Definir a avaliação institucional ou qualquer termo pode levar-nos a reducionismos; daí a opção por trabalhar de início com o que ela não é. A avaliação institucional não é a avaliação de pessoas com vistas à exclusão e punição nem para promover premiação (SORDI, 2009). Não é, mesmo que bem intencionado, um agrupamento de práticas avaliativas desconexas e desarticuladas acerca dos outros dois níveis da avaliação. Não deve ser feita por terceiros, pode até contar com auxílio de profissionais ou especialistas da área, mas esse tipo de assessoria não poderá substituir a legitimidade política que a avaliação institucional exige (FREITAS et al., 2009). A avaliação institucional não pode ser isolada nem burocrática porque a transparência de seus objetivos e procedimentos precisa deixar avaliadores e avaliados desarmados e tranquilos quanto ao caráter formativo que ela precisa assumir. Não pressupõe hierarquias demarcadas e solidificadas, todos avaliam e todos são avaliados. É realizada pela escola, na escola e em função dela por seus próprios atores.
Diante desses argumentos, considero que a avaliação institucional deve ser compreendida como uma Avaliação Institucional Formativa (AIF). A AIF tem como objetivo promover o encontro dos dados emanados da avaliação da aprendizagem, realizada pelo professor com seus alunos, com aqueles trazidos pela avaliação de redes, fruto da avaliação em larga escala (FREITAS et al., 2009). Com isso, destaco que não se trata de comparar ou julgar o certo ou errado, mas localizar no projeto político-pedagógico da escola e no currículo as potencialidades e fragilidades do processo educativo. A avaliação institucional fará também uma avaliação da avaliação da aprendizagem. Essa meta-avaliação trará para docentes e discentes melhorias no
processo pedagógico como um todo, contribuindo para uma organização do trabalho pedagógico coerente com a função social da escola.
A AIF precisa de um projeto que oriente sua existência nos mesmos moldes do projeto político-pedagógico da escola, ou seja, deve resultar da colaboração e participação daqueles que serão ao mesmo tempo avaliadores e avaliados. Uma avaliação institucional não pode ser entendida como uma ameaça, uma maneira de premiar ou recompensar como em um plano de carreira funcional (SORDI, 2009). Deve representar os anseios de um grupo que amadurece à medida que se autoavalia e não teme autoconhecer-se. Ela precisa ser formativa porque, como anunciou Villas Boas (2008), uma avaliação formativa poderá remeter os envolvidos a um processo de autoavaliação. Isto poderá, também, auxiliar na conquista da autonomia desejada pela escola.
A AIF, no projeto político-pedagógico da instituição, não deixará de fora indicadores essenciais que estarão envolvidos com a qualidade do ensino e das aprendizagens. A construção desses indicadores será uma tarefa exclusiva de cada escola. Um dado importante e pouco explorado nesse sentido diz respeito ao que cada escola entende e faz com a concepção sobre o que seja o projeto político-pedagógico da instituição. Veiga (2001) nos orienta quanto a compreender sua dinâmica de construção sob o enfoque participativo com a adesão de todos os envolvidos com a escola e faz importante alerta para que não se verticalize ou se reduza seu entendimento ao plano de trabalho para sua operacionalização. A mesma estudiosa sinaliza para eventos em que a escola, ao operar na lógica estratégico-empresarial que se opõe ao ideal emancipador, acaba se pautando no sentido jurídico-administrativo que verticaliza o discurso e as práticas em torno da ideia da autonomia (Ibidem, p. 49). Ao fazer este apontamento da construção dos indicadores pela escola, não quero deixá-los nem deixar a escola sem rumo; pretendo enfatizar o caráter da autonomia que deve ser inerente a cada instituição para identificar seu potencial e seu lado frágil. O mesmo acontecerá quando do levantamento dos indicadores para avaliar a gestão, a relação com a comunidade, os processos comunicacionais advindos da secretaria escolar, entre outros. O ponto de partida e de chegada da avaliação institucional deve ser o projeto político-pedagógico da escola. Nele destaco um foco primordial: a organização do trabalho pedagógico que acontece na sala de aula e ou com vistas à sala de aula. Existem espaços que podem impactar fortemente na qualidade do que se produz nela (na sala de aula) que, por sua vez, poderá refletir nos resultados das avaliações externas. São eles: a formação inicial, a
formação continuada, a coordenação pedagógica local, o conselho de classe, a relação professor- aluno, a cultura da escola e outros. Promover reflexões e avaliar esses espaços e processos podem ser um caminho interessante na busca por tais indicadores.
