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Belgede 2007 YILI FAALĐYET RAPORU (sayfa 4-0)

Frente à grotesca história sobre as causas da disseminação da peste, e fa- zendo referência aos processos “contra feiticeiras acusadas de bruxaria e outros procedimentos semelhantes, que o tempo se encarregou de explicitar como fruto da ignorância e da estupidez”, Verri pergunta já em 1770: – A tortura realmente é um meio para se conhecer a verdade?; – As leis e a prática penal consideram a tortura como um meio para obter a verdade? – A tortura é um meio lícito para des- cobrir a verdade?

Verri demonstra estar convencido que os tormentos não são um meio para desvendar a verdade, “porque às vezes não resultam em nada, e outras vezes, resul- tam em mentiras”;237 “a tortura é um meio muito incerto e perigoso para buscar a ver- dade, pois muitos com a robustez e a paciência superam a tortura e não falam de ma- neira alguma e outros, não a suportando, preferem mil vezes mentir a resistir à dor”.238

À pergunta se a tortura é lícita para descobrir a verdade, diz que o crime pode ser considerado certo ou considerado provável; “se é considerado certo, os tormen- tos são inúteis e a tortura é aplicada desnecessariamente; (...) se o crime, por outro lado, é considerado apenas provável, qualquer que seja o termo com que os douto- res diferenciam o grau de probabilidade muito difícil de se medir, é evidente que será possível que o considerado culpado seja de fato inocente (...) portanto, o uso da tor- tura é intrinsecamente injusto e ela não poderia ser empregada mesmo que constitu- ísse um meio para chegar à verdade.”239

Concluindo seu livro, Verri diz aos defensores da tortura: “reflitam que os pro- cessos contra as feiticeiras e os magos, tal como a tortura, se apoiavam na autori- dade de inúmeros autores que publicaram textos sobre a ciência diabólica, que a tradição dos mais venerandos homens e tribunais ensinava que as feiticeiras e os magos deviam ser condenados à fogueira, (...) e ficou demonstrado que não existem feiticeiras nem magos. (...) Parece-me impossível que o costume de torturar priva- damente no cárcere para obter a verdade possa se sustentar por muito tempo (...) ela é intrinsecamente injusta!”240

237 VERRI, P., Observações sobre a Tortura, p. 91. 238 Ibid., p. 93.

239 Ibid., p. 96. 240 Ibid., p. 129-130.

Dalmo Dallari, no prefácio ao livro Observações sobre a tortura, conta que em 1770, cento e quarenta anos após o Processo dos Untores, a tortura continuava a ser legal no ducado da Lombardia, cuja capital era Milão. O relator da matéria, esco- lhido pelo Senado, foi Gabriele Verri, pai de Pietro e Alessandro Verri, tendo ele opi- nado contra a abolição da tortura, por entender conveniente sua manutenção legal. A maioria dos senadores acolheu o relatório e a tortura foi mantida como prática de punição-inquirição. Por esse motivo, diz Dallari, é que certamente “Verri, ao não que- rer se opor publicamente contra o pai, teve seu trabalho publicado somente após sete anos de sua morte. Ao relatar o Processo dos Untores, embora ocorrido mais de cem anos antes, Pietro Verri o utilizava para fazer uma crítica indireta ao governo lombardo, apesar de ter em seu pai um conselheiro”.241

Os conflitos de Verri com seu pai ultrapassam o campo das relações públicas e políticas e certamente fermentaram dentro do campo das relações edípicas entre os irmãos e o pai, que de alguma forma o paralisaram em relação à comunicação de seu parecer sobre os untores, que, na opinião de Dallari, “é expressão do pensa- mento iluminista italiano no campo jurídico, especialmente quanto à necessidade de esclarecimento dos juizes, para que não desempenhem suas funções com cruelda- de associada à tirania. Os juizes eram vinculados ao Senado e tendiam a agir sem- pre com mais rigor, ou para serem agradáveis aos detentores do poder político, ou por não existir uma clara definição de sua responsabilidade pelos excessos que co- metessem, confundindo-se tudo como atos de governo”.242

Dallari se pergunta que motivos teriam levado Verri a mergulhar em um pro- cesso criminal realizado em 1630 e a detalhar todos os procedimentos que o envol- veram. O próprio Verri esclarece sua intenção:

A cena é extremamente cruel, e meu punho a transcreve a duras penas; mas se o calafrio que sinto servir para poupar nem que seja apenas uma vítima, se se deixar de infligir uma única tortura graças ao horror que passo a expor, será bem empregado o doloroso sentimento que me toma, e essa esperança é minha recompensa.243

241 DALLARI, D., In: VERRI, P., Observações sobre a Tortura, p. XV. 242 Ibid., p. XVIII.

A escolha do texto de Verri para abrir as narrativas sobre a prática da tortura tem a intenção de trazer ao mesmo tempo contribuições do pensamento iluminista italiano, de crítica à tortura, e a convicção expressa pelo autor, já em 1770, sobre a ineficácia da tortura em qualquer circunstância. A análise de Verri o coloca no lugar de um narrador implicado com seu tempo e explicita seu pensamento sobre a ne- cessidade de abrir os arquivos com o objetivo de convocar seus contemporâneos ao repúdio da tortura, propondo que prevalecesse o Progresso e a Razão, metas pelas quais lutava através da Accademia dei Pugni juntamente com seu irmão Alessandro e o amigo Cesare Becaria, entre outros iluministas italianos.

O texto de Verri dá a conhecer o resultado de relações de poder e do uso desmedido da destrutividade para impor uma verdade que interessava aos sobera- nos e donos do poder.

Ivete Keil,244 uma das organizadoras do livro O corpo torturado, no ensaio “Nas rodas do tempo”, faz uma aproximação do texto de Verri com a tortura pratica- da durante as ditaduras latino-americanas no século XX, e diz que “o rejunte dessas épocas são as relações de poder, o uso da tortura e a produção de um corpo: o cor- po torturado”.245 Durante a ditadura civil-militar no Brasil, tornou-se evidência que a

prática da tortura exerceu ilimitadamente a crueldade, e que, sob os auspícios do Estado, o poder de intervir sobre os corpos foi exercido sem barreiras.

Nesse aspecto, confirma-se o que disse Foucault, que o corpo está mergu- lhado num campo político e que “as relações de poder têm alcance imediato sobre ele; elas o investem, o marcam, o dirigem, o supliciam, sujeitam-no a trabalhos, obri- gam-no a cerimônias, exigem-lhe sinais”.246

Belgede 2007 YILI FAALĐYET RAPORU (sayfa 4-0)

Benzer Belgeler