O argumento de que a cobrança pelo uso da água não é um ônus para seus usuários, mas sim um critério de eficiência em sua utilização e instrumento de planejamento que permite a continuidade das ações do Estado, pode ser justificado pelo fato da água está se tornando mais escassa (FONTENELE; ARAÚJO, 2001, p. 242).
Sendo a água um recurso natural que contribui para o desenvolvimento econômico e o bem-estar social, uma política nacional dos recursos hídricos não deve se abster da ideia de que a água tem funções econômicas e apresenta cada vez mais um valor econômico. Assim, sob a hipótese de torná-la escassa e limitar o seu uso para as gerações futuras, torna-se imprescindível valorá-la. Caso contrário corre-se o risco de provocar uma demanda excessiva que pode levar à degradação e/ou exaustão total (FONTENELE, 1999, p. 297).
De acordo com Abad (2007, p. 44), na teoria econômica se um determinado bem é útil e escasso, então ele deve ter um valor econômico, e quanto maior a escassez desse bem, maior será o seu valor.
Vale salientar que a característica mais marcante da água é que ela tem diferentes valores de uso e diferentes valores de troca ou preço. Assim, a gestão integrada da água deve- se basear na percepção da água como parte do ecossistema cuja quantidade e qualidade determinam a natureza de seu uso. Conforme Skinner; Langfod (2013, p. 873), qualquer decisão em gestão de água deve ser tomada de modo ao melhor interesse do público.
A água tem valor econômico somente quando sua oferta é escassa em relação à sua demanda. Caso a água esteja disponível em quantidade ilimitada ela se torna livre no sentido econômico. Porém, a escassez desse recurso gera valor econômico para este bem, uma vez que vários usuários irão competir pelo seu uso. Logo, em um sistema de mercado a água passa a ter um preço definido, servindo como um guia de alocação do recurso entre usos alternativos de forma que se produza o maior retorno econômico (WARD; MICHELSEN, 2002, P. 425).
A cobrança pelo uso da água pode ser considerada com um mecanismo financeiro que atribui um preço a água usada ou retirada de um corpo hídrico (PLOEG; SOMMERFELD, 2011, p. 6).
A cobrança pelo uso dos recursos hídricos é um dos instrumentos das políticas de recursos hídricos, tanto nacional como estadual, tendo o objetivo de conscientizar o usuário desse recurso a buscar racionalizar o seu uso, além de propiciar a arrecadação de recursos financeiros para financiamento de projetos ligados aos recursos hídricos.
A cobrança pela água em uma bacia hidrográfica pode atuar também como um importante instrumento de equilíbrio entre a oferta hídrica e a demanda hídrica destinado aos vários usos nessa bacia. Segundo Fontenele (1999, p. 3000), essa cobrança pode mudar o comportamento de seus principais usuários.
A aplicação do instrumento de cobrança é uma forma da sociedade impor a um bem escasso como a água às pressões de mercado e às leis da oferta e da demanda (GARRIDO; CARRERA-FERNANDEZ, 2000, p. 605).
Nas bacias hidrográficas onde o balanço hídrico se apresenta em um estado crítico ou onde as águas se encontram em estado de degradação pela poluição, comprometendo a sua qualidade, a cobrança pelo uso desse recurso é justificada. Por lei, serão cobrados os usos que estão sujeitos à outorga por parte do poder público.
A Agência Nacional de Águas (ANA), uma autarquia federal vinculada ao Ministério do Meio Ambiente (MMA), foi criada pela Lei nº 9.984, de 17 de julho de 2000, e onde uma de suas competências é a operacionalização da cobrança pelo uso da água em corpos hídricos de domínio da União.
De acordo com a Lei Federal nº 10.881, de 09 de junho de 2004, todo recurso financeiro arrecadado na cobrança em uma bacia federal, deverá ser repassado integralmente à Agência de Águas da Bacia correspondente (BRASIL, 2004).
A cobrança não deve ser pensada apenas como uma forma de arrecadar recursos financeiros para reverter à degradação atual existente, e sim, como uma forma de instituir um comportamento adequado em relação à racionalização do uso da água (THAME et al., 2000, p. 14).
Para Ward; Michelsen (2002, p. 428), o preço a ser pago pelo uso de recursos hídricos em uma bacia hidrográfica deve representar com precisão os benefícios que resulta os seus diversos usos nessa bacia.
Logo a cobrança pela água deve ser interpretada como um preço público fixado por intermédio de negociação entre a sociedade civil, o poder público, os usuários dos recursos hídricos e os membros do comitê da bacia hidrográfica (CBH). Porém para que essa cobrança tenha sucesso é necessário que a comunidade envolvida aceite o pagamento desse preço público.
Para Fontenele (2002, p. 3), os modelos tarifários adotados para a cobrança pelo uso da água devem ter como objetivo o de garantir uma eficiente alocação dos recursos disponíveis, maximizando o bem-estar social e cobrir os custos de produção e ampliação do sistema.
