A obra de Perrault, publicada originalmente em Paris, França, em 1697, chega ao Brasil em um período marcado pela incipiência editorial. Boa parte da literatura que circulava em território nacional durante o período imperial era trazida no idioma dos países de origem. O caso não poderia ser diferente em relação à literatura infantil, que, somente mais tarde, receberia incentivos editoriais48. Segundo Lajolo e Zilberman (2006, p. 29), foi “nas duas últimas décadas do século passado que se multiplicaram as traduções e adaptações de obras infantis; antes de 1880, circulavam no Brasil, aparentemente, apenas as traduções do (...) Cônego (Chrristoph) Von Schmid”.
A primeira edição de Les Contes de Perrault de que se tem notícia e registro público no Brasil é datada de 1880. Durante a pesquisa, foram encontrados três exemplares da obra, sendo duas edições de 1880 e a terceira, de 1883. Uma delas, de 1880, encontra-se
disponível na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro; as demais, de 1880 e 1883 pertencem ao acervo de Obras Raras da Biblioteca Pública Estadual de Minas Gerais “Luiz de Bessa”.
Antes mesmo de recorrermos aos textos verbais de Perrault ilustrados por Doré, importa considerar que o próprio histórico do período em questão, final do século XIX, nos aponta indícios de uma infância pretendida para essa leitura. A sociedade marcada pela ascendência da classe média urbana primava, dentre outras coisas, por novas oportunidades educacionais para a infância no país. De acordo com Zilberman,
(...) Essa classe média responsabiliza-se doravante pelas mudanças ocorridas no país e, em nome dela revoluções, avanços e retrocessos acontecem. O aparecimento dos primeiros livros para crianças incorporam-se a esse processo, porque atende às solicitações indiretamente formuladas pelo grupo social emergente. (ZILBERMAN, 2005, p. 15).
Vemos aqui um primeiro retrato de endereçamento das obras literárias infantis no Brasil: a criança urbana de classe média e com acesso à educação (escolar ou não). Além disso, devemos considerar que uma obra escrita em francês requer maior conhecimento linguístico do leitor. Esse não era o caso das camadas sociais menos favorecidas economicamente no Brasil oitocentista, que somava números exorbitantes de analfabetos, conforme dados de Carvalho (2003, p. 79), que afirma que no “Brasil Imperial (...) a educação era a marca distintiva da elite (...). Havia um verdadeiro abismo entre essa elite e o grosso da população em termos educacionais”.
Esse dado nos remete igualmente à reflexão sobre o leitor, não um leitor empírico, como haveríamos de presumir, mas um leitor-modelo pensado no período em que a obra se fez circular no país.
Inicialmente, se considerarmos a infância como um período de aprendizagem, apropriação e acomodação da língua materna, seremos levados a crer que o leitor potencial de Les Contes de Perrault seria um adulto mediador, e a criança, o ouvinte, que, de qualquer forma, participa do processo de leitura e compartilha dos discursos a ela dirigidos a partir da literatura.
Portanto, partiremos para a análise do discurso literário do texto-base, Le Petit Chaperon Rouge49, presente na coletânea Les Contes de Perrault, apoiando-nos em sua versão traduzida para o português e editada pela editora Itatiaia em 198950.
O conto Chapeuzinho Vermelho (Le Petit Chaperon Rouge) de Perrault, inicia-se a partir da voz enunciativa do narrador (V1), que apresenta a menina e sua relação afetiva com a mãe e a avó:
Era uma vez uma menina que vivia numa aldeia e era a coisa mais linda que se podia imaginar. Sua mãe era louca por ela, e a avó mais louca ainda.
“Sua mãe era louca por ela, e a avó mais louca ainda”. Esse discurso referencial ao sentimento de carinho pela criança surgiu no final do século XVI e tornou-se bastante recorrente e disseminado ao longo do tempo. De acordo com Ariès (1960/2006), esse sentimento é marcado pela estruturação da família enquanto núcleo privado de sociabilidade e de demarcação de valores. Essa nova configuração de família, reforçada em “V1” na abertura do conto nasce e se desenvolve a partir do período quinhentista, momento de profundas transformações ocasionadas, em grande parte, pelas mudanças nas formas de relacionamento com as crianças. As antigas formas de socialização humana eram vividas em público, “(...) as pessoas viviam misturadas umas com as outras, senhores e criados, crianças e adultos, em casas permanentemente abertas às indiscrições dos visitantes”. (ARIÈS, 2006, p. 190-191). Paulatinamente, a família começa a despontar como espaço de grande relevância social e referência individual. Muito mais que uma forma de sociabilidade privada, a família passa a ser constituída como espaço de desenvolvimento e cultivo de emoções e sentimentos, atravessado por Formações Discursivas específicas veiculadoras de discursos que perpassam os âmbitos cultural, histórico, religioso e até mesmo político, já que essa forma reservada de interação humana muda por completo toda a lógica social estruturada até então.
