Esta tese se dedicou ao estudo da proposta de gramatização científica eclética produzida por Othoniel Motta, como substituição do método sintético-metafísico, construído sobre as bases da Gramática Geral e Filosófica e dos Enciclopedistas, pelo método analítico-expositivo, produzido no final do século XIX, sobre as bases da Gramática histórico-comparativa.
Diante dos objetivos traçados, podemos apresentar as seguintes conclusões: a cientificidade da gramatização produzida por Othoniel Motta e seu distanciamento do “método sintético” em favor do “método analítico”, a partir da rejeição aos sistemas metafísicos e a adesão ao estruturalismo norte-americano, principalmente. Tal proposta coincidiu com os próprios ideais políticos vigentes na época no Brasil, com a adequação ao sentimento nacionalista, fruto de uma libertação colonialista processada em décadas anteriores.
A partir de tais ideais políticos aplicados à gramaticografia brasileira do início do século XX, identificamos no trabalho de Othoniel Motta relevante contribuição e influência do protestantismo brasileiro na formação da língua portuguesa no Brasil, no início do século XX, especialmente com vasta publicação de material gramatical em jornais de grande circulação, bem como a publicação de obras, tanto no âmbito escolar quanto eclesiástico.
Othoniel Motta fazia parte de um grupo especial de intelectuais do início dos anos 1920 que buscavam ampliar o conceito de nacionalidade no Brasil, como Eduardo Carlos Pereira, seu parceiro também no campo eclesiástico. Seus escritos tiveram impacto em todos os âmbitos, com um ideal de divulgar novidades no aprendizado da Língua Portuguesa.
O ideal da produção de Othoniel Motta, comum a tantos outros gramáticos do início do século XX no Brasil, era o de relacionar o caráter analítico ao pedagógico, de modo que a língua fosse vista como instrumento de luta. Para atingir a este objetivo, Othoniel Motta buscou construir um cenário de uma identidade linguística como parte do processo de constituição da própria nacionalidade brasileira, rechaçando propostas que não se adequassem ao sistema linguístico nacional.
A tese revelou o engajamento de Othoniel Motta na luta por uma educação linguística mais experimental, prática, vinculada à realidade dos usuários da língua portuguesa no Brasil. Sua proposta se tornou inovadora, em razão de que a proposta era de
um estudo de língua pensado a partir da vivência dos indivíduos, que buscavam, naquele momento, sua base de independência nacional.
Demonstrou-se, por exemplo, que, desde a escrita de O Ensino do Vernaculo, cuja datação é próxima ao final de 1915 até por volta de 1925, Othoniel Motta já apontava um grave problema na educação de língua no Brasil. Sua proposta era de se fazer um estudo de língua com inteligência e não com a memória. Deste modo, o rompimento com a estrutura do método sintético e metafísico era necessário, pois os estudantes não deveriam aprender uma língua do mais complexo para o mais simples; mas, ao contrário, deveriam apreender a estrutura da língua a partir de uma análise gradativa.
Seguindo esta sua proposta, Othoniel Motta propunha, então, um ensino gramatical que se iniciasse por noções essenciais para depois associar tais noções à análise sintática. Esta foi a constatação nas obras demonstradas e analisadas: O meu Idioma, Lições de Portuguez e Chave da Língua –, além do artigo O Ensino do Vernaculo.
Percebeu-se o modo como Othoniel Motta desejava ensinar a língua a partir de um modelo que levasse os usuários do idioma a uma reflexão sobre o seu uso, não somente do ponto de vista teórico, mas prático. A aprendizagem deveria fazer com que o aluno articulasse os fatos da linguagem do mais simples ao mais complexo.
Esta tese pretendeu também analisar, a partir de uma interdisciplinaridade com a Análise do Discurso, aspectos formadores do ethos gramatical e religioso de Othoniel Motta. No discurso religioso de Othoniel Motta, vemos florescer a construção de um ethos polêmico, carregado de simbolismos, revelando alto grau de pertencimento à sua formação discursiva, em sua filiação à Igreja Presbiteriana Independente do Brasil e, posteriormente, à Igreja Cristã. Tal caráter polêmico se manifestou, por exemplo, na análise da obra O Paraíso e o Céu, no qual o autor desafiou as estruturas ideológicas e arranhou a base confessional de sua própria denominação, ao propor a doutrina do estado intermediário da alma, aproximando, deste modo, da tese católico-romano do purgatório.
A análise discursiva de O Paraíso e o Céu não objetivou apenas o discurso religioso, mas também atrair o olhar do pesquisador para os aspectos historiográficos da obra de Othoniel Motta. Nenhuma obra pode ser isolada de seu contexto maior e isto ficou evidenciado na análise do discurso de Othoniel Motta.
A tese demonstrou, portanto, ainda como parte de seus objetivos, sua relevância teórico-metodológica pela interdisciplinaridade estabelecida entre a HL, quando permitiu ler os fatos textuais e linguísticos com os óculos da História, proporcionando uma aplicação social extremamente relevante, uma vez que a língua passa a ser vista como
fenômeno de construção de identidade e como símbolo de nacionalidade cultural, e a AD, que permitiu ampliar as perspectivas discursivas, no que se refere às marcas não apenas históricas, mas também aquelas que conferem certo grau de pertencimento e de construção de um ethos discursivo gramatical e religioso.
A pretensão foi estabelecer um diálogo entre as disciplinas, com a tentativa de aproximar os recursos de ambas e, consequentemente, ampliar o modelo analítico do corpus em discussão. Partiu-se do pressuposto de que ambas as disciplinas têm suas metodologias específicas, cada qual em seu próprio lugar e com seu objeto claro; mas, verificou-se que ambas podem contribuir de maneira especial para uma compreensão mais abrangente dos discursos.