3. GİRİŞİMCİLİK VE GİRİŞİMCİLİK YÖNELİMİ
3.3 Kurumsal Girişimcilik ve Girişimcilik Yönelimi
3.3.1 Yenilikçilik eğilimi
Pelos documentos enviados ao Conselho Ultramarino na primeira me- tade do século XVIII, podemos observar que inúmeras outras contendas ocorreram envolvendo as eleições para a Câmara de Belém. Por eles se veri- fica que, por diversas vezes, recorreram os camaristas ao poder central em busca de uma intervenção que coibisse as alegadas irregularidades ou pro- pondo soluções que lhes garantissem impedir, por meios próprios, o acesso daqueles que consideravam pessoas sem qualidades para servir a República. Recorrente no discurso apresentado era que certos eleitores escolhiam pes- soas desqualificadas, ainda que houvesse pessoas de qualidade, filhos e ne- tos de cidadãos, que pudessem ser eleitas. O que não transparecia a primeira vista nessas petições eram as reais intenções que se escondiam por trás de discursos tão bem enunciados ao reino, oriundos de tão “leais vassalos”, nem os problemas de foro particular que subjaziam neles.
Por conta disto, queremos adicionar outras percepções sobre a ques- tão do que motivava estes indivíduos a se queixarem numa determinada época e, com tanta frequência, sobre os resultados das eleições, ainda que façamos uso do discurso de elementos que fizeram parte do processo, direta ou indiretamente, sem serem os protagonistas, mas que estavam presentes no decurso dos acontecimentos e conheciam igualmente os participantes. Assim, utilizaremos as informações prestadas tanto pelo governador quanto pelo ouvidor. Em várias passagens da correspondência do governador João de Abreu Castelo Branco com o reino, pode-se observar os indícios das mo- tivações que estavam camufladas nas contendas nas eleições da câmara: em 1737, afirmava que as desordens observadas nas eleições da câmara nasciam das “paixões particulares” que metiam a todos em “perturbação e parciali- dades”;101 em 1742, dizia que a controvérsia da eleição de Luís Barreto “mais
100 Despacho e aviso do Conselho Ultramarino, 7 de setembro de 1748. AHU, Pará, caixa 26, do-
cumento 2429.
nasceu da aversão e discórdia que tinham entre si os camaristas do que da indignidade do eleito”;102 em 1743, reconhecia que o documento dos cama-
ristas na queixa contra o procedimento dos irmãos Barreto fora feito com “algum ódio e paixão particular contra os dois irmãos”.103 Tais informações
são importantes para sinalizar que havia algo mais por trás do discurso le- galista das eleições. Porém, os informes não entram em maiores detalhes e não indicam quem agia contra quem, somente quando confrontados com as informações prestadas pela câmara ou por Luís Barreto é que fica subenten- dido que, entre as motivações dos conflitos, estava também alguma rejeição dos camaristas aos reinóis.
Embora o conhecimento de tensões entre reinóis e os “da terra” não seja novidade na historiografia do Estado do Brasil – vários estudos abordam essas tensões em diferentes aspectos da sociedade –,104 para a Amazônia por-
tuguesa ainda é um tema em aberto que só recentemente tem despertado a atenção de novos pesquisadores que se debruçam em pesquisas sobre a for- mação da elite paraense,105 visto que se privilegiou, durante muito tempo, a
observação da sociedade colonial na Amazônia baseada apenas na oposição entre missionários e colonos na questão do acesso a mão-de-obra indígena, considerando nessa interpretação uma sociedade homogênea, onde os colo- nos não se distinguiam entre si.