Na sequência, “V1” informa que a boa velhinha mandou fazer para ela um chapeuzinho vermelho, e esse chapéu lhe assentou tão bem que a menina passou a ser chamada por todo mundo de Chapeuzinho Vermelho. [Grifo nosso].
49 O texto original em francês encontra-se disponível para consulta no Anexo VI.
A avó de Chapeuzinho é uma boa velhinha, adjetivação que povoa nosso imaginário no que se refere a avós, já que as velhinhas malvadas dos contos infantis são, em geral, bruxas e feiticeiras. Há de se supor que o leitor, mediante tais informações, se comova com tamanho amor e cuidados com que é cercada a menina, e dessa forma, efeitos de enunciação podem sugerir que Chapeuzinho deva retribuir tais favores, e este é o viés narrativo da continuidade do conto. Além disso, “V1” tende a projetar para o leitor/ouvinte desse enunciado os valores nele imbricados.
Dessa maneira, “V1” continua: Um dia, sua mãe, tendo feito alguns bolos, disse- lhe: propiciando a entrada da voz enunciativa da mãe de Chapeuzinho (V5): "Vá ver como está passando a sua avó, pois fiquei sabendo que ela está um pouco adoentada. Leve-lhe um bolo e este potezinho de manteiga.” [Grifos nossos]. Ao saber que a avó de Chapeuzinho se se encontrava adoentada, a mãe da menina lhe manda ir vê-la e levar-lhe bolo e manteiga. “V5” é uma voz de autoridade, como pode ser notado pelas expressões imperativas "Vá ver” e “Leve-lhe”. Os favores são ordenados e não pedidos, tal qual o Discurso Pedagógico recorrente no período, que tratava a criança quase que de forma assujeitada, respondendo por uma representação de infância idealizada como respeitadora, obediente e, sob nenhuma hipótese, contestadora.
Para Souza (2002, p. 250-251), “essa literatura pedagógica difunde um discurso de dominação, prescreve valores, veicula modelos e vê a criança como um receptor passivo diante do texto ficcional”. Segundo a autora, a literatura infantil é tradicionalmente utilizada para propagar saberes e comportamentos através do fazer literário e utiliza um discurso que busca debelar o leitor criança e ensiná-lo moralmente, fazendo com que a literatura constitua pano de fundo para aprendizagens diversas.
Perceberemos mais adiante que, nessa versão do conto, Chapeuzinho jamais contesta ou desobedece ordens e instruções explícitas e, no entanto, é severamente punida devido à sua ingenuidade e inocência. Bernstein (1996), afirma que o discurso pedagógico também é um conjunto de regras que não necessariamente, precisa estar organizado em conteúdos a serem formalmente transmitidos; na verdade, o discurso pedagógico é um princípio de recontextualização de outros discursos que serão seletivamente transmitidos e adquiridos. Nesse processo, o discurso pedagógico é o princípio que regula a incorporação de um discurso instrucional em um discurso regulativo (discurso da moral e da transmissão de valores). O conto Chapeuzinho Vermelho de Perrault, apesar de não apresentar instruções
explícitas de comportamento por meio da voz enunciativa da mãe, como ocorre em Grimm, deixa claro que a quebra de padrões socialmente aceitos e desejáveis pode acarretar graves consequências.
O encontro da garota com o lobo na floresta e seu primeiro diálogo, a caminho da casa da avó, é narrado por “V1” no seguinte trecho:
Chapeuzinho Vermelho partiu logo para a casa da avó, que morava numa aldeia vizinha. Ao atravessar a floresta, ela encontrou o Sr. Lobo, que ficou louco de vontade de comê-la, não ousou fazer isso, porém, por causa da presença de alguns lenhadores na floresta. Perguntou a ela aonde ia, e a pobre menina, que ignorava ser perigoso parar para conversar com um lobo, respondeu (...).
