Adotei como procedimento de pesquisa a escuta sensível aos (as) professores (as) da escola do Quilombo do Cria-ú para ter noção clara de como a educação das relações étnicas estava se dando nesse educandário. Mesmo tendo clareza de que a educação escolar se faz pelo conjunto de profissionais que formam as escolas, ou seja, educar em âmbito escolar não é tarefa unicamente do professorado. Mas não podemos negar o papel preponderante destes (as) para a operacionalização das mudanças indispensáveis para construir-se novas maneiras de ensinar, aprender, socializar e formar seres humanos para o convívio respeitoso com a pluralidade cultural esparramada na sociedade abrangente.
Fazer uma escuta sensível aos (as) professores (as) dos componentes curriculares: artes, história, geografia e ensino religioso foi relevante e instrutiva para mim e meu orientador em primeiro momento. Deu-nos parâmetros para pensarmos algumas ações dentro do projeto de pesquisa que subsidiou o desenvolvimento desta pesquisa de tese, dentre elas a necessidade de realizarmos encontros de formação docente e acompanhamento didático- pedagógico não somente com os professores de artes, história, geografia e história, mas com todos os profissionais envolvidos na formação dos (as) educandos (as), seus familiares e os (as) próprios (as) estudantes da escola.
Escutei recorrentemente por parte de alguns (as) dos (as) professores (as) que se sentiam inseguros e sem formação acadêmica para trabalhar os conteúdos previstos pela Lei nº 10.639/03 em sala de aula. Já os profissionais que participaram do curso, disseram que a formação foi somente para apresentar-lhes a lei e posteriormente receberiam a continuidade da formação para instruírem seus pares sobre esse conhecimento novo para as escolas. O último encaminhamento citado não foi realizado. Dez professores da escola foram inscritos para a formação e somente as professoras de artes e história terminaram o curso oferecido
pelo Ministério da Educação e Cultura-MEC/SECAD em parceria com a Secretaria Estadual de Educação/ SEED-AP.
Daqui da escola chegaram a fazer inscrição 10 pessoas, mas tiveram poucas pessoas que chegaram até o final. Veio uma pessoa aqui para fazer as inscrições, falou o roteiro, a programação, a sistemática do roteiro. Até mesmo porque o Cria-ú é uma área de Quilombo, de afrodescendente. Então ela deu prioridade pra cá. Mas no momento como eu falei não terminei, não conclui. Só duas colegas que foram até o final. (PROFESSORA DE ENSINO RELIGIOSO).
Sim, participei do curso promovido pela secretaria de educação que abrangeu a lei. Foi na verdade uma exposição da lei pra nós. (PROFESSORA DE ARTES E PROJETOS).
Bom, a Secretaria de Educação na verdade, ficou de repassar pra gente alguns informes sobre o programa de história e arte e os conteúdos a serem ministrados. É,mais a nível de escola nós não chegamos a fazer nenhum debate sobre a lei propriamente dita.
(PROFESSORA DE ARTES E PROJETOS).
Acredito que as professoras da escola que participaram da formação até o final sem dúvida ampliaram seus conhecimentos de alguma maneira sobre o continente africano e a história e cultura afrodescendente, mesmo que superficialmente, mas na prática não foram ensinadas a trabalhar tais conteúdos no cotidiano escolar.
A cultura afroamapaense não ocupou acento na formação desses educadores, o que na minha opinião, facilitaria, pela relação de proximidade dos professores nascidos em Macapá com a cultura local o desenvolvimento de seu fazer didático - pedagógico. E para os que são oriundos (as) de outros estados também porque a cultura afroamapaense vive na área urbana e rural de Macapá ao longo de todo o ano. Fato este que a torna acessível a todos (as).
Li nas falas dos (as) professores (as) que a África é um “lugar distante”. Continente
“Além Mar” que tinham receio, insegurança e medo de acessar o novo campo de
conhecimento que se apresentava diante de si. Observei também que não estavam olhando para o entorno de suas escolas. A comunidade que circula tais educandários e o quanto pulsam as expressões de África em nós macapaenses por intermédio das maiores expressões culturais denominadas de Marabaixo e Batuque e Religiões de Matriz Africana e diversas expressões culturais que evidenciam a pluralidade cultural presente no Estado do Amapá de predomínio afrodescendente. O Estado do Amapá tem muitos Quilombos e comunidades tradicionais de cultura afro como indica a Coordenadoria Municipal da Igualdade Racial- COMIR.
