5.2. Moleküler Spektroskopide Kuramsal Hesaplamalar
5.2.3. Yoğunluk fonksiyoneli teorisi (Density Functional Theory)
que dissemos, e isso, como preceituamos, segundo o provável ou o necessário
182.
182 Como a mudança de fortuna se dá tanto no enredo simples como no enredo complexo, mas a peripécia é
exclusiva do segundo, forçoso é reconhecer que “a mudança dos acontecimentos no seu contrário” não se refere à passagem da fortuna (eutukhia) para o infortúnio (dustukhia) ou vice-versa, preceituada no final do capítulo 7. Como a frase he eis to enantion tôn prattomenôn metabolê (‘a mudança dos acontecimentos no seu contrário’) é genérica o bastante para comportar também a mudança de fortuna, faz-se necessário entender kathaper eiretai (‘da maneira como dissemos’) como uma restrição que limita seu alcance. As traduções, então, ligam o kathaper
eiretai não ao final do capítulo 7 (1451 a 12-15), mas ao trecho final do capítulo 9, mais precisamente a 1452 a
2-4. Se essa hipótese é correta, como parece, à peripécia sempre estará associado um elemento inesperado (para
tên doxan ...) mas que conserva um caráter causal (...di’allêla – 1452 a 4). Disso resultará o espantoso (to gar thaumaston houtôs exei – 1452 a 4-5). Uma passagem relacionando o espantoso à peripécica pode ser encontrada
também na Retórica (1371 b 10-11). Isso coloca um problema para os comentadores, na medida em que o mais belo enredo (1452 a 10), que, não esqueçamos, é o princípio e a alma da tragédia (1450 a 37), deve articular-se segundo o provável ou o necessário mas ter, ao mesmo tempo, um caráter paradoxal (cf. nota 13 do capítulo 9). O problema se torna mais evidente quando, recorrendo aos Primeiros Analíticos, encontramos a definição de
eikos oferecida no capítulo 27 do livro II (70 a 2-5):
eikos de kai sêmeion ou tauton estin, alla to men eikos esti protasis endoxos: ho gar hôs epi to polu isasin houto ginomenon ê mê ginomenos ê on ê mê on, tout’estin eiko,s hoion to misein tous phthonountas ê to philein tous erômenous
o ‘provável’ e a evidência não são a mesma coisa. O ‘provável’ é uma proposição de conteúdo aceito: pois aquilo que sabemos que, no mais das vezes, acontece (ou não acontece) de determinada maneira, ou aquilo que, no mais das vezes, é (ou não é) de determinada forma, isso é o provável, como, por exemplo, ‘os invejosos têm raiva’, ou ‘os que são amados, amam’.
A definição dos Primeiros Analíticos afirma que o eikos (provável) é uma proposição aceita, ou uma proposição cujo conteúdo é uma opinião aceita (protasis endoxos). O conflito é evidente: como se pode sustentar que o enredo deve se articular segundo o provável ou o necessário, vale dizer, segundo o que é opinião aceita ou segundo o necessário e conter, ao mesmo tempo, algo que é contrário à opinião? Se foi realmente dada uma solução para esse problema no corpo da Poética, deve-se admitir que ela parece tão simples quanto elegante. Na capítulo 18, retornando à questão da peripécia, Aristóteles diz: estin de touto kai eikos hôsper Agathôn legei,
eikos gar ginesthai polla kai para to eikos (1456 a 23-25). “E isto (i.e., alguém sábio ser enganado, ou alguém
corajoso ser vencido) também é provável, no sentido em que Agatão diz: pois é provável muitas coisas acontecerem mesmo contra a probabilidade”. A frase tem uma elegância de estilo que parece honrar a reputação de Agatão. Mas se deixarmos de lado a elegância do estilo e nos perguntarmos se a proposição resolve o conflito entre a articulação do enredo e a peripécia, que escapa à lógica do provável ou necessário que rege o primeiro, veremos que a questão não é simples. Examinado o ponto de uma maneira puramente estatística, parece razoável dizer que é provável que muitas coisas ocorram contra a probalidade. De fato, considerando um conjunto composto de um grande número de eventos, muitos desses escapam ao que seria esperado. Mas o número dos eventos inesperados é muitas ordens de grandeza inferior ao número total de eventos. Basta pensar em jogos de azar. No mais das vezes, aquele que joga na roleta, perde. Isso não impede que seja provável que haja ganhadores. É até necessário haver ganhadores se todas as casas forem preenchidas com pelo menos uma ficha. Mas é muito pouco provável que determinado jogador ganhe, ou ainda, é pouco provável que a banca, na somatória das apostas, perca (cassinos, afinal, são empresas lucrativas). Se a frase que Aristóteles atribui a Agatão faz referência a eventos desse tipo, ela é claramente insatisfatória para dar conta do caráter paradoxal da peripécia. Aliás, é o próprio Aristóteles, em uma passagem da Retórica que analisa os silogismos aparentes (phainomenos sullogismos– 1402 a 5 et seq.), quem classifica o raciocínio de Agatão como falacioso, por confundir aquilo que é provável em sentido absoluto (haplôs eikos) com o que é provável em sentido particular (ti eikos). A falácia de Agatão, nos diz ainda a Retórica, tem o mesmo caráter da falácia que consiste em afirmar que aquilo-que-não-é é, na medida em que ele é aquilo-que-não-é (loc. cit.). A reação dos comentadores a esse
Como, por exemplo, no Édipo: o mensageiro, tendo vindo para tranqüilizar Édipo e
afastá-lo do temor em relação a sua mãe, ao ter revelado quem Édipo era, fez o
contrário
183. Também é o caso do Linceu: sendo este levado para morrer, ao passo
conflito é, como não poderia deixar de ser, variada. Dupont-Roc e Lallot valem-se explicitamente da ‘solução de Agatão’:
“Ainsi, le coup de théâtre, probablement unique ... est moins un moment du “reversement” tragique (metabasis) que la forme spécifique qu´il revêt parfois: ce point extrême du vraisemblable où l´enchaînement des faits se produit contre toute attente (c´est “le vraisemblable qui se produit contre le vraisemblable”, chap. 18, 56 a 25), et provoque le vif plaisir de la surprise”. (ARISTÓTELES, 1980, p. 232, nota 1 do capítulo 11 – grifo nosso: a frase sublinhada é a frase de Agatão).
