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4.3 GSI Sınıflama Sistemi

4.3.4 Yenilme ölçütüyle ve GSI Sistemi'yle ilgili sınırlamalar ve sorunlar

A distinção entre o público e o privado (...) pode remontar aos debates filosóficos da Grécia Clássica sobre a vida da polis, quando os cidadãos se reuniam para discutir questões de interesse comum e criar uma ordem social orientada para o bem comum. A explícita formulação da distinção provavelmente deriva dos primeiros desenvolvimentos do direito romano, que separava lei pública de lei privada, e da concepção romana de

res pública. Contudo, no último período medieval e no início da

era moderna, a distinção entre público e privado começou a adquirir novos significados relacionados em parte com as transformações institucionais que aconteciam naquele tempo. (THOMPSON, 2002, p. 110, grifos no original)

Para esclarecermos o que é público e o que privado, vamos começar pensando naquilo que é considerado público. Para a alemã, Hannah Arendt (2001, p. 59-62), o termo público denota dois fenômenos correlatos, mas não idênticos:

Significa, em primeiro lugar, que tudo o que vem a público pode ser visto e ouvido por todos e tem a maior divulgação possível. Para nós, a aparência – aquilo que é visto e ouvido pelos outros e por nós mesmos – constitui a realidade. Em comparação com a realidade que decorre do fato de que algo é visto e escutado, até mesmo as maiores forças da vida íntima – as paixões do coração, os pensamentos da mente, os deleites dos sentidos – vivem uma espécie de existência incerta e obscura, a não ser que, e até que, sejam

transformadas, desprivatizadas e desindividualizadas, por assim dizer, de modo a se tornarem adequadas à aparição pública. (...) Em segundo lugar, o termo público significa o próprio mundo, na medida em que é comum a todos nós e diferente do lugar que nos cabe dentro dele. (...) A esfera pública, enquanto mundo comum, reúne-nos na companhia uns dos outros e contudo evita que colidamos uns com os outros, por assim dizer. (ARENDT 2001, p. 59-62, grifos no original)

A primeira noção de público, segundo essa formulação, tem a ver com a publicidade, ou seja, aquilo que é “aberto” ou “aceitável ao público”. Segundo Thompson (2002, p. 112), também, “público neste sentido é o que é visível ou observável, o que é realizado na frente de espectadores, o que está aberto para que todos ou muitos vejam ou ouçam”, no caso do telejornal são as imagens captadas por uma câmera que vão ao ar. Para Arendt (2001, p. 60), o mais comum dessa publicidade ocorre ao narrar histórias, já que “toda vez que falamos de coisas que só podem ser experimentadas na privacidade ou na intimidade, trazemo-las para uma esfera na qual assumirão uma espécie de realidade que, a despeito de sua intensidade, elas jamais poderiam ter tido antes”.

É possível até narrar o sentimento mais intenso da humanidade, “ou seja, a experiência de grande dor física – é, ao mesmo tempo, o mais privado e menos comunicável de todos”. O telejornal, por exemplo, além de ter a capacidade de recontar os fatos e acontecimentos, também os exibe, o que faz com que o que há de mais privado possa ser veiculado e se tornar público. Cada vez é mais comum haver gravações com “câmeras escondidas” para fazer denúncias. As gravações telefônicas já eram utilizadas desde muito tempo atrás e, agora, estão sendo legalizadas. Mas, porque apenas algumas dessas gravações e conversas são tornadas públicas e outras não?

