Apesar das dificuldades relatadas durante o processo de capacitação nesta unidade do PSF, os componentes da equipe da unidade salientaram gostar de trabalhar juntos. Referiram que, muitas vezes, é essa afinidade entre eles que faz com que superem muitas das dificuldades vivenciadas no cotidiano. No entanto, mesmo gostando de trabalhar juntos, a maioria dos técnicos estava aguardando transferência para outro serviço em função de acreditarem que a unidade estava situada em local muito perigoso e ter uma população local muito difícil e agressiva.
Vasconcelos (2004) refere que a agressividade, o preconceito, as agressões físicas e as humilhações são deturpadoras da realidade, fecham canais de relacionamento e impedem o
desenvolvimento institucional. Essas agressões podem ser realizadas tanto pela população como pelos trabalhadores em saúde. Quando são por parte desses últimos, são extremamente perversas, pois geralmente são utilizadas com as pessoas que já estão bastante fragilizadas.
As falas da equipe se dividiram claramente entre o grupo dos técnicos e o dos agentes comunitários. Os técnicos relataram medo em relação aos usuários que freqüentavam a unidade, justificado em função de, em muitas situações, terem de realizar o atendimento a bandidos armados que os ameaçavam com revólver. Os agentes comunitários procuravam mostrar que os usuários apenas reagiam ao atendimento recebido, ou seja, quando se sentiam mal atendidos, agrediam a equipe, xingavam e brigavam dentro da unidade. Por viverem naquele meio e conhecerem a população local há muito tempo, não reconheciam que essas situações representavam perigo para a equipe. Mesmo assim, para que os técnicos tivessem mais tranqüilidade para trabalhar, eles se organizavam internamente para que sempre ficasse um deles dentro da unidade.
Durante os quatro primeiros encontros da capacitação o tema “relacionamento com a população” esteve presente, mesmo assim, não houve uma reflexão crítica sobre essa questão, pois ora a equipe colocava seus sentimentos de indignação pelo fato de ser agredida pelas pessoas que “ajudavam” ora ignorava que existissem quaisquer problemas de relacionamento. Em vários momentos, os agentes comunitários procuraram se expressar em relação ao assunto, mas os técnicos sequer ouviam as suas falas.
No estudo de Menegolla, Polleto e Krahl (2003), os agentes comunitários também relataram problemas em seu cotidiano de trabalho. Dentre eles, as autoras referiram a falta de diálogo entre os participantes da equipe, em especial, entre a equipe técnica e os agentes e acreditam que isso acontece em função dos trabalhadores técnicos acabarem formando uma cultura de concepções semelhantes que pode excluir e se sobrepor às demais.
Considero que o processo de capacitação desencadeado na unidade do PSF esteve relacionado a três questões. A primeira refere-se ao relacionamento interno da equipe. Mesmo procurando demonstrar que era coesa, percebi claramente uma divisão não só de forma de pensar, mas especialmente em relação ao espaço destinado a cada um dentro do trabalho. A coordenadora e a enfermeira mais antiga exerciam uma relação de poder sobre o restante do grupo, determinando quem tinha direito a voz e quem não deveria ser escutado. Esse poder era exercido de forma muito sutil e muito pouco perceptível. No entanto, ficava mais evidente quando havia um acirramento de posições nas poucas discussões que o grupo se propôs a fazer. Em vários momentos os agentes comunitários procuraram descaracterizar algumas das falas dos técnicos, mas não houve nenhum espaço para discussão.
A segunda questão está relacionada ao papel da gerência local, que deveria ter participado de todo o processo e dado respaldo político e institucional para que ele acontecesse. Ela não se fez presente na maioria dos encontros e quando esteve, sua participação era muito pouco efetiva. Nos momentos mais importantes do grupo, ela esteve ausente. Acredito isso tenha determinado que a equipe local se sentisse insegura com a presença da equipe da EEV/CGVS, não conseguisse entender o trabalho que estava sendo realizado e não quisesse discutir suas dificuldades.
A terceira questão foi a participação da gerência distrital, que somente se fez presente nos momentos de crise do grupo e ao invés de respaldar o trabalho, acabou por se aliar à fala da equipe local, desqualificando o trabalho que estava sendo desenvolvido e afirmando que os objetivos das discussões estavam sendo desviados uma vez que o propósito do trabalho era outro.
Por um lado, a gerência distrital desqualificou o trabalho de capacitação realizado, por outro, não se dispôs a desencadear a reflexão sobre o processo de trabalho desenvolvido dentro da unidade do PSF. Apoiou a equipe local nas dificuldades em relação à população, mandando a guarda municipal durante dois ou três dias para escoltá-la durante a realização de seu trabalho. No entanto, não possibilitou uma reflexão crítica sobre as dificuldades enfrentadas. Faltou um maior envolvimento da GD com os problemas internos da equipe local, que deveria ter sido ajudada desde o momento em que iniciaram os problemas. Obviamente eles não começaram com a capacitação, essa somente possibilitou a sua explicitação e fez com que a coordenação distrital tivesse que olhá-los.
Subutzki e Canete (2004) enfatizam a necessidade de se proporcionar mais atenção aos cuidadores que devem ser estimulados a falar de seus conflitos, suas dificuldades, limitações, alegrias e conquistas. Para que isso aconteça, é fundamental que as instituições promovam encontros onde possam olhar uns para os outros, perceber as suas dificuldades e entender que elas são compartilhadas por outras pessoas que exercem atividades semelhantes. Pensar sobre o trabalho, suas dificuldades e potencialidades ajuda no desenvolvimento de mais cooperação e integração entre as equipes. Nesse sentido, a humanização nas instituições de saúde deve, necessariamente, passar pela comunicação da palavra, do gesto, do olhar e esse é um processo que só acontecerá na medida em que as pessoas assim o desejarem. O papel das gerências será o de criar condições para que seus trabalhadores se motivem para esse tipo de proposta.
A capacitação da unidade do PSF propôs que se fizesse essa reflexão e se propiciasse à equipe olhar para o seu trabalho, questioná-lo e melhorá-lo. Inicialmente, teve o apoio institucional necessário ao seu desenvolvimento. No entanto, assim que a capacitação
começou a ser desenvolvida a própria coordenação local já havia mudado e a nova coordenadora sequer havia entendido a proposta de trabalho e, em nenhum momento, desejou apreendê-la. Isso fez com que todo o processo perdesse legitimidade e acabasse por ser uma “proposta de faz de conta”.