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YAZIM ESASLARI 1 Harita Dergisinde Yayımlanabilecek Yazılar
Na busca do vivido, apreendi a importância de observar o quotidiano na sociedade contemporânea e tive os primeiros contatos com as ideias de Michel Maffesoli e a Sociologia Compreensiva, que estão descritos na dissertação de mestrado, quando trabalhei com as relações quotidianas dos enfermeiros na Terapia Intensiva (LEITE, 1998).
Maffesoli tem centrado suas reflexões, principalmente, na análise do quotidiano e da pós-modernidade com vistas à compreensão da dimensão plural do social com foco em temas como o imaginário, a emoção, os afetos, o sensível. Considera que, em contrapartida com a modernidade, fundada na razão, a pós- modernidade indica o retorno da emoção, da magia, da afetividade. Igualmente tem se dedicado à reflexão do quotidiano, que discute de modo provocativo, analisando como as relações sociais se dão no dia a dia. Entre outros temas que lhe são caros, estão a violência, as tribos urbanas, a efervescência social, a socialidade, os ritos e rituais. Enfim, ele centra suas reflexões sobre a parte sensível e a conjunção entre as pessoas na forma como as relações ocorrem na sociedade e não no sentido prescritivo de como deveriam ser.
Maffesoli (2007a, p. 23) nos diz que a audácia, a curiosidade e a vivacidade que alimentam o nosso pensamento, são progressivamente entorpecidas pela preguiça e pela institucionalização e isso parece impedir a arte de pensar e “podemos imaginar que, de tempo em tempo, seja necessário regenerar coletivamente um modo de pensar já muito debilitado”. E, assim, ele propõe as
premissas “epistemológicas de um compêndio de „senso comum (nologia)‟”, a Sociologia Compreensiva.
A Sociologia Compreensiva é aquela que descreve o vivido como ele é a partir das várias facetas que o compõem, permitindo a compreensão de um fato social, uma vez que a realidade não é única, uma vez que existem outras formas de apresentá-la. Ela considera os dados subjetivos presentes nas experiências do homem, uma vez que esses dados são um trampolim para o mergulho profundo na existência societal (LEITE, 1998).
Rezende (1991, p. 98) nos diz que "compreender um fato social é analisar as relações entre os fatos que dão origem ao fenômeno estudado". Para se proceder a essa análise, o pesquisador leva em consideração que ele faz parte do fato social que descreve e, dessa forma, manifesta uma visão de dentro da trama social; ou seja, a sociologia compreensiva é uma “sociologia do lado de dentro" e por isso subjetiva (MAFFESOLI, 2007a, p. 31).
No presente trabalho, centrei o olhar relativo à Sociologia Compreensiva na obra de Maffesoli. Respaldei-me no conhecimento de algumas obras do autor, bem como na confissão de Durand (2004, p. 10) quando diz que graças à obra de Maffesoli “existe, na França, uma sociologia compreensiva”.
Maffesoli centra suas reflexões em torno da vida quotidiana, construída na subjetividade. O quotidiano, apesar de considerado banal, tem toda uma riqueza que permite enfrentar o tempo que passa ante a angústia da morte, do fim. Com isso, tem-se mais atenção aos fatos da vida, que é cheia de imprevistos e de múltiplas potencialidades (LEITE, 1998).
Maffesoli (2007a, p. 133) nos fala que devemos ter uma “atitude compreensiva”, para que possamos compreender “fenomenologicamente esta existência quotidiana naquilo que tem de fulgurante, explosivo, fragmentado e multissensual”. Segundo o autor, “a fragilidade, o erro e a verdade local fazem igualmente parte da dinâmica cognitiva” e não podemos compreender o conjunto social unicamente pela positividade (MAFFESOLI, 2007a, p. 134). O autor escreve que “é preciso revirar de cabeça para baixo as ideias rançosas, jogar fora as análises pomposas e um tanto insípidas” e compreender o que emerge no estar- junto, o que está na aparência, a banalidade da vida (MAFFESOLI, 2010, p. 19).
A banalidade da vida esconde uma riqueza insuspeitável e condensada, que serve de "reservatório" à permanência social, à qualidade. A análise do
quotidiano permite compreender e não julgar ou transformar, é “um estar atento, um olhar atentivo dirigido ao outro para nele penetrar, buscando o significado de sua ação, do ser-estar junto e no mundo” (NASCIMENTO, 1995a, p. 8).
Nascimento (1993, p. 22) diz que o significado do mundo social4 “inclui
tanto o observador social quanto o ator que nele age”, e que nele é focalizada a forma como “as pessoas interagem e compreendem a si próprias e aos outros”, sendo os fenômenos sociais produto das ações humanas.
O reconhecimento do banal nos remete à valorização do espaço, da casa, dos amigos, do "ser/estar junto com" sem finalidade e isso nos remete à socialidade, que se relaciona com o tempo presente, com o hoje, com o aqui e o agora.
Socialidade, para Maffesoli (2007a), é o “estar junto com” sem nenhuma finalidade ou interesse, é o estar por estar apenas, prazeroso e espontâneo; é diferente de social e socialização. O autor diz ainda que social e socialização são definidos como uma ligação em torno de interesses, de pessoas que se unem para concretizar outros interesses Termina dizendo que a socialidade se esgota no momento, no instante vivido e nele se percebe um tempo cíclico, que vai e volta.
Espaço e tempo são elementos importantes para compreendermos as questões que envolvem o quotidiano. Segundo Nascimento (1993, p. 34), o espaço quotidiano se organiza em dois tipos: privado e público. A autora afirma que o espaço privado ou interior, mais fechado, é definido pelas relações familiares, de amizade, de vizinhança, no qual as atividades são ligadas ao prazer e o lúdico; e que o público, ou exterior, é representado pelo mundo do trabalho, cujas relações são “socialmente valorizadas e as atividades orientadas para um fim”.
Maffesoli (2004a, p.66) menciona que nesses espaços a pessoa se reconhece e se identifica com os outros, sem se preocupar com o presente, usufruindo da sua liberdade. Segundo o autor, esses espaços vivenciados não são um refúgio para o “individualismo amedrontado e imóvel”, mas a base para constituir, pouco a pouco, “a órbita de uma nova socialidade”.
O tempo é descrito por Nascimento (1993, p. 35) de duas formas: um tempo linear, “gerado para ser significante, importante”, e um cíclico, que sobrepõe ao tempo linear, e é banal, quotidiano, sem importância.
A Sociologia Compreensiva tem um estilo próprio de olhar e descrever o mundo, o que se apresenta pela analogia, metáfora ou correspondência. Sendo assim, dada a superação da rigidez, compreende-se melhor o vivido social ou o querer viver das sociedades, ou seja, para reconhecer a riqueza e a fecundidade da vida, é preciso olhar sensivelmente o quotidiano.