Ao pesquisar sobre a relação entre pensamento e linguagem, Vygotsky (1934/2002) faz críticas aos métodos de análise usados pela psicologia tradicional do início do século XX, observando que a psicologia tradicional, ao estudar em separado o pensamento e a palavra, elementos que compõem o pensamento verbal, as propriedades desse se perdem.
Para explicar como é equivocado o método que estuda o pensamento e a fala em seus elementos, Vygotsky (1934/2002, p. 3) o compara com a análise química dos elementos da água: o hidrogênio e o oxigênio. Nenhum dos dois tem as propriedades do todo e cada um deles tem propriedades que não estão contidas no todo. Se quisermos explicar por esse método por que a água apaga o fogo, isso não será possível, uma vez que em contato com o fogo o hidrogênio queima e o oxigênio o alimenta.
Isso também acontece com o estudo do pensamento verbal: ao se estudar o som e o significado das palavras, suas propriedades originais desaparecem. Ao se estudar apenas o som, desvinculado do pensamento, não se abordam as propriedades físicas e psicológicas próprias da fala. O mesmo acontece com o significado que, desvinculado do som, só pode ser estudado como um ato puro do pensamento (VYGOTSKY, 1934/2002, p. 4).
Constatando, assim, esse equívoco dos métodos tradicionais, Vygotsky (1934/2002) propõe, então, o método que analisa o pensamento verbal em unidades, aquilo que conserva todas as propriedades do todo e que não pode ser
subdividido sem que aquelas se percam (VYGOTSKY, 1934/2002, p. 5). Conclui
que, assim como a unidade da água são suas moléculas, sua célula viva, a unidade do pensamento verbal está no aspecto interno da palavra: no seu significado. Para Vygotsky (1934/2002), o significado das palavras refere-se a um grupo ou classe de objetos, sendo ela mesma um reflexo generalizado da realidade. O significado une pensamento e linguagem fazendo surgir, assim, o pensamento verbal. Dessa forma, constata Vygotsky (1934/2002) que o pensamento generalizador, por meio da linguagem como sistema de signos, é que possibilita a transmissão racional e intencional de um pensamento de um homem a outro homem. Vejamos, a seguir, como os estudos do pesquisador explicam o desenvolvimento do pensamento e da linguagem.
Em seus estudos genéticos do pensamento e da fala, Vygotsky (1934/2002) distingue duas linhas distintas de desenvolvimento para cada um deles e explica que as linhas do pensamento e da fala não fazem um trajeto paralelo, mas suas curvas cruzam-se, aproximam-se, fundem-se muitas vezes por alguns momentos, mas acabam por se separar. Tal desenvolvimento ocorre tanto no percurso filogenético quanto no percurso ontogenético. Esse pesquisador afirma que afirma que
o momento de maior significado no curso do desenvolvimento intelectual, que dá origem às formas puramente humanas de inteligência prática e abstrata, acontece quando a fala e a atividade prática, então duas linhas completamente diferentes de desenvolvimento, convergem (VYGOTSKY, 1934/2002).
Essas duas linhas de desenvolvimento da linguagem e do pensamento também estão presentes nos animais. Animais superiores apresentam alguma inteligência prática, como usar uma vara para alcançar coisas, e são capazes de se comunicar, mas as raízes do desenvolvimento do pensamento e da fala não se cruzam.
No plano filogenético do desenvolvimento humano, o encontro da fala e da atividade prática é responsável pelo salto na evolução do ser humano. Vygotsky (1934/2002) explica que, num momento da história da espécie humana, as raízes do pensamento e da linguagem unem-se devido à necessidade de intercâmbio entre os homens durante o trabalho. Assim, o trabalho que exige a utilização de instrumento para a transformação da natureza tem agora a seu favor a linguagem como sistema de comunicação que favorece o planejamento, a ação coletiva para o realização do trabalho. Esse momento é de crucial importância para a espécie humana: ao se apropriar do pensamento verbal e da linguagem como sistema de símbolo, a
natureza do próprio desenvolvimento se transforma, do biológico, para o sócio- histórico (VYGOTSKY, 1934/2002, p. 63).
No plano ontogenético, semelhante ao ocorrido no plano filogenético, Vygotsky (1934/2002) explica que a atividade, ou seja, o uso de instrumentos, já é exercida pela criança antes de ela aprender a falar, em sua fase pré-verbal, porém, quando a fala e uso de signos se incorporam a qualquer ação, essas se organizam em linhas inteiramente novas (VYGOTSKY, 1934/2002, p. 12). Na fase pré-verbal, a criança manifesta a inteligência prática; é capaz de subir em uma cadeira para alcançar algo; é capaz se comunicar por meio de seu choro quando quer mamar, por exemplo. Percebemos nessa fase do desenvolvimento ontogenético, assim como no desenvolvimento filogenético do ser humano, que a linguagem origina-se com a função primeira de comunicação. Ainda não usa a linguagem como sistema simbólico.
Porém, quando linguagem e pensamento se encontram, surge a segunda função da linguagem: a fala torna-se intelectual, generalizante com função simbólica, e o pensamento torna-se verbal, mediado pelos significados dados pela linguagem.
Nesse ponto em que mostramos a importância da linguagem como sistema simbólico, na evolução sócio-histórica e cultural, parece-nos oportuno notar a aproximação entre o pensamento de Vygotsky (1934/2002) com as ideias de Bakhtin/Volochinov (1997), uma vez que os dois pensadores partilham da mesma base teórica para a formulação de suas reflexões: o marxismo.
Para Bakhtin/Volochinov (1997), a linguagem é um produto da interação, sempre associada ao tempo histórico, a um determinado espaço, e à posição do sujeito diante do mundo, sempre considerando os seus interlocutores, mesmo quando o sujeito tem a si mesmo como interlocutor, fazendo-nos notar dessa forma o seu caráter dialógico. Explica-nos o filósofo que
A orientação dialógica é naturalmente um fenômeno próprio a todo o discurso. Em todos os seus caminhos até o objeto, em todas as direções, o discurso se encontra com o discurso de outrem e não pode deixar de participar, com ele, de uma interação viva e tensa (BAKHTIN, 1997, p. 88).
Entendemos que num processo de interação, que não é harmoniosa, mas tensa, todo o discurso é dialógico, ou seja, todo discurso leva em conta o discurso do outro, que está presente no seu. As relações de sentido que se estabelecem entre esses dois enunciados são aquilo que Bakhtin/Volochinov (1997) chama de dialogismo.
A noção dialógica da linguagem é inevitável, uma vez que somos seres desenvolvidos sócio-histórica e culturalmente, e é essa característica da linguagem que nos faz perceber a importância dessa aproximação do conceito de linguagem de Vygotsky (1934/2002) e Bakhtin/Volochinov (1997) para esta pesquisa. Como pretendemos que os tutores presenciais partilhem os sentidos-e-significados que atribuem às suas funções, é por meio da linguagem que o farão.
A seguir, discutiremos outro conceito importante na TSHC: sentidos-e- significados.