Para alguns professores entrevistados nessa pesquisa, a universidade está longe de cumprir o que parece ser um dos mais importantes papéis de sua missão acadêmica, que seria formar e preparar seus alunos para a vida profissional.
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P3 - Nenhuma universidade cumpre o papel que lhe cabe, se este papel for preparar o aluno para a vida profissional. Ela cumpre apenas uma parte deste papel, o exercício profissional fora da universidade cumpre a outra parte.
Apesar de defender uma posição contraditória, ao falar em “papel que lhe cabe” e, logo em seguida, usar uma proposição condicional (“se este papel for preparar o aluno para
a vida profissional”), fica visível nesse exemplo a percepção de que a vida profissional vai
além daquilo que pregam os cursos nos quais os alunos se inscrevem, e o duo “teoria versus prática” vai estar marcado fortemente na memória discursiva do universo acadêmico e científico.
Essa posição reforça o distanciamento entre teoria e prática, tendo em vista que subjaz ao enunciado a ideia de que a universidade teria a tarefa de formar o profissional e que essa formação teria caráter de completude. O que P3 nega é que a universidade possa realizar essa tarefa em sua totalidade, já que é o exercício fora dela que complementará a formação. É como se lhe coubesse, essencialmente, cuidar dos aportes teóricos que fundamentam os cursos.
Na perspectiva de P3, deve haver uma divisão de tarefas que resultaria na integralidade do processo de formação. Dessa forma, considerando-se que, como a formação é um processo dialógico em si, o que se evidencia como obstáculo nessa formação é a falta do diálogo impedido por essa divisão.
Parece ser consenso a opinião de que é o dia a dia e as experiências desenvolvidas no campo de trabalho, através da prática efetiva, que vão realmente preparar e qualificar o sujeito para o bom desempenho em sua área de atuação.
É por isso que há certo preconceito, ideologicamente marcado nas relações sociais, vinculado aos recém-formados, no sentido de se considerar que precisam passar por várias situações reais de enfrentamento em seu trabalho para que se tornem seguros, hábeis e aptos profissionalmente.
Dessa forma, Shön (2000) afirma que, quando um profissional reconhece uma situação como única, não pode lidar com ela apenas aplicando técnicas derivadas de sua bagagem de conhecimento profissional. E assim, como o caso não está no “manual”, se se quiser tratá-lo de forma competente, deve-se fazê-lo através de um tipo de improvisação, inventando e testando estratégias situacionais, o que não deixa de ser uma importante etapa da construção do conhecimento.
Apesar de haver situações nas quais um profissional possa resolver uma dificuldade pela aplicação rotineira de fatos, regras e procedimentos derivados de seu cabedal teórico, há, também, situações nas quais o problema não fica inicialmente claro, não havendo uma equivalência óbvia entre as características das situações e o conjunto de teorias e técnicas disponíveis. Seria, pois, na confluência entre o que se aprende e o que se pode aplicar que estaria o sentido da aprendizagem contínua e significativa.
Em contrapartida, para outros professores, a missão universitária não pode ser só preparar profissionalmente uma pessoa. Essa missão vai além do preparo profissional, posição defendida no enunciado a seguir, por P1:
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P1 - A universidade, como instituição formadora do saber, deveria preparar seus alunos para serem pessoas e profissionais conscientes, prontos a acompanhar as mudanças sociais e a atuar de acordo com as exigências do mundo moderno, contribuindo para formar cidadãos conscientes que ocupem o seu lugar na história, participando do processo, escolhendo seus dirigentes de forma consciente e criando, assim, uma sociedade mais justa e igualitária. E esta não é a nossa realidade.
P1 atribui à universidade a função social de formadora do saber, não qualquer saber, mas um saber pautado na concepção do sujeito como um ser eminentemente político, o qual é convidado a participar, ativamente, das discussões, das escolhas e dos rumos a serem seguidos na sociedade.
Outra questão a levantar é o fato de que P1 estabelece a separação entre pessoa e profissional, pressupondo a possibilidade de duas formações diferentes: uma para a pessoa; outra, para o profissional.
Do ponto de vista ideológico que constitui esse discurso, cabe à universidade muito mais que só preparar seus alunos para atuarem na vida profissional. Além disso, espera-se que esse sujeito se desenvolva como cidadão, sendo capaz de acompanhar as mudanças da vida moderna, interferindo em suas decisões, visando uma sociedade justa e igualitária.
