Na análise das questões relativas à relação entre sociedade e natureza, há um movimento pendular: de um lado, o aspecto sociológico fica hipertrofiado, quando os sociólogos refletem sobre a natureza apenas como representação cultural. De outro lado, se hipertrofia a natureza em suas condições físicas e biológicas, como se o aspecto cultural não estivesse aí imbricado. Certamente que esse movimento seria redutor, para ambos os modos de estudarmos a maritimidade, por exemplo, e por isso se faz importante comportar a interdisciplinaridade em estudos sobre Povos do Mar.
Observa Diegues (2003), que os estudos de sociedades de pescadores, que hoje se nomeia Povos do Mar, começaram com a Etnologia, que descrevia exaustivamente sociedades estudadas; e foram pesquisadores ingleses que lançaram esse olhar antropológico para o diferente nas culturas. Eles queriam, contudo, teorizar sobre como fazer trabalhos de campo desses grupos humanos, que tinham sociedades diferentes da nossa. Nessa visada, Malinowski, 1922 publicou seu estudo intitulado Argonautas do Pacífico Ocidental, criticando os que viam na pesca um estágio anterior de civilização, que estava anterior à agricultura e à sedentarização. Foram estudadas a sociedade dos insulares tombriandeses, em especial o kula (troca ritual de bens) e que foi fruto da dedicação no recorte do tema da navegação entre as ilhas da Polinésia. As análises de Malinowsky são importantes, mas seu
objetivo era mais metodológico. De fato, Malinowky contribuiu para consolidar a Antropologia como campo, e trouxe um olhar para a cultura do Outro que, como os estudos de Raymond Firth, publicado em 1946, intitulado Os Pescadores Malaios. Sobre a sociedade malaia, contribuiu para fazer uma correlação entre a economia da pesca e a economia camponesa.
Como temos observado, há especificidade nos estudos sobre o mar e a intervenção humana construindo cultura nesse lugar. Em trabalhos anteriores (Diegues;1983, 1995) havia observado que a sociedade dos pescadores é diferente da sociedade camponesa, e destacou o particularismo do que vem a cunhar como “Povos do Mar”, como já vimos de dizer. A imprevisibilidade do mar, na pesca; a extrema perecibilidade do pescado; a flutuação nos preços do pescado, todo um contingente de dificuldades com recursos na lida marinha, seus perigos e riscos, os padrões de reprodução das espécies, o espaço da beira em relação com o mar, visto como espaço de vida, as formas de utilização do trabalho no mar, tudo são particularizações que constituem um imaginário. A produção simbólica nesse ambiente envolve ritos, signos, espiritualidade e todo um conjunto de elementos.
Um dos problemas mais graves que vem de polarizações e formas de pensar a cultura do outro, são a tendência a admitir a diversidade biológica, mas do ponto de vista da governança estatal, as práticas e organizações sociais tentam uma uniformização impossível, onde as ações que imperam se restringem a pensar a economia. Com as palavras de Diegues (2003), na Conferência citada acima, onde torna suas as palavras de Brenton:
Uma das tendências das ciências naturais é enfatizar a diversidade biológica e uniformizar as práticas e organizações sociais dos pescadores. “Muitos projetos de desenvolvimento da pesca tem a tendência de negar esta dimensão histórica e esta diversidade às custas de uma visão modernista que acentua a homogeneização e a especialização dos sistemas, fazendo do aumento da produtividade econômica um objetivo prioritário. Essa atitude é mais perigosa pois pode desestabilizar as práticas sociais existentes, que dão ênfase maior à cooperação que ao desempenho individual de cada pescador ou ao uso de atividade complementares para completar o ciclo anual” (BRENTON, 1992:15 apud DIEGUES, 2003, p.17).
Continua dizendo Diegues (2003, p.17), ao falar da mudança na forma com que se considerou a pesca, que antes os desenvolvimentos dos sistemas eram mais articulados com as condições do ambiente e da cultura; e depois, não. A utilização do espaço marítimo foi decida ao olhar mercado-estado, em detrimento da vida das populações suas formas de trabalho que eram regidas por particularidades locais.
