O Sistema Mandala é uma técnica da agricultura permanente que busca a otimização no uso dos recursos disponíveis na propriedade e almeja o desenvolvimento de uma agricultura ecologicamente sustentável. O objetivo do sistema é o enfoque na produção sustentável e na organização dos agricultores, abrangendo os aspectos ambiental (uso racional dos recursos naturais), produtivo (diversificação de cultivos) e social (participação e
associativismo). Segundo a definição da Agência Mandala DHSA, precursora do sistema:
O Sistema Mandala de Produção, sua principal tecnologia, consiste em uma forma inovadora de produção agropecuária que integra diversas tecnologias sociais que possibilitam em pequenos espaços rurais e urbanos, em convivência harmônica com o meio ambiente, plantar sinergicamente frutas, verduras, tubérculos e hortaliças e ainda criar pequenos animais, alimentando uma família inteira e gerando excedentes que vendidos, podem constituir uma renda mensal de até dois mil reais (AGÊNCIA MANDALA, 2009)10
Nas comunidades rurais do Planalto, o Sistema Mandala surgiu para as famílias entrevistadas, a partir do Projeto Mandala. Esse projeto teve início por meio do convênio entre a ASPROHPEN, a Agência Mandala DHSA, o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE) e o Banco do Brasil. A primeira foi a estimuladora do projeto nas comunidades rurais do Planalto. A segunda foi responsável pela transferência de tecnologia, o terceiro financiou as capacitações, treinamentos e a assistência técnica. O último adequou uma linha de crédito do Pronaf para as famílias implantarem os Sistemas Mandala.
A princípio, outras entidades foram convidadas a participar do treinamento sobre o projeto, etapa inicial que exporia os objetivos e os
10 www.agenciamandalla.org.br
FIGURA11 - Irrigação no Sistema Mandala tradicional Fonte: Pesquisa de campo, julho de 2008.
fundamentos do sistema. No entanto, somente a Universidade Estadual de Montes Claros (UNIMONTES) e a Prefeitura Municipal mostraram interesse em participar. Mesmo assim, a ASPROHPEN achou interessante a proposta e resolveu assumir o projeto, cedeu local para o treinamento e forneceu estrutura para implantar a primeira mandala.
No treinamento, foi montada a mandala chamada “Mandala Escola”, construída pela Agência Mandala - agência de desenvolvimento, criada em 2003, na Paraíba, com o objetivo de difundir tecnologias alternativas de geração de renda, segurança alimentar e sustentabilidade ambiental aos agricultores familiares. A partir disso, os produtores interessados ingressaram no projeto.
Para a efetiva implantação do projeto, era necessário um montante de recurso distribuído para vários fins, como: montar o tanque de água, comprar sistema de irrigação, alocar horta, criar frango, gado, criar peixe, entre outros. Em nenhuma linha do Pronaf, isso é permitido, mas, partindo de uma negociação com o gerente regional do Banco do Brasil, houve um acordo entre o banco e a ASPROHPEN. Cada família teve acesso à linha de crédito, para implantar o Sistema Mandala, em sua propriedade.
Durante os três anos de duração do projeto (2005, 2006 e 2007), foram 63 beneficiários. Segundo o idealizador do projeto na região, cada Sistema Mandala é único e adaptado à realidade do agricultor. O sistema é aquele que vai baratear o custo inicial de produção e viabilizar o crescimento do produtor. Não há uma regra para quais linhas de produção será implantada no sistema.
O sistema busca agregar o que já existe na propriedade para aumentar a renda do produtor. O que se busca é a diversificação, para o aumento de renda em áreas pequenas. Como exemplo:
O Toni [agricultor associado à ASPROHPEN] só plantava tomate. Hoje continua plantando tomate, mas diversificou com outros cultivos, e produz leite. Ele percebeu que pode agregar valor à produção. Ele planta o tomate para dar na entressafra para ter melhor preço. Os pés de tomate hoje são fornecidos para alimentar as vacas, o que era problema para ele é fonte de renda hoje, é integrado. Antes não tinha vaca porque não tinha capim. A idéia é da integração...([EMILSOM, membro da ASPROHPEN e idealizador do projeto]).
Segundo o idealizador do projeto, o produtor tem que ser profissional, mas isso não significa que precisa ser grande para isso. Precisa ter produtividade e renda, tem que ter renda o ano todo, não somente na safra. “Ele ganha capacidade de negociar e se torna grande. O projeto visa isso., Com mais pessoas trabalhando juntas, se consegue ter acesso a técnicos, consegue ter poder político e ter médicos apoiando”.
O custo por família no projeto foi de R$5.000,00, em 2005. Foram beneficiadas 20 famílias. Com o custo de R$6.000,00, em 2006, foram beneficiadas 23 famílias. Por R$6.000,00, em 2007, foram beneficiadas mais 20 famílias. No total, foram investidos R$ 358.000,00, num projeto focado na alteração das bases produtivas dos agricultores na região.
Os resultados, segundo o idealizador do projeto, se refletem na venda da produção junto à CONAB, que, em 2006, foi de R$85.000,00, pois foram entregues 92.000 quilos de alimentos. Em 2007, entregaram-se 80.000 quilos que ainda não foram pagos. Ainda tem contrato de entrega em 2008 de mais 90.000 quilos de alimentos, recebendo por esse montante total (80.000 quilos + 90.000 quilos) R$ 427.000,00. Além disso, alguns produtores aumentaram a produção, outros aumentaram a área de produção, outros diminuíram a área, mas aumentaram a produção.
Outro exemplo é de um agricultor que deixou de fazer uma “molhação” para fazer irrigação, “mesmo usando cotonete”. “Antes, ele jogava uma bacia de água em cada cova de chuchu”. Uma bacia com 100 a 200 litros por cova, “afogava as plantas e a planta não utilizava”. O agricultor já utilizava microaspersor convencional em um hectare, mas não tinha recursos para ampliar para os 6 hectares que desejava. Assim, fez uso do cotonete para ampliar a área irrigada. Isso lhe garantiu economia no uso da água, de força de trabalho e de custo de produção. Antes dessa mudança, consumia uma caixa de 200 mil litros de água por dia e ainda não era suficiente. Atualmente, gasta 150 mil litros. Isso permitiu dobrar a sua área de plantio. Além disso, com o que sobra do plantio de chuchu, os meeiros engordam porcos, informa o idealizador e gestor do projeto.
O Projeto Mandala trouxe resultados positivos no manejo das unidades produtivas da base da ASPROHPEN. Houve adaptações e mudanças nas
formas de lidar com os insumos e com os resíduos da produção agrícola e a incorporação de técnicas de manejo ecológico. Agricultores iniciaram a produção de compostos orgânicos, para utilizar como adubo, a utilizar defensivos à base de receitas agroecológicas, a usar mais racionalmente e controladamente insumos químicos e utilizar com maior eficiência a água.
O objetivo principal do projeto foi o enfoque na produção, mas, durante a sua construção e execução, foram abordados aspectos ambientais, a partir de palestras, de visitas técnicas, de treinamentos (saber rural, administração). Alguns momentos envolveram a participação de órgãos ambientais do Estado, como Instituto Estadual de Florestas de Minas Gerais (IEF) e Instituto Mineiro de Gestão das Águas (IGAM), que trouxeram temas ligados à licença ambiental, à outorga de uso da água e à educação ambiental. A outorga de uso da água é um instrumento da Política Nacional de Recursos Hídricos que está sendo priorizado no estado de Minas Gerais para ser implementado. A região do Planalto, como comporta dezenas de produtores irrigantes, é região de atenção para esses órgãos.