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“A pedra aguda, monólito

terciário, legendário, lá no sertão; como atalaia, é referência ao viandante, ao navegante, na imensidão.” (Salomão Alves de Moura Brasil)

O município de Aracoiaba2, de longe avistado pela legendária Pedra Aguda, está

situado na microrregião de Baturité e na mesorregião Norte Cearense, que “destaca-se no

semiárido quente do Ceará por apresentar clima ameno, abundância de atrativos naturais como flora, fauna, riachos, quedas d´água, fontes de água mineral, além de um dos raros

vestígios de Mata Atlântica existente no interior nordestino” (MARTINS, 2011, p. 21).

Não sei se escolhi Aracoiaba ou se esta cidade me escolheu. Em 2003, recém- egresso do curso de Letras, visitei Aracoiaba com duas colegas de faculdade, sendo uma delas natural de lá. A visita levou a outras tantas visitas, com inscrição e consequente aprovação em dois concursos públicos, um para a rede municipal de ensino e outro para a rede estadual.

O que antes era visita passou a permanência. Eu, jovem da capital, recém-saído da universidade, com alguma experiência de docência em escolas da rede privada de ensino, sem referências naquela cidade do interior, comecei a desbravá-la.

Após a nomeação, veio a lotação na rede municipal de ensino, quando descobri que a escola era em um distrito de Aracoiaba, Vazantes, distante vinte e dois quilômetros da sede. Se Luiz Gonzaga fez o movimento do interior nordestino para a grande metrópole, o meu foi inverso, mas temos um ponto de encontro, o pau-de-arara: “Só trazia a coragem e a cara / Viajando num pau-de-arara / Eu penei, mas aqui cheguei”3. Esse foi o transporte por mim utilizado para ir até a escola.

O pau-de-arara é um transporte alternativo, estilo caminhão, com uma coberta na parte da carroceria e alguns bancos improvisados. É muito utilizado pela população dos

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Verso do Hino de Aracoiaba. Letra de Salomão Alves de Moura Brasil. 2

A respeito de Aracoiaba e da região do Maciço de Baturité, consultar: MARTINS, E. S. Leitura e trabalho

pedagógico: trajetórias e experiências de professores. Fortaleza: SEDUC, 2011.

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distritos e das pequenas localidades para deslocarem-se à sede. Assim, vão pessoas, compras diversas e até animais.

O mês era agosto e o verde das plantações já não existia. Era o típico cenário da seca cearense. O pau-de-arara seguia chocalhando pela estrada carroçável. Quando o transporte parou ao lado da Capela de São João Evangelista, no distrito de Vazantes, um jovem levou-me até a casa da pessoa responsável pela gestão da escola, apesar de não ser nomeada para tal função. Ela me acolheu muito bem e empenhou-se para que eu permanecesse na escola.

Entre idas e vindas trabalhei por um ano no distrito de Vazantes. Um lugar pacato, terra de pessoas simples, que têm muito orgulho do seu lugar, que também é conhecido por ter bons educadores e pela valorização da cultura local. Quando assumi o concurso da rede estadual também exerci a docência no distrito de Ideal, a dois quilômetros de Vazantes e a vinte e quatro quilômetros da sede. Posteriormente, trabalhei no distrito de Lagoa de São João e depois apenas na sede do município.

Conheci na prática a realidade da educação aracoiabense, enfrentando os mais variados desafios, tais como: os de infraestrutura escolar e de seu entorno, baixa autoestima dos estudantes por não visualizarem perspectiva de futuro, professores atuando em áreas divergentes da sua formação inicial, deslocamentos de profissionais da educação em virtude de questões políticas, dentre outros.

Dados do Censo de 2010 revelam que o município de Aracoiaba contava neste período com uma população de 25.391 habitantes. O Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) é calculado considerando a média dos seguintes dados: renda per capita, educação e expectativa de vida ao nascer. Em 2010, o IDHM de Aracoiaba foi de 0,615, considerado mediano.

Seguindo a expansão da educação pública no Brasil nas últimas décadas, observa- se um expressivo crescimento no quantitativo de crianças e jovens matriculados em escolas da educação básica no município de Aracoiaba. O IDHM Educação é composto pela proporção de crianças e jovens em idade escolar no município que tenham cursado ou que estejam frequentando a educação básica.

O percentual de jovens com dezoito anos ou mais que concluíram o ensino fundamental é de apenas 36,79%. Considerando os jovens de quinze a dezessete com ensino fundamental completo o índice é 59,70%. O percentual de jovens de 11 a 13 anos matriculados nos anos finais do ensino fundamental ou com o ensino fundamental concluído é de 82,28%. Os números evidenciam que ainda há muitas crianças e jovens sem acesso à

educação formal. No ano de 2010, um total de 58,69% dos estudantes com faixa etária entre seis e catorze anos estavam cursando o ensino fundamental regular em turmas adequadas para a sua idade. O percentual de jovens com um ano ou mais de atraso no ensino fundamental é de aproximadamente 32%. É preciso lembrar que 3,52% não frequentavam a escola. O percentual de crianças extremamente pobres chega a 34,10% (ATLAS, 2013).

O isolamento geográfico ou em virtude das condições precárias de trabalho ou ainda por apresentar uma baixa educação escolarizada coloca as pessoas à margem das relações sociais, deixando-as, portanto, em situação de vulnerabilidade social (KAZTMAN, 2001).

O IDEB 2011 de Aracoiaba nos anos iniciais do ensino fundamental foi de 3,9. Já para os anos finais do ensino fundamental, o referido índice foi de 3,2. Em 2005, os índices eram, respectivamente, 2,7 e 2,6. O crescimento mais acentuado se deu nos anos iniciais, o que possivelmente acontece em virtude de um acentuado número de políticas públicas voltadas para esta etapa. Os índices estão longe do esperado para 2022, que é 6,0, a média considerada nos países desenvolvidos.

No ano de 2009 juntamente com mais dois colegas montamos a equipe de formadores de língua portuguesa da rede municipal de ensino, no âmbito do Programa de Incentivo ao Desenvolvimento da Educação de Aracoiaba. Inicialmente, atuei com professores de língua portuguesa do terceiro ao nono ano. A partir do segundo semestre de 2009 fiquei responsável pelo grupo de professores de língua portuguesa dos anos finais do ensino fundamental.

Por vivenciar a realidade da educação aracoiabense e manter contato com vários docentes não tive nenhum problema de aceitação por parte do grupo de professores. Sempre houve uma relação de cordialidade e respeito dos dois lados. Desde o primeiro momento, busquei ouvi-los com atenção e sempre os motivei a falar sobre as suas experiências, as suas dúvidas, os seus anseios.

A minha formação inicial e contínua, a experiência com a docência na educação básica e no ensino superior e a participação no Grupo de Estudos e Pesquisas sobre a Formação do Educador (GEPEFE – UECE) me deram subsídios teórico-metodológicos para valorizar o que os professores já faziam em seu cotidiano, buscando refletir coletivamente tais práticas e de forma colaborativa criar situações novas. Nesse exercício dialético, o dia do encontro com o grupo de professores de língua portuguesa dos anos finais do ensino fundamental virava pesquisa e a pesquisa conduzia os docentes para novas aprendizagens, no desenvolvimento de um processo de pesquisa-formação.