Dizer que a peripécia é o “ponto extremo do verossímil” é fazer o conflito disfarçar-se por trás do significado pouco preciso do termo ‘verossímil’, contra cujo uso já nos colocamos (cf. nota 4 do capítulo 7). Halliwell (ARISTÓTELES, 1987, p. 111), por sua vez, reconhece o conflito que emerge da passagem final do capítulo 9
The final point of importance in ch. 9 is the observation that a specifically tragic drama can best arouse a sense of wonder, and also the tragic emotions of pity and fear, by paradoxical but nonetheless causally coherent events. We can get a glimpse here of one of the points at which Ar.'s understanding of unity does come under some strain
mas sua objeção não se centra na aparente incompatibilidade entre o caráter da peripécia e o nexo provável ou necessário das ações, ainda que tenha o mesmo teor. Aos olhos de Halliwell, os requisitos de probabilidade e necessidade que organizam o enredo são insuficientes para dar conta da ação trágica em todos seus aspectos.
As a general doctrine of dramatic 'logic', the view of unity which chs. 7 and 8 set forth has obvious enough merits. But by equating unity of plot-structure with unity of action, Ar. presupposes that poetic drama can always afford to present an internally perspicuous and intelligible sequence of events. Tragedy can pose a challenge for such an assumption by dealing with obscure events whose underlying causes may not be accessible to our ordinary powers of comprehension. (idem, ibidem)
Essa objeção leva-o a questionar a ausência do divino na análise da tragédia tal como a Poética nos apresenta: But in both the Oedipus and the Iphigeneia there is a prominent divine context and background to all that is shown in the plays, and we do not have to assume that Ar.'s neglect of it would have been matched by the original audiences of these works. (idem, p. 119)
Em vários comentadores essa passagem, ou outras de mesmo teor, causa uma certa perplexidade que, para dizê- lo de uma maneira geral, nasce do privilégio concedido ao provável e ao necessário na ação trágica, o que parece excluir do domínio da Poética o contingente. Entretanto, toda ação trágica tem uma conjunção bastante improvável de eventos e o destino do herói trágico parece não poder prescindir do recurso ao contingente para ser apreendido na sua inteireza. Uma resposta a tais questões deve nascer de uma análise do necessário, do provável e do acaso dentro da tragédia. Veja-se a nota seguinte.