“V1” localiza a casa da avó e o trajeto da menina para o leitor, da mesma forma que o situa sobre a intenção premeditada do lobo de devorá-la: “Ao atravessar a floresta, ela encontrou o Sr. Lobo, que ficou louco de vontade de comê-la;”. Aqui o caráter do lobo é moldado e definido. Afinal, qualquer um que deseje devorar viva uma criança inocente e solícita, certamente é Mau e inescrupuloso, ao que “V1” reforça: “não ousou fazer isso, porém, por causa da presença de alguns lenhadores na floresta”, ou seja, a menina não foi devorada na floresta apenas porque havia lenhadores por perto. Dessa forma, os efeitos de sentido produzidos por “V1” levam a supor que a mensagem do conto também pode estar sendo dirigida a homens adultos representados na figura do lobo, para que não se aventurem em perseguir “mocinhas” às vistas e aos ouvidos de outros homens, neste caso, lenhadores (de vozes silenciadas – “V6”). A narrativa continua e oferece uma informação valiosa: “Perguntou a ela aonde ia, e a pobre menina, que ignorava ser perigoso parar para conversar com um lobo, respondeu: (...)” [Grifo nosso]. A ignorância de Chapeuzinho é a causa de toda problemática do conto, situação que a classifica como uma “pobre menina”.
Os efeitos de sentido do enunciado sugerem uma advertência sobre a questão da inocência infantil que parece natural da tenra idade e, portanto, essa infância deve ser instruída e supervisionada. Provas da ingenuidade da protagonista surgem ainda mais evidentes quando “V1” entrega a voz do enunciado a “V2” e “V3” (Voz enunciativa de Chapeuzinho Vermelho e do Lobo, respectivamente):
“Vou à casa da minha avó para levar-lhe um bolo e um potezinho de manteiga que mamãe mandou.” “Ela mora muito longe?”, quis saber o Lobo. “Mora, sim!”, falou Chapeuzinho Vermelho. “Mora depois daquele moinho que se avista lá longe, muito longe, na primeira casa da aldeia”. “Muito bem!”, disse o Lobo, “eu também vou visitá-la. Eu sigo por este caminho aqui, e você, por aquele lá. Vamos ver quem chega primeiro”.
“V2” revela, sem acanhamento, seu paradeiro, indicando a localização exata da casa da avó e seu propósito de levar-lhe um bolo e um pote de manteiga enviados pela mãe. “V3”, percebendo a suscetibilidade da menina, lhe extrai de forma perspicaz mais informações, demonstrando a intenção de também ir visitá-la. Nesse trecho, os discursos veiculados por “V2” e “V3” apontam para características interessantes das personagens, a criança inocente ludibriada pelo Lobo astuto. Os efeitos de sentido do enunciado, que são, de certa forma, confirmados na apresentação de uma moral da história por “V1” ao final do conto, sugerem, antecipadamente, o tipo de lobo e de Chapeuzinho inseridos metaforicamente na narrativa, características que podem passar despercebidas neste ponto do enunciado e apenas serem resgatadas na moral, que explicita a associação entre o lobo e o homem, e entre a Chapeuzinho e jovens donzelas inocentes.
A imprudência infantil continua em evidência na passagem que se segue na voz de “V1”:
O lobo saiu correndo a toda velocidade pelo caminho mais curto, enquanto a menina seguia pelo caminho mais longo, distraindo-se a colher avelãs, a correr atrás das borboletas e a fazer um buquê com as florezinhas que ia encontrando.
Aqui, ao passo que o lobo segue ligeiro em direção à casa da avó, Chapeuzinho, além de ir pelo caminho mais longo, ainda se distrai nele. Por mais louváveis que pareçam, atualmente, os ideais de interação com a natureza e da gentileza de ofertar flores, o discurso preponderante da narrativa está focado na leviandade infantil, em especial se levarmos em conta os discursos históricos, culturais e pedagógicos comportados pelas “FD” do contexto social de circulação deste conto. A esse respeito, Gouvêa (2004, p. 61) ressalta que a infância era percebida como período de fragilidade moral, propensa ao desenvolvimento de maus hábitos e costumes, cabendo ao adulto o cuidado para a prevalência dos bons valores, em certa instância, utilizando-se da literatura infantil como instrumento pedagógico.