A questão da rejeição aos reinóis na disputa pelos cargos da câmara apareceu explicitamente abordada em uma carta de 1746 do ouvidor Timó- teo de Carvalho. Nela, o ouvidor afirmava categoricamente que havia um empenho dos cidadãos naturais da terra para que não servisse na câmara “pessoa alguma do Reino”, mesmo que estes fossem “bons” e até mais no- bres que os locais.106 Desse modo, no período das eleições, se não estivessem
contemplados os interesses dos naturais ou indicadas pessoas de sua depen-
102 Carta do governador ao rei, 3 de setembro de 1742. AHU, Pará, caixa 24, documento 2312. 103 Carta do governador ao rei, 25 de novembro de 1743. AHU, Pará, caixa 26, documento 2467. 104 Como, por exemplo, em Pernambuco, onde os conflitos entre os comerciantes reinóis e os
naturais da terra, gerados pela disputa pelos cargos camarários na Câmara de Olinda, no começo do século XVIII, culminaram com uma revolta de grandes proporções, cf. MELLO, Evaldo Cabral de. A fronda dos mazombos: Nobres contra mascates. Pernambuco (1666-1715). São Pau- lo: Companhia das Letras, 1995; e no Rio de Janeiro, onde ocorreu semelhante resistência à presença de reinóis na câmara, cf. BICALHO, Maria Fernanda. A cidade e o império, Rio de Janeiro
no século XVIII. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003, p. 374-384.
105 ROCHA, Rafael Ale. A construção da nobreza no Pará setecentista. In: CALAINHO, Daniela
Buono (org.). Caminhos da intolerância no mundo ibérico do Antigo Regime. No prelo.
dência, faziam de tudo para perturbar as eleições ou para excluir dela “todos os que forem do Reino”. Na eleição de 1745, dizia o ouvidor, foram feitas inúmeras intrigas e maledicências para que alguns indivíduos do reino não fossem eleitores ou, se o fossem, que “seguissem nos votos as máximas dos naturais”. Por isso, o ouvidor precisou ajustar para que cada um dos elei- tores do reino se juntasse a outro da cidade, ficando assim sossegados os ânimos.107 Mas, ainda segundo o ouvidor, entenderam os cidadãos da cidade
que desse arranjo iria sair eleito juiz dos órfãos Manoel Pinheiro Lacerda que era primo de Antônio Ferreira Ribeiro e sobrinho do juiz que deixava o cargo, Pedro Correia Teixeira. Ocorreu que, na abertura do pelouro, o eleito para juiz dos órfãos foi João de Souza Monis.108 A partir de então, Manoel
Pinheiro procurou de inúmeras formas impedir a eleição, dizendo que ela era nula, chamando o ouvidor a atenção para que, até saberem o resultado da eleição, Manoel Pinheiro e seus parentes só a tinham elogiado.
A descrição do ouvidor do que aconteceu no pleito de 1745 pode ser bastante esclarecedora sobre o jogo político e as estratégias usadas por de- terminados membros da elite local, representada nesse caso pela família Ferreira Ribeiro, na tentativa de manobrar os resultados das eleições. Usan- do o argumento de que os eleitos contrariavam as ordens régias, por não se- rem filhos nem netos de cidadãos, embargaram aos reinóis Aleixo Gameiro Soares (para juiz ordinário) e Amaro Paes de Andrade (para vereador). Os embargos foram estranhados até pelo governador que pediu várias vezes que o ouvidor desimpedisse os eleitos. Isto porque era notório que Aleixo Gameiro, um homem bastante rico, se tratava pela lei da nobreza e que “no Reino era pessoa grave e de estimação”, bem como Amaro Paes que também se tratava na lei da nobreza e era casado com a filha de um cidadão.109 Acre-
107 Igual arranjo havia sido feito em Recife na primeira década de seu funcionamento, garantindo
assim o equilíbrio de nomeações entre reinóis e locais, que foi rigorosamente respeitado até 1720 a fim de se evitarem os problemas ocorridos em Olinda. SOUZA, George F. Cabral. A gente da governança do Recife colonial: perfil de uma elite local na América portuguesa (1710- 1822). In: FRAGOSO, João e SAMPAIO, Antônio Carlos Jucá (orgs.). Monarquia pluricontinental e
a governança da terra no ultramar atlântico luso, op. cit., p. 55.
108 João de Souza Monis já aparece em 1730 como cidadão da cidade de Belém (Lista de cidadãos
desta cidade [Belém], 20 de setembro de 1730. AHU, Pará, caixa12, documento 1142).