Para Arendt (2001, p. 61), nosso entendimento sobre a realidade “depende totalmente da aparência, e portanto da existência de uma esfera pública”. Contudo, “só é tolerado o que é tido como relevante, digno de ser visto ou ouvido, de sorte que o irrelevante se torna automaticamente assunto privado”. A autora lembra que isso não significa que todas as questões privadas sejam irrelevantes, pelo contrário, “o que a esfera pública considera irrelevante pode ter um encanto tão extraordinário e contagiante que todo um povo pode adotá-lo como modo de vida, sem com isso alterar-lhe o caráter essencialmente privado”. Para tal evento diz-se que houve uma “ampliação da esfera privada”, mas esse encantamento do privado não o torna público, como explica Arendt (2001):

Ao contrário, significa apenas que a esfera pública refluiu quase que inteiramente, de modo que, em toda parte, a grandeza cedeu lugar ao encanto; pois, embora a esfera pública possa ser grande, não pode ser

encantadora precisamente porque é incapaz de abrigar o irrelevante. (ARENDT 2001, p. 62)

A segunda noção de público diz respeito àquilo que é “comum a todos” e, ao mesmo tempo, “permanente”. Só adquire o sentido de público aquilo que for pensado em continuidade de gerações, ou seja, ao transcender a duração da vida mortal:

Sem essa transcendência para uma potencial imortalidade terrena, nenhuma política, no sentido restrito do termo, nenhum mundo comum e nenhuma esfera pública são possíveis. O mundo comum é aquilo que adentramos ao nascer e que deixamos para trás quando morremos. Transcende a duração de nossa vida tanto no passado quanto no futuro: preexistia à nossa chegada e sobreviverá à nossa breve permanência. É isto o que temos em comum não só com aqueles que vivem conosco, mas também com aqueles que aqui estiveram antes e aqueles que virão depois de nós. (...) Durante muitas eras antes de nós – mas já não agora – os homens ingressavam na esfera pública por desejarem que algo seu, ou algo que tinham em comum com outros, fosse mais permanente que as suas vidas terrenas. (ARENDT, 2001, p. 64- 65).

Pensando nas duas noções de público, pode-se afirmar que o sistema de televisão é público. Na primeira, consideramos que é um espaço comum de compartilhamento de experiências, já que um mesmo acontecimento é transmitido e visto por muitas pessoas. Na segunda concepção, pois o sistema de radiodifusão utiliza um bem durável que é o espectro, para realizar sua transmissão e emitir ondas eletromagnéticas para as antenas – e, como vimos, o espectro é finito e cabe ao Estado regulamentar seu uso. Assim, o sistema de televisão é considerado um serviço público, pois partilha desse espaço comum a todos os brasileiros.

Com relação à privacidade – uma característica exemplar da espécie animal humana –, o privado seria algo que não dependeria da relação com o outro e se realizaria em um lugar de refúgio do mundo comum. Pensando na diferença entre público e privado, temos assim o “segredo” em oposição ao “aberto”. “A privatividade era como que o outro lado escuro e oculto da esfera pública” (ARENDT 2001, p.74). Ou seja, seria exclusivo do próprio indivíduo ou de um circulo restrito de pessoas – e não algo a ser veiculado por um telejornal.

Para o indivíduo, viver uma vida inteiramente privada significa, acima de tudo, ser destituído de coisas essenciais à vida verdadeiramente humana: ser privado da realidade que advém do fato de ser visto e ouvido por outros, privado de uma relação objetiva com eles decorrente do fato de ligar-se e separar-se deles mediante um mundo comum de coisas, e privado da possibilidade de realizar algo mais permanente que a própria vida. A privação da privacidade reside na ausência de outros; para estes, o homem privado não se dá a conhecer, e portanto é como se não existisse. O que quer que ele faça permanece sem importância ou conseqüência para os outros, e o

que tem importância para ele é desprovido de interesse para os outros. (...) O pleno desenvolvimento da vida no lar e na família como espaço interior e privado deve-se ao extraordinário senso político do povo romano que, ao contrário dos gregos, jamais sacrificou o privado em benefício do público, mas ao contrário, compreendeu que estas duas esferas somente podiam subsistir sob a forma de coexistência. (ARENDT, 2001, p. 68-69, grifo no original)

O privado também difere do público quanto ao pertencimento ao mundo comum. Esse refúgio se concretiza a partir das posses privadas dos indivíduos – neste caso, das emissoras comerciais que visam o lucro. Assim, estes sendo donos de seu próprio espaço, de sua própria terra.

