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5. SONUÇ VE ÖNERİLER

5.2. Yeraltısu Kalitesi Durumu

Para os fins a que se destina este trabalho, a Teoria do Enunciado, baseada na natureza dialógica da linguagem proposta por Bakhtin (1981, 1986, 2003), e o modelo de análise do

Discurso102 de Paul Gee (1999), que enfoca os modelos culturais de dada sociedade, foram tomados como base de análise da estrutura lingüístico-discursiva das narrativas.

Bakhtin (2003, p. 274) define enunciado como “real unidade da comunicação discursiva”. Para explicar seu argumento, o autor estabelece a diferença entre oração – unidade da língua e enunciado – unidade da comunicação discursiva. A oração é concluída nos limites da gramática, já o enunciado os ultrapassa. Bakhtin apresenta três peculiaridades do enunciado que o

distinguem da oração.

O primeiro deles é a alternância dos sujeitos no discurso, isto é, todo enunciado parte de um falante que o emite a um ouvinte, com uma intenção específica e esperando uma atitude responsiva por parte do segundo, ainda que esse último esteja ausente do ato comunicativo e seja

apenas imaginário. Por sua vez, o ouvinte não assume uma posição passiva, ao contrário, ainda que em silêncio, assume uma atitude responsiva em relação ao enunciado emitido: ele concorda com ele, discorda dele, reage a ele. Essa reação pode ser imediata e perceptível pela fala

pronunciada, ou pode ser retardada – o que o autor chama de “compreensão responsiva de efeito retardado”. Nesse caso, a reação responsiva do ouvinte se manifesta posteriormente nos discursos subseqüentes ou no comportamento do ouvinte a posteriori. Para Bakhtin (2003, p. 272), “os gêneros da complexa comunicação cultural, na maioria dos casos, foram concebidos

precisamente para essa compreensão ativamente responsiva de efeito retardado [...]. Cada enunciado é um elo na corrente complexamente organizada de outros enunciados”.

A segunda peculiaridade dos enunciados, e que guarda extrema relação com a primeira, é a conclusibilidade, ou seja, o caráter conclusivo de um enunciado - sua inteireza - o que assegura

102 Gee (1999, p. 6-7) distingue discurso (com d minúsculo) de Discurso (com D maiúsculo). O primeiro, segundo o

autor, se refere aos recursos lingüísticos usados pelo indivíduo para atuar e significar o mundo e a si mesmo no mundo. Já o segundo, amplia o conceito de discurso para englobar os recursos não-lingüísticos, semióticos e os artefatos culturais, que também são utilizados para comunicar, agir e significar.

a possibilidade de resposta, seja através de uma réplica, ação, questionamento ou polemização. Assim sendo, ela é composta por três elementos: a exauribilidade semântico-objetal (o

acabamento do enunciado em dado momento, de acordo com a intenção do autor), vontade discursiva do falante (momento subjetivo do enunciado: a vontade individual do falante; a escolha do objeto e sua exauribilidade semântico-objetal) e formas estáveis de gênero do

enunciado. Esse terceiro elemento é também a terceira peculiaridade do enunciado. A vontade

discursiva do falante (segundo elemento) só se manifesta na escolha de um determinado gênero. Ainda que esse falante povoe seu enunciado com marcas de sua subjetividade representadas pela entonação e escolha semântica, esse enunciado é expresso dentro de um gênero específico que o precede, que não foi “criado” por ele, mas lhe foi dado, assim como sua língua materna. A

comunicação humana é feita via gêneros e, segundo o autor, é justamente essa peculiaridade do enunciado discursivo que garante o entendimento mútuo.

Seguindo a orientação Bakhtiniana, tanto os excertos quanto as narrativas completas deste

trabalho foram tomados como enunciados e foram analisados procurando-se identificar as peculiaridades do discurso propostas pelo autor. A forma pela qual foi possível partir da estrutura lingüística das narrativas para se chegar às macroestruturas sociais que contribuíram para a formação das vozes dos narradores foi a aplicação do modelo de análise do discurso de Paul Gee

(1999).

Assim como Bakhtin, a proposta de Gee está vinculada ao conceito de língua como atividade social e pertencimento cultural. O autor enfatiza os significados situados e os modelos culturais que determinam e são determinados pelo uso da linguagem. Por significados situados, o

autor toma aqueles significados das palavras e frases que só podem ser inferidos a partir do contexto de uso da língua; um mesmo léxico tem um significado em um contexto e não em outro, para um grupo social e não para outro. Nesse sentido, o significado das palavras reside nas

práticas socioculturais e é continuamente modificado por elas. Assim como propõe Bakhtin (1981, p. 293) :

[...] não há palavras e formas ‘neutras’103 – palavras e formas que não pertencem a

ninguém; a língua foi tomada completamente, está carregada de intenções e entonações. Para cada consciência individual vivendo nela, a língua não é um sistema abstrato de formas normativas, mas, sim, uma concepção concreta e carregada da heteroglóssia do mundo. Todas as palavras têm o ‘gosto’ de uma profissão, um gênero, uma tendência, um partido, um trabalho particular, uma pessoa particular, uma geração, um grupo de idade, o dia e a hora. Cada palavra tem o gosto do contexto e contextos nos quais ela viveu sua vida social; todas as palavras e estruturas são povoadas de intenções104.