É preciso salientar que, sobretudo nos países tropicais, antes da chegada do capitalismo na pesca, foram desenvolvidos sistemas de pesca adaptados às condições ecológicas e sócio-culturais, marcadas, sobretudo pela maior
disponibilidade dos recursos pesqueiros, fraca densidade populacional, relações intermitentes com o mercado e pelo uso de tecnologias patrimoniais de impacto reduzido sobre os estoques pesqueiros. A crescente demanda dos produtos da pesca, a expansão das frotas industriais e as políticas que favoreceram capturas em larga escala alteraram visivelmente a estrutura da pesca nesses países.
Pode-se acrescentar, pois, que a pesca artesanal tem sido preterida, porque não é feita nos moldes industriais, embora alimente a população do entorno – o que não é levado em consideração pela lógica de mercado, que condiciona o olhar estatal.
Percorramos o cotidiano, para acolher algumas chaves para olhar as particularidades.
O dia na Prainha do Canto Verde começa sempre bem cedinho, ainda às 4h da madrugada, quando o pescador levanta-se para buscar no trabalho do mar o sustento de sua família. A água ainda fria, já acostumou esses homens do mar com isso... E em período da pesca da lagosta esse horário se modifica para muito mais cedo, mas para os pescadores é momento de festa, de se juntar aos companheiros para mais um dia viverem o trabalho do mar.
Quem fica em terra por algum motivo, se junta aos outros para ficarem nos “barracões”, conversando sobre o dia a dia da comunidade, sobre as pescarias, regatas, peixes, e sobre os fatos acontecidos nas viagens ao alto mar. Às vezes, alguns jogam baralho e dominó, enquanto outros ficam apenas olhando o mar; e mesmo quem não vai para a pescaria em alguns dias, costuma levantar cedinho e acompanhar os amigos na organização dos apetrechos de pesca e no rolamento da jangada para que ela possa entrar ao mar.
Quando a gente não vai pro mar, a gente não tem o que fazer então nós vamos para lá... As vezes a gente sai de casa 8h e só chega 11h. Ficamos lá conversando sobre a pesca, brincando, jogando e falando principalmente sobre a regata. O pessoal gosta muito, aí as vezes combinam de fazer uma corrida mesmo entre eles no domingo apostando, para saber quem corre mais... O que eles mais conversam no barracão é sobre regata. Se escutar dizer que não vai ter regata, parece que aconteceu a morte de alguém porque fica todo mundo triste. A Regata é a festa do pescador. (Pescador,39 anos).
O barracão, como é chamado este ponto de encontro entre o pessoal da pesca, geralmente é uma latada coberta com palhas de coqueiros, produzida pelos próprios pescadores e fica sempre a beira mar. Para eles, o barracão é um espaço significativo, é o lugar onde eles conversam, mantém sua identidade de pescadores, trocam suas vivências, guardam também apetrechos de pesca e constroem suas jangadas, combinam suas formas grupais de irem pescar, e até é uma espécie de “ponto de encontro dos pescadores”. Eu diria: como gente. Este lugar conclui-se sendo também um espaço de organização dos pescadores entre si que mantém uma organização para a própria utilização do espaço. “Você pode chegar,
e tiver jogado aqueles dez você não joga, quem vai jogar é os dez que chegaram (Pescador, 39anos”).
Na maioria das vezes, essas comunidades tradicionais como Canto Verde, por não terem uma grande população, conseguem manter uma relação mais próxima entre as pessoas, criando laços mais efetivos de respeito e camaradagem. Refletem nas conversações sobre o preço do pescado e as políticas de valorização e desvalorização da pesca artesanal. Discutem questões ambientais e conflitos no litoral, de que tomam conhecimento e, ás vezes, participam. Assim, geralmente a convivência no barracão possui a chave do encontro entre parceiros na vida e no trabalho, e mesmo quando há momentos em que as discussões com as visões diferenciadas tornam-se mais efervescente, há um costume do diálogo, que é uma tradição do barracão. Disse um pescador: “- Eu sei que se um dia acabasse o barracão, seria
uma coisa muito triste para o pescador, porque é como se fosse uma pracinha para nós”.
O barracão, portanto, representa a volta à terra, se referindo permanentemente na conversão que abriga, à vida do mar. Da terra, olham o mar, no barracão; do mar olham o barracão – o começo da casa; a volta ao lar como pousadio. Poderíamos dizer que o barracão é um “lugar construído simbólica e praticamente” pelo coletivo dos pescadores e do pessoal que ajuda na pesca. Isso mostra também, que há outras digamos institucionalidades, menos formais, mas que atingem funções sociais explícitas.