Nesta seção, serão explanados os critérios adotados pela pesquisa ao se referir ao campo sobre Economia Criativa. O autor base, Richard Florida, afirma que, para atrair a classe criativa para os centros criativos, seria necessário investir na formação de um ambiente favorável a talento, tecnologia e tolerância.
Talento indicaria uma população talentosa, escolarizada e preparada. Stewart
(1998) define indivíduo talentoso como o sujeito que se diferencia ao realizar ações que contribuem para os resultados da organização. No ponto de vista organizacional, existem estudos que sugerem o conceito de gestão de talentos, que vai além do tratamento dos indivíduos de uma organização como simples recursos humanos. Para Farndale et al. (2014), a gestão de talentos deve buscar o equilíbrio entre as necessidades organizacionais e as metas e expectativas individuais, para reter indivíduos talentosos. Realizar a gestão de talentos com eficiência implica a forma como a organização formula e executa suas práticas de gestão de pessoas, assim como a maneira pela qual organiza seus instrumentos de atração e engajamento de indivíduos talentosos.
Para Almeida (2004), e conforme abordado pela literatura prévia, indivíduos talentosos escolhem o local que querem trabalhar e estão cientes de seu valor, estabelecendo suas próprias regras e buscando atender suas necessidades de acordo com seus objetivos individuais. Para Gubman (1999), alinhar o talento à estratégia da organização assegura que os indivíduos percebam para onde a organização caminha, como eles podem contribuir para o que a organização almeja e o que ganharão quando o fizerem.
Tecnologia corresponde à infraestrutura tecnológica necessária para
abastecer o empreendimento cultural. Em um contexto organizacional atual, a tecnologia, além de englobar máquinas, hardwares e softwares, deve dar atenção às mídias sociais e às comunidades virtuais das empresas. Para Muniz e O’Guinn (2001), quando a imagem de uma organização está atrelada a comunidades virtuais, existem benefícios, como a facilidade de compartilhamento de informações, a facilidade na assistência aos consumidores e a influência positiva na fidelização da marca. Nesse sentido, as mídias sociais estabelecem a comunicação entre empresa e clientes, apresentando novas oportunidades que possibilitam o aprimoramento da relação entre ambos.
Além disso, Johns e Perrot (2008) afirmam que investir em divulgação de mídia social apresenta custos menores e menos arriscados do que investir em mídias não virtuais. Isso acontece uma vez que muitas das formas de pagamento às redes sociais se dão apenas quando o público-alvo especificado pelo contratante recebe e lê a divulgação, fazendo com que a empresa tenha certeza de que seu anúncio chegou a ele. As redes sociais também criaram oportunidades tanto para consumidores quanto para empresas se beneficiarem dos comentários e observações que outros postam, sendo possível identificar o que os clientes estão gostando ou não nos serviços da organização e em outros aspectos de suas vidas, tornando possível um investimento mais direcionado para seus clientes.
O item Tolerância propõe que ambientes criativos estejam associados a lugares tolerantes às diferenças individuais e a uma comunidade diversificada. Para Florida (2011), sem diversidade, esquisitice e diferenças uma cidade morreria. Para ele, as cidades não precisam de shoppings ou centro de convenções para serem economicamente bem-sucedidas, e sim de pessoas criativas e excêntricas. Para tanto, um ambiente criativo precisa ter baixa barreira à entrada de pessoas, ou seja,
os recém-chegados têm que ser aceitos rapidamente em todo tipo de esquema social e econômico. O autor aponta a abertura para empreendedores do mundo inteiro como característica marcante dos Estados Unidos e esse fator como o responsável pelo crescimento do país, pois imigrantes que decidem sair de seus países estão dispostos a arriscar.