Já os modelos culturais são definidos por Gee como imagens, histórias ou descrições de mundos simplificados nas quais eventos prototípicos são desvendados. Tais modelos são constituídos por um conjunto de pressupostos culturais e sociais que envolvem formas

apropriadas, típicas e/ou normais de agir e, devido a isso, são essencialmente políticos105. Esses modelos são importantes, segundo o autor, porque fazem a mediação entre os níveis: micro, que se refere às interações imediatas; e macro, referente às instituições sociais, além de projetarem nossos pontos de vista sobre o que é certo ou errado e o que pode ou não pode ser feito no

mundo, a partir de onde estamos situados.

Os modelos culturais são variáveis e diferem entre sociedades, podendo diferir até mesmo entre grupos em uma mesma sociedade. Em decorrência disso, podem incorporar valores sociais e culturais divergentes e conflitantes. Como variam de acordo com as experiências e como essas

103 Aspas do autor.

104 “[…]there are no ‘neutral’ words and forms – words and forms that can belong to ‘no one’; language has been

completely taken over, shot through with intentions and accents. For any individual consciousness living in it, language is not an abstract system of normative forms but rather a concrete heteroglot conception of the world. All words have the ‘taste’ of a profession, a genre, a tendency, a party, a particular work, a particular person, a generation, an age group, the day and hour. Each word tastes of the context and contexts in which it has lived its socially charged life; all words and forms are populated by intentions” (BAKHTIN, 1981, p. 293).

105 O termo “político” para Gee envolve conceitos de poder, status e conhecimento: quais os bens, que tipo de

conhecimento e postura são valorizados em dada sociedade e como o acesso a esses bens culturais contribui para a exclusão social de grupos minoritários que não se enquadram aos grupos hegemônicos.

são situadas, logo, os modelos culturais também são situados e relacionados a classes sociais específicas e a outras afiliações socioculturais.

Com relação a nossas afiliações culturais, Gee observa que todas as línguas são compostas de diversas linguagens sociais associadas a grupos sociais específicos. Cada uma dessas linguagens usa de recursos gramaticais específicos para realizar as tarefas constitutivas da língua que serão descritas mais adiante.

Com base nessas reflexões, Gee enfatiza a importância dos modelos culturais como ferramentas de pesquisa: a análise do discurso pode nos levar a esses modelos, uma vez que nos permite navegar entre língua e sociedade, de forma que, partindo da análise lingüística, seja possível acessar o contexto sociocultural que contribui para a formação dos enunciados e do

indivíduo entendido como socialmente constituído.

No modelo de Gee, o autor também opta por usar o termo situação e não contexto. No entanto, a opção não é apenas uma mera substituição de termos. Ao usar o termo situação, Gee

amplia o conceito de contexto que originalmente nos remete a algo fixo, já previamente construído e associado a um lugar específico, para re-significá-lo, incorporando a ele outros aspectos, tais como o aspecto semiótico: o sistema de signos a que um indivíduo tem acesso e que tem diferentes implicações para o que é tomado como “realidade”; o aspecto da atividade:

as atividades sociais específicas nas quais os indivíduos estão engajados106; o aspecto material: local, hora, corpos e objetos presentes na interação; o aspecto político: a distribuição dos bens sociais (poder, status e outros) na interação, feita em termos dos modelos culturais e Discursos de

106 Essas atividades são tomadas por Gee, no sentido proposto na Teoria da Atividade, desenvolvida por autores

como Engestrom (1987) e Leontiev (1978, 1981). Nessa teoria, os autores enfatizam que atividade não é apenas fazer alguma coisa, mas fazer alguma coisa motivada por uma necessidade biológica ou uma necessidade culturalmente construída. Essas necessidades se tornam motivos para agir. Os motivos só são realizados em determinadas ações direcionadas a um objetivo específico, situadas sócio-historicamente e mediadas por artefatos culturais. Sendo assim, uma mesma atividade pode estar atrelada a diferentes motivos, assim como um mesmo motivo pode gerar diferentes atividades.

