IV. BULGULAR VE YORUMLAR
4.7. Yedinci Alt Amaca Yönelik Elde Edilen Bulgular ve Yorumlar
A máquina florista de fato entrou em ação para garantir a vitória do PRL em 1933: dificultando o cadastramento eleitoral e a campanha da FUG, recusando autorizações de comícios públicos, restringindo e prendendo líderes frenteunistas, além de ameaças e violências efetivas, sobretudo no interior do estado, ainda possuía o apoio da Liga Eleitoral Católica, grupo que defendia, entre outras bandeiras, ensino religioso facultativo nas escolas, assistência religiosa às forças armadas e validade civil ao casamento religioso. Sob orientação do arcebispo D. João Becker, a LEC apoiou os republicanos liberais, e realizou campanha de boicote aos candidatos da FUG pela não-adesão do PL ao programa católico. A posição de D. João Becker originou um grupo “dissidente”, que elegeu Adroaldo Mesquita da Costa pelo
133 ELÍBIO JR., op. cit.; RANGEL, op. cit., 2001. Na verdade, A Federação não era um jornal juridicamente
vinculado à máquina administrativa estadual. Sua encampação só ocorreu em 1932, devido a uma dívida que o jornal possuía com o governo do estado. De qualquer forma, realmente foi cogitada a reversão da encampação. “Procurei cumprir as determinações do Dr. Medeiros sobre a A Federação. A situação jurídica foi estudada pelo dr. Camilo que não achou uma solução para ela, em face dos defeitos existentes nos estatutos da sociedade. Teremos que cogitar uma reunião dos acionistas o que exige um trabalho prévio de sindicância sobre o ponto de vista de cada um para que não degenere em um insucesso. Os nossos adversários se apropriaram da Federação e a converteram em órgão oficial do Estado e do Partido Liberal sob a alegação de que a mesma devia 300 contos ao Estado”. APSS/BM, 01.12.1932, AHRGS, cx. 2, RC/66. Em outro telegrama, anterior ao citado, fica evidente a preferência de Borges em Maurício Cardoso assumir a direção do jornal. Além disso, dá indícios de que a situação financeira do periódico não era tão positiva e, em conformidade com a nova situação criada com o conflito armado, Borges de Medeiros buscava aumentar a penetração do periódico para fortalecer o PRR: “estando acéfala a direção do órgão do Partido Republicano [...] venho comunicar-vos que já tomei a iniciativa de convidar o dr. J. Maurício Cardoso para diretor d’A Federação, autorizando-o a imprimir-lhe a orientação que, a seu juízo, parecer a mais conveniente, e também a promover as reformas materiais no sentido de melhorar a situação financeira do jornal, e de alargar a sua circulação”. APSS/BM, 24.10.1932, AHRGS, cx. 1 AP/38.
PRR, que alegava estar a LEC “presa” ao PRL. Como alegou, anos depois, Francisco Carrion, “o arcebispo se vendera a Flores da Cunha. [...]. Para os senhores compreenderem aquela atitude de rebeldia, é que nós moços não admitíamos que uma LEC, criada para defender os princípios da consciência católica, viesse a se atrelar a qualquer partido”. Esse apoio ao PRL ocasionaria a renúncia de três dos cinco membros da Junta Estadual da Liga134, mas, apesar da dissidência, a LEC seguiu apoiando o florismo contra a Frente Única Gaúcha, alegando que os votos no PRR ajudariam a eleição de políticos que deveriam ser combatidos por não compactuarem com o programa católico.
Flores da Cunha ainda usava de sua influência junto ao ministério da justiça para obter de Antunes Maciel Jr. a impugnação das candidaturas de Alberto Pasqualini, Ariosto Pinto, Nicolau Vergueiro e Arnaldo Faria, com a justificativa de terem participado do movimento de 1932. Em outra missiva, foi pedida com “toda [a] urgência [o] decreto suspendendo direitos políticos”. Em uma manobra calculada entre o interventor e o ministro, Flores e Maciel também aguardaram que a FUG imprimisse e distribuísse suas cédulas antes da impugnação, já que a lei eleitoral estabelecia que o voto para um candidato inelegível anularia todos os nomes na cédula, fato que obrigou os membros da FUG se desdobrarem para imprimir e distribuir novas cédulas.135
A interventoria, por outro lado, também reprimiu as manifestações da oposição pela imprensa. O Correio do Povo e o Diário de Notícias foram fortemente pressionados, com o primeiro tendo um diretor e um redator-chefe presos. Já o segundo acabou mudando de orientação política, em razão de um contrato negociado entre Assis Chateaubriand e Oswaldo Aranha. Este pacto firmado entre eles passou o controle editorial da folha para o governo provisório, em março de 1933. Além disso, o Jornal da Manhã e A Federação, folhas floristas, eram usadas para contra-atacar críticas e denúncias da imprensa frenteunista, que sofreu com a apreensão de edições e o empastelamento de seus jornais de menor expressão.136
Essas eleições também ficaram marcadas pelo “episódio da cartolina”. A Frente Única imprimiu suas cédulas em papel comum, enquanto o PRL utilizou papel cartolina. Alegando violação do voto secreto, já que o voto era sigiloso, mas a urna permanecia em público, a