Falo da maioria da população amapaense que é composta de 76,6% de pretos e pardos segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística-IBGE ano 2004, portanto, com culturas afroamapaenses majoritárias que dão movimento e se destacam na identidade étnica da população do Estado do Amapá. Mesmo assim, os (as) professores (as) sentem dificuldade em mudar a lente de seus olhos e portanto, tirarem da invisibilidade os conhecimentos que os educandos possuem e, por conseguinte, si próprios no seio da escola.
Foram acostumados a ficarem restritos aos “pacotes educacionais” que recebiam para colocar
em prática nas escolas.
No decorrer da investigação analisando o desenvolvimento da atual pesquisa sobre educação, somados com os da investigação de mestrado, envolvendo a minha particular relação com a escola como criança, jovem estudante, militante, educadora e pesquisadora negra, ainda vejo o quanto o conhecimento escolar está distante da realidade dos educandos. O conhecimento, aprendizados e necessidades culturais dos estudantes conflitem com o medo explícito de alguns (mas) professores (as) de abrirem seus planejamentos educacionais e sairem do lugar cômodo que estão, trabalhando isoladamente e prevendo seus conteúdos antes mesmos de conhecerem quem são seus educandos e de onde eles veem, para a ação desafiadora de educar revisitando conteúdos e replanejando sempre que necessário pela dinâmica que o cotidiano das escolas imprime aos profissionais da área educacional.
Esse encaminhamento requer também criação e reelaboração de materiais didático- pedagógicos, posturas profissionais, busca constante de novos aprendizados com o desenvolvimento de pesquisas sobre a realidade local, diálogo com profissionais de dentro e de fora da escola e do Estado do Amapá. E muito esforço, suor e cansaço, aliás indispensáveis dentro da construção de um projeto educacional amplo envolvendo a educação Quilombola para explicar a pluralidade étnica brasileira.
Tive no início da investigação a percepção de em alguns momentos, certos professores chegarem a reconhecer que existe certo distanciamento entre o que ensinam e a realidade vivida e experimentada pelos (as) educandos (as). Mas sentem ainda um certo grau de dificuldade em modificarem seus planejamentos escolares e deixarem entrar conhecimentos do currículo de vida dos (as) educandos (as) junto com eles (as) “porta a
dentro” nas escolas.
Desde o início da pesquisa-intervenção, tal realidade implicou em dialogarmos numa outra perspectiva, e por meio dela criarmos uma nova filosofia dentro da comunidade escolar alicerçada pelo diálogo, aproximação, afetividade, conhecimento sobre a comunidade que avizinha à escola, planejamento aberto sujeito a mudanças constantes e planejamento
interdisciplinar, mais estudo, mais investimento financeiro em livros e recursos didático- pedagógicos, aprendizado tecnológico, mais preparo emocional, psicológico, espiritual, afetivo e humano para nos deixarmos cruzar e entrecruzar pelos educandos onde ambos ,professores e educandos, possam aprender de maneira compartilhada.
Eu considero que seja importante para todas as pessoas essas questões e principalmente para a história de cada um. Eu tenho trinta anos e assim, a infância e a história de cada um é tão importante que esses assuntos a História e Cultura Africana, Afrodescendente e do Cria-ú, independentemente de serem importantes para a formação profissional e intelectual é importante para a formação emocional dos alunos. Por isso que eu acho importante trabalharmos na escola. Por isso que eu me identifico com a escola, talvez porque eu em período da minha vida, não tenha ficado muito bem gravado a minha infância. Não ficou bem gravado assim o que poderia ter sido. Então para mim eu acho que é imprescindível que eles (os estudantes) realmente considerem o que eles tem; que eles vivam; que eles conheçam sua cultura. Não que seja apenas isso. Que eles conheçam outras culturas também, mas que eles participem, que eles saibam que tem uma história para contar, emocionalmente (e psicologicamente – grifo nosso) é importante. (TÉCNICA PEDAGÓGICA).
Por isso, promovemos rodas de conversa com os mantenedores (as) da cultura local (intra e extra) muro escolar para que os conhecimentos que possuem avivados por suas memórias possam se tornar eloqüentes no aprendizado dos educandos do Cria-ú. Portanto, esses são alguns passos relevantes para o desenvolvimento de uma cultura escolar transformadora, que eu também defendo e acredito ser possível vive-la nos espaços de ensino e aprendizado educacional.
1.5 APRESENTAÇÃO DA PROPOSTA DE PESQUISA-INTERVENÇÃO À ESCOLA