• Sonuç bulunamadı

VIII. (lembrança)

Passou por dentro da Praça, fez uma beleza. com o rosto, e me viu.

Disse que tinha tino para piano; mas só tocava... ...borboletas...

Bichinho contráctil:

Às primeiras carícias no pêlo a valva cindia. Usava glicínias no pube.

Os olhos encardidos de sonhos. IX.

Agora estou sonhado de glicínias X.

Eis o aranquã – um pássaro sem indústria. O passado obscuro dele é um rio.

Sua voz tem um som vegetal. [...] XII.

Desceu um tédio de verbena em mim. [...] XIV.

Entrei na Vila do Livramento (Vila de Nossa Senhora do Livramento – ao completo) puxando uma égua aviciada.

No Largo do Tanque, onde existe ainda hoje uma Igreja Romana, a égua estancou. Aviciada.

O sacristão apareceu (puxava um cavalo). Aquela chapoleta do cavalo na égua por detrás adentro, eu vi de perto.

Meu olho crepusculou-se.

Uma aranha espirrou pessoalmente. Deu para apreender concepção sem ler o Pentateuco...

...XV.

Dentro do abandono de minha boca tem uma luxúria.

XVI.

Vi um incêndio de girassóis na alma de uma lesma.

XVII.

Afundo um pouco o rio com os meus sapatos Desperto um som de raízes com isso

A altura do som é quase azul. XVIII.

Uma palavra está nascendo Na boca de uma criança:

Mais atrasada do que um murmúrio. Não tem história nem letras –

Está entre coaxo e o arrulo.

(Barros, Concerto a céu aberto para solos de ave, Cadernos de apontamento, 1998, p. 17-21)

O bugre Cabeludinho conta sua descoberta da sexualidade e, igualmente, seus primeiros caminhos como poeta, cujos versos (canto) ainda são iniciais, não muito sonoros, assim como o som do aranquã. Mas, com o crescimento, enterrando o pé no pantanal, ele começa a nascer como poeta, como se balbuciasse as primeiras palavras.

3.8.1 Ethos/logos/pathos

No poema, há um ethos curioso e sensual que pulsa e se explica conforme a natureza. Para isso, Manoel de Barros vai delineando seu estado de alma dentro do movimento criação/vida através do sexo, vivenciando lembranças, até que surge o poeta que se inicia na poesia como criança que balbucia, só que criança pantaneira, ou

seja, emite as primeiras palavras como ser cuja relação tímica é perfeita. Para desenvolver as lembranças, recorre a um recurso argumentativo muito utilizado em sua obra, que é a sinestesia e a metáfora. Olhos, como metáfora, são um recipiente para emoções, conforme Lakoff & Johnson (1980). Para conseguir esses efeitos, às vezes, a ligação da palavra com o contexto de uso não é pelo sentido, mas pelo som. Assim, “cindia” e “glicínias” só têm sentido no uso que o autor lhes dá. O que marca a ruptura de lembranças é o aranquã que, segundo a cultura pantaneira, é um pássaro “delator”. Nada acontece sem que ele emita seu som, avisando a chegada de intrusos, assim como o apito das indústrias, avisando o começo ou término de turnos.

O espaço está em Livramento, lá, que, ao mesmo tempo, o autor coloca dentro, no fundo do rio. Os dois efeitos criados são: de objetividade, ligado à paisagem; subjetividade, ao transporte temporal provocado pela mudança espacial.

O tempo, no poema, seguindo a orientação de Benveniste (1995, p. 260-276) em seus estudos sobre o verbo na língua francesa, apresenta-se sob os dois planos da enunciação – o da história e o do discurso. Embora sabendo que o objeto de estudo central de estudo do autor não focasse o fenômeno poético, seu pensamento é perfeitamente válido para os nossos propósitos, pois, na obra de Manoel de Barros, acontece , no plano da história, o oaristo que é o tempo do acontecimento que está fora do narrador. No poema em estudo, há um ethos saudoso que explana sobre suas lembranças no pretérito-oaristo. Por serem lembranças, estão no narrador, contrariando o princípio de Benveniste. “O sacristão apareceu (puxava um cavalo) / Aquela chapoleta do cavalo na égua por detrás / adentro eu vi de perto. / Meu olho crepusculou-se”; enquanto que, no plano do discurso, ora está no presente, ora no pretérito: mais uma rebeldia. “Eis o aranquã – um pássaro sem indústria. / O passado obscuro dele é um rio. / Sua voz tem um som vegetal” (Barros, 1998, p. 17-21).

Cardoso (1987) faz um estudo sobre o ato amoroso nas considerações de Lou Andréas-Salomé, a qual delineia um estado de embriaguez e interação total e exuberante, tanto de espírito quanto do corpo. “[...] exaltação da alma através dos sentidos”. O ato amoroso levaria o homem de volta a si mesmo. Não é este o plano

colocado por Manoel de Barros, quando, em debreagem enunciativa, lembra-se de seu ancestral. O homem, no ato amoroso, é solidão, sente pulsar o corpo, é um movimento mais físico. Toda a abordagem que a literatura normalmente faz do ato sexual, como comunhão, troca, tocar o infinito ou momento de integração total com o outro não tem relação com a obra de Manoel de Barros. O sexo, na vida do pantaneiro, é força vital, no plano físico-natural. Nada de transcendência. O primeiro plano é o corpo que, a exemplo de toda a obra do autor, analogicamente, é parte da natureza. O autor recorre à figura poética da borboleta para designar o órgão feminino e passa pela figura da aranha – esta última, já há muito utilizada na literatura (fêmea-aranha devoradora de machos): “Bichinho contráctil” (Barros, 1998, p. 18). Tanto faz o sexo como ação humana ou do animal. As duas manifestações servem de aprendizado. “Aquela chapoleta do cavalo na égua adentro / por detrás eu vi de perto. / Uma aranha espirrou pessoalmente”. Faz o uso de um advérbio pessoalmente como um substantivo – uma pessoa, um ser. Por fim, nasce um novo ser que, antes de ser tornar homem, ainda é sapo, pássaro – estado primário: o nascimento do bugre- poeta.

XVIII.

Uma palavra está nascendo Na boca de uma criança:

Mais atrasada do que um murmúrio. Não tem história nem letras –

Benzer Belgeler