• Sonuç bulunamadı

Preocupado com as invasões francesas que haviam dominado a Guanabara com a fundação em 1555 da França Antártica, Portugal organizou expedições para expulsar os franceses e fundar uma cidade fortificada que impedisse seu retorno.

Em 1565, Estácio de Sá, sobrinho de Mem de Sá, com ajuda dos índios chefiados pelo cacique Araribóia e reforços conseguidos em São Vicente, entra na barra da baía de Guanabara, desembarca na praia situada entre o morro Cara de Cão e a encosta do Pão de Açúcar, e faz a proclamação da fundação da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Dominada inteiramente a baía, Mem de Sá resolve transferir a cidade para uma posição estratégica mais favorável e que fosse mais acessível aos mananciais de águas potáveis. No morro de São Januário, depois denominado do Castelo, teve início a construção da nova cidade. O arraial primitivo passou a chamar-se Vila Velha.

Quatro morros demarcavam o perímetro urbano: Castelo, São Bento, Santo Antonio e Conceição.

A Prainha (atual praça Mauá), aberta para o mar entre o morro de São Bento e o morro da Conceição, vinha até as proximidades da atual Rua Visconde de Inhaúma. De outro lado, entre o morro do Castelo e o morro de Santa Teresa, a lagoa do Boqueirão, uma das maiores do Rio de Janeiro, abrangia toda a área atualmente ocupada pela Lapa, parte do Passeio Público e Praça Paris.

O saco de São Diogo, onde desaguavam os rios Maracanã, Comprido, Catumbi e outros, vinha até o antigo Campo do Patrimônio, onde surgiram, muito mais tarde, a Praça Onze e a Cidade Nova.

A lagoa da Sentinela abrangia a atual área limitada pelo Campo de Santana.

Nas proximidades da Praça Tiradentes, a lagoa da Pavuna, também chamada de Lampadosa, ia dos fundos da atual Igreja do Rosário, até a atual Avenida Passos.

As lagoas do Carmo e do Desterro, no largo da Carioca, quase unidas às lagoas do Boqueirão e da Pavuna, formavam nas suas margens um conjunto de terras empapadas, com pequenas áreas de chão enxuto. Numa dessas áreas, havia uma faixa de terreno de restinga que ligava o morro do Castelo ao morro de São Bento, com o mar à direita e os brejos à esquerda, que se converteu na primeira rua do

Rio de Janeiro: a Rua da Misericórdia ou Direita, atual Primeiro de Março, onde centralizou-se a administração, a vida religiosa e a comercial.

Dessa rua irradiaram-se ruas e quarteirões, que passaram a constituir o espaço urbano, e cujos traçados demonstram a luta contra os brejos e pântanos.

Logo após a fundação da cidade, visando à ocupação do território conquistado aos franceses e tamoios, são distribuídas sesmarias aos nobres, militares e jesuítas, loteando toda a região da Guanabara e dando início à colonização, que se fará basicamente, nos primeiros séculos, em torno da produção de açúcar.

Ao final do século XVI, conforme relatos dos jesuítas, as margens da Guanabara e todo o seu recôncavo já estavam ocupados, sendo 3850 os moradores da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro (três mil índios e mamelucos e 100 negros) e vinte mil os habitantes da baixada, com predomínio absoluto dos índios.15

Único acesso ao interior do recôncavo, os rios tiveram papel preponderante na ocupação da região e escoamento da produção do açúcar produzido nos engenhos, dando uma função portuária e comercial significativa à cidade do Rio de Janeiro, que tantos impactos ambientais negativos causaria à cidade ao longo dos séculos.

Estas são algumas das bases sobre as quais se estabeleceu a cidade do Rio de Janeiro. Bases frágeis e de instabilidade permanente, que atravessaram séculos materializando-se na busca incessante por água e espaço salubre, desde sempre, os principais obstáculos ao crescimento da cidade.