As nossas posses particulares, que usamos e consumimos diariamente, são muito mais urgentemente necessárias que qualquer parte do mundo comum; sem a propriedade, como disse Locke, de nada nos vale o comum. Ela será sempre a primeira entre as necessidades e preocupações do homem (...). As quatro paredes da propriedade particular de uma pessoa oferecem o único refúgio seguro contra o mundo público comum – não só contra tudo o que nele ocorre mas também contra a sua própria publicidade, contra o fato de ser visto e ouvido. Uma existência vivida inteiramente em público, na presença de outros, torna-se, como diríamos, superficial. Retém a sua visibilidade, mas perde a qualidade resultante de vir à tona a partir de um terreno mais sóbrio, terreno este que deve permanecer oculto a fim de não perder sua profundidade num sentido muito real e não subjetivo. O único modo eficaz de garantir a sombra do que deve ser escondido contra a luz da publicidade é a propriedade privada – um lugar só nosso, no qual podemos nos esconder. (ARENDT, 2001, p. 80-81, grifos no original)

Assim, fica um pouco mais clara a relação entre o sistema televisivo ser público e as emissoras podendo ser administrada também com propósitos privados – em sua grande parte, obter lucro. Todas as emissoras podem ter autonomia própria para fazer sua própria administração de finanças, de gestão, de programação e de conteúdo. Ao Estado cabe dar concessões e fiscalizá-las, a fim de verificar se elas estão prestando um bom serviço. Porém, o Estado não tem autonomia de “entrar” na privacidade das emissoras e dizer como e o quê elas devem fazer30. Assim, apesar de utilizarem um recurso natural público, as emissoras, com exceção das público-estatais, são privadas no que tange sua gestão. Algumas emissoras públicas, além do uso do espectro para sua transmissão, têm grande parte do seu orçamento financiado pelos Governos. Em alguns países, como na Inglaterra, a população paga uma taxa anual para receber esse serviço.

30

Aceita-se, em um regime democrático, o uso de regulação para legislar o setor, mas elas são pouco eficazes no Brasil. Uma discussão sobre auto-regulação ou um controle mais ativo pelo Estado está em discussão no país.

É com a relação de desenvolvimento dessas duas esferas que coexistem (de um lado, aquilo que permanece oculto e sem significado público, de outro, o lugar de compartilhamento de experiências no mundo comum), que nasceu o conceito de polis. Com o significado de “muro circundante”, a polis tinha uma lei para a demarcação dos limites entre uma casa e outra, ou seja, de limitação daquilo que é público em relação ao que é privado. Tem-se, assim, a lei como a primeira referência da divisão entre a privacidade e a publicidade. A lei era originalmente identificada com esta linha divisória que, em tempos antigos, era ainda na verdade um espaço, uma espécie de terra de ninguém entre o privado e o público, abrigando e protegendo ambas as esferas ao mesmo tempo separando-as uma da outra. (...) Era bem literalmente um muro, sem o qual poderia existir um aglomerado de casas, um povoado (asty), mas não uma cidade, uma comunidade política. Essa lei de caráter mural era sagrada, mas só o recinto delimitado pelo muro era político. (ARENDT, 2001, p. 73, grifo no original)

Pensando na linha divisória entre o público e o privado, também encontram-se na legislação brasileira leis específicas de atuação: desde os requisitos mínimos de programação, como porcentagem da grade horária a ser preenchida por programas jornalísticos até o percentual de aplicação de capital estrangeiro em uma emissora. Contudo, a linha que limita a atuação de uma emissora e seu papel enquanto prestadora de serviço, ou seja, aquilo que deve ser cumprido por ela, é muito tênue. Cabe ao Congresso legislar pelos cidadãos brasileiros que recebem aberta e gratuitamente os sinais televisuais em seus lares.

