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apresentam como os espaços que permitirão o contato direto do governo com o povo. É preciso lembrar que o lado centralizador do DIP, que funcionava nos estados com seus departamentos estaduais de imprensa e propaganda (Deips), é também apresentado como exemplo de gestão moderna) em oposição às oligar­ quias que dominavam a política na República Velha.

Os meios de comuniação de massa, rádio e imprensa, abriam possibilida­ des de contato con o povo até então inimagináveis, sendo por isso mesmo consi­ derados arenas de necessário controle e constante iscatização. Para entrar em con­ rato diretamente com o povo, o governo Vargas teve que enfrentar a resistência ou mesmo a oposição de muitos jornais. principalmente após a Revolução Constitucionalista de 1932. As necessidades do governo levaram à criação de um novo jornal, porta-voz do regime. Ligado às Empresas Incorporadas da União, o novo jornal,

A Manhã,

rinha como diretor Cassiano Ricardo. Com grande circu­ lação no Rio, seria ajudado pelo jornal

A

Noite, de São Paulo, dirigido pot Menorti del Picchia, ambos complementando a ação da revista Cultura Política, mais vol­ tada às elites.

A importância do rádio é também fartamente mencionada em inúmeros textos que tratam do Estado Novo e não será aqui objeto de maior atenção. Ape­ nas quero ressaltar a versão corrente nessa seara, que diz ser Vargas "o primeiro estadista da América Latina a utilizar o rádio nos moldes de Hitler" e que a "má­ quina do Estado Novo assemelhava-se à utilizada por Goebbels".17 Por outro lado, Alcir Lenharo, no posfácio à segunda edição de seu livro, questiona sua própria interpretação e observa que a propaganda e os meios de comuniação deveriam receber tratamento mais agudo. Ele então já percebia que "o rádio brasileiro estava implantado no padrão

broadcsing,

e seu leque de interesses ia muito além daque­ les desejados pela ditadura. Assim como o cinema, a música popular". \8

Como indício do controle exercido pelo Dl, diz-se que o departamento "convencia" os letristas de músicas a não falar de certos temas, a adotar a visão positiva do trabalho e a recusar o culto da malandragem. É certo que essa era uma preocupação do regime, mas é preciso lembrar que, ao contrário do que se repete, não foi o Estado Novo que instituiu a obrigatoriedade de temas nacionalistas nas letras das escolas de samba no carnaval do Rio de Janeiro. Em 1935, o desile das

17 Lcnhao, 1 986:40 '" Ibid., p. 207-8.

o INTELECTUAL DO DIP: LOURIVAL FOmES E o ESTADO Novo 51

escolas de samba passou a fazer parre da programação oicial do carnaval da cida­ de, e a União das Escolas de Samba incluiu em seus estatutos a obrigatoriedade de os enredos tratarem de "motivos nacionais". Tornar-se programação oficial garan­ tia s escolas as mesmas subvenções que recebiam as grandes sociedades, os ran­ chos e os blocos. Assim, a obrigaroriedade já existia, ames de 1937, por iniciariva da prefeitura do DistrÍto Federal na gestão de Pedro Ernesto. Foi também nessa gestão que Villa-Lobos, à frenre da Superintendência de Educação Musical e Ar­ tÍstica (Sema), levou o canto coral, "canto orfeônico", às escolas públicas do Rio. O que se pode dizer é que a prefeitura do Distriro Federal no governo de Pedro Ernesto representou, como já mencionamos, um laboratório de experiên­ cias políticas e culturais que foram incorporadas na política nacional durante o Estado Novo.

Assim, o uso do rádio é sempre comparado à experiência do nazismo, já que pelo rádio o poder se faz presente em todo o país, em todos os lares, ampliando o espaço de Contato entre governo e povo. Os comicios de 1 -de maio, por exemplo, ao reunir os trabalhadores, permitiam-lhes, através do ritual, confirmar sua parri­ cípação no novo Brasil. A parada do Dia da Raça, próxima ao 7 de setembro, permitia também que os alunos das escolas marchassem cantando hinos naciona­ listas, muitos deles de Villa-Lobos. Mas o rádio podia fazer o mesmo e muito nlais ao reunir simbolicamente todos os brasileiros, que juntos passariam a imagem de uma comunidade harmoniosa em que todos participam.

A Rádio Nacional, a PRE

8,

pa5S0U a integrar a Superintendência das Em­ presas Incorporadas ao Patrimônio da União, assim como os jornais

A

Manhã e

A Noite.

Em 1 940, a Rádio Nacional foi estatizada, mas manteve o direito de continuar veiculando anúncios (Decreto-lei n' 2 1 . 1 1 1 de 1 932). O Brasil, nessa época, adotou o modelo de radiodifusão norte-americano e passou a distribuir concessões de canais a particulares. As emissoras, que até então uncionavam mais como associações ou clubes de ouvintes, passaram a veicular propaganda, ° que as transformava em negócio. E assim a Rádio Nacional se tornou líder de audiência, somando investimento de verbas governamentais à receita publicitária.