134 CORTÉS, op. cit.; CARRION, Francisco Machado; COSTA, Adroaldo Mesquita da; ROCHA, Eloy José da.
Depoimentos – A Liga Eleitoral Católica. In: SIMPÓSIO sobre a Revolução de 30. Porto Alegre: ERUS, 1983.
135 CORTÉS, op. cit.; NOLL, op. cit.; AGV, 23.04.1933, CPDOC, GV c 33.04.23/3. O programa dos
libertadores para essa eleição, que defendia pontos como alistamento automático aos 21 anos, proibição de militares não reformados de votar, supressão do senado, proibição da reeleição, entre outros pontos, foi transcrito por NOLL, op. cit., 1980, p. 123-124. Encontramos a atuação de Alberto Pasqualini neste período muito brevemente relatada apenas por um único trabalho, o de SILVA, Roberto Bittencourt da. Alberto Pasqualini:
Trajetória Política e pensamento trabalhista. Tese (Doutorado em História) – UFF, 2012, p. 11-60.
FUG tentou a impugnação dos votos liberais, alegando transgressão do segredo do sufrágio. Assim, a Frente Única se apoiava no artigo 97 nº 6 da Lei Eleitoral, que previa anulação dos votos. O libertador Bruno de Mendonça Lima, anos depois, admitiu que os recursos da oposição foram indeferidos devido à atitude da FUG que, segundo ele, descobriu e “também distribuiu votos de cartolina. Então o Tribunal Eleitoral não anulou a eleição, porque apareciam os votos para um partido e para o outro”. Dando o voto da cartolina para os funcionários públicos, malfadou o pedido de impugnação de urnas, pois “os dois partidos usavam”.137
Nesse sentido, como afirma Jairo Nicolau, o sigilo do voto era garantido pela nova constituição, através de duas medidas: o uso da sobrecarta oficial, na qual os eleitores deveriam inserir a cédula eleitoral, inibindo a prática de uso de envelopes de cores e formatos distintos para controlar o voto, e a outra por meio do voto fechado em um lugar indevassável, onde o eleitor colocaria a cédula. Ou seja, ambas foram violadas no momento do sufrágio. Outra acusação feita pelos frenteunistas era de que os candidatos do PRL foram inscritos no dia 28 de abril, após as 18 horas. De acordo com a FUG, isso anularia as candidaturas do partido, já que o Código Eleitoral exigia as inscrições até cinco dias antes da eleição, que ocorreu em 3 de maio.138
Além de tudo isso, mais um acontecimento, este levantado pela imprensa carioca, gerou desconfianças sobre a idoneidade da campanha eleitoral no Rio Grande do Sul. Assim, o jornal Correio do Povo veiculou a notícia de que o Diário de Notícias, do Rio de Janeiro, indagava acerca de um telegrama em que João Carlos Machado e Heitor Azevedo “comunicam ao sr. Antunes Maciel, a vitória do Partido Liberal”, questionando: “como podem saber disso esses secretários do sr. Flores da Cunha, se o voto foi secreto, as eleições livres e as urnas permaneceram, por assim dizer, fechadas?”139
Entretanto, no final da apuração do pleito, o PRL venceu por 132.056 votos contra 37.400 da Frente Única Gaúcha. Desta forma, elegeu 13 dos 16 deputados para a Assembleia Constituinte, 81% das cadeiras. A esmagadora vitória dos republicanos liberais contra os tradicionais PRR e PL, apesar de todos os reveses que os frenteunistas tiveram, não deixam de demonstrar que o primeiro teste pelo qual Flores da Cunha passou foi bastante vitorioso.
137 Correio do Povo, Porto Alegre, MCSHJC, 05.05.1933; Entrevista de Bruno de Mendonça Lima para Hélgio
Trindade. Fita cassete (Transcrição), Pelotas, 1979. Arquivo NUPERGS. Flores da Cunha ganharia, no exílio, o
apelido de “cartolina”, conforme demonstrou ELÍBIO JR., op. cit., p. 116.