109 A este respeito podemos dizer, já com base no banco de dados que estamos construindo sobre
a elite paraense, que Amaro Paes (Lisboa) era casado com d. Lourença Justiniana de Souza (Pará) e proprietário de uma engenhoca no Pará. Sua esposa, d. Lourença, era filha de José de Souza de Azevedo (Lisboa) e d. Maria Josefa de Sousa (Pará), que era cidadão da cidade onde foi vereador (1705) e juiz ordinário (1724). Sabemos ainda que José de Souza era sobrinho
ditava o ouvidor que a oposição dos embargantes era movida por vingança. E a estratégia dos embargantes era ir protelando a posse, de tal modo que, por ausência ou morte de alguns dos eleitos, sobretudo do eleito juiz dos órfãos João de Souza Monis (que não tomava providências para servir) seria então Manoel Pinheiro provido em eleição particular. Considerando, então, vários aspectos danosos ao processo, incluindo neles a índole de Manoel Pinheiro, decidiu o ouvidor que só iria aceitar os embargos que suspendiam a eleição se os embargantes apresentassem “coisa essencial e atendível, que mostre logo a certeza dos defeitos, e nulidade alegadas”.110
Para além de expor claramente as motivações de determinado grupo político de impedir o acesso dos cargos da câmara àqueles que não se ali- nhavam com seus interesses, a carta do ouvidor foi ainda mais reveladora quanto ao caráter de Manoel Pinheiro e dos danos que causaria estando no exercício do cargo. Ao traçar o perfil de João Monis em contraste com o de Manoel Pinheiro, assinalava o ouvidor que Monis, apesar de não ser abas- tado em bens, estava provado que era digno e de consciência e, sendo um homem maduro na idade, não estaria em risco a “honestidade das órfãs e viúvas”. Ao passo que Manoel Pinheiro era mais pobre e, pelo que ouvira di- zer, a honra das órfãs e viúvas não ficava segura com ele. Porém, não era só o fato de ser menos abastado o que preocupava o ouvidor, mas o fato deste ter muitos parentes que eram “dos poderosos e de maior respeito na terra” e, por esta razão, quando pegavam algum dinheiro dos órfãos, estes não perdiam apenas os juros correspondentes, mas, segundo o ouvidor, “também o todo, ou parte do principal”, porque, mesmo depois de emancipados os órfãos, se passavam vinte ou trinta anos sem conseguir cobrá-los. Ou seja, benefician- do-se do acesso às heranças, os juízes dos órfãos agiam em favorecimento próprio ou de seus familiares. Ora, foi justamente por causa da cobrança de uma dívida de Antônio Ferreira Ribeiro e seu cunhado Gaspar Siqueira de Queirós com a viúva d. Josefa Luísa que Luís Francisco Barreto alegava ter sido surrado a mando do primeiro. O que sugere o informe é que essa fosse uma prática corrente e ao que parece de difícil repressão, uma vez que nela estavam envolvidas pessoas com poder e prestígio na terra.
do capitão-mor Hilário de Souza e Azevedo e que descendia também do ex-governador do Maranhão, o capitão-mor Aires de Souza Chichorro, cavaleiro da Ordem de Cristo. D. Maria Josefa, por sua vez, era neta paterna do sargento-mor Agostinho Correia que também go- vernou o Maranhão (Cf. DGARQ/TT, Tribunal do Santo Ofício, Conselho Geral, Habilitações incompletas, documento 89).
Na tentativa de entender a constituição das elites coloniais, porém fa- zendo uso de outras abordagens metodológicas e de diferentes fontes do- cumentais, recentes estudos buscaram examinar as estratégias de ascensão social empreendidas pelos indivíduos no ultramar, através de outras vias de distinção diferentes daquelas advindas dos cargos camarários como: os hábitos das ordens militares (Cristo, Avis e Santiago); a admissão no oficia- lato das tropas militares das ordenanças e as cartas para familiar do Santo Oficio.111 Embora tais atributos de notoriedade social guardassem entre si
hierarquias distintas e status variados de proeminência social, em última instância, todos eles conferiam aos seus dignitários, em maior ou menor grau, o prestígio social que os distinguia e os distanciava do povo plebeu.
A partir da leitura destas pesquisas, verifica-se que as diferentes formas de afirmação social empregadas pelos residentes nas conquistas portuguesas não se prendem apenas a valores hierárquicos advindos do reino, mas também sinali- zam fortemente os condicionantes locais, os quais lhes atribuem outros valores de relevância e significação social. Contudo, sendo o tema do poder local ainda incipiente na nossa historiografia, fazem-se necessários mais estudos sobre as diversas realidades locais, abrindo caminho para uma visão mais ampla sobre o comportamento dos “principais da terra” nos diferentes espaços ultramarinos.