Mais precisamente a partir de 1850, com as restrições impostas ao tráfico negreiro, começam as alterações estruturais na cidade. O conflito ideológico entre os agentes do modo de produção escravista-mercantil e os agentes do modo de produção tipicamente capitalista,16 enseja um conjunto de planos urbanísticos reformistas e obras urbanas monumentais, visando ao rearranjo espacial da cidade.

15

ANCHIETA, José de. Carta escrita ao superior dos jesuítas na Bahia, padre Diogo Mirão, em 1585.

16

CASTRO, A.B. de. “A economia política, o capitalismo e a escravidão”. In: AMARAL LAPA, J.R. do. (org). Modos de produção e realidade brasileira. Petrópolis. Vozes. 1980. p.67-107.

Na cidade escravista-mercantil, conforme parecer técnico escrito por Paula Freitas no Instituto Politécnico em 1884,17 a questão ambiental consistiu basicamente em processos de ajustamento do crescimento urbano às possíveis ampliações do espaço, condizentes com o conhecimento técnico da época, e em processos de decisão individual ou coletiva, referentes à localização dos diferentes usos do espaço ocupado.

Nesse contexto, o acidente físico mais importante como elemento estruturador da cidade do Rio de Janeiro foi, e de certa forma continuou sendo até os dias atuais, o maciço da Tijuca. A cidade esteve a ele umbilicalmente ligada desde a sua fundação até fins do século XIX, devido à importância imperativa dos seus mananciais como única fonte de abastecimento de água. Devido à limitação de ordem tecnológica (e opção política em muitos casos), a cidade não podia expandir-se para muito além de suas encostas. Assim, ela cresceu linearmente, contornando o maciço, desmontando morros a ele alinhados, drenando e aterrando pântanos e brejos.

Já na cidade de perfil mercantil-industrial que se delineia a partir de 1870, a pressão da população sobre os recursos naturais se manifesta, entre outras formas, materializada na deficiência numérica de moradias para a classe pobre na proximidade do local de trabalho.

Tendo por base essa realidade, a questão ambiental se transforma em saneamento e combate às pestes, implicando em remodelação urbana e eliminação dos focos propagadores de doenças, dentre os quais se incluiam os casarões plurifamiliares da classe pobre (cortiços, tais como o cabeça-de- porco) realmente precários em suas condições de higiene.18

A questão ambiental assim concebida, viria encobrir a dimensão social do problema naquele momento, para cuja solução se organizou a campanha sanitarista, tendo por foco, a demolição dos velhos casarões e a instauração de um rígido código de posturas, como forma de combate institucional à antiga ordem dominante, responsável pela produção de um espaço onde cada vez mais concorriam interesses dos novos capitais ávidos por realizar altos lucros imobiliários, e desalojar os velhos especuladores (na sua maioria, grandes comerciantes portugueses da Praça de Comércio).

17

Revista do Instituto Politécnico Brasileiro. Rio de Janeiro. Lithografia & Typografia Leuzinger. 1900. p.77.

18

O Cabeça-de-Porco foi o maior cortiço carioca. Localizado na área portuária próxima ao morro da Providência, chegou a ter quatro mil pessoas residindo em seu terreno que teve proprietários ilustres, entre eles o Conde D’Eu. O terreno era ocupado por sobrados, térreos e quartos, cocheiras, galinheiros e um armazém. Sua última proprietária , uma portuguesa, recebeu polpuda indenização pela demolição. Seus ex-moradores, aproveitando as sobras da demolição, improvisaram no morro da Providência, o primeiro assentamento que ficaria conhecido como favela.

A campanha sanitarista então deflagrada, serviu de base para uma política urbana voltada para o embelezamento e valorização da cidade.

A preocupação com o controle do espaço urbano era explicável. Desde meados do século XIX a cidade do Rio de Janeiro vinha acumulando contradições em sua organização interna. A difusão das relações de trabalho do tipo assalariado, indicadoras da maior penetração do capital sobre o urbano, não fazia desaparecer a importante participação da mão-de-obra escrava na economia da cidade, e era continuamente posta em xeque pelas epidemias, que dizimavam principalmente a força de trabalho imigrante.

