De acordo com os pressupostos presentes no Estatuto Fundamental e na própria lei criadora do EPS, a defesa nacional era prioridade nas ações militares no país. Assim, em consonância com tais ideais e visando igualmente defender o projeto político da FSLN, foram criados Planos de Defesa que cobriam praticamente todo o território nicaraguense.
A primeira tarefa com amplitudes nacionais foi o ‘Plano de Pomares a Fonseca’ de 1984. O plano objetivava não somente a defesa do país, mas também uma melhor organização interna do EPS, de maneira a aprimorar os níveis quantitativos e qualitativos e promover a “derrota estratégica” da Contra. Militarmente, o ‘Plano de Pomares a Fonseca’ objetivava a desarticulação de planos da Contra previstos para os meses de maio a junho e de julho a novembro de 1984; expulsar, por etapas, grupos contrarrevolucionários armados de suas regiões de assentamento, como por exemplo, os Comandos Regionais ‘Rafaela Herrera’ e
162 GUZMÁN, Luis Humberto. Op. cit. p. 51.
163 VILAS, Carlos. El legado de una década. Managua: Lea Grupo Editorial, 2005. 164 GUZMÁN, Luis Humberto. Op. cit. p. 53.
‘Jorge Salazar’; e golpear constantemente as unidades da Contra em movimento, bem como as de nova introdução165.
Outra operação de grandes proporções foi o ‘Plano Campaña’, executado entre 1985 e 1987 (subdividido em ‘Campaña Invierno’ e ‘Campaña Verano’) em resposta ao crescente número de ações contrarrevolucionárias em determinadas regiões nicaraguenses. Como resultado, foi desativada a Zona Militar 3 (compreendia departamentos do noroeste do país, como Estelí, Madriz, Nueva Segovia, Matagalpa e Jinotega) e criado o Grupo Operativo do Estado Maior Geral como uma expressão da estrutura para a planificação e direção das principais operações militares sandinistas. Operações internas foram desenvolvidas em dito plano (as de maior impacto foram as operações ‘Unidad Indestructible’ e ‘Wanblan-Somotime Boca de Plis’), como etapas de um objetivo central: derrotar as forças da Contra. Segundo fontes do Exército nicaraguense166, o ‘Plano Campaña’ envolveu mais de 42.600 homens, quase 2.300 combates, 227 emboscadas e 43 sabotagens a tropas contrarrevolucionárias, além de 65 sequestros. Com o cumprimento dos planos ‘Campaña Invierno’ e ‘Campaña Verano’, o EPS conseguiu controlar as operações militares de grande envergadura pretendidas pela Contra em centros populacionais, vias de comunicação e setores da região do Pacífico.
Em março de 1988 foi realizada a ação que, segundo sandinistas, foi o ponto inflexão na derrota estratégica contrarrevolucionária. A exaltada ‘Operación Danto: Campaña 8 de marzo en honor a la heroica mujer nicaragüense’ (Operação Danto: Campanha 8 de março em honra à heroica mulher nicaraguense), popularmente conhecida como ‘Danto 88’, atacou pontos de apoio e acampamentos da Contra em território nicaraguense e principalmente em regiões fronteiriças com Honduras. Desde o mês de fevereiro desse ano, tropas sandinistas foram deslocadas para as Regiões Militares 1, 5 e 6 (Qulialí e San Juan de Río Coco; Chontales e Nueva Guinea; e Estelí e Jinotega respectivamente), envolvendo Pequenas Unidades de Forças Especiais (PUFE), duas agrupações de combate (compostos basicamente por BLI, BIP e BIR), grupos de artilharia da Força Aérea Sandinista (com uso de 9 helicópteros Mi-17 e 4 helicópteros Mi-8) e destacamentos da Marinha de Guerra Sandinista. Em efetivos, aproximadamente 3.000 homens foram mobilizados para enfrentarem cerca de 1.500-1.800 contrarrevolucionários. Tal operação foi a maior lançada pelo EPS e visava, além de derrotar as principais unidades da Contra, desestabilizar esta última ante as negociações de um acordo de paz. Segundo declarações de Joaquín Cuadra, chefe do Estado Maior na década de 1980, três eram os objetivos da Operação Danto 88:
165 BARBOSA MIRANDA, Francisco. Op. cit. p. 65. 166 Ibid. p. 67.
Primero: lograr una victoria estratégica sobre la Contra, destruyéndoles sus campamentos y demostrando quién era superior en el campo de batalla. Segundo: un efecto mediático, poner sobre el tapete que la Contra tenía campamentos en Honduras. Tercero: se trataba de que ellos se sentarán a negociar en las peores condiciones posibles167.