É importante ressaltar, no que diz respeito às singularidades a serem observadas na análise das condicionantes locais, que as capitanias do norte, em particular a do Grão-Pará, devem ser compreendidas como um espaço distinto do Estado do Brasil, não apenas no que diz respeito a sua posição geopolítica, mas sobretudo pela sua dinâmica socioeconômica diferenciada do restante da América portuguesa, o que, portanto, requer compreender, na formação da elite colonial ali presente, quais seriam as “qualidades” acei- táveis nessa conjuntura.
Pelo uso de determinadas expressões que apoiam os argumentos em defesa dos privilégios concedidos aos cidadãos do Pará, podemos observar o quanto os representantes da elite paraense mais tradicional buscavam de- finir os limites que viam entre eles e as “pessoas de diferentes qualidades
111 A título de exemplo, indicamos, na ordem dos temas citados: KRAUSE, Thiago Nascimento.
Em busca da honra. A remuneração dos serviços da guerra holandesa e os hábitos das ordens militares (Bahia e Pernambuco, 1641-1683). São Paulo: Anablume, 2012; COSTA, Ana Paula Pereira. Atuação de po- deres locais no Império lusitano: uma análise do perfil das chefias militares dos corpos de ordenanças e de suas estratégias na construção de sua autoridade. Vila Rica (1735-1777). Dissertação de mestrado, História
social, Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2006; RODRIGUES, Aldair Carlos. Limpos de
sem nobreza alguma de seus nascimentos” que ascenderam aos cargos da
República. Identificavam-se eles pelas expressões como: “cidadão descendente
dos primeiros cidadãos e conquistadores daquela cidade [do Pará]”, “cidadãos antigos e seus condescendentes”, ou ainda “cidadãos, e seus filhos e netos, e homens de conhecida nobreza de seu nascimento”, estabelecendo no seu dis- curso uma clara clivagem entre eles e os novos cidadãos criados nas eleições.
O fato de existirem motivações pessoais e de interesses escusos não sig- nifica que as argumentações que sinalizavam a preocupação com a mudança na “qualidade” dos cidadãos não fossem genuínas, porquanto o ingresso de sujeitos de condição inferior aos cargos camarários implicava que estes indiví- duos passavam a gozar dos mesmos privilégios que os antigos cidadãos e seus descendentes detinham e, na medida em que crescia o número de casos com esse perfil, a disputa por espaço de poder ficava mais evidente. E os privilégios, uma vez estendidos aos descendentes destes novos “cidadãos”, criavam proble- mas em outros setores da sociedade como, por exemplo, nas tropas pagas e nas ordenanças, em que se via o número de soldados diminuírem por abusarem do privilégio de não servir nestas tropas aqueles que serviam na câmara.112
A ideia de superioridade dos antigos cidadãos e a crescente presença de novos cidadãos “inferiores” explicaria talvez o afastamento de Antônio Ferreira das atividades da câmara, o qual teria também convencido seu so- brinho, o capitão da companhia da nobreza Francisco Siqueira de Queirós,113
que havia sido eleito juiz ordinário nas eleições de 1747, a não servir ao cargo. Francisco Siqueira justificava a sua recusa porque precisava assumir a administração do engenho da família. Para tanto, se valia de uma provisão régia que liberava os senhores de engenhos de servir na câmara para que deles pudessem cuidar. Entretanto, os oficiais da câmara discordavam de seus argumentos e diziam que ele, influenciado pelo tio, haveria dito que “o Juiz mais velho Agostinho Domingues Serqueira114 e os mais oficiais da
câmara não eram capazes de servir com ele”.115
112 Requerimento do sargento-mor Antônio Ferreira Ribeiro, anterior a 9 de maio de 1741. AHU,
Pará, caixa 24, documento 2237.
113 Filho de Gaspar Siqueira de Queirós e d. Teresa Luiza Maria Bittencourt. Alguns anos depois,
em 1749, Francisco Siqueira de Queirós casou-se com sua prima d. Catarina Ferreira Morais de Nazaret e tornou-se genro de Antônio Ferreira Ribeiro.
114 O sargento-mor Agostinho Domingues Serqueira era natural de Braga. Fixou-se em 1718 no
Pará onde se casou com d. Antônia de Oliveira Bittencourt.