Por outro lado, a penetração maciça do capital estrangeiro, a partir da década de 1860, modernizava o setor de infra-estrutura urbana remanescente dos tempos antigos.

À rapidez do transporte de carga proporcionada pelas ferrovias, contrapunha-se toda uma estrutura portuária colonial, composta de trapiches localizados em locais distantes dos terminais ferroviários, e baseada num complexo sistema de transbordo de cargas (da ferrovia para carris e carroças; destes para os trapiches, dos trapiches aos navios ancorados ao largo por meio de chatas, saveiros, etc), que não só aumentava o tempo de circulação das mercadorias, com efeitos semelhantes sobre o ciclo do capital, como contribuía bastante para o congestionamento das ruas centrais.

Em nível da produção, as contradições também se faziam sentir. A introdução da máquina a vapor revolucionou uma série de atividades urbanas - especialmente a manufatureira - , porém, os requisitos de centralidade da maior parte das indústrias ainda eram grandes (importância da localização próxima aos trapiches/ferrovia; existência de infra-estrutura básica restrita à área central; proximidade da força de trabalho), fazendo com que se exacerbasse a contradição entre a necessidade de expansão por parte das indústrias e os obstáculos antepostos por uma área central densamente construída.

Também, em nível ideológico, as contradições existiam.19 O discurso de uma parte da elite e da classe média por ela influenciada, reclamava por uma nova capital, sem ruas estreitas e sombrias onde se misturavam usos e classes sociais diversos; onde o capitalista convivia com o operário; onde edifícios públicos e empresariais estavam ao lado de cortiços, e onde a ausência de obras monumentais lhe conferiam um status bem inferior a Buenos Aires, para com a qual já existia uma forte rivalidade.

19

Com o objetivo de atingir estas metas, procedeu-se à elaboração de um programa de reforma urbana. As reflexões de cunho urbanístico ocorriam acompanhando o processo de desenvolvimento das forças produtivas sob a dominação do capital, no qual a técnica era apenas um dos aspectos de um processo social que se ajustava a relações de produção determinadas, no caso, as relações sociais capitalistas.

Tais reflexões tiveram início em 1843, com o relatório do diretor de Obras Municipais, Henrique de Beaurepaire Rohan, e com os diversos relatórios de higiene pública, surgidos a partir de 1850. A seguir, tomaram forma preliminar na década de 1870, através de dois relatórios da Comissão de Melhoramentos para Cidade do Rio de Janeiro (que contou com a participação do futuro prefeito Pereira Passos), e continuaram com os pareceres técnicos do Instituto Politécnico, do Clube de Engenharia e com os trabalhos apresentados no I Congresso de Engenharia e Indústria realizado em 1900.

O programa reformístico, finalmente realizado na presidência de Rodrigues Alves (1902/ 1906), pelo prefeito Pereira Passos, possuía dois grandes eixos de sustentação: o controle da circulação e o controle urbanístico. É a partir da decisão tomada nestas duas áreas que todo o processo de transformação da cidade se irradia e seu significado deve ser entendido.

O controle da circulação visava a melhoria das comunicações externas e internas da cidade, e materializou-se na construção do novo porto do Rio de Janeiro e na abertura e alargamento de uma série de eixos viários internos, que não só modificaram os gradientes de acessibilidade de diversas partes da cidade, estimulando a desconcentração urbana, como solucionando o problema logístico do controle da área central.

O controle urbanístico, por seu lado, modernizou-se num amplo leque de leis, decretos, regulamentos, regimentos, editais e portarias que objetivavam o controle total da forma de habitar e do conjunto de “práticas econômicas, forma de lazer, costumes e hábitos profundamente arraigados no tecido social e cultural da cidade”20

20