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A atividade de vida Morrer representa o ato final da vida. Inevitavelmente o processo vital é fatal e todas as atividades de vida se interrompem com a morte. Ao se pensar na morte, sentimentos como ansiedade, inquietude e medo são despertados, na perspectiva da própria morte ou da morte de entes queridos. Neste contexto, o luto representa um processo necessário, mas doloroso, que pode levar anos para ser sanado (ROPER; LONGAN; TIERNEY, 1995).

Nesta atividade abordamos aspectos ligados ao fim da vida, no tocante às pessoas significativas e a elas mesmas. Como mencionamos, a presença do luto pode interferir na qualidade e sentido de vida dessas mulheres. Por estarem muitas vezes envoltas de dificuldades, inserimos aspectos relacionados ao suicídio, na tentativa de compreender a tendência desse ato nessa população. Incluímos, particularmente, as neoplasias, por representarem doenças crônicas e debilitantes.

As informações obtidas nas entrevistas relativas à atividade de vida Morrer foram apresentadas na tabela a seguir.

TABELA 17. Distribuição dos fatores influenciantes da atividade de vida Morrer. Fortaleza-CE, maio/jun. 2007

Variáveis Significativas n %

Morte de pessoa significativa ( n=28)

Doença 16 57,1

Homicídio 7 25,0

Acidental 4 14,3

Suicídio 1 3,6

História de tentativa suicida ( n=42) 15 35,7 Persistência de idéias suicidas ( n=15) 4 26,7 Antecedente familiar de neoplasia ( n=42) 11 26,2

A morte de pessoas significativas foi referida por mais da metade das mulheres em estudo. Sobressaiu a morte por doença, vivenciada por 16 (57,1%) prostitutas. Segundo Silva et al. (2005), há uma necessidade constante de apoio e orientação específicos para o indivíduo e sua família diante do acontecimento da morte, pois eles se sentem desamparados e fragilizados. No caso de pessoas significativas, a vivência do luto é mais intensa, e pode levar anos para ser amenizada. Ainda como observamos, os homicídios fizeram parte da vivência

de 7 (16,7%) mulheres. Vale ressaltar que quando a morte acontece de forma inesperada, fragiliza ainda mais os familiares. Consoante Beato Filho et al. (2001), a categoria de mortes violentas é responsável pelas mortes entre jovens, com a mortalidade por homicídios ocupando destaque nos grandes centros urbanos. De modo geral, as informações veiculadas pela mídia relacionam os homicídios ao tráfico de drogas, responsáveis pelo aumento da violência urbana.

De acordo com Borges e Alencar (2006), ao se analisar as relações interpessoais envolvidas nos homicídios dolosos, há uma estreita associação entre a violência e a criminalidade na sociedade. Conforme a pesquisa realizada pelos autores supracitados constatou, as razões alegadas para a prática de um homicídio incluem a agressão física sofrida, 30,4%, e a defesa da própria vida ou de familiares, 21,4%. E, ainda, a humilhação sofrida parece instigar nos praticantes do delito a justificativa necessária, o que muitas vezes não traz arrependimento pelo ato.

Ao indagarmos sobre tentativa de suicídio, identificamos o seguinte: esse ato já foi concretizado por um número considerável de mulheres, 15 (35,7%) e algumas delas ainda persistiam com tais idéias, 4 (26,7%). Diante destas respostas podemos pensar que essa população está sujeita à depressão ou sintomas depressivos. Além disso, as repetidas tentativas de suicídio podem estar relacionadas à falta de objetivos maiores de vida ou de prosperidade. Como mencionamos, no início da prostituição, as perspectivas e ilusões provocadas parecem uma boa oportunidade de melhorar as condições de vida. Porém, após anos de trabalho, essas ilusões são desfeitas e a realidade de vida mostra sua verdadeira face: as mulheres têm uma rede social de apoio precária, as condições financeiras não melhoraram e o estigma da sociedade mantém-se como antes.

Todas estas condições podem favorecer o suicídio. Como afirmam Mansilla e Bento (2006), as tentativas suicidas por ingestão de drogas relacionam-se a melancolia e negação. Possuem o significado de ataque ao próprio corpo, com vistas a agredir o corpo da mãe, como forma de romper o vínculo. Estudo desenvolvido em Porto Alegre, por Schreiner et al. (2004), em uma amostra de 97 prostitutas, mostrou uma alta taxa de prevalência de sintomas depressivos, 65 (67%), na qual 46 (47,4%) entrevistadas apresentaram sintomatologia com níveis moderado a grave. Ademais, análises evidenciaram associação entre presença de sintomas depressivos e uso de álcool, história de doenças sexualmente transmissíveis e falta de algum tipo de prática religiosa.

Para Amaya, Canaval e Viáfara (2005), os sintomas depressivos de prostitutas estão associados à utilização de fármacos, álcool e isolamento, além do sentimento de

desvalorização. Percebe-se o preconceito vivenciado por vizinhos, familiares e sociedade, acrescido da trajetória de sofrimento e vazio espiritual. As falas das entrevistadas relacionaram tentativas suicidas, em decorrência de um desespero momentâneo ou mesmo da falta de perspectivas na vida. Relataram vários tipos de tentativas, desde a ingestão de remédios em grande quantidade, substâncias tóxicas e até mesmo uso de cordas para o enforcamento. Alguns depoimentos foram transcritos e corroboram estas afirmações.

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Como mostra o cotidiano, a saúde mental relaciona-se com os vários fenômenos da vida. Esses fatores condicionam as condutas, nem sempre aceitáveis pela sociedade. São esperados do indivíduo reações e comportamentos padronizados, independente da real história de vida de cada um. Porém, durante a interação, o homem expressa em suas ações todos os fatores apreendidos desde a vida uterina (MONTEIRO; BARROSO, 2005). Além disso, muitas vezes aspectos relacionados à saúde mental das pessoas não são valorizados por profissionais de saúde, pois, de modo geral, esses profissionais estão pautados no modelo biomédico de atenção à saúde e não se detêm em determinadas informações.

Diante da relevância de fatores genéticos envolvidos na oncogênese, é salutar investigar a presença desse tipo de patologia na história familiar ou pessoal da paciente. De acordo com os dados obtidos nas entrevistas, observamos que a maioria das mulheres não tinha antecedente familiar de neoplasia, 31 (73,8%), e nenhuma apresentou história pessoal dessa patologia. Isto ameniza os fatores de risco para o câncer de mama e outras neoplasias. De acordo com Beserra, Araújo e Barroso (2007), a compreensão de doença envolve a quebra da homeostase orgânica que pode ser de cunho metabólico, físico, genético ou infeccioso, constituindo um momento de trauma e instabilidade para o homem. Como é notório, a rotina dos parentes de pacientes doentes muda completamente após uma internação ou diante do próprio diagnóstico. E quando a doença se refere a uma neoplasia maligna, os portadores apresentam caráter progressivo e emergencial.

Em face desta situação, a atividade de vida Morrer, como ato final da vida, e independente da profissão assumida, requer de toda a sociedade respeito e solidariedade.

Benzer Belgeler