• Sonuç bulunamadı

6. GENETİK DALGACIK YAPAY SİNİR AĞI (GDYSA) YAKLAŞIMIYLA SAYISAL

7.3. Yayınlar

A denominação “diário íntimo” é algo comum entre os estudos relativos aos diários pessoais, porém é preciso nos determos na função do diário como objeto da intimidade. Neste sentido, investigamos a relação entre espaços e objetos ao longo da história e o conceito de intimidade.

De acordo com Orest Ranum (1991, p. 211), as sociedades europeias dos séculos XVI e XVII, mesmo diferentes entre si, se assemelham à atual no que diz respeito a privilegiar os comportamentos familiares, comunitários e cívicos em relação ao individual. Nas antigas sociedades, o íntimo não era algo que estava em evidência. Para se ter informações a respeito da intimidade é necessário estudar os comportamentos, lugares favoritos e objetos considerados relíquias, que, de alguma forma, estão relacionados com as emoções e os afetos humanos.

Ranum (1991, p. 211) afirma que, no passado, o homem, mediante suas emoções e sonhos, associou seu ser a certos espaços e objetos. Assim, o íntimo revela-se também através de retratos visuais, escritos e relíquias. Dessa forma, é perceptível o poder de expressar o eu através de uma rubrica, uma assinatura, símbolos codificados, lápides, etc. O gosto pelo secreto foi favorecido ainda mais por certas seitas de caráter político e religioso que transformaram em objetos de culto o secreto e o misterioso. Um exemplo apresentado por Ranum (1991, p. 212) é o caderno usado por Petrarca - um objeto relíquia de sua vida íntima - em momentos de inspiração, para anotar, de forma secreta, os diálogos com seu venerável amigo Santo Agostinho. Para o autor, os diários dos tempos modernos, em geral menos religiosos que o de Petrarca, revelam a vontade de se expressar de maneira íntima.

Nesse contexto, os diários adquiriram o status de objeto íntimo, espaço de registro da intimidade. A escrita diarística se tornou uma espécie de arquivo secreto, uma fonte de informação para os interessados por detalhes íntimos tanto de vidas de pessoas públicas quanto de pessoas anônimas.

Do mesmo modo, situam-se os relatos de experiências místicas ou de devaneios ao longo de bosques e momentos sublimes, em que o corpo e o espírito se encontram unidos pelo amor ou pela amizade, provocando a necessidade de expressar o que se passa internamente a outra pessoa ou a si mesmo. O autorretrato e o diário íntimo, ambos com características semelhantes, eram práticas

comuns no âmbito dos artistas (RANUM, 1991, p. 213). Os lugares favoritos, os objetos de relíquia que recordam sentimentos importantes e vestígios que conservam através de imagem ou por escrito a existência íntima são formas de recontar a intimidade.

Os relatos em primeira pessoa quando guardados em cadernos secretos transformam-se em produtos da intimidade. Assim, a relação estreita entre escrita diarística e intimidade consolidou o diário como um objeto de expressão da interioridade. O diário se tornou um cenário de atuações do eu que, em um primeiro momento, dispensa a presença de expectadores.

Carlos Castilla del Pino (1996) em Teoría de la intimidad, afirma que as atuações humanas são representações de um eu. Por vezes, consideramo-las reais porque participam de um processo de interação com o eu dos outros. Já em outros casos, são tratadas como imaginárias e denominadas também como virtuais, porque o eu apenas se imagina em ação com e ante outro eu também imaginado. De acordo com Castilla Del Pino (1996, p. 15), as atuações consideradas como reais não o são em sua integridade, pois o eu (do outro) com quem interagimos está presente como um corpo, que é somente um suporte ou meio de expressão. A interação que realmente acontece é com o eu que imaginamos, que supomos ser o eu do outro.

Dessa forma, ninguém tem acesso à intimidade de outro, apenas se pode inferir algo através da relação com o eu íntimo que se supõe do outro através do eu que foi apresentado. Neste sentido, se as atuações humanas são representações de um eu, pode-se afirmar, segundo Castilla Del Pino (1996, p. 16), que, para cada atuação\representação, se constrói um eu.

Logo é importante enfatizar o eu como consequência de um processo construtivo que leva em consideração o contexto de atuação, ou seja, o diário pode ser visto como um espaço específico para a construção de um determinado eu. Castilla Del Pino (1996, p. 17) nomeia como sujeito aquele que constrói, restaura ou recupera o eu para cada atuação. Assim, o sujeito é o que confere a consciência da unidade de todos os eus. O eu é um instrumento de que o sujeito dispõe para cada atuação. Porém, algumas vezes, o sujeito não se reconhece no eu de uma de suas atuações. Quando este desconhecimento é real e não metafórico acontece o que pode ser visto, segundo Castilla Del Pino (1996, p. 17), nos sintomas de

esquizofrenia como a alucinação, na qual a voz alucinada não é reconhecida pelo sujeito como dele, e sim como de outro. No entanto, quando é uma metáfora, se trata do que é denominado pelo autor como uma dissociação “como si”, que remete à teoria de Ortega y Gasset do “ensimesmamento”, da qual trataremos adiante, como característica humana por excelência, o que possibilita a construção de um espaço íntimo.

Ao tratar de um espaço íntimo, reafirmamos a relação da intimidade com um contexto especial, que pode ser tanto materializado em um objeto ou local quanto a uma situação específica de acesso limitado. Por isso, Castilla Del Pino (1996, p. 18) ressalta a importância do que ele denomina “cenário da representação”. O cenário, para o autor, é o contexto ou situação, visto como um espaço elaborado pela representação, um espaço que se desenha a partir da interação dos participantes. De acordo com o seu cenário\contexto, as atuações são de três tipos: íntimas, privadas e públicas. Os tipos de atuação diferenciam não por si próprios, mas sim pelos seus cenários.