Contrapondo-se à bondade e inocência de Chapeuzinho, o lobo encontra a casa da avó e avança sobre a velhinha devorando-a em segundos:
O Lobo não demorou muito tempo para chegar à casa da avó. Ele bate: toc, toc. “Quem é?”, pergunta a avó. “É a sua neta, Chapeuzinho Vermelho”, falou o Lobo disfarçando a voz. “Trouxe para a senhora um bolo e um potezinho de manteiga, que minha mãe mandou”. A boa avozinha, que estava acamada porque não se sentia muito bem, gritou-lhe: “Levante a aldraba que o ferrolho sobe”. O Lobo fez isso e a porta se abriu. Ele lançou-se sobre a boa mulher e a devorou num segundo, pois fazia mais de três dias que não comia.
“V4”, voz enunciativa da avó, não encontra em Perrault oportunidade de expressão, tão efêmera é sua passagem pelo conto, restando-lhe apenas ensinar ao lobo, disfarçado de sua neta, como abrir a porta: “Levante a aldraba que o ferrolho sobe”. A respeito do ato de devorar a avó, o lobo ainda é justificado por “V1” que pronuncia: “(...) a devorou num segundo, pois fazia mais de três dias que não comia” [Grifo nosso].
Nota-se que a mesma ingenuidade atribuída à infância, sob a figura de Chapeuzinho, é refletida na velhice e, ainda, com um toque de perversão, já que a boa velhinha encontrava-se acamada e impossibilitada de defesa. Uma avó que não reconhece a voz da neta disfarçada por um lobo indica novo efeito de sentido no enunciado responsável pela sugestão de um discurso pautado na falta de confiança nos idosos, assim como nas crianças, criando um pressuposto de descrédito justificado, uma vez que esses indivíduos parecem ser facilmente ludibriados e, portanto, necessitam de tutela. Simone de Beauvoir (1990) complementa esse raciocínio afirmando que da mesma forma que a feminilidade é socialmente construída, a velhice e os comportamentos a ela dirigidos são, acima de tudo, fatores culturais.
Em seguida, o lobo fechou a porta da casa e deitou-se na cama à espera de Chapeuzinho. Vale observar que, na versão de Perrault, o lobo não se disfarça de avó vestindo suas roupas, ato normalmente encontrado em outras versões do conto, como a dos Irmãos Grimm, por exemplo. A criança, ao bater à porta da casa da avó e chamá-la, desconfia, por alguns instantes, da voz grossa que a atende e sente medo. Entretanto, desconsiderando essa intuição primária e acreditando que aquilo se devesse a uma rouquidão da avó, a menina entra na casa sob as recomendações de “V3” que se apropria da fala de “V4”: “Levante a aldraba que o ferrolho sobe”. Eis o trecho original que retrata esse encontro:
Em seguida, fechou a porta e se deitou na cama da avó à espera de Chapeuzinho Vermelho. Passando algum tempo, ela bateu à porta: toc, toc. “é?” Chapeuzinho Vermelho, ao ouvir a voz grossa do Lobo, ficou com medo a princípio, mas supondo que a avó estivesse rouca, respondeu: “É sua neta, Chapeuzinho Vermelho, que traz para a senhora um bolo e um potezinho de manteiga, que mamãe mandou”. O lobo gritou-lhe, adoçando um pouco a voz: “Levante a aldraba que o ferrolho sobe”. Chapeuzinho Vermelho fez isso e a porta se abriu.
A sequência enunciativa que se segue é bastante rica em possibilidades interpretativas, logo, de efeitos de sentido:
O Lobo, vendo-a entrar, disse-lhe, escondendo-se sob as cobertas: “Ponha o bolo e o potezinho de manteiga sobre a arca e venha deitar aqui comigo”. Chapeuzinho Vermelho despiu-se e se meteu na cama, onde ficou muito admirada ao ver como a avó estava esquisita em seu traje de dormir.
Nesse trecho, apenas “V3” manifesta-se ao lado de “V1”, voz do narrador. “V2”, voz de Chapeuzinho, é uma voz de passividade cujas atitudes são descritas por intermédio de outra voz, “V1”. Vale a pena retornar à figura 25, que retrata a expressão de Chapeuzinho na cama com o lobo e seu olhar mesclado de medo, surpresa e curiosidade. A passagem referida e a imagem que a ilustra apontam, paradoxalmente, para dois retratos de infância. As palavras descrevem uma infância, a partir de efeitos de sentido que sugerem um comportamento típico de adultos, com conotação explicitamente sexual: a menina se despe e vai para a cama com o lobo. A este respeito, Bettelheim acrescenta:
(...) Uma vez que essa estranha coincidência de emoções opostas que caracteriza o conhecimento sexual infantil é corporificada em “Chapeuzinho Vermelho”, a história tem uma grande atração inconsciente para as crianças, assim como para os adultos que, por seu intermédio, se recordam vagamente de sua própria fascinação infantil em relação ao sexo. (BETTELHEIM, 2007, p. 243-244).