Na verdade, as noções de privado e público nunca foram tão próximas como nos dias atuais, principalmente se levar em conta o início dessas classificações que, apesar de nunca terem tido uma definição rígida, podiam-se visivelmente distinguir por meio de um simples muro de separação do público e do privado. “No mundo moderno, as duas esferas constantemente recaem uma sobre a outra” (ARENDT, 2001, p. 42-43).

Assim, as diferenças entre o privado e público têm paulatinamente perdido nitidez, criando uma aproximação de suas características. Ou seja, o privado cada vez mais público e o público cada vez mais privado. Pensando a atualidade, é fácil concordar com o argumento de Arendt (2001) de que “todas as questões antes pertinentes à esfera privada da família transformaram-se em interesse coletivo” (ARENDT, 2001, p. 42, grifo no original).

Antigamente, tinha-se a noção de que o privado era “um estado no qual o indivíduo se privava de alguma coisa. (...) Hoje não nos ocorre, de pronto, esse aspecto de privação” (ARENDT, 2001, p.48). A esfera privada se fortalece no mundo moderno com a privacidade do indivíduo – ou individualismo. Isso porque, “o que hoje chamamos de privado é um círculo de intimidade”. Mas tal intimidade – privada – não implica que ela não tenha lugar na

esfera pública. Muito pelo contrário, atualmente há cada vez mais uma visibilidade daquilo que anteriormente era oculto. Vidas de pessoas são expostas, seus hábitos, costumes, pessoas com quem convivem ou mesmo sua vida sexual pode ser de interesse público. Há uma tendência generalizada em tornar público: aquilo que é honrado e nobre do próprio indivíduo – “cinco minutos de fama” e os reality shows – e, também, o que é vergonhoso do “outro” – por exemplo, expor a vida privada de figuras públicas com “pegadinhas” veiculadas em programas de entretenimento na tv.

Com relação à esfera pública, ela está se tornando cada vez mais tênue frente à vida privada no sentido de que as pessoas já não mais se preocupam com o mundo comum, com o futuro das gerações. Com exceção à preservação do meio ambiente, a humanidade parece se interessar apenas com aquilo que lhe é próprio, não se afligindo com os problemas dos outros. Parte-se para a defesa da garantia da riqueza que se tem ao invés de olhar para as necessidades comuns – isso se torna mais evidente nas leis dos países que, muitas vezes, acabam por beneficiar certos segmentos da população e o público fica “desprotegido”. Por outro lado, a esfera privada, nunca esteve tão pública.

Hoje nós estamos acostumados a pensar que os indivíduos que aparecem em nossos televisores pertencem a um mundo público aberto para todos. Podemos sentir certo grau de familiaridade com as personalidades e os líderes políticos que aparecem regularmente na televisão e na mídia. Podemos até considerá-los amigos, e referirmo-nos a eles com certa intimidade. (...) Embora possamos ver e ouvir estas celebridades com certa freqüência é muito pouco provável que alguma vez as encontremos no curso de nossas vidas cotidianas. Estas considerações são indicadoras do fosso que separa nosso mundo de hoje do mundo que existiu há poucos séculos atrás. Antes do advento da mídia (...) a única forma de interação disponível para a maioria das pessoas era face a face, quantas poderiam alguma vez interagir com os líderes políticos que as governavam? (...) Antes do desenvolvimento da mídia, os líderes políticos eram invisíveis para a maioria das pessoas que eles governavam, e podiam restringir suas aparições públicas a grupos relativamente fechados em assembléias ou a reuniões da corte. Mas hoje não é mais possível restringir do mesmo modo a atividade de auto-apresentação. Querendo ou não, os líderes políticos hoje devem estar preparados para adaptar suas atividades a um novo tipo de visibilidade que funciona diversamente e em níveis completamente diferentes (THOMPSON, 2002, p. 109)

A mídia é apontada como a grande responsável pela aproximação desses conceitos.

Benzer Belgeler