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Os estudos sobre a memória vão fazendo com que ela deixe de ser concebida como um depósito de conhecimentos para ser compreendida como um espaço ocupado por conhecimentos, focalizados pela dinâmica do processamento intermitente de informações, conforme já apontado. A armazenagem deles se dá por modelos ou esquemas de ordenação, de sorte a pressupor que os conhecimentos arquivados têm uma estrutura, por um lado e, por outro lado, esses modelos se qualificam por graus de elasticidade e flexibilidade. Tal elasticidade favorece não só a extensionalidade dos conhecimentos armazenados, em razão de a eles serem incorporados aqueles produzidos por novas informações, mas também o desdobramento de um esquema em outros e, ainda, a redução ou generalização de vários esquemas a um único.
Vários experimentos de que resultaram os postulados acima foram realizados por psicólogos e por psicolingüistas sobre atividades de memorização de palavras que indicam – de uma lista de 16 palavras de alta freqüência apresentadas a 210 alunos do Ensino Médio – a média de palavras por eles repetidas oscilava entre 6,5,7,9. Esse índice se mantinha quando as palavras lhes eram conhecidas; entretanto, a memorização de desenhos nunca esteve circunscrita a um índice de lembrança inferior
a 9 rememorizações. (SEBASTIAN, 1983). O avanço dessas experiências sobre processos de memorização leva à conclusão de que o armazenamento na memória não está circunscrito a elementos, mas a grupos de elementos conhecidos, de sorte que a operacionalização que deles se faz se inscreve em um processo dinâmico, e não fixo. Observou-se também que a memória opera alternadamente por movimentos elásticos que tanto estendem quanto reduzem informações e, por fim, concluiu-se que só se armazenam informações sobre as quais se têm índices referentes ao que já se sabe ou se conhece.
Nesse sentido, afirma Turazza (2005), que a aprendizagem de novos vocábulos precisa ter por suporte ou por ancoragem palavras já conhecidas, pois um novo vocábulo sempre é aprendido na extensionalidade de outro. Segundo essa autora, a cada leitura de um novo texto, não se aprende mais do que sete novas palavras.
Fundamentando-se em experimentos desenvolvidos por Miller (1985) e Bartlett (1983), afirma Turazza que os processos de codificação-decodificação significativa de novas informações compreende três etapas: uma sensorial, uma semântica e outra mista. Assim, a decodificação sensorial de uma palavra escrita decorre de um processamento em função de suas características visuais como forma, cor, espessura de seus traços, tamanho. Essa decodificação não dispensa o processamento fonológico, de modo que o processado pela memória sensorial implica o fonológico e, assim, vistos ou ouvidos, escritos ou falados esses processamentos se fundem àqueles referentes ao processamento lexical que sempre preserva os esquemas visuais e/ou auditivos. Por conseguinte, os esquemas processadores do esquema visual efetuam uma síntese das imagens apreendidas e processadas, de modo que as formas das palavras são percebidas por diferentes ângulos, pois este processamento não se dissocia do processamento semântico: o conteúdo a que essas formas fazem remissão. Essa variedade de ângulos decorre do fato de os significados das palavras se remeterem à variação de conhecimentos de mundo, de sorte que se faz necessário descobrir o foco pelo qual esses conteúdos foram ou estão sendo organizados.
Assim, o processamento semântico é mais abstrato e mais complexo; contudo, é por meio dele que os sentidos das palavras são armazenados sob a forma de esquemas com alto grau de elasticidade, facultando, por exemplo, que uma palavra como gato faça remissão tanto a conhecimentos referentes ao animal da família dos felinos quanto ao homem que, concebido como um gato, é bonito, carinhoso, esperto, sutil. Por conseguinte, as palavras remetem a conhecimentos de diferentes campos do conhecimento; contudo, afirma Turazza (2005) que elas jamais são usadas isoladamente e, na dimensão textual discursiva, por um lado, tem-se a redução desses campos. Todavia, por outro lado, esses sentidos são expandidos na medida em que são indexados aos significados selecionados que emergem do modelo de contexto situacional; razão pela qual as palavras são continuamente ressemantizadas porque recontextualizadas.
As palavras, segundo essa autora, não vão vazias para o texto, pois elas arrastam consigo sentidos sócio-históricos-culturais em razão de elas serem usadas por todos os membros de uma comunidade. Logo, as palavras não têm dono, elas são construções a várias mãos: apossar-se de palavras é apossar-se de conhecimentos partilhados, arquivados na memória social.
Para Turazza (2005), o que possibilita definir o significado de uma palavra é o fato de se aprender a condensar seus conteúdos sob a forma de novas designações. Esses conteúdos compreendem sentidos cristalizados pelo uso, aqueles que habitam as mais diferentes práticas discursivas humanas.
Nesse sentido, conforme observam os pesquisadores da memória, é preciso considerar a existência de interfaces entre as diferentes fases do processamento de informações que não podem ser quebradas, pois essas faces são articuladas entre si. Logo, o processamento de informação sob a forma de palavras está em interface com aqueles de seu conteúdo e, no caso das palavras de um texto, esses processamentos estão em interface com os modelos de interação, com os modelos de contexto, os
modelos de situação com aquele referente ao perfil do leitor ou do autor. Assim sendo, os esquemas formais estão em interface com aqueles que organizam as redes semânticas e vice-versa, visto que o processamento e armazenamento de informações funcionam de modo articulado. Por conseguinte, ao ler um texto, opera-se com todos esses esquemas.
Essa autora postula que os esquemas lexicais funcionam de modo a garantir a interface entre diferentes fases do processamento de informação, visto ser a palavra a síntese de todos eles. A saber, o visual, o gráfico, o ortográfico, o auditivo ou sonorização, o articulatório – a palavra prevê um modo de articulação para sua pronúncia. Nesse sentido, os esquemas que organizam os conhecimentos referentes aos conteúdos lexicais funcionam como cabos que conectam as redes do computador e que intervêm na ativação coerente da sua memória. Afirmam os psicolingüistas que a verbalização de palavras lidas aumenta o desempenho da memória, para esses estudiosos a complexidade da memória humana não se explica por armazéns, mas por módulos interconectados que qualificam uma relativa unidade de funcionamento e, por serem dotados de capacidade própria e específica esse funcionamento veloz implica o esquecimento.
Nessa acepção, a memória de curto prazo é vista como a ativação de certas partes da memória de longo prazo. Ela ativa informações situadas em diferentes módulos para ativar, por exemplo, conteúdos de uma palavra lida e agrupar a ela outras palavras numa mesma categoria e multiplicá-las por outras palavras.