Efetivamente, o EPS atacou bases contrarrevolucionárias já em território hondurenho, 10 quilômetros além da fronteira, ocasionando 92 mortes e até 300 feridos. Em relação às tropas sandinistas, estima-se que 36 combatentes foram mortos e 140 feridos. Fundamentalmente, tais ações e operações do EPS foram, ao menos em âmbito militar, expressões da potencialidade combativa ofensiva das forças sandinistas, fatores relevantes para a neutralização das unidades contrarrevolucionárias.
No fim da década, especificamente entre 1988 e 1990, as aspirações ao fim do conflito armado foram reforçadas pelas negociações no campo diplomático, mas igualmente por novos planos de defesa do EPS visando a “derrota estratégica” e definitiva da Contra. Os planos ‘Camilo y Augusto C. Sandino’ realizaram o aperfeiçoamento do sistema defensivo do país e a organização massiva da população. Assim, fortaleceu-se o princípio de “guerra nacional, patriótica e popular”, de forma a mobilizar ainda mais setores populares ao redor do projeto sandinista.
É importante ressaltar que as principais ações e missões do EPS tinham como objetivos indiretos assegurar tal mobilização e aglutinação popular em torno não somente do projeto político sandinista, mas também do próprio EPS. Isso porque uma das maiores debilidades das forças armadas na Nicarágua residia na percepção da inutilidade de sua existência que um amplo segmento da sociedade compartia. De acordo com Luis Humberto Guzmán, “o clima de desordem prevalecente no país sublinhava a percepção crítica frente ao exército168”. Dessa noção entende-se o motivo pelo qual o EPS se via com a necessidade de apresentar de uma forma mais cuidadosa ante a sociedade suas missões e funções ativas.
Após apresentarmos as bases e dispositivos orgânicos e estruturais do Exército Popular Sandinista e de outras instituições militares associadas ao governo da FSLN, no
167 Declaração de Joaquín Cuadra para o jornal nicaraguense La Prensa. Veinte años de operación “Danto 88”.
Disponível em: <http://archivo.laprensa.com.ni/archivo/2008/marzo/06/noticias/politica/247232.shtml>. Consultado em: 23/07/2012. Tradução livre: “Primeiro: conseguir uma vitória estratégica sobre a Contra, destruindo seus acampamentos e demonstrando quem era superior no campo de batalha. Segundo: um efeito midiático, colocar sobre a mesa que a Contra tinha acampamentos em Honduras. Terceiro: buscava-se que eles [contrarrevolucionários] sentassem a negociar nas piores condições possíveis”.
próximo capítulo trabalharemos as relações e atuações do EPS em consonância com o governo da FSLN na década de 1980.
4 EPS E GOVERNO SANDINISTA
A relação entre o regime sandinista na década de 1980 e seu respectivo projeto político, e as forças armadas, especificamente o exército, constituiu uma esfera central de influência e estabilidade para o governo da Frente Sandinista. Como tratado anteriormente, o Exército Popular Sandinista foi organizado como um braço armado do governo, se efetivando como ferramenta partidária para controle e manutenção do projeto sandinista então vigente. A interação do EPS com o governo da FSLN, não apenas na defesa e em projetos no âmbito militar, é ponto fundamental na análise do regime sandinista e em seus desdobramentos e consequências nos cenários nacional e internacional.
Entre os anos de 1979 e 1990 era impossível dissociar Estado, partido e exército na Nicarágua, com o EPS se transformando em parte importantíssima do aparato político e ideológico que sustentava o projeto revolucionário. O uso da violência e de alternativas armadas em diversos processos políticos e sociais foi mais do que recorrente na história nicaraguense, resultando, no fim do século XX, em certa identidade entre violência e instituição militar, em função do vazio promovido pela carência de mecanismos civis para a resolução de conflitos. Em uma reflexão histórica, pode-se indicar que o modelo político predominante na Nicarágua foi o oligárquico-patriarcal, com períodos de autoritarismo e com diversas justificações ideológicas que compreendiam o conservadorismo, o liberalismo e o sandinismo. Nessa linha de pensamento, a Revolução Sandinista foi uma ampliação, reacomodação e recomposição no compacto núcleo oligárquico que tradicionalmente governava o país169.