115 Carta dos oficiais da Câmara de Belém ao rei, 17 de novembro de 1747. AHU, Pará, caixa 30,
De acordo com o ouvidor Timóteo de Carvalho, em 1747, os sujeitos “in- feriores” que já haviam entrado no serviço da câmara como oficiais e almo- tacés ultrapassavam o número de cinquenta pessoas e foram admitidos por “aqueles mesmos que em outras ocasiões com quase nenhuma razão que- rem impedir os eleitos”.116 Isso nos leva a pensar que, enquanto as admissões
eram controladas por determinado grupo e não feriam os seus interesses, o acesso era facilitado, caso contrário, se tentava impedir o eleito. Mas o fato é que os arranjos estavam ficando cada vez mais difíceis, uma vez que novos indivíduos ascendiam à elite local,117 principalmente através do casamento e,
provavelmente, o número de aliados fosse bem menor do que sucedera em anos anteriores pela morte de uns ou pelas rivalidades de outros.
Nos anos seguintes, não se verificou mais a presença de Antônio Fer- reira Ribeiro em cargos da câmara. Por outro lado, Luís Francisco Barre- to, depois de lutar muito pela restituição dos seus privilégios de cidadão, foi eleito segundo vereador em 1752 e primeiro vereador em 1759,118 bem
como o reinol Lázaro Fernandes Borges, que havia sido preterido na elei- ção de 1742, conseguiu servir na câmara em pelo menos dois mandatos como vereador em 1748 e 1761. Antes, porém, Lázaro Borges buscou ou- tras formas de prestígio social. Através do casamento, uniu-se a uma fa- mília cuja descendência remontava ao capitão Aires de Sousa Chichorro, um dos primeiros governadores do Pará. Em 1745, tornou-se familiar do Santo Oficio, superando os “defeitos” apontados na sua profissão de cirur- gião, provando ser abastado em “bens e fortuna”, o que lhe proporciona- va viver com abundante cabedal.119 Sabemos ainda que quando estava na
116 Carta do ouvidor ao rei, 20 de julho de 1747. AHU, Pará, caixa 29, documento 2764.
117 Nuno Monteiro, analisando a circulação das elites no império bragantino, indica uma emi-
gração expressiva para o Brasil entre 1700 e 1750, de pelo menos 100 mil portugueses. Sendo a emigração “majoritariamente jovem, masculina, e, ao que tudo indica, alfabetizada”, terá trazido um novo perfil à sociedade colonial a partir de meados do século XVIII, notadamente nos grandes centros onde os grupos mercantis foram se fixando e ascendendo aos ofícios camarários (MONTEIRO, Nuno. A circulação das elites no império dos Bragança (1640–1808): algumas notas. Revista Tempo. Rio de Janeiro, v. 14, n. 27, 2007, p. 77). Certamente, o Pará se encontrava no destino de alguns destes homens, como bem demonstrou a história de Luís Barreto que, como vimos, também buscou os mecanismos possíveis de ascensão social.
118 Carta da Câmara de Belém, 8 de novembro de 1752. AHU, Pará, caixa 37, documento 3509;
Idem, 2 de março de 1759. AHU, Pará, caixa 44, documento 4066.
119 No seu processo de habilitação, em 1743, o comissário Manuel de Almeida sobre ele se referia
dizendo que “tem ocupação de cirurgião, que atualmente exercita nesta cidade, de que vive, e de suas fazendas, pois tem abundância de bens e fortuna, e dizem que poderia ter de seu cabedal o valor de 20 mil cruzados em moradas de casas, fazendas de raiz e servos, que sabe
Câmara de Belém, chegou a ocupar o cargo de presidente do senado em várias ocasiões. Dessa forma, sua ascensão social e o prestígio conquista- do garantiram, anos mais tarde, que dois de seus filhos justificassem a sua nobreza e obtivessem carta de brasão de armas de nobreza e fidalguia,120
o que demonstra, pela sua trajetória pessoal, o quanto podia ser flexível nas conquistas a distinção que no reino era marcada a sua profissão.121
Conclusão
Conquanto o presente trabalho tenha se centrado num caso particular, acreditamos que, ao descrever esse conflito e traçar mais amiúde os perfis dos envolvidos, foi possível não apenas tornar manifesto que havia um cho-