138 Nicolau apud GUERREIRO, Caroline Webber. Vulcão da Serra: Violência política em Soledade (RS). Passo
Fundo: UPF Editora, 2005; Correio do Povo, Porto Alegre, MCSHJC, 05.05.1933.
Tendo em vista que em praticamente todos os estados houve incidentes, pelo menos entre as grandes máquinas políticas (São Paulo, Rio Grande do Sul e Minas Gerais), o segundo e o terceiro registraram a vitória do grupo político que apoiou Vargas, e de forma bastante maciça. Em Minas, venceu o PP, aliado de Vargas, que colocou 30 dos 36 deputados federais, ou seja, 83,3% das cadeiras. No entanto, em São Paulo, a vitória eleitoral dos derrotados pelas armas em 1932 foi esmagadora: a chapa Por São Paulo Unido, que englobava o PDP e o PRP, venceu por larga vantagem, conquistando 17 das 22 cadeiras, uma vitória da oposição que chegou, em porcentagem, a 77,2%.140
Com a vitória da oposição em São Paulo, crescia ainda mais em relevância e importância a projeção política de Flores da Cunha, em nível nacional, ao rearticular a política regional do PRL com eficiência, não deixando margens para o crescimento da FUG. Caso contrário, poderia redundar na perda de dois dos três mais importantes estados da federação, naquilo que tange à política. Sua força política, por um lado, garantia a fidelidade do estado em um momento delicado para o governo provisório. Isso pode explicar, em parte, o fato de a interventoria gaúcha não ter participado dos rodízios que, conforme Maria Campelo de Souza, ocorreram em outros estados. A diminuição gradual da representação rio-grandense no governo central, apesar da vitória significativa no pleito, está concatenada com a constatação da mesma autora, que afirma ter Getúlio Vargas tomado sempre medidas para “dificultar o encastelamento político dos interventores”.141
Pois, nesse sentido, a representação rio-grandense sofreu grande revés no executivo federal: antes de 1932, o Rio Grande do Sul chegou a ter os ministérios da Justiça, da Agricultura e do Trabalho, três interventorias, a chefia de polícia do Distrito Federal e a presidência da Imprensa Nacional. Após a guerra civil, sua representação caiu significativamente. Na Assembleia Nacional Constituinte, o papel de figuras políticas pouco conhecidas fez com que a atuação republicana liberal fosse discreta, com pouco uso da tribuna. A atuação coletiva e individual geralmente se deu de acordo com as orientações de Simões Lopes, líder da bancada do PRL, que atuou articulando os posicionamentos da maioria na constituinte, sendo o elo do governo provisório com a Assembleia.Já a FUG, com três deputados, pouco conseguiu atuar na constituinte, embora o deputado libertador Minuano de Moura tivesse uma atuação destacada como oposição agressiva ao florismo e a Getúlio Vargas. Contudo, Flores da Cunha conseguiu a eleição de Antônio Carlos para presidente da
140 SILVA, Thiago; SILVA, Estevão. Eleições no Brasil antes da democracia: o Código Eleitoral de 1932 e os
pleitos de 1933 e 1934. Revista de Sociologia e política. Paraná, v. 23, n. 56, dez. 2015.
