de encontro, de vida coletiva, sendo possível pensar a ampla possibilidade de construção de relações nesse ambiente (micro meio-ambiente).
Várias características desse contexto podem ser identificadas. As crianças ocupam a rua principalmente para brincar e essa ocupação não se dá da mesma forma para todas as crianças. Algumas brincam esporadicamente, outras passam grande parte de seu tempo envolvidas em brincadeiras na rua ou podem ser mais encontrados na rua. Em função disso, a quantidade de registros individuais varia de 01 (sujeitos registrado apenas uma vez nos scans) até 216 (sujeito mais registrado durante os scans).
Dos registros obtidos 13.680 são registros de meninos e 3.699 são de meninas, sendo este um primeiro dado relevante sobre a diferença nas presenças masculina e feminina na rua, revelando, uma ocupação sexualmente diferenciada da rua como um espaço de brincadeira.
A princípio esta seria uma diferença esperada já que o número de moradoras até 18 anos é menor (ver tabela 2). Entretanto, uma comparação mais detalhada dos dados mostra que a diferença tende a aumentar. Enquanto a diferença entre moradoras e moradores é de 11 pontos percentuais, esta diferença sobe para 58 pontos percentuais nos registros de brincadeiras. Mesmo tendo em mente o menor número de moradoras até 18 anos, pode-se
14 Refere-se ao número total de vezes que os 689 sujeitos da pesquisa foram vistos brincando na rua no período
delimitado (freqüência ou presença na rua). O número de registro por sujeito encontrar-se-á aqui referido como a freqüência individual.
112 dizer que em geral, os meninos usam mais o espaço da rua para brincar do que as meninas (ver figura 2).
Figura 2: comparação entre o nº de moradores e registros presença na rua por grupos de sexo.
Figura 2: Comparação entre o número de moradores e de registros de brincadeiras por sexo
Outros dados dos registros corroboram a maior participação masculina na rua:
1) os meninos apresentam maior média de registros15 – (31,09) que as meninas (14,85);
2) os meninos apresentam a maior freqüência individual de registro: maior registro individual do sexo masculino = 216 registros; maior registro individual do sexo feminino = 136 registros.
3) As 21 maiores freqüências individuais também são de meninos (ver anexo 3: registros de todos os sujeitos encontrados na rua.
Os dados também mostraram que nos dois grupos de sexo/gênero há uma tendência à formação de um subgrupo que tem maior presença ou que é visto mais vezes na rua. Pode-se dizer que esta tendência é ligeiramente maior entre as meninas, já que se observa que 10% dos meninos (44 sujeitos) concentram 43,98% dos registros enquanto 10% das meninas (25 meninas) respondem por 50,22% dos registros de seu grupo de sexo. Em contrapartida, há um grande grupo de indivíduos, aproximadamente 88 a 90% dos participantes, com uma baixa
15 Número de sujeitos por sexo em relação ao total, também por sexo, de registros de presença na rua.
Registro de presença na rua por sexo
21%
79%
Feminino Masculino
Moradores por sexo
43% 57%
113 presença na rua, ou seja, são moradores da mesma faixa de idade que apesar de usar a rua como espaço de brincadeira, o fazem em baixa freqüência.
A maior presença dos meninos também se evidencia nas diversas faixas de idade pesquisadas (ver tabela 8).
Tabela 8:
Distribuição de sujeitos da amostra e dos registros de presença na rua por faixa etária.
Faixa Etária
Sujeitos Presença na rua
Total Fem % Masc % Total Fem % Masc %
0 – 3 87 35 40% 52 60% 723 242 33% 481 67%
4 – 7 180 90 50% 90 50% 3570 1431 40% 2139 60%
8 – 11 201 70 35% 131 65% 6712 1330 20% 5382 80%
12 – 15 157 44 28% 113 72% 5562 667 12% 4895 88%
16 – 18 64 10 16% 54 84% 812 29 4% 783 96%
Mesmo na faixa etária em que há equivalência entre o número de sujeitos dos dois sexos (4 aos 7 anos), a freqüência de registros dos meninos se apresenta maior que das meninas (60% e 40% respectivamente). É importante notar ainda que nas três últimas faixas de idade as diferenças se apresentam mais discrepantes e, em todas elas, maiores que a diferença entre o número de sujeitos dos dois sexos. Estes dados podem sugerir que as diferenças estão mais relacionadas a uma ocupação diferenciada por grupo de sexo/gênero do que à diferença absoluta entre o número de sujeitos dos dois sexos/gêneros.