Na literatura da gestão organizacional, o termo tolerância pode ser associado à diversidade. Van Knippenberg e Schippers (2007) definem diversidade como uma característica de um agrupamento social que reflete o grau com que as diferenças objetivas e subjetivas dos membros de um grupo existem e como essas diferenças afetam os processos desse grupo e a performance da organização. Para Bond e Pyle (1998), o conceito da diversidade veio para contrapor concepções antigas, como as do Taylorismo e do Fordismo, que tratavam os trabalhadores como similares, agindo sobre o mesmo modelo e tendo suas diferenças ignoradas. Ela parte do princípio de que as diferenças entre os indivíduos da organização são positivas, pois elevam o moral e incrementam a sua criatividade e produtividade, conduzindo a uma vantagem competitiva (COX; BLAKE, 1991).
Através do paradigma da diversidade, veio o conceito de gestão da
diversidade, que, segundo Thomas Junior (1990), é um processo de criação e
manutenção de um ambiente que possibilite naturalmente a todos os participantes organizacionais alcançar seu potencial total em busca dos objetivos da empresa, promovendo a consciência e a compreensão das diferenças entre os indivíduos, melhorando as relações pessoais e minimizando atitudes ostensivas e preconceituosas. Além do caráter humanitário e ideológico, a gestão da diversidade proporciona, conforme Mendes (2004), o aumento da criatividade e da capacidade de resolução de problemas, uma vez que pessoas de culturas diferentes têm maior e mais rica base de experiências e distintos vieses para fazer análises críticas.
Figura 5: Elementos do ambiente criativo Fonte: Adaptado de Florida (2011).
Correlacionando tolerância e tecnologia, Florida (2005) constatou que áreas populares entre gays (e, portanto, áreas tolerantes) nos Estados Unidos eram também lugares com alta concentração de empresas de alta tecnologia. Florida também resolveu estudar a relação entre talento e tecnologia, observando o agrupamento de pessoas instruídas e criativas e a concentração de inovações e atividades ligadas à alta tecnologia. Utilizou como base quatro indicadores regionais: concentração relativa da classe criativa em uma região, seu índice de talento (percentual da população com curso superior ou mais), seu índice de inovação (patentes concedidas per capita) e seu índice de alta tecnologia (indicador baseado no Tech Pole Index do instituto Milken1). As descobertas mostraram que inovação e
alta tecnologia estão bastante associadas a locais que concentram a classe criativa e indivíduos talentosos de um modo geral.
Para Florida (2011), os resultados foram os esperados, uma vez que indivíduos da classe criativa são mais propensos a ter um nível de instrução elevado (pelo menos nos setores do Tech Pole Index). Apesar disso, o autor também constatou em pesquisa que a concentração de músicos, atores, dançarinos,
pintores, fotógrafos (portanto, indivíduos criativos e talentosos de fora do ramo
específico da tecnologia e que não se enquadram no critério utilizado na pesquisa anterior para medir talento, que foi o percentual da população com curso superior ou mais) em uma região (que ele chama de índice boêmio) é maior nos centros com
1 Esse indicador avalia a economia de uma região em setores de crescimento acelerado, como a
alto índice de tecnologia, novamente comprovando a relação entre os três fatores anteriormente defendidos.
Florida (2011) se justifica afirmando que, em resumo, os agentes criativos se concentram em torno de outros agentes criativos, estimulando a produtividade. Ao se concentrarem, os agentes criativos formam empresas ou unidades econômicas mais amplas. Em seguida, as empresas se estabelecem em cidades onde crescem e se desenvolvem. As cidades, por sua vez, também crescem e se desenvolvem como locais propícios às empresas e aos agentes criativos. O ciclo seria sustentável, pois gente talentosa garantiria novas conexões de trabalho e sinergias de ideias, resultando em maior nível de inovação e competitividade.