Esses mesmos efeitos de sentido podem remeter aos primórdios da vida social da infância, em que não havia diferenciação entre crianças, adultos e idosos, de forma que a infância não era reconhecida como uma fase específica da vida humana e as crianças
participavam de todos os eventos sociais públicos, o que inclui atos sexuais. (DARNTON, 1986, p. 56).
Adversamente ao texto verbal, a ilustração de Doré (figura 25) revela uma Chapeuzinho com traços eminentemente infantis. Na imagem, podemos notar ainda que a menina não está despida, como afirmado verbalmente em Perrault, e olha com desconfiança para o lobo, o que pode ser percebido por uma leve inclinação de seu pescoço para trás ao deparar-se de frente com o animal. Este, por sua vez, ao contrário do que é afirmado verbalmente, encontra-se disfarçado com a touca de dormir da avó e não encara a menina face-a-face, inclinando o olhar para baixo. Essa diferença de representações de Chapeuzinho Vermelho em Perrault e em Doré deve-se ao período histórico em que as obras foram criadas. Perrault publica a primeira versão de Le petit chaperon rouge em 1697, ao passo que as ilustrações de Doré compõem a reedição do conto na coletânea “Contes de Perrault”, edições Stahl-Hetzel, em 1862. A partir da própria relação interdiscursiva entre imagens e textos verbais nesta obra, podemos perceber como o discurso social e o cultural marcam as representações de infância ao longo do tempo. Do final do século XVII a meados do século XIX, já é possível notar formas diferenciadas de tratar e representar a infância, que passa da morte trágica (devorada pelo lobo) ao semblante doce e inocente.
No texto de Perrault, durante o diálogo entre Chapeuzinho e o lobo, são construídos efeitos de sentido que colocam em dúvida a verdadeira natureza da personagem “lobo”, incentivando a imaginação do leitor/ouvinte a considerar que o animal, na verdade, não passa de uma metáfora ao homem:
Disse a ela: “Vovó, como são grandes os seus braços!” “É para melhor te abraçar, minha filha!” “Vovó, como são grandes as suas pernas!” “É para poder correr melhor, minha netinha!” “Vovó, como são grandes as suas orelhas!” “É para ouvir melhor, netinha!” “Vovó, como são grandes os seus olhos!” “É para ver melhor, netinha!” “Vovó, como são grandes os seus dentes!” “É para te comer!” E assim dizendo, o malvado lobo atirou-se sobre Chapeuzinho Vermelho e a comeu.
Na versão dos irmãos Grimm, duas perguntas seguidas das respostas são retiradas do diálogo tradicional escrito por Perrault: “Vovó, como são grandes os seus braços!” “É para melhor te abraçar, minha filha!” “Vovó, como são grandes as suas pernas!” “É para poder correr melhor, minha netinha!”. As demais interrogações que se seguem preparam o
leitor/ouvinte para o momento clímax do conto, o ataque do lobo, que é seguido do desfecho trágico: a morte da menina.
Gouvêa (2004) considera que a narração de punições vividas pelas crianças buscava advertir sobre as consequências trágicas de suas ações pela via do temor. Segundo a autora, “a descrição de afogamentos, aleijamentos e mortes (...) revela uma concepção diferenciada da psicologia da criança, em que o medo constitui um sentimento a ser produzido, por meio de descrições naturalistas, e não a ser evitado”. (GOUVÊA, 2004, p. 93).
Chapeuzinho Vermelho é um dos contos analisados por Bettelheim em A psicanálise dos contos de fadas, obra em que são feitas explorações bastante esclarecedoras em relação ao texto-base de Perrault. Eis algumas considerações:
(...) Perrault não desejava apenas entreter o público, mas dar uma lição de moral específica com cada um de seus contos. Por isso, é compreensível que os modificasse de acordo com o que desejava. Infelizmente, ao fazê-lo,