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Como foi dito, para o materialismo histórico, nada se faz na his- tória sem a atuação do sujeito. Nesse sentido, o materialismo autêntico se contrapõe ao determinismo, que postula a inevitabilidade do socialismo. Segundo esta teoria, o declínio do capitalismo é fatal e determinado pelas leis de seu próprio desenvolvimento. Após ele, adviria o socialismo como consequência lógica de sua destruição, quer queiramos ou não.

O materialismo histórico e dialético, ao contrário, contrapõe a essa teoria da evolução social uma teoria da revolução socialista. O fato de Marx ter-se dedicado fundamentalmente ao estudo das condições objetivas (econômicas) da revolução, impediu que ele desenvolvesse, no mesmo nível, uma teoria política revolucionária que orientasse a prática política do movimento operário. Questões candentes, como a do Estado, do partido, da luta revolucionária etc., foram somente esbo- çadas, encontrando-se dispersas e implícitas em toda sua obra.

É Lenin quem vai desenvolver, de modo mais coerente e pro- fundo, uma teoria marxista sobre a estrutura política do Estado burguês e sobre as estratégias e táticas de luta para a derrubada revolucionária desse Estado por um partido operário.

Sobre o Estado, Lenin postula que a verdadeira doutrina mar- xista o considera produto e manifestação do caráter inconciliável das contradições de classe, o órgão de opressão de uma classe pela outra. Tal opressão tem como objetivo, em todas as sociedades de classe, re- alizar e manter a exploração das classes subalternas. No capitalismo, o moderno Estado representativo é o instrumento mais soisticado de que o capital se serve para explorar o trabalho assalariado. Lenin airma, apoiando-se em Engels, que a república democrática é a forma mais irme e segura de que o capitalismo se reveste para dominar, a tal ponto que não perturba nenhuma troca de pessoas, nem de instruções, nem de partidos (LENIN, 1987).

Caberia ao proletariado tomar o poder estatal e destruir a má- quina do Estado burguês pela revolução violenta. A partir daí, então, o proletariado se utilizaria do Estado para exercer uma dominação po- lítica sobre a burguesia, capaz de esmagar as resistências e suas tenta- tivas contrarrevolucionárias de restaurar o velho regime. Com o tempo, o Estado proletário deveria se extinguir, pois perderia sua função de dominação de classe.

Sobre a revolução, Lenin considera que a passagem do capitalismo ao socialismo só pode se dar por meio da luta revolucionária e que esta consiste na tomada violenta do poder estatal para e pelo proletariado, guiado e organizado pelo partido operário. Neste sentido, Lenin se opõe tanto aos que pregam que a luta econômica do proletariado conduzirá as massas à luta política, devendo esta ser uma consequência; como aos que coniam na espontaneidade das lutas das massas na realização da revo- lução. Ao mesmo tempo, Lenin rechaça a tese de que o socialismo possa ser atingido por meios evolucionários ou pacíicos. Tais concepções le- variam, respectivamente, a um culto à luta econômica e à mobilização do partido em torno apenas da consecução de resultados econômicos para o proletariado; à passividade do partido e sua abstenção de tomar decisões referentes à luta revolucionária; ao desenvolvimento de uma política de conciliação e reformismo por parte do partido.

Quanto ao partido revolucionário, Lenin considera que ele deve ser a vanguarda revolucionária da classe operária, isto é, deve ser for- mado de militantes seguros, experientes e prestigiosos, dotados de alta

capacidade de tomar decisões, de liderar e organizar as massas, com clareza na compreensão das ideias marxistas, além de disciplina e ide- lidade à causa revolucionária.

No entanto, sozinha, a vanguarda não passa de um grupo de revolucionários, ainda não é o partido de classe revolucionário. É necessário que ela (a vanguarda) esteja em estreita ligação com toda a classe operária e ganhe também o apoio da totalidade das massas trabalhadoras e das classes não proletárias. Para isso, é necessário fazer compromissos e alianças com as outras classes que, por um motivo ou por outro, têm seus interesses contrariados pelo grande capital. A tática do partido deve consistir em utilizar as vacilações e os interesses contrariados desses grupos e, por meio de concessões, fazê-los inclinar-se para o lado do proletariado.

Tanto no trabalho de conscientização da classe operária, quanto na tarefa de ganhar as grandes massas, o partido deve se utilizar de um intenso trabalho de agitação, propaganda e ação política. Dessa forma, a luta deve-se dar em todas as instâncias, legais ou ilegais, da socie- dade burguesa. No parlamento e nos sindicatos oiciais, por exemplo, o revolucionário deve estar presente a im de desmascarar a demo- cracia burguesa e denunciar a exploração e a opressão junto à massa operária e camponesa. Paralelamente, os revolucionários devem lutar para criar organizações operárias ilegais que sirvam de canal de ligação com o partido. Por este instrumento, o partido organiza conselhos que agrupam as massas trabalhadoras sem distinção de proissão.

O objetivo de toda essa luta é a derrubada do regime capita- lista, por meio da conquista do Estado, e a instauração do socialismo como etapa de transição para se atingir o comunismo. O socialismo seria a fase inicial do comunismo, em que o Estado deveria con- trolar os meios de produção, impedindo toda a forma de exploração do homem, mas ainda mantendo a regulação da distribuição dos produtos e da distribuição do trabalho entre os membros da socie- dade mediante as leis do Direito. Nesta sociedade, o Estado assume a forma de ditadura do proletariado sobre a burguesia, consistindo, por isso, em democracia para o povo e em restrição às liberdades dos exploradores, opressores e capitalistas.

Quando se tiver rompido deinitivamente a resistência dos capita- listas, quando estes tiverem desaparecido, quando já não existirem classes (quer dizer, quando já não existirem diferenças entre os membros da so- ciedade por sua relação com os meios de produção), só então desaparecerá o Estado, e será, de fato, possível a existência da sociedade comunista. Nesta sociedade, o Estado tornar-se-á supérluo, pois desaparecerá a ne- cessidade de opressão de uma classe sobre a outra por não existirem mais classes. Por outro lado, todos os membros da sociedade já estarão suicien- temente educados para dirigirem por si mesmos os rumos da sociedade; os meios de produção passarão a ser propriedade comum, e a gestão deles será coletiva, desaparecendo a contradição entre trabalho intelectual e ma- nual. Desaparecerá, então, o direito, e não haverá sentido em se falar em democracia, pois esta:

[...] implica a igualdade formal. E imediatamente depois de rea- lizadas a igualdade do trabalho e a igualdade de salário, surgirá de maneira inevitável diante da humanidade a questão de seguir adiante, de passar da igualdade formal à igualdade de fato, ou seja, à aplicação da regra: ‘de cada um segundo sua capacidade; a cada um segundo suas necessidades’ (LENIN, 1987, p. 136).

Benzer Belgeler