A AIF é uma aliada da gestão, dos profissionais da escola e da comunidade, é um espaço destinado à promoção do diálogo, da reflexão e da ação responsável por meio da qualidade negociada (BONDIOLI, 2004). Tem o projeto político-pedagógico da escola como um compromisso e uma referência. Ao priorizá-lo, deve estar inserida nele como forma de garantia de sua continuidade e legitimidade técnica e política.
O que a avaliação institucional precisa avaliar? Em primeiro lugar, o projeto político- pedagógico da própria escola. A partir dele, as práticas pedagógicas, os hábitos de estudos, os espaços destinados às aprendizagens na organização, como a biblioteca, a sala de leitura, a sala de vídeo e os projetos didáticos e interventivos da instituição. Nesse grupo de prioridades, a coordenação pedagógica surge como espaço de planejamento e formação, e deve ser avaliada. A intenção é que com isso seja retroalimentada a partir do que apontar esse nível da avaliação. Não se excluirão daqui o corpo docente e os demais profissionais da escola. É que nosso costume avaliador nos trai e nos remete a apontar para os outros. Somos especialistas na heteroavaliação e pouco sabemos da autoavaliação. No entanto, há uma condição inadiável ao sucesso da avaliação institucional: é que ela não deve restringir-se a um dia D na escola. Esse nível da avaliação requer uso articulado, processual e sistemático de ações em consonância com os outros níveis da avaliação. Para isso, poderá contar com uma forte potencializadora que é a autoavaliação, instância mediadora entre a avaliação pessoal e a institucional. Por meio do reconhecimento da função de cada um dentro da organização escolar, ela será o procedimento de transição do eu detentor do egoísmo pessoal para o pensamento construtivo do senso coletivo que é grupal e colaborativo e, portanto, democrático e participativo. O registro (ou expressão) dessa autoavaliação precisa ser adequado à idade, função e ou papel dentro da organização escolar. Os pais, os estudantes, os docentes e todos os profissionais da escola podem e devem fazer uso da autoavaliação com vistas a compor a avaliação da aprendizagem e, neste caso, a avaliação institucional.
A avaliação institucional que se destina formativa não acontecerá de maneira isolada. Aliada dos docentes, discentes, gestores e demais pessoas ligadas à escola se constituirá em um mecanismo de gestão poderoso e facilitador das aprendizagens na escola. Ocorrerá durante todo o
ano letivo em espaços e momentos definidos pela própria escola e, preferencialmente, articulados com outros espaços, como o conselho de classe, o conselho escolar e as reuniões com os pais. Nela não se tomará como fim último os resultados dos estudantes, mas os processos e ações que auxiliaram a gerar tais resultados ou suas construções. Assim como o professor não precisa esperar um final de bimestre, após dois meses de trabalho, para conhecer o potencial e a fragilidade de seu aluno por meio de uma prova ou teste, esse nível de avaliação se propõe a identificar as potencialidades e fragilidades da escola para que ela não se surpreenda com os resultados de avaliações externas.
O ato de avaliar é das atividades mais antigas do ser humano e a que causa também conflitos e constrangimentos. Independentemente da função avaliativa, trará consigo uma ação sem considerar as motivações em que se desvelará o produto dessa avaliação. “Avalio enquanto ajo” pode ser a máxima que define a concepção de avaliação como processo ativo do humano avaliador. O agir, enquanto se avalia, não muda o sentido do que foi escrito. A diferença desejada é que não se torne um elemento solitário, verticalizado e autoritário. Avalia-se para tomar uma decisão ou mudar algo que precisa ser modificado; do contrário, não faria sentido avaliar. O que se espera da avaliação, em qualquer nível, é que ela atenda ao conceito da qualidade negociada (BONDIOLI, 2004). Em se tratando da escola, é importante que essa avaliação seja fruto de um acordo coerente que não perca de vista seus envolvidos (todos), mas que seja em face da função social da mesma: a formação de cidadãos. É nessa perspectiva que proponho uma reflexão sobre a avaliação institucional como aliada da escola pública e promotora da boa qualidade de seus serviços e ações.