De acordo com a Lei nº 9.433/97, para fixar os valores a serem cobrados pelo uso dos recursos hídricos, em uma bacia hidrográfica, devem ser observados:
Nas derivações, captações e extrações de água, o volume retirado e seu regime de variação; e nos lançamentos de esgotos e demais resíduos, o volume lançado e seu regime de variação e as características físico-químicas, biológicas e de toxidade do afluente.
A cobrança pelo uso da água indica o estágio da implementação da PNRH, na medida em que sua implantação em uma bacia hidrográfica decorre da concretização de outros instrumentos de gestão (ANA, 2012, p. 137).
De acordo com a Lei nº 9.433/97, os recursos arrecadados com a cobrança deverão ser aplicados na própria bacia de origem e deverão ser usados para financiar estudos, projetos e obras incluídos nos planos de recursos hídricos e no pagamento de despesas de implantação e custeio administrativo dos órgãos e entidades integrantes do SINGERH.
A cobrança em rios de domínio da União tem início após a aprovação pelo CNRH dos mecanismos e valores de cobrança propostas pelos CBHs. Segundo Acselrad (2013, p. 36), a cobrança está implantada em quatro bacias de rios de domínio da União: Paraíba do Sul; Piracicaba, Capivari e Jundiaí; São Francisco; e Doce.
Em termos estaduais, a cobrança pelo uso de recursos hídricos está implantada em bacias de domínio dos Estados do Ceará, Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Paraíba.
Porém, apenas o Ceará (1996) e o Rio de Janeiro (2004) implantaram a cobrança em todo o seus territórios.
O CNRH aprovou no âmbito nacional a cobrança pelo uso da água, através da Resolução CNRH nº 48, de 21 de março de 2005, estabelecendo os critérios gerais para essa cobrança nas bacias hidrográficas. No Quadro 2.1 são apresentados os aspectos que devem ser considerados para fixar os valores a serem cobrados pelo uso da água.
Quadro 2.1 – Mecanismos para definição dos valores a serem cobrados pelo uso dos recursos hídricos I – À derivação, captação e
extração II – Lançamentos de efluentes III – Demais usos
a) Natureza do corpo d’água (superficial ou subterrâneo); b) Classe de enquadramento do corpo d’água;
c) Disponibilidade Hídrica; d) Grau de regularização assegurada por obras hidráulicas;
e) Vazão reservada e seu regime de variação;
f) Vazão consumida (diferença entre a captada e a devolvida ao corpo d’água);
g) Finalidade; h) Sazonalidade; i) Características e a
vulnerabilidade dos aquíferos; j) Características físicas, químicas e biológicas da água; l) Localização do usuário na bacia;
m) Práticas de racionalização, conservação, recuperação e manejo do solo e da água; n) Condições técnicas, socio- econômicas e ambientais existentes.
o) Sustentabilidade econômica da cobrança por parte dos segmentos usuários; p) Prática de reuso da água.
a) Natureza do corpo d’água (superficial ou subterrâneo); b) Classe de enquadramento do corpo d’água;
c) Disponibilidade Hídrica; d) Grau de regularização
assegurada por obras hidráulicas; e) Carga de lançamento e seu regime de variação;
f) Natureza da atividade; g) Sazonalidade; h) Características e a
vulnerabilidade das águas dos aquíferos e superficiais;
i) Características físicas, químicas e biológicas da água;
j) Localização do usuário na bacia; l) Práticas de racionalização, conservação, recuperação e manejo do solo e da água;
m) Grau de comprometido que podem ser causados no corpo receptor;
n) Vazões consideradas indisponíveis;
o) Redução da emissão de efluentes;
p) Atendimento das metas de despoluição programadas nos planos de recursos hídricos; q) Redução efetiva da contaminação hídrica; r) Sustentabilidade econômica por parte dos segmentos usuários.
a) Natureza do corpo d’água (superficial ou subterrâneo); b) Classe de enquadramento do corpo d’água;
c) Disponibilidade hídrica; d) Vazão reservada e seu regime de variação;
e) Alteração que o uso pode causar em sinergia com a sazonalidade;
f) Características físicas, químicas e biológicas da água; g) Características e a
vulnerabilidade dos aquíferos; h) Localização do usuário da bacia;
i) Grau de regularização
assegurado por obras hidráulicas; j) Sustentabilidade econômica da cobrança por parte dos
segmentos usuários; l) Finalidade do uso ou interferência
Fonte: CNRH, 2005.
Segundo a Resolução CNRH nº 48/2005, em seu Artigo 5º, a cobrança pelo uso da água será efetuada pela entidade ou órgão gestor de recursos hídricos ou, por delegação destes, pela Agência de Bacia Hidrográfica ou entidade delegatória (CNRH, 2005).
Estão sujeitos à cobrança os usos destinados à indústria, à irrigação e agropecuária, ao setor de saneamento básico, à aquicultura, à mineração, à transposição de águas e à geração hidrelétrica.