Por ter seus argumentos sobre Economia Criativa relacionados a realidades empresariais, Florida é o autor base para a identificação desse contexto nas organizações estudadas. Porém, apesar de ser forte referência na área de Economia Criativa, ele é alvo de críticas por partes de outros estudiosos. Os que dele discordam geralmente afirmam: seus resultados são demasiados quantitativos, sem a devida comprovação empírica, não retratando a realidade em todos os contextos; o autor retrata os gays como indivíduos que buscam se sobressair junto à sociedade, sendo essa uma supervalorização errônea (VIVANT, 2012); o índice de talento adotado expressa titulação e não habilidades inatas, de onde vem a origem do termo; o autor aponta locais com concentração de solteiros, gays, nerds e pessoas esquisitas como propícios para o crescimento, em vez de subúrbios ensolarados onde existam valores familiares tradicionais; de maneira geral, seus índices visam satisfazer indivíduos mais dotados do que outros em termos de capital econômico, social ou cultural.
Vivant (2012) também critica o ciclo citado por Florida anteriormente, afirmando que, em sua visão, não seriam artistas que atrairiam outros artistas para as suas localizações, e sim os baixos custos de vida de um ambiente no qual artistas se concentram, os quais atrairiam pessoas em busca de locais com essas características.
Em um artigo chamado “The great creative class debate: revenge of the
squelchers” (“O grande debate da classe criativa: a vingança dos pessimistas”), Florida (2004) responde às críticas sobre sua pesquisa, afirmando que seus índices são resultados de pesquisas sérias que envolvem dados com mais de uma década;
não existe uma oposição de condição favorável para as classes criativas e famílias tradicionais, pois tanto os trabalhadores criativos são atraídos pela diversidade quanto essas condições também atraem as famílias, cujos membros podem ser trabalhadores criativos ou não; muitas pessoas selecionam a localidade em que vão morar primeiro e depois escolhem trabalhos nessas locações; os dados e resultados encontrados em decorrência das pesquisas que envolvem homossexuais são consequência e não causa do crescimento econômico; não pode existir dicotomia em relação a lugares onde o crescimento ocorre, acontecendo tanto em lugares boêmios quanto em bairros familiares, pois as regiões mais bem-sucedidas abraçam todos os tipos de pessoas; seu livro não tenta tornar as cidades felizes e amigáveis, como seus críticos o enquadraram, e sua mensagem principal é a de que a criatividade humana é uma importante fonte de crescimento econômico.
Acredita-se que Florida obteve êxito em justificar algumas das críticas feitas à sua pesquisa. De fato, percebe-se algum anacronismo por parte dos críticos quando o acusam de degradar a família tradicional. Possivelmente, isso é fruto da resistência às novas tendências sociais e comportamentais, assim como ao tradicional e enraizado conservadorismo por boa parte da sociedade americana. Mesmo assim, pode-se entender que o autor, ao tentar demonstrar uma realidade tão “exata”, deveria ter comprovado seus índices em mais localidades antes de quantificar indicadores, como fez.
Por essa razão, nesta pesquisa, os indicadores sugeridos por Florida sofreram adaptações (ou especificações) de forma a melhor atender aos objetivos do trabalho. Para fins desta pesquisa, ambiente se refere a ambiente organizacional. Portanto, será buscada a presença de indivíduos talentosos, a evidência da tolerância, diversidade e estrutura tecnológica dentro das organizações estudadas. As adaptações dos itens a serem utilizados na pesquisa constam no quadro a seguir.
INDICADOR/AUTOR FLORIDA (2011) Concepção do estudo
Talento Escolarizados;
Pós-graduados. Existência talentosos; de músicos
Valorização do indivíduo.
Tecnologia Infraestrutura tecnológica adequada. Existência de equipamentos
sonoros e de informática de última geração;
Utilização das redes sociais; Utilização da internet de maneira geral.
Tolerância Gays;
Estrangeiros;
Diversidade em geral.
Indivíduos com distintas
orientações sexuais;
Indivíduos com distintas
crenças religiosas;
Indivíduos com distintas etnias; Músicos atuantes em outros ramos;
Existência de diversidade em geral.
Quadro 7: Indicadores de Florida x indicadores do estudo Fonte: Dados da pesquisa (2015).
Acredita-se que a releitura de tais indicadores pode contribuir de forma positiva para uma melhor interpretação do contexto a ser estudado.