A última variável a ser apresentada é o suporte social dessas famílias, pois o mesmo se encontra em todos os níveis ambientais em que a criança frequenta, podendo afetar os processos e os resultados de seu desenvolvimento ao longo do tempo. Sendo assim, torna-se importante analisar quantas e quais pessoas ofereciam esse suporte, bem como a satisfação em relação ao mesmo. Destaca-se que a tabela referente ao grau de satisfação com o suporte social recebido e a quantidade de pessoas que ofereciam suporte em determinadas situações se encontram nos Apêndices 4 e 5.
A Tabela 40 compara as frequências em que as pessoas suportivas foram mencionadas pelos pais/responsáveis dos três grupos.
136 Tabela 40. Frequência em que as pessoas suportivas foram mencionadas pelas famílias: Análise do GD, GDA/PC e GDT
Pessoas suportivas mencionadas GD (F) GDA/PC (F) GDT (F)
Cônjuge 282 314 353 Pais 257 236 119 Filhos(as) 221 115 202 Irmãos(as) 132 97 121 Amigos(as) 91 65 99 Ninguém 79 63 25 Irmãos da igreja 35 43 25 Sogra 27 12 9 Vizinha 18 29 19 Tios(as) 16 10 22 Cunhada(o) 12 6 3 Pastor 13 19 39 Ex-marido 9 22 0 Prima 7 1 30 Fisioterapeuta do filho 4 0 0 Sobrinha 3 0 6 Amigos do trabalho 2 35 3 Netos 2 1 0 Avó/Avô 2 6 1 Professora do filho 1 0 0
Nota: para esta questão foi computado quantas vezes os participantes citaram a pessoa suportiva, considerando a possibilidade de cada um listar até nove pessoas (ou nenhuma) do total de 27 questões do QSS.
Ao refletir sobre os contextos nos quais as famílias investigadas estabeleciam relações, observou-se, de maneira geral, que nos três grupos o cônjuge, os pais e os filhos foram os mais mencionados como provedores de suporte emocional e instrumental. Ressalta-se que não foi investigado quem eram os membros que habitavam a residência dessas famílias, portanto, não se sabe se os pais (os avós das crianças), bem como outros familiares pertenciam ao microssistema das mesmas. Sendo assim, o que pode se afirmar é que no GDT o cônjuge e os próprios filhos foram mais assinalados e no do GD e GDA/PC foram os cônjuges e os pais, isto é, as relações eram mais estabelecidas entre os próprios familiares.
As pessoas pertencentes a outros níveis ambientais foram destacados pelos participantes, por exemplo: os amigos - com maior frequência no GDT e GD; os irmãos da igreja - com menor frequência no GDT; amigos do trabalho prevaleceram no GDA/PC; e os profissionais que atendiam as crianças no GD, apesar de terem sido pouco citados. Além do mais, destaca-se que a frequência com que os participantes mencionaram “ninguém” com relação a quem oferecia o suporte social nas diferentes situações foi mais alta no GD e GDA/PC do que no GDT.
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As possíveis explicações para esses dados podem ter se associado com algumas variáveis: os participantes que mais se declararam casados foi no GDT (73,3%) e a menor frequência constatou-se no GDA/PC (46,6%); a maior média de filhos foi no GDT (M=2,6) e a menor no GDA/PC (M=1,96); o GDT tinha maior média de pessoas que residiam no domicílio (M=4,4) enquanto o GDA/PC a menor (M=3,7). Todas elas quando relacionados com o maior índice de pessoas que exerciam atividade remunerada no GDA/PC pode ter impactado em certos tipos de vínculos estabelecidos, como os amigos do trabalho e, possivelmente, o auxílio dos pais.
No caso do GD, provavelmente, as mães eram responsáveis por levarem os filhos aos atendimentos, fazendo com que a responsabilidade pelas decisões fosse exclusiva delas. Os vínculos no microssistema se demonstraram mais fortalecidos e, o suporte social advindo de outros contextos – meso e exossistema – foi mínimo diante de todas as necessidades que elas demonstraram nas tabelas anteriores, ou seja, essa ocorrência poderia ser um possível indicador de risco no desenvolvimento das crianças do GD.
As pessoas suportivas influenciam de forma significativa a saúde física e emocional das pessoas. Desta forma, quando os laços entre elas se tornam duradouros é provável que ocorra maior ajuda em momentos de necessidades/crises, especialmente, nas transições ecológicas ou por motivos de saúde. A rede de apoio deve abordar mudanças que ocorrem ao longo da vida, não apenas na pessoa, mas, inclusive, em seu ambiente ecológico, em suas interações e na crescente capacidade de descobrir, sustentar ou alterar as propriedades do meio e de suas relações (BRONFENBRENNER 1979; 1996).
Considerando a quantidade de pessoas suportivas, verificou-se que os pais/responsáveis que tinham filhos com desenvolvimento típico (M = 2,0) apresentaram maior média total de pessoas que ofereciam suporte social, seguido pelos pais/responsáveis das crianças com indicativos de dificuldades escolares (M = 1,7) e, por último, aqueles que tinham filhos com deficiência (M = 1,6). Ao comparar os grupos, constatou-se que os familiares do GDT apresentaram médias estatisticamente maiores em relação aos familiares do GD sobre a quantidade de pessoas suportivas nas situações: “Com quem você pode contar para ouvir seus sentimentos mais íntimos de forma aberta sem te criticar?” (F(2) = 2,823, P<0,1) e “Com quem você pode realmente contar para consolá-lo quando está muito contrariado?” (F(2) = 2,659, p<0,1).