No campo do rádio, a atuação do Oice se fez presente graças à presença de empresas como General Electric, Standard Oil e RCA Victor, que pa5saram a fazer propaganda de seus produtos no mercado brasileiro. Em 1941, chegaram também as agências de publicidade, como aJ. W. Thompson e a McCann-Erickson. Os produtos e as cotas publicitárias distribuídas pelas agências alteraram a progra­ mação radiofônica nas novelas e nos programas de auditório, musicais e humorís-

52 CONSTELAÇAO CPAtfA

ricos, criando profunda conexão entre audiência, emissora e anunciantes. Na Rá­ dio Nacional, teve lugar, em agosto de 1941, a primeira edição do Repórter Essa,

informativo que icou no ar por 27 anos. Com o noticiário voltado principalmen­ te para a cobertura de faro, da 11 Guerra Mundial, o programa tinha por ba,e as notícias distribuídas pela agência norte-americana United Press (UPI), redigidas pelos redarore, da McCann-Erickson, detentora da conta da ES50 Standard de Petróleo. '" Em 1 942, o Repórter Essa, tran,mitido pela Rádio Nacional com qua­ tro edições diárias, já era retransmitido pelas emissoras Record, de São Paulo, Inconidência, de Minas Gerais, Farroupilha, do Rio Grande do Sul, c Rádio Clube, de Pernambuco,

O uso do rádio aproximando governante e povo não é experiência exclusiva dos governos nazistas e fascistas. Antonio Pedro Tota (2000:38) z a aproximação com o caso norte-americano e mostra como Roosevelt fez uso do rádio no New Dea/' no esforço de reconstrução da América. Reunindo o país como uma imensa família em torno de um "pai", ele entrava nos lares americanos por meio dos ire

side chats,

"conversas ao pé do fogo", que transmitiam essa idéia de intimidade, de aproximação familiar, já que as mensagens radiofônicas eram freqüentemente trans­ mitidas da sala onde se localizava a lareira principal da residência de Roosevelr em Hyde Park, Nova York. Ou seja, a importância do novo meio de comunicação era percebida por governos e por políticos de vários países e tendências, desde que

estivessem anrenados com os novos tempos.

DE TODO-PODEROSO A TRAIDOR

Examinaremos aqui a atuação de Lourival Fontes no orr, principalmente

no campo da imprensa, tomando como referência principal o livro de Sônia de Castro Lopes Lourival

Fontes: as duas ores do

poder. No capítulo 3, "Ascensão e queda do 'Goebbels caboclo"', a autora repete a versão usual no título. No entan­ to, em sua análise, questiona a versão segundo a qual foi a aproximação com os Estados Unidos que levou a alterações no DIP e à saída de Lourival. Procura mostrar os embates de memórias, citando depoimentos de amigos e de oposirores. Levanta a questão de que Lourival permaneceu como uscisra, enquanto outros,

o I.ITELECTCAL DO DIP: LOUuVAL FONTES E O ESTADO Kovu 53

tão ou mais comprometidos com o autoritarismo do regime, puderam passar à história como democratas.

É preciso destacar aqui a relação conlituosa entre o regime e a imprensa. Desde o Governo Provisório, teve lugar o empastelamento do

Diário Carioca

em

1 932

por oficiais do Exército, o que provocou troca de ministros e abalos políti­ cos, além de censura a jornais. A Revolução Constitucionalista de

1932,

por sua vez, levou o governo a deportar vários jornalistas, entre eles Júlio de Mesquita, Austregésilo de Ataíde, Cásper Líbero, Paulo Duarte e Vivaldo Coaracy. O livro

Chatõ, o rei do Brasil.

de Fernando de Moraes, nos ajuda a enrender a complexa relação entre imprensa e poder nos anos

1920

e

30.

Segundo o autor, foi Assis Chateaubriand quem denominou o movimento de

1935

"intentonà', fazendo com que ele assim passasse à posteridade. Ao anti comunismo que se desenvolve a partir de

1935,

soma-se o aumento da temperatura política com a campanha eleitoral para o cargo de presidente da República, disputado por José América de Almeida, considerado candidato da situação, e Armando de Sales Oliveira, candi­ dato das oposições.

A repressão desencadeada com a Lei de Segurança Nacional de

1935

e sua institucionalização na Constituição de

1937

atingiu a imprensa de várias manei­ ras. Nos primeiros momentos do Estado Novo, os censores marcaram presença dentro dos jornais; depois, bastava comunicar por telefone o que podia ser divul­ gado. No caso da imprensa, uma das sanções mais utilizadas era "o controle das quotas de papeL já que este era importado e só podia ser retirado da alfândega com a autorização governamental. A taxa de importação era alta e, normalmente, o governo concedia isenção, mas no caso de jornais que deixassem de 'colaborar' essa isenção era suprimidà'.20 Outro tipo de sanção era o corte da publicidade oficial. "A partir de

1 940,

o DIP passou a centralizar as verbas de publicidade do Banco do Brasil e de outras instituições, distribuindo-as entre os jornais de sua predileção. Utilizando fotografias, artigos e notícias produzidos pela Agência Na­ cional, o DIP chegou a fornecer mais de 60% da matéria divulgada pelos jornais. ( ... ) Lourival Fontes, em vez de pagar as publicações por inserção nos jornais, fazia-o pelo total mensal. Estabeleceu três ou quatro categorias de órgãos da im­ prensa, reservando para a mais modesta, a verba mensal de

20

contos de réis". 21

20 Lopes, 1999:84. 21 Ibid., p. 85.

Benzer Belgeler