As pequenas empresas são organizações com características particulares ao seu porte que estão condicionadas ao seu desempenho e sobrevivência.
Como fatores peculiares às pequenas empresas que dificultam um bom desempenho da organização Cher (1991) e Cândido (1998) destacam: centralização do poder nas mãos da gerência/proprietário, que muitas vezes tem dificuldade de delegar autonomia a seus funcionários e se mostra resistente às mudanças; falta de planejamento anterior à abertura do negócio e falta de conhecimento do instrumento de administração (marketing, contábil- financeiro, recursos humanos, produção, informática); falta de recursos e dificuldade de obtenção de créditos e financiamentos, devido ao baixo poder de barganha frente às instituições financeiras e à impossibilidade de arcar com as garantias e/ou juros impostos por essas; falta de mão-de-obra qualificada, por muitas vezes oferecer empregos menos vantajosos aos trabalhadores (em relação às grandes empresas) e não investir no treinamento dos funcionários; burocracias legais (aspectos tributários, fiscais e trabalhistas) onerosas para a empresa; obsolescência de método, equipamentos e mentalidade gerencial; falta de competitividade para enfrentar a concorrência; falta de comunicação entre patrões e funcionários; baixa capacidade produtiva e; dificuldade financeira em investir em novas tecnologias e em P& D.
Porém, as pequenas empresas possuem características que podem vir a contribuir para o seu bom desempenho. Cândido (1998) destaca as seguintes: maior flexibilidade em resposta às mudanças do mercado, o que está associado à maior agilidade na tomada de decisões
devido à menor estrutura hierárquica e maior proximidade do funcionário em relação aos clientes, possibilitando um tratamento mais personalizado a esses.
Deve-se ressaltar aqui que tais características citadas nos dois parágrafos anteriores não podem ser generalizadas, pois a forma de inserção das pequenas empresas no mercado influi também para o seu desempenho e competitividade. De acordo com Souza et al. (1998), as pequenas empresas podem se inserir na estrutura produtiva de diferentes maneiras, com dinâmicas diferentes e perspectivas distintas para a atuação competitiva em bases capitalistas. As categorias de inserção das empresas de pequeno porte citadas pelos autores são as seguintes:
√ setores altamente competitivos (como comércio e serviços): são os setores em que se encontram a maioria das pequenas empresas. Nestes setores existe uma tendência ao favorecimento da concorrência em preços com estabelecimentos do mesmo ramo, principalmente na ausência de esforços de diferenciação. Assim, sua sobrevivência está, em geral, ligada à baixa remuneração da mão-de-obra e evasão fiscal. Essas empresas pertencem à categoria de inserção mais precária, formando a base das estatísticas de mortalidade e rotatividade das empresas. Outras características dessas empresas são a baixa produtividade, a alta rotatividade das empresas e dos funcionários; gestão centralizadora; representando possibilidade de ocupação para os desempregados e, sua dinâmica depende do nível de atividade econômica geral, o que acaba levando à vulnerabilidade dessas empresas em períodos de depressão econômica;
√ pequenas empresas pertencentes a redes comandadas por grandes empresas: as pequenas empresas atuam como fornecedoras de grandes empresas (através da subcontratação), realizando atividades não essenciais dessas. O sucesso desse tipo de rede depende da integração entre as unidades produtivas, uma vez que a grande empresa pode auxiliar no desenvolvimento da pequena empresa, mas dependendo do poder das grandes empresas que lideram as redes, esse arranjo pode caracterizar a subordinação (até mesmo completa) das pequenas empresas aos movimentos das grandes. Esse tipo de interação que está associada à complementaridade entre empresas pode então configurar relações de dependência das pequenas empresas subcontratadas às empresas contratantes;
√ sistema de franquias: as grandes empresas oferecem às pequenas empresas a possibilidade de serem seus “representantes”. O franqueado (pequena empresa) investe recursos próprios no negócio, que será operado com a marca do
franqueador (grande empresa) e de acordo com os padrões estabelecidos por este. Porém, atualmente o custo de se adquirir e se manter uma franquia é elevado e portanto é geralmente inacessível ao pequeno capital;
√ espaços não ocupados pelas grandes empresas como por exemplo: empresas de tecnologia avançada, biotecnologia, empresas de serviços especializados, serviços industrializados em engenharia e arquitetura industrial etc. A vantagem competitiva dessas empresas está relacionada ao alto grau de especialização do produto, personalização do serviço e ao baixo custo de produção, uma vez que o insumo principal é o conhecimento. A busca de nichos de mercados e a contínua qualificação dos funcionários são a base para a manutenção de uma inserção competitiva no mercado;
√ pequenas empresas pertencentes a redes com outras pequenas empresas que atuam em um mesmo setor e que estão geograficamente concentradas, em uma mesma região ou município. Devido à atuação em um mesmo setor de atividade e à localização próxima umas das outras, as pequenas empresas que integram a localidade podem obter ganhos de escala e escopo, aumentar seu poder de barganha junto a fornecedores, clientes e instituições de crédito, construir um ambiente que facilite o intercâmbio de informações, atrair a atenção de órgãos públicos para as suas necessidades e potencialidades etc. Isso tudo pode ser obtido se as empresas conseguirem articular a especialização produtiva (com a necessária divisão do trabalho entre as empresas) e ações coletivas (visando a complementaridade e a obtenção de ganhos de escala).
As pequenas empresas muitas vezes são vistas apenas como absorvedoras de mão-de- obra, o que segundo Souza et. al. (1998) pode na verdade evidenciar e estimular as características mais frágeis dessas empresas, isto é: o uso de pessoal menos qualificado e baixos salários; ausência de registro dos trabalhadores não proporcionando a eles direitos trabalhistas; o uso de tecnologias atrasadas, entre outras.
Ao invés de apenas considerar aspectos negativos das pequenas empresas deve-se destacar que elas podem ser qualitativamente importantes para a economia, ao assumirem duas funções importantes (GORAYEB, 2002): preencher espaços não ocupados pelas grandes empresas (produtos e serviços que exigem alta diferenciação e personalização) e complementar as atividades das grandes empresas ao serem partes integrantes do seu modo de funcionamento e de relacionamento com as etapas à jusante e à montante.
Segundo Gorayeb (2002) quando se considera as aglomerações setoriais de pequenas empresas, essas organizações são capazes de minimizar ou até mesmo eliminar as desvantagens estruturais do pequeno capital e, portanto, capazes de assegurar a sobrevivência das pequenas empresas até mesmo nos espaços ocupados por grandes empresas. Isto pode ocorrer porque as pequenas empresas aglomeradas, conjugando especialização produtiva e articulação entre elas, obtêm ganhos econômicos que seriam difíceis de serem alcançados caso as pequenas empresas operassem de forma isolada.