Nesse exemplo, podemos entrever a presença de vozes diversas vindas tanto do discurso do senso comum, que se cristaliza em clichês do tipo “ser pessoa consciente”, “sociedade justa e igualitária”, e isso implica em atuação, participação; quanto dos discursos oficiais, que constroem a ideia da escola como instituição formadora, detentora e guardiã do saber.
Um ser consciente, em toda essa dimensão, seria, nesse caso, capaz de acompanhar as mudanças sociais, atuando de acordo com as exigências múltiplas e complexas, no sentido de, ainda, contribuir para o processo de desenvolvimento da sociedade, inclusive interferindo nas escolhas dos que lhe dirigem.
Essa posição é corroborada pelo que consta na Lei de Diretrizes e Bases da Educação, promulgada em dezembro de 1996, a qual, em seu Art. 43º, coloca, entre outras finalidades da educação superior:
II - Formar diplomados nas diferentes áreas de conhecimento, aptos para a inserção em setores profissionais e para a participação no desenvolvimento da sociedade brasileira, e colaborar na sua formação contínua.
Tais considerações configuram os postulados ideológicos que delineiam o papel da universidade, como formadora de mão de obra qualificada (“diplomados”), preparada (“apta”) para atuar como em uma linha de produção (“setores profissionais”). O desenvolvimento de que se fala está fortemente vinculado à questão (“participação”) econômica do país.
Cabe ainda, à universidade, segundo o Artigo citado, colaborar na “formação contínua” desses mesmos diplomados, o que já estabelece, dessa forma, que a função das instituições em relação aos que forma vai além da graduação, acompanhando-os em sua vida profissional.
É dessa falta de um acompanhamento sistemático e sistêmico de que falo nessa tese, apontando para a necessidade de haja diálogo constante entre as partes envolvidas no processo educativo em pauta.
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P5 - Sou firme em responder que a universidade não cumpre seu papel, pelos motivos mais diversos, desde os estruturais até os de postura do corpo docente e de uma equivocada grade curricular, em muitos casos; bem como, os que se referem ao pouco investimento que nela se concede à pesquisa, fundamental em toda sociedade e sistema educacional de qualidade.
P5 fala, categórica e duramente, apontando as falhas e limitações, mesmo sendo parte integrante do corpo docente da instituição em foco. Entretanto, ele procura se situar como se estivesse acima das questões que envolvem as dificuldades da universidade.
O que respalda esse seu dizer é o fato do informante ser professor substituto e estar no cargo de forma temporária, o que parece lhe conferir o direito de não interferir efetivamente, de não ser responsável direto pelos problemas elencados.
Entende-se, dessa forma, que, se a universidade não cumpre o papel que lhe cabe desempenhar, isso se deve à própria estrutura física dos campi, à ineficiência do corpo docente, à organização curricular dos cursos e aos parcos investimentos em pesquisa, que, para P5, constitui um item de fundamental importância no desenvolvimento da participação acadêmica. Ou seja: é como se tudo contribuísse e nada funcionasse para que a universidade desempenhasse o papel que deve assumir.
A opinião de P5 sobre os problemas que levam a universidade a não cumprir seu papel comunga com a posição assumida pela maioria dos alunos do nosso curso de Letras, quando citaram no Questionário Socioeconômico do ENADE 2005 essas mesmas questões. São, pois, enunciados que se inscrevem numa mesma formação discursiva.
Respostas: a. 2,1; b. 0,0; c. 29,2; d. 4,6; e. 54,2 Respostas: a. 2,1; b. 29,2; c. 6,2; d. 6,2; e. 56,3
__________________________________________________________________________________________ Fonte: Relatório ENADE/2005, do curso de Letras da Universidade Estadual da Paraíba, Campus III.
Disponível em: <http://enade.inep.gov.br/enadeResultadoPDF/2005/relatorio/cursos/000905502506301.pdf>. Acesso em: 23 jan 2010.
Mesmo assim, e por estar vinculada ao processo econômico e produtivo da sociedade, vemos, a cada dia, grande leva de pessoas acorrerem às universidades em busca de uma graduação, principalmente, em determinados cursos considerados de prestígio ou de grande aceitação, abrindo oportunidades de emprego, renda e progressão profissional.