O Centro de Referência de Saúde do Trabalhador em Alagoas (Cerest-AL) assim como em todo o País, desenvolve ações principalmente de vigilância à saúde do trabalhador, o que envolve complexa visão de todas as áreas relacionadas, cujos resultados possam impactar positivamente, em toda área de vigilância, a saúde da população e, especificamente, a saúde do trabalhador.
Para a implementação e organização das ações, foi criada a Rede Sentinela em Alagoas, com 21 unidades de referência distribuídas em 13 municípios alagoanos, conforme pacto e aprovação pela Comissão Intergestora Bipartite (CIB). As unidades de referência são divididas conforme agravo de notificação relacionada ao trabalho e à capacidade de atendimento em Maceió e no Município de Arapiraca - segundo maior em termos populacionais e econômicos. As demais unidades (no total de 11) são referência apenas para acidente de trabalho grave, ou seja, fatal com mutilação, em crianças e adolescentes, e intoxicação exógena.
Em Maceió, portaria da Secretaria de Saúde do Estado de Alagoas (Sesau 280), de outubro de 2008, determina que os serviços de referência (rede sentinela) para cada agravo de saúde seja realizado pelos serviços de saúde discriminados no Quadro 7.
Acidente de Trabalho
Grave Fatal com Mutilações, com Crianças e Adolescentes Hospital Geral e Emergência (HGE)
Intoxicação exógena - HGE
Acidente com exposição a
material biológico - HGE
Pneumoconioses - Hospital Universitário (HU) da Ufal
Universidade das Ciências da Saúde de Alagoas (Uncisal) Dermatose ocupacional
LER/Dort
Câncer relacionado ao trabalho
Pair Clínica de Fonoaudiologia Uncisal Câncer relacionado ao
trabalho
- Santa Casa de Misericórdia de Maceió
Transtorno mental
relacionado ao trabalho - Hospital Estadual Portugal Ramalho
Quadro 7: Serviços de referência de saúde do trabalhador em Alagoas
Fonte: Portaria Sesau 280, da Secretaria de Saúde do Estado de Alagoas, de 2008
Em Alagoas (2009), os serviços de saúde do trabalhador contam ainda com três Centros Regionais de Referências (Cerest-AL), distribuídos no Município de Maceió e abrangendo 42 municípios circunvizinhos: Arapiraca, que atende a 24 municípios regionais, e Santana do Ipanema, região do sertão, com mais 24 municípios. Há ainda 42 municípios sem centros de referência.
Os serviços de saúde do trabalhador em Alagoas contam com a existência de uma rede sentinela, conforme preconiza o PNSST, em todo o território nacional, enquanto que os Cerests são polos irradiadores, nos âmbitos regional e estadual, de uma cultura especializada de saúde do trabalhador, que se concretiza em práticas assistenciais especializadas, conforme demonstra essa rede sentinela.
O modelo de gestão em rede pode garantir mecanismos de controle, resolução de conflitos e tomada de decisão, necessários para a efetividade da saúde do trabalhador e sua promoção social e política.
Na gestão dessas redes, um dos desafios postos é a falta ou insuficiência de informação/notificação dos serviços na alimentação do Sistema de Informação de
Agravos de Notificação (Sinan), o que dificulta a real aproximação do quadro de
estudo epidemiológico da saúde do trabalhador em Alagoas pelos movimentos sociais pertinentes, a fim de fortalecer seus interesses.
Outra constatação é a existência de serviços especializados em saúde do trabalhador e a sua quase não utilização em ações da Pass, não previstos pelo governo federal e não reivindicados por gestores e nem pelos trabalhadores públicos.
As unidades de referência (rede sentinela) contam também com a participação da rede privada para fornecer assistência. No caso de câncer relacionado ao trabalho, a Santa Casa de Misericórdia de Maceió é referência e comprova essa dupla face do sistema saúde do trabalhador, a pública/privada.
Fica também comprometida essa política quanto à inviabilidade do principio da universalidade e integralidade, uma vez que aproximadamente 60 municípios alagoanos não estão contemplados com a rede sentinela e outras ações.
Os profissionais de saúde não especializados da área desconhecem as ações desenvolvidas pela rede e encaminham trabalhadores para assistência nos Cerests em busca, por exemplo, de laudos, atestados, a fim de diagnosticar o problema de saúde do trabalhador. Há necessidade tanto da participação social dos trabalhadores, através dos sindicatos, quanto dos profissionais de saúde, na notificação e melhor conhecimento e divulgação dos serviços e redes da saúde dos trabalhadores.
3.2. A implantação do Sistema Integrado de Atenção à Saúde do Servidor Público Federal em Alagoas
Para melhor visualizar e localizar o Siass no ministério que o coordena, apresenta-se, na Figura 1, a estrutura organizativa do MPOG, no qual se encontram a Cogss/SRH, coordenadores da Pass/Siass.