dada sociedade e o aspecto sociocultural: as relações, identidades, valores, sentimentos e conhecimentos pessoais, sociais e culturais que são relevantes na interação. Para Gee, esses cinco

aspectos mencionados formam um sistema, ou seja, uma rede interligada, em que cada um dos componentes simultaneamente significa e adquire significado a partir dos outros. Segundo o autor, “todos os elementos na rede da situação são como fios conectados; se você puxa um, você pega todos os outros”107. O que a citação de Gee quer dizer é que não importa por quais

elementos comecemos a análise; ao final, conseguiremos chegar a todos os outros. Sendo assim, a análise lingüística nos leva aos outros elementos. Gee observa que os enunciados são feitos de sinais ou pistas sobre como se mover entre língua e contexto (situações). Essas pistas lingüísticas e semióticas (não-lingüísticas) servem para nos guiar pelos seis tipos de tarefas constitutivas da

língua, que são listadas por Gee (p. 85–86):

1. Construção semiótica: uso de sinais e pistas para construir determinados significados situados sobre quais sistemas semióticos são ativados e quais são relevantes para o momento e localização presentes.

2. Construção lexical: uso de pistas e sinais para construir significados situados sobre o que se entende por ser “realidade” na situação presente; o que no presente momento é tido como presente e ausente, concreto e abstrato, real e irreal, provável, possível e impossível.

3. Construção de atividade: uso de pistas e sinais para construir significado situado sobre que atividade ou atividades (compostas de que ações específicas) estão em progresso no presente momento.

4. Construção de identidades e relações socioculturais situadas: uso de sinais ou pistas para construir significado situado sobre quais identidade e relações são relevantes para a interação, com suas respectivas atitudes, valores, formas de sentir, formas de saber e acreditar assim como formas de agir e interagir.

5. Construção política: uso de pistas ou sinais para construir a natureza e relevância de vários “bens sociais”, tais como status e poder, e qualquer outra coisa tida como bem social aqui e agora.

6. Construção de conexão: uso de pistas e sinais para fazer presunções sobre como o passado e futuro de uma interação, verbal e não-verbal, estão conectados ao presente momento e entre si; afinal de contas, interações sempre têm algum grau de coerência contínua (GEE, 1999, p. 85-86)108

107 Gee (1999, p. 84): “All of the elements in the situation network are like connected threads; if you pull on one you

get all the others”.

Diferentes recursos gramaticais contribuem de forma diferente para essas seis tarefas e para a construção de significados situados que constroem a situação de determinadas formas e

não de outras. Por sua vez, os significados situados ativam certos modelos culturais e não outros. Nesse sentido, a gramática tem uma função semântica.

Diante dessas reflexões, Gee (p. 88) observa que a análise do discurso deve se pautar pelos “detalhes” da fala e da escrita que são relevantes para a situação e para os argumentos do

pesquisador. Esses detalhes a serem enfocados são também escolhas teóricas e não estão fora da análise; ao contrário, são parte dela. Segundo o autor (p. 92-97), uma análise do discurso deve questionar sobre a forma como a língua, situada sócio-historicamente, é usada para construir os aspectos da rede de situação ao mesmo tempo em que é significada por ela. Para tanto, apresenta

dezoito perguntas que deveriam ser feitas de forma a acessar as seis tarefas constitutivas da língua e assim mover a pesquisa da língua para o contexto cultural e vice-versa109 (GEE, 1999, p. 92-94):

Construção semiótica

1. Que sistemas de signos são relevantes (ou irrelevantes) na situação (exemplo: fala, escrita, imagens e gestos)? Como eles são construídos para serem relevantes (e irrelevantes)?

2. Que sistemas de conhecimento e formas de saber são relevantes (e irrelevantes) na situação? Como eles são construídos para serem relevantes (e irrelevantes)?

3. Que linguagens sociais são relevantes (e irrelevantes) na situação? Como elas são construídas para serem relevantes (e irrelevantes)?

Contrução lexical

4. Quais são os significados situados de algumas palavras e frases que são importantes na situação?

5. Quais significados situados e valores parecem estar associados a lugares, tempos, corpos, objetos, artefatos e instituições relevantes nesta situação?

6. Que modelos culturais e redes de modelos (modelos macros) parecem estar em ação, conectando e integrando esses significados situados uns aos outros?

7. Que instituições e/ou Discursos estão sendo (re)produzidos nesta situação e como eles estão sendo estabilizados e transformados no ato comunicativo?

Construção de atividade

8. Qual é a atividade maior ou mais importante (ou conjunto de atividades) acontecendo na situação?

9. Quais subatividades compõem esta atividade (ou atividades)?

10. Que ações (voltando ao nível de coisas como “pedidos por motivos”) compõem essas subatividades e atividades?

Construção de identidades e relações socioculturais situadas

11. Que relações e identidades (papéis, posições), com seus concomitantes conhecimentos e crenças (cognição) pessoais, sociais e culturais, sentimentos (afeto) e valores parecem ser relevantes para a situação?

