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O termo segurança deriva do latim securitate e, segundo CLEMENTE (2010: 155),

traduz um “estado de tranquilidade resultante da ausência de perigo ou, pelo menos, da perceção real de risco”. Mas o seu conceito há muito que incendeia discussões, expondo um percurso, nem sempre pacífico, da reflexão científica em torno da segurança e que se adivinha ainda tortuoso, quer por conta dos novos fenómenos criminais que confirmam a pertença do conceito ao grupo de topologias mutáveis no tempo e no espaço (VALENTE,

2013), quer pela resistência dos Estados à mudança. Este é, portanto, um conceito contestado, ambíguo, complexo, com fortes implicações políticas e ideológicas (BUCHAN E

MACKINTOSH, 1973; BUZAN, 1991; THOMAS, 1992), que adjetiva uma realidade que se tem apresentado como o proscénio de intensos desassossegos no pensamento científico- político-legislativo da comunidade internacional. Tamanho desassossego resulta do facto de estar conceptualmente erigido numa lógica ultrapassada de guerra fria (VALENTE, 2013),

necessidade/valor individual e colectivo, estado conceptual do ser humano e de Estado, sentimento real ou cognitivo (ou psicológico-cognitivo) e, por fim, instrumento/meio/actividade e fim” (idem: 133).

Até ao início da década de noventa do século XX, o conceito de segurança achava- se num framework bem definido (DORMAN E TREACHER, 1995), sendo clara a visão tradicional de segurança que enfatizava a sua dimensão nacional, primando o Estado. Segundo CALDWELL e WILLIAMS JR. (2006), as ameaças percecionadas eram, sobretudo, ameaças à soberania, aos sistemas políticos e económicos e à integridade territorial do Estado por outros Estados.

Os estudos sobre a segurança dedicavam-se mais às dimensões político-militar, estadual e externa, com a defesa da soberania do Estado a afigurar-se como um dos objetivos primordiais das políticas de segurança (BRANDÃO, 2004), levando a que esta

época histórica ficasse marcada pelo domínio da segurança militar.

Em 1983, RICHARD ULLMAN57 apresentou um trabalho pioneiro da agenda ampliadora

na revista International Security, no qual sugeriu uma redefinição do conceito, considerando outras dimensões da segurança, como a questão ambiental, o controlo dos recursos energéticos e os desastres naturais, que tornaram o conceito de segurança que se impunha menos deficitário (FERNANDES, 2014).

Tornou-se, desta forma, claro que a segurança, o desenvolvimento económico e a liberdade humana são indissolúveis. Nesta senda, BUZAN (1991) sustenta que o conceito clássico de segurança continuava pouco desenvolvido e revelava-se inadequado (KARYOTIS, 2007), salientando cinco setores de segurança que se interligam de modo

complexo (político, militar, económico, societal e ambiental), a partir dos quais poderiam ser geradas as ameaças (BOURBEAU, 2006; SHEEHAN, 2005; PIMENTEL, 2007). Assim,

poder-se-ia falar não apenas de uma, mas de cinco formas de segurança: a segurança política, a segurança militar, a segurança económica, a segurança societal e a segurança ambiental. Estamos, deste modo, perante uma segurança multissetorial (BUZAN,WAEVER E

WILDE, 1998), com os cinco setores a operar em consonância entre si e nunca

isoladamente, uma vez que, segundo esta abordagem, os setores são interdependentes e a segurança indivisível (SHEEHAN, 2005).

Porém, talvez mais importante que este alargamento aos cinco setores propostos por Buzan é a extensão dos objetos referentes58 de segurança aos indivíduos e ao sistema

57 Apesar do significativo avanço, o trabalho de Ullman não traduz uma rutura com as teorias anteriores (SHEEHAN,

2005), na medida em que se continua a orientar no sentido da segurança nacional e realista. Todavia, é com Ullman que se lança, pela primeira vez, o debate sobre fontes de ameaças não-militares e se abre atalho para questionar desadequados pressupostos da segurança e ampliar o conceito a outras dimensões.

internacional, deixando de se centrar exclusivamente no Estado59 (B

UZAN, 1991). Diante

disto, Buzan estabelece o ponto de partida para o desenvolvimento de um conceito de segurança assente numa “base teórica mais coerente com a sua própria contemporaneidade”60 (P

ATRÍCIO, 2011: 15), pois para além de ampliar os tipos de ameaça,

insere outros objetos de referência no campo de pensamento do analista.

O fim da Guerra Fria trouxe alterações profundas no contexto internacional e o aparecimento de novas ameaças com caráter transnacional e global, dirigidas não só aos Estados, mas também às pessoas, promoveu a perceção das dimensões não-estadual e não-militar da segurança (GARCIA, 2006) e a obsolescência da conceção de segurança das

teorias até então predominantes.

A urgência por uma nova ordem, mais preocupada com o indivíduo e menos focada nas dinâmicas entre os Estados levou a que a pessoa humana adquirisse nova importância e passasse a ocupar uma posição central (GARCIA, 2006; FREITAS 2011). Surdiu, assim, o

conceito de segurança humana que pretendia comutar a abordagem tradicional da segurança centrada nos Estados por uma nova abordagem assente na segurança das pessoas (KERR, 2007), subordinada ao primado dos direitos humanos e determinada como

direito garantia (VALENTE, 2013). O conceito foi consagrado em 1992, no relatório do

Secretário-Geral da ONU e acarreado no Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento no ano seguinte, como forma de resposta às guerras civis que despoletaram nesse período. O pressuposto da segurança humana é, pois, libertar todos os indivíduos e toda a Humanidade da violência e do medo (freedom from fear) e da pobreza e privação (freedom from want).

Porém, pela sua essência mais volúvel, este conceito acaba por ser manipulável e aplicável de tal forma difusa (FREITAS, 2002) que a sua demanda persiste em “vacila[r]

entre o sentido comunitário e o individualismo” (CLEMENTE, 2006: 24). Ciente da limitação

do conceito e da sua difícil operacionalização, ANA PAULA BRANDÃO (2004) acredita que ele

não nos deve deixar esquecer que a comunidade política subsiste para a pessoa e que a essência do conceito se arruma precisamente no ator (a pessoa humana como objeto da segurança) e não no setor.

Posteriormente, o desenvolvimento científico e tecnológico e consequente globalização permitiram compreender a gravidade dos problemas e a incapacidade dos Estados para lhes fazer face, e assim percecionar as dimensões setoriais e conceptualizações da segurança (BRANDÃO, 2004) problematizadas pela Escola de

Copenhaga e por Buzan. BRANDÃO (2004) considera que, nas últimas duas décadas, se

59 Para a teoria ampliadora dos Estudos de Segurança, o Estado compartilha com os indivíduos e com o sistema

internacional (ou até com outros sujeitos/objetos) a prerrogativa de ser o objeto da segurança

tem vindo a afirmar, cada vez mais, a propensão para a extensão do conceito a questões como a segurança económica, a segurança do ecossistema e a outros conceitos alternativos de segurança, que abarquem o crime internacional organizado, a disseminação transnacional de doenças e os movimentos migratórios internacionais em grande escala. A esta nova conceptualização de segurança junta-se uma “dinâmica de aprofundamento traduzida no (…) desenraizamento da artificialidade da natureza armada e a sua recontextualização como resultado de processos sociais” (FREIRE, 2015: 93).

Ademais, COLLINS (2007) nota que, simultaneamente, se tem assistido a uma

externalização da segurança interna e a uma internalização da segurança externa, como forma de resposta às ameaças contemporâneas, originando necessariamente uma transferência de matérias de segurança para outros atores para além do Estado. Na mesma senda, GUEDES e ELIAS (2012) entendem que tem sobrevindo um apagamento da

distinção entre segurança interna e externa, o que constitui uma das mais importantes alterações estruturais verificadas nas relações internacionais. Apesar de tudo, estes autores resguardam que continua a existir uma separação estanque entre segurança interna e segurança externa, a par de uma segurança que deve subsistir entre questões nacionais e internacionais. Para esse apagamento, muito contribuíram os atentados terroristas do 11 de Setembro ao determinar importantes alterações dos quadros conceptuais relativos à segurança e na forma de percecionar o mundo. O conceito de segurança perdeu a sua dimensão quase exclusivamente pública, nacional e militar e passou a compreender o empenhamento de outros atores (GUEDES eELIAS, 2012), dentro

e fora de portas. Segundo EMMERS (2007), este foi o grande ponto de viragem no

entendimento da segurança dos últimos anos, que modificou o seu valor, passando-se de uma segurança previsível para uma segurança orientada para riscos diversos (GARCIA,

2006), mais difusos na forma, origem, espaço e atores, não raras vezes materializados longe da base territorial dos Estados.

Várias outras dimensões têm sido incluídas na agenda da segurança, embora com diferentes aceitações. Simultaneamente, assiste-se a reconfigurações conceptuais relevantes que têm alargado desmesuradamente o conceito de segurança. Os mecanismos para a sua governação foram profusamente ampliados, com reflexos disciplinares no plano da investigação e estudos realizados por diferentes áreas científicas (muitas delas desligadas, até há bem pouco tempo, dos aspetos securitários), revelando profundas alterações do seu paradigma primitivo (GUEDES e ELIAS, 2012) que admitiram

ultrapassar a conceção elementar de segurança territorial e uma aproximação às características de uma necessidade securitária atual e premente, assente num “conceito poliédrico [com uma] topologia mutável no tempo e no espaço” (VALENTE, 2013: 118).

Perante a urgência de um reassentamento concetual da segurança e a indispensabilidade de abandono dos axiomas da Guerra Fria, VALENTE (2013: 133) reconstruiu o conceito e

define, hoje, segurança como

“(…) um polígono poliédrico, plurifuncional e plurinormativo, que se afirma como uma necessidade e um valor individual colectivo mutável e adequável a um estado conceptual do ser humano e de Estado de um tempo e de um espaço gravitacional, e como um sentimento real e cognitivo (ou psicológico-cognitivo) a ser produzido e alcançado como instrumento, meio e actividade desenvolvida por entes dotados de ius imperii para a prossecução do fim público (e privado) primordial da sociedade sem fronteiras: a vivência harmoniosa em comunidade”.

Não obstante, novos horizontes se avistam, inerentes a um mundo em permanente mudança e afrontado constantemente por novas ameaças, cuja matriz deve ser bem apreendida, de modo a efetivar novas dinâmicas securitárias, sempre erigidas sobre a “topologia – segurança – detentora de elevada extensibilidade conceptual que se afirma como poliédrica, plurifuncional e plurinormativa” (idem: 121). Tais dinâmicas devem, no entanto, ser permanentemente ajustadas aos desafios que a tardo-modernidade nos impôs e irá impor, privilegiando a reedificação da segurança como um direito vital supranacional e um direito garantia do exercício seguro e tranquilo dos demais direitos e dos limites à intervenção do Estado, assim como a concreção do ser humano como centro da discussão, ou então, como nos alerta MOREIRA (2004), o que se conhece como mundo

moderno poderá deixar cair o sentido da segurança e será tomado por um perpétuo medo.

Benzer Belgeler