constituinte, e, em conjunto com Lima Cavalcanti, Juracy Magalhães e, posteriormente, Benedito Valadares, formou o “Bloco dos Interventores”. Atuando conjuntamente, eles poderiam conduzir os trabalhos da casa. Contudo, a partir de 1934, ocorreu um recuo de sua influência.142
Uma das consequências de uma derrota tão marcante da FUG seria o impulso para movimentos conspiratórios contra Getúlio Vargas e Flores da Cunha, já que o pleito eleitoral e a máquina florista terminaram com as esperanças de setores exilados que imaginavam poder retornar pela via legal. Assim, por exemplo, a missiva de Raul Pilla a Batista Lusardo informou ao segundo que, derrotados pela via eleitoral, “muitos companheiros que desejam uma solução pelas armas, só pensam num levante militar, com a sua consequência lógica, a ditadura da espada”. Pilla afirmou, então, que articulações militares levariam a um endurecimento da “ditadura” Vargas, em seu entendimento. Por outro lado, como implicação das conspirações, mesmo com toda a vigilância que o governo brasileiro mantinha, Getúlio Vargas alertou Flores da Cunha em ficar atento com sua segurança particular, tendo cautela para evitar atentados contra sua própria vida e na escolha de sua guarda pessoal. E o aviso não era infundado, já que realmente havia uma conspiração contra a vida de Flores da Cunha. Um telegrama enviado ao interventor por Oswaldo Aranha alertava que o movimento conspiratório tinha intenção de evitar a reunião da constituinte, convocando o país para novas eleições. Ainda avisava Flores da Cunha que se planejava enviar para Porto Alegre cinco homens, “sob direção de um ex-capitão da Brigada que acompanhou Borges a fim [de] tentarem contra [a] tua vida sendo este atentado [o] início [do] movimento”. A partir desse sinal, o “primeiro ponto [a] ser ocupado será Livramento. Ripol [sic] esteve e ainda está em Uruguaiana [em] ligações [com os] militares feita especialmente com subalternos em todo [o] país.143
Como ampliação das tramas revolucionárias, ocorreu a fundação do Comitê de Rivera, que visava a dar mais responsabilidade às deliberações do exílio, e responder à impotência política que os frenteunistas sofriam, mas que acabou não evoluindo, em função das divergências internas. Esse comitê seria composto por Paim Filho, Rippoll, Marcial Terra e Raul Pilla, com o acréscimo de João Neves da Fontoura, Lindolfo Collor e Batista Lusardo. Haveria a formação de outro comitê, em Buenos Aires, sendo que o de Rivera dizia respeito às articulações no Rio Grande do Sul. Também foram inventadas maneiras de arrecadar
142 CASTRO, op. cit.
143 ARP, 21.06.1932. NUPERGS, [s. n./cópia]; AFC, 1933, NUPERGS, doc. nº 003/1128; AFC, 11.07.1933,
fundos financeiros nos municípios do estado, que deveria ser entregue ao Comitê de Rivera. No entanto, as tramas dos exilados também se estenderam aos comunistas. Nesse sentido, a cooperação com o governo argentino ocorria para evitar que os exilados tivessem entendimentos políticos com Luís Carlos Prestes. É significativo o telegrama enviado pelo consulado brasileiro em Buenos Aires para Flores da Cunha, informado que Prestes estava em Passo de Los Libres, hospedado no Hotel Central, com nome falso, acompanhado de um “homem rústico, brasileiro, vestido a gaúcha, que não me foi possível identificar”.144
Em missiva enviada a Lusardo e a João Neves, Raul Pilla demonstrou certa discórdia das atitudes de Waldemar Rippol. Além de descontente com o correligionário, que teria dado quantias de dinheiro para membros do PRP, também descreve as tratativas com um comunista argentino, que teria oferecido 30.000 contos, em troca da garantia, por parte dos exilados brasileiros, de que, após a derrubada de Vargas, permitiriam plena liberdade de propaganda comunista e organização partidária, além de manter relações comerciais com a União Soviética. Pilla concordou com a primeira exigência, mas se mostrou contrário às relações comerciais com os soviéticos. Além disso, era relutante em conceber a ideia de ficar dependente de dinheiro vindo do comunismo, já que, invariavelmente, o movimento ficaria identificado com essa ligação.145 Não temos nenhuma informação de quem seriam esses comunistas no Uruguai, mas o fato do Bureau da III Internacional na América Latina localizar-se naquele país levanta a hipótese desses contatos terem alguma relação com esse comitê, vinculado à União Soviética e ao movimento comunista internacional.
Já Waldemar Rippol foi um libertador que, em 1934, seria assassinato com requintes de crueldade. Sua morte a machadadas, supostamente a mando de Camilo Alves, funcionário de Chico Flores, levantaram desconfianças acerca da participação da família Flores da Cunha no ocorrido, pois Rippol era um dos membros mais exaltados do grupo exilado, e cogitava publicar denúncias sobre contrabando envolvendo o irmão do interventor. Sua morte ganhou grande repercussão, tendo ocorrido bastante próxima do retorno dos exilados ao país, após a anistia. Nesse caso, nenhum dos Flores da Cunha foi condenado, nem mesmo após o Estado Novo, quando o processo foi reaberto. Esse crime faria com que os exilados retornassem com maior força e mobilização para afrontar o PRL.146
144 ARP, 07.1933, NUPERGS [s. n./cópia]; AFC, 13.07.1933, NUPERGS. doc. nº 003/844.
145 ARP, 17.05.1933, NUPERGS, [s. n./cópia]. A aproximação de Rippol com Prestes é relatada por um
companheiro seu no exílio. Cf. RIBEIRO, op. cit.
146 Existe apenas um estudo sobre o caso, já citado nesse trabalho, de RANGEL, op. cit., 2001. Outros relatos
contemporâneos ao assassinato ajudam a compreender o caso, como o de RIBEIRO, op. cit.; e a investigação de AMORÓS, Antônio Hijo. Caudillismo salvaje. Rivera: Vanguardia, 1991.