Também se observaram diferenças quanto à faixa de idade em que cada grupo de sexo está mais presente na rua. Entre os meninos, a maior ocorrência de brincadeiras situa-se na faixa dos 8 aos 11 anos, seguida da faixa de 12 aos 15, enquanto que entre as meninas a maior ocorrência está na faixa dos 4 aos 7 anos, seguida da de 8 aos 11 anos. A partir dos 12 anos a presença das meninas diminui bastante na rua, chegando a percentuais bem baixos na faixa dos 16 aos 18 anos (4% contra 96% de registro dos meninos). Nesta faixa, inclusive, o número de adolescentes do sexo feminino brincando é menos que um terço do número de
114 moradoras. Vale lembrar que nesta faixa de idade o número de moradores é igual nos dois grupos de sexo/gênero (36 pessoas).
Com o aumento da idade a presença das meninas na rua, que é mais baixa que a dos meninos, torna-se ainda menor. Pode-se considerar uma série de hipóteses alternativas para explicar estes dados, como por exemplo, as meninas/mulheres prencherem o tempo com outras atividades dentro ou fora de casa, como tarefas domésticas, ver televisão, namorar, realizar atividades domésticas. Por outro lado, é possível considerar que isso não signifique necessariamente diminuição do tempo dedicado ao brincar, mas que esta atividade possa ser realizada em outros espaços, como os quintais, ou dentro das casas. Tais questões não foram, todavia, objeto de investigação deste trabalho.
Entretanto, ainda que fuja do alcance de investigação deste trabalho a identificação dos tipos de atividades das quais as crianças e adolescentes se ocupam quando não estão brincando na rua e, independente do tipo de atividades que elas possam estar realizando, o que parece ser possível afirmar é que, até os 11 anos as meninas parecem dispor de mais tempo livre para a rua, período em que as quantidades de registros se mostram maiores. A faixa dos 13 aos 15 anos começa a apresentar uma tendência ao “recolhimento” das meninas, característica esta, que se torna mais forte na faixa dos 16 e 18 anos. Os meninos ao contrário, parecem muito mais “senhores” da rua e do seu tempo, nas faixas de idade mais avançadas. Estes dados parecem concordar com outros estudos (Beal, 1994; Maccoby, 1988) sobre a maior ocupação de espaços públicos pelos meninos do que pelas meninas.
O que os dados da variável participação na rua sugerem, a princípio, é a expressão de um processo de grupo refletindo a ideologia de papéis sexuais da divisão das esferas de atividade pública e doméstica, com a mulher operando mais na esfera doméstica. Não se trata de justificar tal ideologia como natural, mas entender este como um “arranjo inteligível e não necessário” da organização humana (Rosaldo, 1995), que aparecem repetidos ou confirmados
115 nos grupos de brincadeiras.Vale lembrar, como afirmam Carvalho e Pedrosa (2002) que o espaço da brincadeira é também um espaço de recuperação da cultura do ambiente social mais amplo no qual o grupo se insere.
Entretanto, lembram as mesmas autoras, a brincadeira não é só espaço de reprodução, mas é também um espaço da possibilidade de explorar novos usos dos valores e significados sociais e ainda, de criar novas práticas e rituais que passam a fazer parte da microcultura do grupo. Assim, cabe-nos também perceber a existência ou não de dados que possam apontar para essa possibilidade de reconstrução ou reapropriação.
Alguns desses indícios podem ser identificados particularmente no grupo feminino a partir das “estratégias” pelas quais este grupo “trabalha” sua presença na rua, aspectos que são particularmente percebidos nos dados da segregação versus aproximação entre os sexos.