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5.1 Como Surgiu o Movimento Homossexual no Brasil
Tendo em vista que a homofobia é uma construção sócio-cultural, uma criação do mundo civilizado e um produto das relações estabelecidas entre homens e mulheres, ao passo que estes ratificam processos discriminatórios e preconceituosos contra os homossexuais, também podem revertê-los com a negação da homofobia.
O processo de desconstrução da homofobia só será possível quando houver rupturas com o naturalizado, mediante a tolerância e a aceitação das diferenças encontradas nos indivíduos e a luta do movimento homossexual em busca de cidadania e respeito.
Nessa perspectiva,
O termo desconstrução é utilizado, aqui, para se referir ao trabalho necessário de reflexão que possibilita uma desfamíliarização com construções conceituais que se transformaram em crenças e, enquanto tais colocam-se como grandes obstáculos para que outras possam ser construídas. Damos preferência ao termo desfamíliarização, porque dificilmente ‘desconstruímos’ o que foi construído. “Criamos espaços sim, para novas construções, mas as anteriores ficam impregnadas nos artefatos da cultura, constituindo o acervo de repertórios interpretativos disponíveis para dar sentido ao mundo”. (SPINK, 1999, p. 27)
Ao se falar de processos de desfamiliarização da homofobia, acreditei ser importante tratar, aqui neste capítulo, de como a luta do movimento homossexual foi de suma importância no processo de desfamiliarização da homofobia com esteio em suas conquistas no que diz respeito aos direitos humanos dos homossexuais no mundo inteiro.
Focalizarei inicialmente algumas características de como ocorreu o movimento homossexual nos Estados Unidos, para podermos compreender melhor como esse
movimento avançou no mundo, no Brasil e no Ceará. Achei importante também, neste capítulo, analisar as tentativas de desfamiliarização da homofobia nas Praças da Gentilândia, ou seja, a luta dos jovens e o empenho das entidades que reivindicavam do poder público a resolução do conflito.
Figura 23: A bandeira que simboliza as cores do arco-íris, símbolo universal do movimento homossexual.
Grupos de homossexuais nos Estados Unidos organizaram-se a partir de 1924 contra uma rede de opressão médica, legal e cultural. As primeiras organizações voltadas política e socialmente para a melhoria das condições de vida de gays e lésbicas ficaram conhecidas como organizações homófilas. Esses grupos trabalhavam discretamente para educar o público a respeito da homossexualidade e para oferecer apoio aos homossexuais, durante as décadas de 50 e 60 do século passado.
Só no final dos anos 1960, com o surgimento do movimento feminista, é que se começou a questionar a normalidade heterossexual. O movimento homossexual que se desenvolveu a partir de então preferiu outra linguagem para expressar uma visão mais radical e politizada, rejeitando o termo homófilo, que caiu em desuso.
No final dos anos 60, paralelamente à reconsideração, pelas feministas, das identidades e papéis sexuais, alguns homossexuais norte-americanos saem de seu silêncio forçado para pôr termo a uma clandestinidade dolorosamente sentida como patológica. Para começar, eles mudam de designação. Em vez de “homossexuais”, que tem uma conotação médica ligada a perversão, eles preferem a denominação de “gays”36(que existe desde o século XIX), mais
36 O significado original da palavra gay remonta à Europa do século XIX, onde se referia ao prostituto
masculino (WEEKS, 2000). O termo passou a ser empregado desde os anos 20 nos Estados Unidos como um código que identificava os homossexuais e os lugares onde eles se congregavam (GREEN, 2000b). Na década de 1960 ele teria adquirido uma conotação adicional, indicando homens (de aparência “masculina”) que se definiam como homossexuais devido à sua escolha de objeto sexual. No Brasil a
neutra, que designará uma cultura específica e positiva. (BADINTER, 1992, p. 113)
O ano de 1969 pode ser considerado como um marco na história do movimento homossexual mundial. Na noite de 28 de junho de 1969, policiais tentaram mais uma vez fechar o Stonewall Inn, um bar frequentado por homossexuais no Greenwich Village, em Nova York, sob a alegação de descumprimento das leis sobre a venda de bebidas alcoólicas. Com a desculpa de que o local era propriedade da máfia italiana instalada na cidade, o bar vinha sofrendo reiteradas invasões da polícia, que aleatoriamente prendia e agredia seus frequentadores.
O que era para ser uma ação policial rotineira suscitou, no entanto, uma reação inédita: embalados pelas barricadas de maio de 1968 em Paris, os homossexuais atacaram os policiais com garrafas e pedras, e estes rapidamente tiveram que chamar batalhões de reforço. Gritando frases como “Poder Gay” e “Sou bicha e me orgulho disso”, os homossexuais e demais residentes do bairro acabaram chamando a atenção da imprensa, e a cidade parou para ver o desfecho da situação. A batalha, que se transformou em um marco da luta gay, prolongou-se por cinco dias, sendo resolvida apenas com a intervenção do prefeito, que ordenou o fim da violência policial.
A partir de então, o dia 28 de junho é comemorado por mais de 140 países como o Dia Internacional do Orgulho Gay, com a realização de diversas paradas ao longo dos meses de junho e julho (SOARES, 2000). Vale lembrar que nos Estados Unidos a primeira Parada Gay ocorreu em Nova York, em 28 de junho de 1970, um ano após a rebelião de Stonewall.
A rebelião de Stonewall propiciou crescimento, visibilidade e uma mudança de atitude dentro do movimento homossexual: enquanto nos seus primórdios o movimento esteve ligado a grupos de esquerda e ao movimento feminista, após os eventos de 1969, ele se tornou progressivamente centrado em uma política liberal que buscava ganhar direitos e proteção legal contra a discriminação de gays e lésbicas.