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Em relação à satisfação com o suporte social recebido, mesmo não apresentando dados estatisticamente significativos, constatou-se que a média total entre os grupos foram semelhantes, porém, a menor foi no GDA/PC (M = 5,79 - em um escore de 1 a 6), seguida pelo GD (M = 5,81 - em um escore de 1 a 6) e, por último o GDT (M = 5,86 – em um escore de 1 a 6).
Os dados apontam que, os participantes do GDT eram os que tinham maior quantidade de pessoas suportivas em situações mais íntimas e demonstravam maior satisfação referente a elas. Por outro lado no GD, mesmo evidenciado uma boa satisfação com as pessoas suportivas, possivelmente, em certos momentos, os mesmos não tinham com quem conversar. O fato de eles indicarem que no microssistema o maior apoio era fornecido pelo cônjuge e, ainda, os filhos receberem vários tipos de atendimentos especializados, dentro ou fora da escola (mesossistema), sugere-se que os suportes sociais recebidos não eram suficientes, quando comparado ao GDT.
A falta de suporte social associada à sobrecarga materna devido às características dos filhos pode ocasionar em fatores psicossociais nas mesmas. Alguns autores salientam que não é a deficiência da criança que afeta negativamente o funcionamento da vida familiar, mas a ausência de estratégias efetivas de enfrentamento e recursos financeiros (TURNBULL; TURNBULL; 1990; DYSSON, 1997; LAMB; BILLINGS; 1997; TURNBULL et al., 2006; BUSCAGLIA, 2006). Para as famílias em que os filhos demonstraram indicativos de dificuldades esolares, essas informações não se diferem, pois segundo Amparo et al. (2008), a presença de apoio social e emocional favorece a resolução de problemas e a manutenção do desenvolvimento saudável de seus membros, inclusive para aqueles que vivem em ambientes desfavorecedores.
A Tabela 41 mostra se os pais/responsáveis dos três grupos tomavam decisões (escola, atendimento e situações diárias) em relação aos filhos, sozinhos ou com ajuda de alguém.
Tabela 41. Porcentagem da opinião dos pais/responsáveis sobre o apoio recebido nos momentos de tomar decisões em relação aos filhos: Análise do GD, GDA/PC e GDT
Apoio recebido nos momentos de tomar decisões em relação
à criança GD (N=27) (%) GDA/PC (N=30) (%) GDT (N=30) (%) Frases ilustrativas
Cônjuge 48,14 53,33 63,33 “É sempre com meu marido, ele me dá apoio em tudo, tem que ser assim” (GDT-P14) Sozinho(a) 40,74 33,33 16,66 “Sozinha, porque sou eu quem fica com ele o dia todo” (GD-P12) Avó/Avô 11,11 16,66 13,33 “Meus pais me ajudam, como eu moro com eles, sempre me dão conselhos, mas não é
fácil (GDA/PC-P15)
Tia 3,70 00 6,66 “Minha tia está sempre me aconselhando e me ajudando em tudo” (GDT-3) Irmã/Irmão 3,70 00 3,33 “Minha irmã mais velha faz tudo pela gente” (GDT-6)
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Os pais/responsáveis das crianças com desenvolvimento típico eram os que mais tomavam decisões junto aos cônjuges (63,3%), seguido pelos participantes do GDA/PC (53,3%). O estudo de Slack et al. (2011), mostra que quando há maior senso de autoeficácia paterna em relação ao filho, o comportamento dos mesmos na pré-escola pode ser positivo. Para Fantinato e Cia (2015), as habilidades sociais educativas paternas, associadas à relação conjugal, influenciam o repertório comportamental infantil. Sendo assim, acredita-se que o bom desempenho escolar e comportamental das crianças do GDT se relacionou, inclusive, com esses fatores. No caso do GDA/PC, provavelmente, o trabalho fora de casa pode ter refletido na tomada de decisões junto ao cônjuge.
As famílias cujos filhos tinham deficiência demonstraram que 48,1% tinham a participação do cônjuge, enquanto que 40,7% realizavam tudo sozinhas. Esses dados, talvez se relacionem com o fato das mães terem optado por não trabalharem e cuidarem, exclusivamente dos filhos, bem como o pai exercer atividade remunerada e passar a maior parte do dia fora de casa, impossibilitando de participação, conforme a frase ilustrativa:
“Sozinha, porque sou eu quem fica com ele o dia todo” (GD-P12).
Acredita-se que mesmo elas permanecendo o dia todo com o filho, se houvesse melhor planejamento sobre a função de cada um dentro do funcionamento familiar, seria possível que o pai participasse mais das decisões que envolvem o mesmo. No entanto, as participantes do GD não demonstraram necessidade sobre tal funcionamento, conforme os itens apresentados na Tabela 3, o que pode indicar que este talvez não fosse um fator negativo para elas.