Qu’y manque-t-il ? un rien, mais ce rien est tout. Balzac, Le Chef-d’œuvre inconnu.422
O termo mais correto, aqui, não seria concluir, mas interromper. Faço, então, uma interrupção: suspendo a leitura. Afinal, a estratégia, que não é minha, muito menos de um aporte teórico, é do próprio texto balzaquiano. É a estratégia do desejo de acrescentar, de continuar, que não cessa na escritura de Balzac. Segundo algumas leituras críticas dentre os estudos balzaquianos, há um sistema que sustenta a Comédie Humaine. Desse modo, tudo convergiria para a finalização de um projeto maior: seria este a representação do real, a tipologia do homem oitocentista, a apreensão da História, o retrato figurativo, a incorporação de gêneros diferentes no seio do romance, a maturação da narrativa do romance clássico – a lista poderia continuar. Sem dúvida, as questões teóricas enunciadas pelo Balzac crítico, prefacista, jornalista, referem-se a essa enumeração; entretanto, o único sistema que defendo na escritura balzaquiana é o contínuo.
No Avant-propos – nesse texto bricolagem de Balzac, mosaico de axiomas e de conceitos que se assemelha a seu álbum de pensamentos, mimetizando a forma espalhada das pequenas notas, tal como se vê nos manuscritos (Anexo- Imagem 5)423 –, Balzac devaneia:
L’idée première de La Comédie Humaine fut d’abord chez moi comme un rêve, comme un de ses projets impossibles que l’on caresse et qu’on laisse s’envoler ; une chimère qui sourit, qui montre son visage de femme et qui déploie aussitôt ses ailes en remontant dans un ciel fantastique. Mais a ses commandements et sa tyrannie auxquels il faut céder.424
Não se trata de um lugar-comum do artista inspirado, tomado por uma força maior, por um impulso avassalador; ao contrário, é a figuração do ato criativo, não se tratando de um pensamento qualquer. Deleuze disserta sobre a diferença entre a ideia criativa e os pensamentos em geral: “tout le
422 Balzac. Le Chef-d’œuvre inconnu, X, p.419. 423
Balzac. Pensées d’Honoré de Balzac. Manuscrit Autographe sous la cote Ms Lov A 180_45_46.
monde sait bien qu’avoir une idée, c’est un événement qui arrive rarement, c’est une espèce de fête, peu courante. Et puis, d’autre part, avoir une idée, ce n’est pas quelque chose de général.”425 O próprio Balzac, logo em seguida
ao trecho citado acima, desassocia-se da ideia de inspiração, pois diz que é preciso trabalho para executá-la, ou seja, a quimera transforma-se em realidade. E realidade constitui o trabalho despendido na execução, uma vez que uma ideia deve ser tratada “comme des potentiels déjà engagés dans tel ou tel mode d’expression et inséparables d’un mode d’expression, si bien que je ne peux pas dire que j’ai une idée en général.”426
Por isso, para este estudo, dizer que a Comédie Humaine reflete a sociedade ou reflete acerca da sociedade consiste em uma leitura crítica que não corresponde ao potencial da escritura balzaquiana em sua qualidade artística. Leitura que, ao supostamente atribuir uma qualidade ao projeto da
Comédie Humaine, na verdade, o limita imensamente.
Ao falar da filosofia e da criação de conceitos, escutamos Deleuze:
Une fois cela admis, il serait trop facile de dire que la philosophie étant prête à réfléchir sur n'importe quoi, pourquoi ne réfléchirait-elle pas sur le cinéma ? C'est stupide. La philosophie n'est pas faite pour réfléchir sur n'importe quoi. En traitant la philosophie comme une puissance de « réfléchir-sur », on a l'air de lui donner beaucoup et en fait on lui retire tout. Car personne n'a besoin de la philosophie pour réfléchir. (…)
Il est tout simple : la philosophie est une discipline aussi créatrice, aussi inventive que toute autre discipline, et elle consiste à créer ou bien inventer des concepts. Et les concepts, ils n'existent pas tous faits dans une espèce de ciel où ils attendraient qu'un philosophe les saisisse. Les concepts, il faut les fabriquer. Bien sûr, ça ne se fabrique pas comme ça. On ne se dit
pas un jour, « tiens, je vais inventer tel concept », pas plus qu'un peintre ne se dit un jour, « tiens, je vais faire un tableau comme ça » ou un cinéaste, « tiens je vais faire tel film ! » Il faut qu'il y ait une nécessité, autant en philosophie qu'ailleurs, sinon il n'y a rien du tout. Un créateur n'est pas un prêtre qui travaille pour le plaisir. Un créateur ne fait que ce dont il a absolument besoin.427
Balzac, nos prefácios, atribui um valor “filosófico” a seus romances, donde a categoria dos “Études”. De maneira que, quando escuto Deleuze dissertando sobre a criatividade da filosofia, sobre a fabricação dos conceitos e sobre a necessidade inerente ao processo, reconheço o movimento do
425 Deleuze, Gilles. Deux Régimes de Fous. Op. cit., p. 291. 426 Ibid., p. 292.
pensamento balzaquiano e sua necessidade de expressar uma forma, a forma da figura humana.
A fabricação dos conceitos – a quimera que se torna realidade – equivale ao metadiscurso que se justapõe à narrativa. Portanto, Balzac não estaria refletindo a realidade ou acerca da realidade: ele está, contrariamente, fabricando conceitos, criando uma forma de expressão.
O que pretendi apresentar neste estudo se enquadra na busca da expressão da forma, na passagem da ideia à execução. Mais especificamente, em como a figura humana se torna visível na escritura, por isso do termo figurabilidade, que incorpora não apenas os aspectos textuais, formais do texto ficcional, mas, igualmente, os aspectos extratextuais de ordem estético- filosófica. Falar da figurabilidade possibilita um aprofundamento da expressão da escritura balzaquiana e, ao mesmo, uma abertura do texto a outros elementos que não os da ordem narrativa.
Por isso a possibilidade da expansão da análise por diversos romances da Comédie Humaine, uma vez que procurei cercear a necessidade inerente ao ato criativo, como argumenta Deleuze, que está estreitamente aliada à escritura balzaquiana. Mais especificamente, falo da necessidade de apresentar o homem: o homem que a escritura necessitava mostrar, concreto, figurado. Todavia, não figurativo, não realista: um ser cubista, superfície aberta às experimentações de representação.
Se falei de figurabilidade, um espaço específico do texto ficcional foi destacado, ou seja, o descritivo e, no descritivo, o portrait. A afluência das referências, a intensidade do trabalho formal, a riqueza estilística, a competição com outros campos semióticos na composição da figura escrita, abrem a discussão. Ainda no portrait, poderíamos encontrar outras unidades mínimas que bastariam como objeto para um estudo longo e detalhado. Entre muitos exemplos, o detalhe.
Portanto, ao tratar da produção figurativa, a necessidade, agora, do ato criativo deste estudo era percorrer os romances da Comédie Humaine e propor uma leitura que acompanhasse o prazer e a torturante obsessão da escritura em rendre visible seus personagens ao leitor. Se, talvez, no personagem como unidade narrativa pensamos em figurativo, sem dúvida,