O retorno do exílio ocorrerá próximo das eleições que definiriam a bancada de deputados federais e constituintes estaduais, ainda sob forte repercussão do “caso Rippol”. Alguns esperavam por retornar logo, como Raul Pilla, que declarava ser sua única preocupação voltar ao território nacional, já que a lei da anistia recém havia sido publicada. Até mesmo Flores da Cunha era favorável a essa lei, já que fez alguns apelos a Vargas para que fosse encaminhada a anistia, como remédio para cessar com as sedições e os amotinamentos. Ela, no entanto, só ocorreria em maio de 1934, e, a partir desse decreto, os exilados poderiam retornar ao país e reorganizar as agremiações partidárias livremente. Ou, nas palavras de João Neves, poderiam fundar agora uma “nova Aliança Liberal” contra Getúlio Vargas.147
Em 17 de julho de 1934, ocorreria a eleição indireta de Vargas para presidente constitucional, eleito um dia depois de votada a constituição de 1934, considerada por ele como “mais um entrave do que uma fórmula de ação”. Sua eleição foi vencida contra diversos candidatos, destacando-se Borges de Medeiros, que, apesar de mais votado dentre todos os demais candidatos (59 votos), esteve distante de ameaçar a vitória de Vargas (175 votos). Outra contenda digna de nota foram as ameaças de golpe do Clube 3 de Outubro, apoiando Góis Monteiro para a Presidência da República. É com essas conspirações que iniciariam os dissídios entre Flores da Cunha e Góis Monteiro, já que Flores teria revidado às ameaças tenentistas com declarações públicas e particulares com alto tom de ameaça, como: “levantarei 22 mil homens contra qualquer esbulho” ou “o Exército não tem melhor amigo do que eu. Estou aparelhado, é certo, para manter a ordem dentro do meu Estado e, mesmo, fora de suas fronteiras. [...]. A ordem será mantida custe o que custar”, fato que teria provocado a ira do general do Exército, que considerava as atitudes do interventor ofensivas e provocadoras, em missiva a Getúlio.148
A constituição do novo ministério contaria com apenas um gaúcho, Arthur de Souza Costa, para a Fazenda, atendendo aos desejos de Flores da Cunha e Oswaldo Aranha. Antunes Maciel, intimamente ligado com Flores da Cunha, na pasta da Justiça, cederia lugar a Vicente Rao no cargo.149 Nesse momento, é notório que a formação ministerial teria sua composição bastante modificada, enfraquecendo novamente a influência da política gaúcha em geral, e do florismo em particular.
147 ARP, 25.05.1934, NUPERGS, doc. nº 002/1092; AGV, 12.04.1933, CPDOC, GV c 1933.04.12/2; ALC,
07.06.1934. CPDOC, LC c 1934.06.07/4.
148 VARGAS, op. cit., v. I; AGV, 18.03.1934, CPDOC, GV c 1934.03.18; Correio do Povo, Porto Alegre,
MCSHJC, 26.04.1934.
Pouco antes das eleições estaduais, em 7 de setembro de 1934, ocorreria o Congresso do Partido Republicano Liberal. Nele, o PRL, além de comemorar aquilo que, de acordo com João Carlos Machado, foi o atingimento de ”85% dos postulados liberais [que] ficaram vitoriosos no nosso estatuto constitucional”, também atacou a formação da FUG, cujos integrantes, segundo Machado, mal saberiam “até para que regime de governo se inclinam, sem saberem se a cédula que vão depor nas urnas eleitorais fará um deputado que no congresso se bata pelo regime presidencial ou se um deputado cuja bandeira ostente o emblema e legendas do parlamentarismo!”. Ataca, até mesmo, as adesões de cunho parlamentarista de Borges de Medeiros, fato que o impediria “de pronunciar o nome de Julio de Castilhos”. Além de realizarem um balanço da atuação republicana liberal na constituinte e reafirmar, sob palavra de Augusto Simões Lopes, a defesa da autonomia dos estados, ainda o Congresso “resolve, indica e proclama candidato a governador do Rio Grande do Sul, para o primeiro período constitucional, o sr. General Flores da Cunha”, e escolhe a chapa de candidatos a deputados federal e estadual.150
As eleições no Rio Grande do Sul, em 1934, foram marcadas por dificuldades pela FUG e pelo PRL. De um lado, por intensa censura, com perseguições e incêndio ao jornal pelotense O Libertador, por causa de uma caricatura publicada no periódico, e com uma