A avaliação institucional até aqui mencionada merece, como a avaliação da aprendizagem, uma identidade que precisa convergir na direção declaradamente formativa; daí a utilização do termo AIF. Isso começa a delinear uma rota de coerências que implicará a construção efetiva de uma escola pública e cidadã. A Avaliação Institucional Formativa surgirá do anseio coerente pautado em um projeto declarado para esse fim. Oriunda de um coletivo que deseja o amadurecimento de cada pessoa e da equipe dos profissionais envolvidos, apontará possibilidades de mudanças e ajustes que cooperem com uma escola pública de boa qualidade. A Avaliação Institucional Formativa na escola irá, à medida que se autoavalia, reforçar o papel didático das aprendizagens recíprocas que esse processo poderá proporcionar, processo repleto de conflitos, encontros, desencontros e outras necessidades cada vez maiores. As necessidades irão
demandar da organização a ampliação de espaços para mais escuta, o que implicará acertadamente mais diálogo. A elaboração de um projeto próprio e a constituição de uma Comissão Própria de Avaliação nas escolas de educação básica, como no caso de Campinas – SP (DALBEN, et al., 2009), contribuirá para o amadurecimento do coletivo e para a redução dos equívocos e amadorismos que a tarefa pode revelar.
Importa lembrar que, em uma seara dessas, na qual se envolvem tantas pessoas e em que avaliar implica compartilhar poder, a própria avaliação torna-se um ato político eivado de concepções de qualidade (SORDI, 2009) que precisa também ser avaliada. Nessa comissão, Dalben et al. (2009) destacam que a função não é para se confundir com a tarefa de mensurar a produtividade docente ou de outro profissional da escola, assim como não deve confundir-se como estratégia ou “política de ascensão ou plano de cargos e salários” (DALBEN et al., 2009, p.85). Sua função é a de desencadear o processo de autoavaliação interna, realizada na escola, pela escola e para a escola (FREITAS et al., 2009).
O exemplo vivenciado em Campinas/SP com a experiência de implantação da Avaliação Institucional Participativa na rede municipal daquela região nos traz uma importante inovação com a existência do “apoiador externo” (SORDI, 2009, p. 90). Esse profissional era representado por um pesquisador da universidade, com a função estratégica de orientação, suporte e estímulo ao grupo que voluntariamente abraçou a proposta de implantar a avaliação institucional. Sobre isso, Sordi (2009, p. 90) afirma: “é um equívoco esperar dele que resolva as questões e aponte os caminhos para a escola”, como também seria ingênuo imaginar que esse mesmo grupo não faria resistência ao apoiador e ao processo diante do fato “da adesão voluntária”, alerta a pesquisadora. O diretor da escola, na experiência mencionada, não assumia a presidência da CPA. Não foi um argumento considerado problemático para aquele grupo, pois a ele cabia em um primeiro momento garantir as condições de funcionamento, como prover materiais para as reuniões, encontros e demais espaços para atuação da CPA. O diretor recebia da CPA relatórios que continham “recomendações para melhoria das condições da oferta de ensino” (SORDI, 2009 p.100).
Proponho que a Avaliação Institucional Formativa seja um instrumento de gestão e esteja a serviço das aprendizagens, como foi pontuado anteriormente. O olhar do diretor desde a compreensão desse processo pode, em tese, facilitar ou dificultar a caminhada. Na literatura já é consenso que tememos a avaliação, seja ela qual for. Não seria diferente neste nível. O que se
espera é que retomemos nossa função de avaliadores, nossa maturidade de avaliadores, nosso olhar de avaliadores e agora nos voltemos para nós mesmos e para nossos pares, o que é raro e novo nesse campo. Se declaramos que avaliamos os estudantes porque queremos o bem deles e o melhor para eles, não iríamos querer o mesmo para nós e nossos pares? A equipe docente que se fragiliza diante dos resultados dos exames de larga escala pode encontrar na Avaliação Institucional Formativa uma aliada para realizar o encontro dos dados emanados das avaliações externas, sem com isso causar exposição ou punição aos estudantes ou a seus pares. Sinaliza-se, então, a construção de uma escola reflexiva, democrática, participativa e ética.
