A importância da noção de expectativa, para a compreensão da filosofia intermediária de Wittgenstein, pós-linguagem fenomenológica, é que ela será o modelo epistemológico da sua nova concepção de proposição. A expectativa é o aspecto fenomenológico (gerado a partir da hipótese), que esperamos encontrar na experiência imediata. A hipótese será, assim, “(...) uma lei para formar expectativas”.341 De um
ponto de vista construtivista, podemos dizer que a expectativa é a seção transversal do
objeto físico, que esperamos encontrar no futuro.342 Essa mesma ideia está presente na
concepção de Wittgenstein de proposição genuína: “[u]ma proposição é, por assim dizer, um corte transversal em um determinado lugar de uma hipótese”.343
Essa concepção da proposição como corte transversal ("Schnitt") de uma hipótese permite ao autor equacionar uma tensão que perpassa a sua filosofia, após a constatação da impossibilidade da linguagem fenomenológica. Se a linguagem flui no tempo homogêneo da física, e necessita falar de objetos físicos, como seria possível a correlação entre a linguagem e a realidade fenomênica (dada no tempo da memória) - visto que os fenômenos são os únicos fazedores-de-verdade de nossas proposições?
Um ponto a ser notado é que Wittgenstein nega às proposições fisicalistas (que falam de objetos físicos) valor de verdade. Rigorosamente, seque poderíamos dizer que as proposições hipotética seriam proposições. Como dito anteriormente, caso uma hipótese gere expectativas falsas, isso não significa que a hipótese seja falsa, mas que não mais seria justificado o seu uso. Porém, isso não implica que tenhamos de abandonar a hipótese: “[p]oderíamos mantê-la [a hipótese], introduzindo novas hipóteses”.344 As únicas proposições genuínas (que possuem valor de verdade) serão as
proposições que, assim como as expectativas, são extraídas das hipóteses e que descrevem a experiência imediata.
A importância dessa concepção torna-se ainda mais visível do ponto de vista temporal. A linguagem deve necessariamente fluir no tempo homogêneo da física e, com isso, deverá falar de entidades transtemporais (os objetos físicos). Mas, se os
341 MS 107, p. 283 / PB, §228. (“Eine Hypothese ist ein Gesetz zur Bildung von Erwartungen”). 342 Cf. WVC, p. 256.
343 MS 107, p. 283 / PB, §228. (“Ein Satz ist sozusagen ein Schnitt durch eine Hypothese in einem
bestimmten Ort”).
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fenômenos são os fazedores-de-verdade e nos são dados no fluxo presente do tempo primário, como articular a temporalidade da linguagem e a temporalidade da realidade? A resposta dessa indagação é alcançada através da distinção entre hipótese e proposição genuína. Utilizamos as hipóteses para construir formas transtemporais (que podem ser situadas no tempo homogêneo da física) e, ao "cortarmos" essas hipóteses (obtendo delas expectativas fenomenológicas), poderemos obter proposições, cujo valor de verdade seria determinado, por meio da comparação imediata, com a experiência imediata (dada no tempo primário). Assim, a proposição genuína descreveria o fenômeno, embora, somente através do recurso ao tempo físico, as determinações temporais da linguagem, seriam possíveis.
Wittgenstein ilustra essa nova concepção de proposição no MS 108 (em janeiro de 1930):
Podemos tomar tal representação como a ilustração do corte na hipótese de bola. A hipótese de bola nos permite esperar encontrar no plano fenomênico “um círculo colorido, de cor..., e raio..., localizado em...”.345 A primeira régua determinaria o
tamanho do raio do círculo. A segunda e a terceira, a sua posição no campo visual. E a quarta, a cor do círculo. Poderíamos ainda acrescentar uma "régua temporal", que nos permitiria determinar (construindo um método temporal de mensuração), o momento em que o círculo, com essas determinações internas, deve ser esperado, no âmbito da
345 Cf. MS 108, p. 54 / PB, §84. Além disso, a partir da hipótese de bola, poderíamos acrescentar
determinações de outras formas lógicas variadas (que dizem respeito a outros espaços de possibilidades; como o tátil, auditivo, olfativo etc.).
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experiência imediata. Além disso, poderíamos acrescentar réguas para textura, peso, densidade etc.. Por esse viés, a proposição genuína seria a especificação dos valores para um aspecto (ou aspectos) da forma hipotética, de acordo com as dimensões dos espaços de possibilidade conectados pela hipótese.
Um importante traço temporal dessa concepção é que, por meio dela, Wittgenstein resolve um problema que remonta à constatação da dependência lógica das proposições elementares. No TLP, a possibilidade da proposição repousava sobre o princípio da substituição (Prinzip der Vertretung) de objetos por sinais.346 Porém, com a
constatação (por volta de 1929) de que proposições elementares podem ser logicamente dependentes (como é o caso paradigmático das proposições sobre cor), o nome não poderá mais ser pensado como um mero substituto do seu significado. A proposição “o círculo é vermelho” exclui as proposições “o círculo é verde”, “o círculo é amarelo” etc.. Desse modo, deve haver alguma relação lógica entre os nomes “vermelho”, “verde”, “amarelo” etc., que leva à exclusão desses atributos incompatíveis. Assim, grosso modo, Wittgenstein constata que as proposições não podem mais ser concebidas como funções de verdade de proposições elementares. A solução oferecida pelo autor (em 1929-1930) é pensar a proposição como parte de um “sistema de proposições”.347 É
essa inclusão da proposição em um sistema que se expressa na ideia da proposição como um corte transversal de uma hipótese. Através dela, Wittgenstein torna evidente como o nome é uma gradação, em um sistema (em uma "régua"), e a proposição a especificação dessa gradação (juntamente com outras determinações, que possibilitam especificar o lugar e o tempo, no qual aquelas gradações deverão ser encontradas). Assim, a exclusão lógica de atributos incompatíveis seria expressa na impossibilidade de que duas gradações sejam atribuídas ao mesmo tempo:
Neste caso, cada afirmação consistiria, por assim dizer, em ajustar o número de escalas (padrões de medida) e é impossível ajustar uma escala simultaneamente em duas marcas de gradação.348
Isso insere uma dimensão temporal na linguagem, pois, com isso, “[o] uso de uma palavra não se dá num instante, como também não o de uma alavanca”.349 O nome
346 Cf. TLP, 4.0312. 347 Cf. PB, §§15 e 82.
348 MS, 108, p. 53 / PB, §84. (Grifo do autor). (“Jede Aussage bestünde dann gleichsam im Einstellen
einer Anzahl von Maßstäben, und das Einstellen eines Maßstabes auf zwei Teilstriche zugleich ist unmöglich”).
349 MS 107, p. 234 / PB, §15. (“Die Anwendung eines Wortes geht nicht in einem Moment vor sich,
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será a escolha de uma das gradações da dimensão do espaço de possibilidades (através da "régua", do método de mensuração do sistema). A escolha de outro nome, por sua vez, deverá necessariamente ocorrer ao longo do tempo (não podendo ocorrer ao mesmo tempo) . Em resumo: “[o] que temos reconhecido é simplesmente que estamos lidando com padrões de medida, e não, de alguma maneira, marcas de gradação isoladas”.350 (A importância dos padrões e unidades de medida será explorada na seção 3.2).
3.1.4. Algumas consequências temporais da dimensão hipotética da