A manutenção de um estado de mobilização refletia a crescente militarização da sociedade, produto da formulada Doutrina Militar da Revolução Popular Sandinista que definia como inevitável o confronto com o “imperialismo” estadunidense. Mais além do eixo Estado-Partido-Exército, é possível acrescentar os organismos de massas nesse núcleo do regime sandinista, entendendo-os como extensão da estrutura do partido (FSLN). Desse modo, sob o comando da Direção Nacional da FSLN, importantes setores da população foram excluídos dos processos decisórios, de forma que, com a redução da participação de organizações médias (setores mais independentes do sandinismo) outras organizações, especialmente militares e paramilitares (exército, milícias, polícia voluntária, comitês de
169 VELÁZQUEZ PEREIRA, José Luis. Interpretación histórica de la década de 1980 en Nicaragua.
defesa, turbas170) foram criadas para aparentar o surgimento de novos grupos sociais, buscando com isso evidenciar o pluralismo e a nova dinâmica social imposta pelo sandinismo e que atingiria setores antes marginalizados. Assim, “a destruição e substituição da sociedade civil em paralelo com a militarização e estabelecimento de severos controles sociais deixaram aberto o caminho para o exercício do poder sem contrabalances legais171”.
A homogeneização ideológica também teve papel relevante no controle social por parte da FSLN, permitindo que o EPS atuasse estrategicamente em praticamente todos os setores da sociedade em nome da defesa da revolução. Nessa questão, podemos delimitar os laços estratégicos e táticos do governo sandinista. Por um lado, o estabelecimento de uma aliança estratégica com o bloco soviético (a então União Soviética e seus aliados) trouxe o apoio político internacional e os recursos econômicos necessários para levar adiante o projeto revolucionário e fazer frente às pressões estadunidenses. Por outro, a aliança tática do regime sandinista foi estabelecida com governos e partidos políticos de inspiração socialdemocrata pertencentes a Internacional Socialista172, cativados pelo discurso ambivalente da FSLN em
projeções internacionais; discurso este que defendia a ideia do movimento nicaraguense ajustado aos princípios de não alinhamento, economia mista e pluralismo político173. A
aliança estratégica com o bloco soviético trouxe muito mais consequências do que a com a ala socialdemocrata, tanto positiva quanto negativamente. Não é errôneo afirmar que os vínculos sandinistas com países soviéticos ganharam novas proporções no cenário internacional, moveram-se do já conturbado problema nacional nicaraguense para o ainda mais conflitante contexto da Guerra Fria. Quando ficou nítido o apoio soviético na Nicarágua, a política do não alinhamento foi desmantelada no âmbito das relações exteriores, o que ocasionou uma ingerência direta dos Estados Unidos e da União Soviética no país e o isolamento da Nicarágua em esferas comerciais internacionais; ou seja, nos anos 80 o território nicaraguense transformou-se em um teatro marginal da Guerra Fria.
A constante polarização entre revolução e contrarrevolução, sandinismo e antissandinismo, levanta a questão da manutenção da unidade social por parte do regime sandinista. Em declarações após a década de 1980 e de sua permanência no exército, Humberto Ortega reconheceu que a grande debilidade dos líderes sandinistas foi justamente a
170 Movimentos de simpatizantes e partidários sandinistas que, por vezes, promoviam manifestações violentas. 171 VELÁZQUEZ PEREIRA, José Luis. Op. cit. p. 17.
172 Organização mundial de partidos socialdemocratas, socialistas e trabalhistas criada em 1951.
173 Ver: NICARAGUA. Constitución Política (aprovada dia 19 de novembro de 1986). Publicada em La Gaceta
n. 5 de 09 de janeiro de 1987. Título I, Artigo 5: “El Estado garantiza la existencia del pluralismo político, la economía mixta y el no alineamiento”.
incapacidade de manter a unidade nacional que havia possibilitado a derrota da ditadura somozista: “Cada um foi para seu lado, nos polarizamos e nos radicalizamos174”.
Apesar de tal fator, indubitavelmente uma das principais “conquistas” do projeto sandinista foi assegurar os fundamentos da defesa militar do poder revolucionário, ainda que à custa de deterioramento social e econômico e desgaste político, moral e material. Para tanto, o uso do EPS (concebido como corpo armado subordinado à direção da FSLN) foi sistemático e fundamental, cimentando o triângulo de poder Estado-Partido-Exército, esquema no qual os setores governamentais “não tinham autonomia”, se subordinando ao projeto de defesa da revolução175. O EPS não se converteu em instituição armada nacional prometida pela FSLN e pela Junta de Governo desde antes da derrocada somozista, tampouco teve perfil ou identidade próprias; contudo, sua centralidade no regime sandinista era inegável e elucidar suas relações diretas com o projeto político e com a sociedade constitui um ponto imprescindível na análise do período de exercício de poder da FSLN e de seus instrumentos.