A Avaliação Institucional Formativa não desprezará um só olhar ou contribuição dos estudantes que quase não são ouvidos, de seus pais que nem sempre são entendidos e fará uso da articulação democrática e não patrimonialista (MENDONÇA, 2000) que, como sabemos, afasta muito esses segmentos dos espaços que lhes pertencem.
Malavasi (2009) reforça essa assertiva ao mencionar que os pais precisam reconhecer-se como um dos segmentos que pertencem à escola. A estudiosa menciona preocupação pertinente à qual cabe séria investigação porque não localizei na literatura algo que preenchesse a lacuna aberta por ela, de como a escola “apresenta à comunidade o seu PPP incluindo a avaliação institucional” (MALAVASI, 2009, p. 183). Nesse caso, entendi que o ineditismo veio sob dois aspectos: o primeiro diz respeito a essa comunicação respeitosa e em forma de um feedback para a comunidade a respeito do produto que ela em tese teria ajudado a construir: o projeto político- pedagógico da instituição. O outro destaque a que me refiro é o item novo, ou seja, a escola inserir em seu projeto político-pedagógico o espaço para a avaliação institucional. Em estudo realizado por mim em 2005, em uma diretoria regional de ensino do Distrito Federal, analisei os projetos de 64 escolas e pude constatar que não havia menção à avaliação institucional em seu corpo teórico. Outra constatação revelada foi a não compreensão do que era o PPP para os dirigentes daquelas escolas. Confundiam projeto didático, plano de ensino, projeto interventivo como se fosse o mesmo que projeto político-pedagógico da instituição. Nessa ocasião, uma escola enviou o projeto da horta escolar como se fosse seu projeto político-pedagógico, sem mencionar as escolas que seguiam o calendário das datas comemorativas do comércio e o consideravam o projeto político-pedagógico da instituição (LIMA, 2005).
O tempo da avaliação institucional em nossas escolas sequer foi iniciado em muitas delas, o que não quer dizer que esse nível da avaliação não aconteça. Recorro a Sordi (2009, p.
107) cuja inspiração me motivou a situar a escola como espaço de formação, seriedade e trabalho, sobretudo, espaço de “algum prazer” para aqueles que a frequentam. Limitar esse momento da avaliação institucional para promover no nível funcional o “ranqueamento” que se faz com os estudantes e com as escolas no nível dos sistemas é improdutivo e antiético. Aqueles que compartilham do convívio diário com professores, profissionais da escola em outros níveis e equipe diretiva, de maneira geral sabem que as linhas imaginárias que distanciam as pessoas nos cargos/funções do indissociável gênero humano são, ao mesmo tempo, fortes e frágeis, dadas as condições materiais a que somos submetidos diariamente. A escola é uma comunidade que está acostumada a ensinar, mas precisa, por incrível que pareça, ser também uma comunidade que estuda para melhor ensinar. A avaliação institucional não é realmente a panaceia para todos os males (VIANNA, 2005); contudo, abrir mão dela não extinguirá os problemas da escola.
A avaliação até aqui foi tratada como construção cujas implicações demandam preocupações no âmbito pessoal (dos profissionais) e sistêmico da escola como instituição formadora. Fischer (2010, p. 48) auxiliou-me a sintetizar esse percurso ao lembrar que “Cabe, pois, a cada docente e a cada gestor minimizar os efeitos menos nobres decorrentes das relações de poder, impedindo a tônica competitiva que pode, ou não, permear as propostas de avaliação”. A avaliação no nível da aprendizagem, institucional ou de redes só servirá a seu maior propósito que é conduzir ao sucesso das aprendizagens caso seja ética e, sobretudo, não seja desencorajadora.
A seguir, apresento a metodologia adotada para esta investigação cuja decisão implicou a escolha por um estudo de caso do tipo etnográfico. A metodologia é para o pesquisador o que a bússola representa para o navegador: uma direção.