183 O trecho do corpus aristotélico em que existe uma abordagem mais extensa a respeito do acaso (tukhê) é o
livro II da Física, mais especificamente os capítulos 4, 5 e 6 desse livro. Aristóteles, após ter exposto sua teoria das quatro causas (causa formal, causa final, causa eficiente, causa material) se pergunta em que sentido o acaso (e o espontâneo – to automaton) pode ser também considerado causa de algo. A questão é importante em se tratando da Poética, e não menos porque é o próprio Aristóteles que afirma, usando uma terminologia que se encontra também na Poética (cf., por exemplo, a presença do hôs epi to polu - ‘no mais das vezes ‘ e do ex
Prôton men oun, epeidê horômen ta men aei hôsautôs gignomena ta de hôs epi to polu, phaneron hoti oudeterôu toutôn aitia hê tukhe legetai oude to apo tukhês, oute tou ex anankês kai aiei oute hôs epi to polu. all’epeidê estin ha gignetai kai para tauta, kai tauta pantes phasin einai apo tukhês, phaneron hoti esti ti hê tukhê kai to automaton: ta te gar toiauta apo tukhês kai ta apo tukhês toiauta onta ismen (196 b
10-17)
Primeiramente, então, uma vez que vemos algumas coisas vindo a ser da mesma maneira sempre, outras, no mais das vezes, é manifesto que o acaso e aquilo que é a partir de acaso não se denominam causa de nenhuma delas, nem daquilo que é por necessidade e sempre, nem daquilo que é no mais das vezes. Mas uma vez que, além dessas, há também outras coisas que vêm a ser a partir do acaso, é manifesto que o espontâneo e o acaso são algo; pois reconhecemos as coisas desse tipo como sendo a partir do acaso e as coisas a partir do acaso como sendo desse tipo. (Trad. Lucas Angioni (ARISTÓTELES, 2002, p. 77-79))
Se formos ao início do capítulo 7, encontraremos, presidindo a composição do enredo, os mesmos conceito de ‘necessário’ (ex anankês) e de ‘no mais das vezes’ (hôs epi to polu), que, por sua vez, se nossa suposição é correta, dá origem ao conceito de ‘provável’ (kata to eikos– ver nota 4 do capítulo 7). E ainda mais, o necessário e o provável devem presidir não apenas a seqüência das ações e a articulação dos episódios, mas também a própria caracterização dos personagens (1445 a 33 – 36). O acaso, então, não pode ser considerado causa de nenhuma ação trágica. Na Física Aristóteles define o acaso como causa acidental operando no domínio daquilo que pode ser objeto de escolha (proairesis) e daquilo que é em vista de algo. Façamos uso do exemplo que ele próprio dá para ilustrar esse conceito. Se alguém vai ao mercado com uma certa intenção (ou seja, há uma causa final que explicita o por quê de ele ir ao mercado: por que esse sujeito foi ao mercado? Para comprar peixe, por exemplo) mas nesse mesmo mercado encontra alguém que lhe deve dinheiro e recupera essa quantia, esse é um evento que se deve ao acaso. A ação e sua causa final (ir ao mercado para comprar peixe) tornam-se causa acidental de ele recuperar o dinheiro (ou de ele se encontrar com quem lhe devia o dinheiro, pouco importa – veja-se, a respeito das controvérsias desse exemplo, Charlton, (ARISTÓTELES, 1992, p. 107-108)). Se é assim o acaso, é surpreendente que os efeitos da fala do mensageiro de Corinto, no Édipo Rei, por exemplo, não sejam, de alguma forma, referidos por Aristóteles também ao acaso. Afinal, era intenção do mensageiro afastar Édipo dos temores que o atormentavam em relação à mãe, mas essa intenção inicial se transformou em causa acidental de Édipo descobrir quem ele era. Não caberia aqui ao menos uma semelhança com os eventos que levam alguém a recuperar por acaso um dinheiro que se lhe era devido tendo ido ao mercado com outra intenção? Mas parece haver uma diferença, talvez fundamental: o mensageiro fez o contrário do que pretendia (tounantion epoiêsen – 1452 a 26). Essa característica também é uma característica da peripécia (ela é ‘a mudança dos acontecimentos no seu contrário’ – hê eis to enantion tôn prattomenôn metabolê – 1452 a 22). Seria isso suficiente para banir esse evento do domínio do acaso? Se sim, tanto melhor, porque dessa forma a própria peripécia estaria fora dos domínios do acaso e em nada ela contrariaria os ditames do enredo. Mas ‘fazer o contrário’ ainda não é o suficiente. Pensemos, por exemplo, que o sujeito que recuperou o dinheiro no mercado, ao invés de ter ido lá para comprar peixe, tivesse ido para pedir um empréstimo. Se ele tivesse encontrado seu devedor antes de pedir o empréstimo e tivesse recuperado desse devedor uma quantia tal que não apenas o livrasse da necessidade do empréstimo mas ainda lhe deixasse com dinheiro suficiente para emprestar mais dinheiro e isso efetivamente ocorresse, a ida ao mercado teria tido um efeito contrário ao prentendido, mas o processo todo ainda poderia ser descrito como tendo ocorrido ‘por acaso’. Os eventos relativos ao mensageiro, entretanto, ainda têm algo a mais que os diferencia claramente desse exemplo último: para afastar completamente Édipo dos temores em relação a sua mãe necessariamente deve-se revelar quem ele é, e essa revelação necessariamente produz o efeito contrário do pretendido. O ato de revelar a identidade de Édipo necessariamente anula a intenção que o preside, ele é contraditório em si mesmo. A ida ao mercado redundando no efeito contrátio ao pretendido não é contraditória nesse sentido descrito. A ida ao mercado não implica necessariamente que o efeito contrário será atingido. Mas, ainda mais uma vez, o fato de a revelação ser contraditória em si mesma quanto aos efeitos pretendido e efetivo é suficiente para que a definição de acaso dada por Aristóteles na Física não se aplique a esse caso? Voltemos ao caso de ir ao mercado para comprar peixe. Há uma causa própria da ida ao mercado: comprar peixe. Ela é causa própria na medida em que o sujeito da ação ‘ir ao mercado’ planejou essa ação em vista dessa causa e na medida em que, para essa ação com essa causa, cabe a rubrica ‘no mais das vezes’. A recuperação do dinheiro, entretanto, não estava nos planos do agente. Isso é importante para que o evento possa ser descrito como ‘devido ao acaso’. Aristóteles é, nesse ponto, explícito: