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YENİ CAMBRIDGE YAKLAŞIM

3.8. YENİ CAMBRIDGE YAKLAŞIMINDA İSTİKRAR

Era uma noite de janeiro, no pequeno quarto de plantão médico, onde trabalho como pediatra intensivista de um Centro de Tratamento Intensivo – CTI – de um hospital público. No hospital, quantas mudanças do espaço físico nos últimos 17 anos, sobretudo a melhoria dos avanços tecnológicos que nos permitiram uma mais adequada quantificação e monitorização de nossas crianças graves, gravíssimas, estáveis ou instáveis, com bom prognóstico e com prognóstico reservado. Certamente, foi ali, na prática clínica com crianças em risco de morte, que nasceu em mim a necessidade de lapidar a angústia que me possibilitou a habilidade de escrever, de transmitir a experiência vivenciada a partir da clínica pediátrica com pacientes graves e da clínica psiquiátrica, também com pacientes graves, porém pacientes com gravidades diferentes. Porém, há um ponto em comum entre esses pacientes: é a possibilidade de colocarem em evidência, no caso a caso, o campo da pulsão de morte e da pulsão de vida.

O que posso dizer sobre isso: “pacientes graves, mas pacientes com gravidades diferentes”. Evidencia-se aí a dimensão paradoxal da clínica médica, pois a prática médica intensivista exige que o médico acredite que seu objeto de intervenção é o corpo como organismo, o corpo anatômico, quantificável, que se mantém vivo através de um complexo mecanismo de homeostase. É sobre esse corpo-organismo que iremos intervir. O médico, na prática com anoréxicas graves, também é convocado a ocupar posição semelhante ao do intensivista. Por outro lado, frequentemente me deparo com os questionamentos de meus colegas médicos: “será que a mãe vai querer levar para a casa o bebê que nasceu dentro do vaso sanitário, ou o bebê com malformações

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múltiplas, que nós tanto investimos em salvar e manter vivo?” Inscreve-se aí a dimensão do desejo.

Paradoxalmente, o ato médico em casos de emergência e de urgência clínica exige uma prontidão de ação. Nessas situações, a intervenção médica se sobrepõe à questão do desejo, em nome da vida. O rigor exigido pela habilidade técnica precisa e imediata, de uma forma ou de outra, mobiliza angústias nos profissionais que atuam nesses serviços. E, inúmeras vezes, os pacientes nos surpreendem em relação às respostas clínicas ao tratamento. Como exemplo, pacientes com scores clínicos de risco de morte altíssimos, que definem um prognóstico reservado, por vezes, respondem de forma extremamente satisfatória ao tratamento. Ao contrário, outros com bons prognósticos, às vezes evoluem para a morte, a despeito de todo aparato e rigor técnico. Inscreve-se, assim uma clínica em que algo escapa, evidencia-se, de forma insistente, a questão do desejo, que define um estatuto diferente das bases anatômicas e biofísicas do puro organismo. Enfim, o que é o corpo vivo?

Nessa perspectiva, percebemos o avanço dessas discussões. Nossas unidades de terapia intensiva abriram suas portas para a presença de psicólogos, assistentes sociais, dos comitês de ética, que de uma forma ou outra permitem o tratamento inicial da angústia suscitada pela abordagem de pacientes em situação de risco de morte, colocando em evidência que o corpo vivo não é somente o organismo.

Ao longo desses anos, me deparei com situações peculiares na solidão de um quarto de plantão, tal como no momento em que estava vivenciando a inércia pós- exame de pré-defesa desta tese; ressoava de forma insistente em meus pensamentos a demanda, um convite ou convocação dos orientadores de minha investigação de que eu pudesse exercer um pouco a prática da enunciação. Confesso que fui lançada em um estado de paralisação, pois é muito mais fácil o exercício acadêmico de uma escrita do

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que a enunciação de uma experiência. Porém, de repente uma colega de trabalho me disse que estava lendo os livros Alice no país das maravilhas e Através do espelho e o

que Alice encontrou por lá. De maneira estranha, fiquei tão surpresa com o título do

livro, como se eu nunca tivesse ouvido ou lido a história de Alice. Desejei que ela imediatamente me deixasse percorrer as páginas do livro, mas ela manteve consigo o livro de Alice, como se portasse um objeto precioso.

Então, diante da decepção de não ter acesso imediato às aventuras de Alice, resolvi buscar um pouco das minhas lembranças tão distantes. Afinal, me sentia um pouco sem criatividade e cansada tal como Lewis Carroll descreve Alice que estava ali, sentada ao lado da irmã na ribanceira, sem ter o que fazer. Ela espiava as páginas do livro que a irmã lia e pensava: para que serve um livro sem figuras e sem diálogos? Alice refletia com seus botões, pois o calor a fazia se sentir sonolenta e burra; o que a fez levantar-se subitamente foi a curiosidade provocada pela visão de um coelho com bolso de colete e com relógio. Alice entra na toca do coelho movida pela curiosidade e irá vivenciar as mais estranhas transformações de sua imagem, somente ao final da estória é que descobrimos que Alice estava sonhando.

Lembrei-me de minha infância, pois Alice sempre me remetia à possibilidade mágica da transformação da imagem do corpo. Eu sempre ficava encantada ao imaginar que uma criança podia passar por experiências tão assustadoras diante do espelho, tais como aquelas salas nos parques de diversões em que, ao percorrermos o túnel dos espelhos, vivenciamos, na infância, as mais engraçadas e assustadoras transformações da imagem do corpo.

Tal como Alice entrou por curiosidade na toca do coelho, eu também muito jovem fiz uma escolha decidida pelo estudo da medicina, minha motivação era a curiosidade, era o desejo de saber o que acontece no nível dos arranjos genéticos que

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define as mais variadas apresentações fenotípicas do corpo humano. No ensino médio estudei de forma atenta a disciplina de genética, entendi um pouco dessas diferenças que se inscrevem na superfície dos corpos como heranças autossômicas, recessivas ou dominantes. Depois, na Faculdade de Medicina, as aulas de genética pareceram, inicialmente, responder as minhas questões, mas certamente, não por acaso, ao escolher na prática médica a assistência a crianças e adolescentes não desacreditei da genética; ao contrário assisti, na última década do século XX, aos seus avanços e às suas promessas, mas a resposta não estava nem na genética nem na medicina.

Então, recorro novamente a Alice para transmitir minha descoberta de que as diferenças anatômicas que definem as características orgânicas e nossa imagem fenotípica não é de forma isolada o que podemos definir como imagem corporal e que as respostas de cada sujeito a essas questões fundamenta-se no processo constitutivo da vida psíquica. Alice diante da transformação de sua imagem se interroga: “Ah quem sou eu? Mas, se não sou a mesma, a próxima pergunta é: Afinal de contas quem sou eu? Ah este é o grande enigma!” (CARROLL, 1865 [2010], p. 15). Novamente Alice ao se encontrar com o mosquito irá se interrogar “Por que as coisas têm nome?” E ao se esquecer de seu próprio nome se interroga: “E agora, quem sou eu?” (CARROLL, 1865 [2010], p. 198, 204). Alice nos demonstra dois pontos fundamentais em relação às suas vivências nas alterações da imagem do corpo: primeiro, as várias alterações de sua imagem a remetem a questão sobre o “eu”, e num segundo momento Alice, diante da impossibilidade de ser nomeada, ao esquecer seu próprio nome, irá novamente se interrogar: “Quem sou eu?” Esses dois pontos são fundamentais para a tese que aqui se visa demonstrar de que a linguagem via significantes, que é a possibilidade de sermos nomeados pelo outro, se inscreve como uma rede simbólica que tem efeitos constitutivos sobre a vida psíquica. Esses efeitos da linguagem se manifestam no nível

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Benzer Belgeler