Figura 1: Organograma do Ministério do Planejamento, Gestão e Orçamento (MPOG)
Conforme se verifica na Figura 1, a SRH é composta por três Departamentos, o de Relações de Trabalho, formado de quatro coordenações: Coordenação de Negociação e Relações Sindicais (CGNES), Coordenação de Estudos e Informações Gerenciais (CEIG), Coordenação de Carreiras e Análise do Perfil da Força de Trabalho (CGCAR) e Coordenação de Seguridade Social e Benefícios do Servidor (COGSS).
Nessa estrutura organizacional, percebe-se a fragmentação e focalização de cada área, assim como a estrutura pesada e burocrática montada para fazer andar um processo, como chama a atenção Vasconcelos (2007), que explicita a necessidade de cada coordenação/departamento colocar seu carimbo e assinatura, demarcando o poder que divide aquela estrutura.
Andrade (2009, p. 50) diz que, ao separar os processos de negociação e relação sindical, os estudos e informações gerenciais, e a gestão de carreiras, concentrando as ações voltadas para a saúde do trabalhador em coordenação específica de seguridade social, aproxima-se mais do conceito de saúde ocupacional, não contemplando a participação do servidor.
Sabe-se que a agenda de cada coordenação departamental de um ministério é assoberbada, que não se conseguem facilmente reuniões, encontros, sem prévia marcação, o que dificulta a integração e a visão de totalidade da saúde do trabalhador na construção e efetivação da Pass, muito embora os encontros, seminários e articulações venham acontecendo ao longo dessa construção, se não com as coordenações, mas sim entre os setores de saúde, espalhados nas instituições públicas e representações dos servidores, como informa o MPOG nos documentos sobre a Pass.
Segundo Andrade (2009), o Siass, na sua organização do sistema, ainda tem um viés da saúde ocupacional, embora represente um avanço no que se refere à assistência à saúde desses trabalhadores, que até então não dispunham de qualquer sistema de proteção no trabalho.
O coordenador do Cogss/SRH/MPOG, em entrevista a Andrade (2009), coloca que o Siass é um processo de amadurecimento do Sistema Integrado de Saúde Ocupacional do Servidor Público Federal (Sisosp). Criado em 2006, não vem apenas para substituí-lo, mas considera-o a versão mais amadurecida de uma política articulada na área de saúde do servidor público.
Justificando a mudança, em 2008, da nomenclatura de Sisosp para Siass, diz que não se refere apenas ao nome, mas à concepção de saúde do trabalhador, agora vista como um conjunto de atividades e ações que dizem respeito não só à intervenção nos ambientes de trabalho, mas também da apropriação dessa saúde, pelo servidor, de ter referências na área da assistência.
A discussão em torno do nome foi provocada pelo próprio “desuso” do conceito de saúde ocupacional, que está ligado à ideia de que o problema de saúde dos trabalhadores vincula-se ao modelo médico do engenheiro e técnico de segurança, entre outros especialistas.
Tal visão restringe o conjunto de ações que extrapolam apenas esse aspecto da saúde ocupacional, bem como a participação de equipe multidisciplinar. Apesar da mudança de nomenclatura e de concepção, os multiprofissionais que operam com o sistema constatam a hegemonia da visão médica e do engenheiro de segurança, tendo acesso a poucos campos para operacionalizar no Siass, e interferir no todo da saúde do servidor público.
Os médicos reclamam da pouca efetividade do sistema, no ato de operacionalização, por causa dos muitos campos a serem preenchidos pelo profissional, o que demanda tempo, enquanto que poderiam ser preenchidos por outros servidores de nível médio.
O sistema objetiva uniformizar os benefícios e normatizar as relações saúde- trabalho no serviço público, que será operacionalizado pelo Sistema de Informação e Administração de Pessoal e Saúde (Siape-Saúde), para tratamento dos dados sobre a saúde do trabalhador, que está em fase de construção e experimentação nas unidades. O registro dos dados alimenta os estudos epidemiológicos e produz ações de saúde a partir de bases com informações fidedignas sobre a situação de saúde do servidor público.
O modelo de organização e implementação do Siass previu atingir o maior número de servidores espalhados pelo Brasil. Assim, oito estados seriam os primeiros: Rio Grande do Sul, São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Brasília, Pernambuco, Bahia e Pará. Mas houve demanda de Goiás, Alagoas, Santa Catarina e Paraná, que se engajaram no processo.
O Rio Grande do Sul é o que está mais avançado, nesse processo, ou seja, já tem definidas as unidades de referência do Siass, a coordenação, os convênios, entre outras medidas.
Em Alagoas, as unidades de referência do Siass, implantadas ou em fase de implementação, tem como objetivo efetivar a política de saúde para os servidores públicos federais, segundo as especificidades, as diferenças regionais e os locais das ações de saúde, estabelecendo a uniformização dos benefícios e a normatização nas relações saúde-trabalho.