No âmbito das atuações públicas, temos, como exemplos, dar uma palestra, dançar, trabalhar em uma empresa, etc. Já no que diz respeito a atuações privadas, são as que desempenhamos sozinhos ou com alguém de nossa confiança. Por fim, as íntimas estão relacionadas aos sentimentos, pensamentos e se apoiam em nosso eu imaginário para o momento e, também, nos eus, igualmente imaginários, dos outros.

O cenário íntimo possui a propriedade de ser observável somente para o sujeito. As atuações íntimas podem ser referidas, narradas, comunicadas mediante a linguagem ou expressão não verbal, mas isso não as transforma em privadas ou públicas. A comunicação do que imaginamos é a verbalização do imaginado, mas não a demonstração do imaginado. O íntimo pode ser dito, mas não pode ser mostrado. Por isso, se pode mentir e fantasiar a partir do que se pensou ou imaginou. Não é possível comparação ou comprovação empírica (DEL PINO, 1996, p. 19).

Dessa forma, identificamos o diário como um cenário íntimo, um espaço de atuação da intimidade, que, mesmo contendo descrições detalhadas de uma determinada ação ou pensamento, não dispõe a um possível leitor o acesso comprobatório da cena vivenciada ou imaginada. Além disso, a escrita diarística

costuma apresentar uma série de códigos criados pelo diarista, como forma de proteger alguns segredos para que não sejam descobertos.

Neste sentido, Girard (1986, p. 4) afirma que a intimidade de um diário define- se pelo fato de que ele não é destinado ao público, mas conserva um caráter reservado, até mesmo secreto. Nele, o autor não fala aos outros. O discurso é endereçado a si mesmo, para registrar, para não esquecer, para dar-se conta ou para julgar. Até o século XX, nenhum diário é publicado enquanto seu autor estiver vivo.

Já o cenário das atuações privadas é necessariamente observável, pois, ainda que se realize a sós, são atuações exteriorizadas, enquanto o público é mais distante ainda do que o íntimo, e se dispõe de um modo que seja precisamente observado. Dessa forma, Castilla Del Pino (1996, p. 20) resume o cenário público como expressamente exteriorizável e exteriorizado, o cenário privado como exteriorizado embora oculto, e o íntimo como invisível.

A escolha de um cenário é feita através de um pacto, que pode ser explícito ou implícito. No caso das atuações íntimas, o pacto é entre o sujeito e o eu. Decidimos que determinadas atuações sejam íntimas e não ultrapassem de forma direta ou indireta o cenário da intimidade. O cenário das atuações íntimas, de acordo com Castilla Del Pino (1996, p. 21), é um espaço virtual, é a mente do sujeito, onde ele coloca um eu em interação com outros eus que, na verdade, não são reais. São eus construídos imaginariamente como se fossem outros, porém pertencem a si mesmo.

A atuação íntima é um pacto consigo mesmo, entre o eu e o sujeito, que, por vezes, não se cumpre. O que, inicialmente, era considerado uma atuação íntima se transforma em uma atuação de conteúdo análogo, porém privada ou até mesmo pública. A intimidade luta por se exteriorizar, através da confidência em um âmbito privado ou em um âmbito público como em mídias de rádio e televisão ou até mesmo de forma mascarada pela literatura (DEL PINO, 1996, p. 22).

No caso dos diários íntimos, o que se percebe é que o processo de escrita inicia-se com um pacto interno proposto pelo sujeito ao seu eu e que, após o término, o abandono ou a morte do diarista, o diário extrapola o cenário da intimidade. Castilla Del Pino (1996, p. 24) afirma que o cenário íntimo é um espaço reservado no qual se conservam e protegem as mais raras espécies de eu, que, na

maioria das vezes, são insuspeitáveis para os demais. Nesse processo, Castilla Del Pino (1996) faz referência aos estudos de Ortega y Gasset (2010), indicando que, para se sair do mundo que Ortega denomina “exterioridade”, a única possibilidade é meter-se dentro de si mesmo, recluir-se em sua intimidade, ensimesmar-se. Neste sentido, a intimidade é um espaço de liberdade que o sujeito usa para atuações sem testemunha.

O diarista que compõe o cenário da intimidade assume um eu que atua distante de um leitor explícito. A distância almejada desde o pacto firmado consigo mesmo é medida de acordo com o seu desprendimento ao relatar suas atuações diárias. O eu que se manifesta nas páginas do diário íntimo se assemelha ao ator que se apresenta em frente a um espelho, livre para construir as características de um personagem que somente será visto por ele próprio.

Conforme Castilla Del Pino (1996, p. 26), é importante esclarecer que o cenário íntimo não remete a uma autêntica e verdadeira face do sujeito. A privacidade e a intimidade são espaços que permitem a experimentação dos eus em uma situação mais livre de controles externos. Isso não significa que os privados e os públicos sejam falsos ou alheios ao sujeito, pois as atuações privadas e públicas pertencem também ao sujeito. Logo, tudo o que faz o sujeito é do sujeito, todos os eus são representações do sujeito.

O diário, considerado um hábito reservado a momentos de intimidade, aos poucos, começa a transformar-se também em uma forma de escrita literária, com o crescimento dos números de publicação e o interesse de seus leitores. Daí a necessidade de tratarmos também do diário, como escrita do cotidiano e gênero literário, complementando a trajetória da escrita diarística.

Benzer Belgeler