12. Como essas relações e identidades são estabilizadas ou transformadas na situação? 13. Em termos de identidades, atividades e relações, que Discursos são relevantes (e

irrelevantes) na situação? Como eles são construídos para serem relevantes (e irrelevantes)?

Construção política

14. Que bens sociais (ex. status, poder, aspectos de gênero, raça, classe ou identidades e redes sociais, mais minuciosamente definidas) são relevantes (e irrelevantes) na situação? Como eles são construídos para serem relevantes (e irrelevantes)?

15. Como esses bens sociais estão associados a modelos culturais e Discursos operando na situação?

Construção de conexão

16. Que tipos de conexões são feitas entre e ao longo dos enunciados e trechos mais amplos da interação e vice-versa?

17. Que tipos de conexões são feitas com interações prévias e futuras, com outras pessoas, idéias, textos, coisas, instituições e Discursos fora da situação presente (isto tem a ver com “intertextualidade” e “inter-Discursividade”)?

18. Como que as conexões de ambos os tipos descritos em 16 e 17 ajudam (juntamente com os significados situados e modelos culturais) a constituir “coerência” e que tipo de “coerência” na situação?

Para responder a tais perguntas, Gee sugere que o primeiro passo deva ser encontrar algumas palavras-chave e frases nos dados para procurar por significados situados e linguagens

sociais. Em seguida, o pesquisador deve observar os detalhes lingüísticos110 de forma a poder identificar a forma como os significados situados, modelos culturais, atividades sociais, identidades sócio-situadas, linguagens sociais e discursos estão sendo construídos, encenados ou

110 Por detalhes lingüísticos, o autor se refere às palavras funcionais (preposições e conjunções) que, uma vez

responsáveis pela coesão e coerência do discurso, conduzem os significados em determinadas direções e não em outras, possibilitando o acesso às tarefas constitutivas da língua em determinadas perspectivas e não outras.

reconhecidos nos dados. Para tanto, o autor sugere usar a estrutura da língua para tentar responder às dezoito perguntas propostas. Baseando-se nos significados e temas emergentes das

combinações lingüísticas, o pesquisador deve se remeter ao contexto sócio-histórico dos dados. O próximo passo é organizar a análise de forma que o material dialogue ou ilumine os temas, questões e pontos propostos. Para a consistência teórica e empírica dos argumentos apresentados, o autor observa que o pesquisador deve se valer da variedade dos detalhes lingüísticos e tentar

atingir senão todos, pelo menos, diferentes aspectos emergentes nas diferentes tarefas constitutivas da língua, mencionadas anteriormente. Finalmente, o pesquisador deve tentar estender sua análise a outras partes de seus próprios dados ou de novas fontes de dados que se relacionem com os seus para assegurar a validade da análise desenvolvida.

Tomando a proposta de Gee, a análise lingüística desenvolvida neste trabalho relacionou tanto palavras com conteúdo semântico: verbos e substantivos (que evocaram, respectivamente, ações e instituições sociais) como palavras funcionais (elementos de ligação: preposições e

conjunções que dirigiram a interpretação do signifcado em determinadas direções e não em outras) para identificar os padrões de significado construídos nos contextos narrados. A partir da identificação dos significados situados, passei ao questionamento sobre que ideologias e discursos foram significativos na formação das vozes dos narradores e como a interação desses

narradores com seus contextos sócio-históricos, com as idelologias naturalizadas em suas sociedades e com os “outros” participantes de suas histórias contribuiu, primeiramente, para o processo de emergência e reconstrução identitária e, finalmente, para o processo de aprendizagem de inglês. Procurei responder às dezoito perguntas propostas por Gee, embora nem todas as

perguntas tenham sido respondidas em todas as análises realizadas. Para cada análise foram respondidas as perguntas cujas respostas puderam ser sustentadas pelos dados.

Na análise categórica, houve um foco maior nos recursos lingüísticos usados pelos narradores para construírem seus significados, enquanto na análise holística, o conteúdo dos fatos

narrados foi mais enfocado do que os detalhes lingüísticos. Além disso, nesse segundo tipo de análise, procurei refletir também sobre os recursos não-lingüísticos (gravuras, documentos e outros) presentes nas narrativas, na tentativa de compreensão dos significados simbólicos desses artefatos culturais acionados no discurso dos narradores e da forma como contribuíram para o

entendimento da inteiração entre os processos de construção identitária e aprendizagem de línguas.

Benzer Belgeler