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A noção de que cada cidadão deve contribuir para as despesas da coletividade, em razão da sua capacidade econômica, data de tempos remotos, tendo em vista que há relatos de tal princípio entre os antigos egípcios. Mas, apesar de a expressão “capacidade contributiva” ter sido usada por diversas leis de matéria tributária da Idade Média e por algumas leis datadas dos primeiros séculos da Idade Moderna, convenciona-se que seu estudo como princípio, algo preciso e coerente, decorre do estudo das disciplinas econômicas, regidas pelas Ciências das Finanças.146

No Brasil, as Constituições do Império, de 1891, de 1934 e de 1937, foram todas omissas quanto a enunciados que tratassem da capacidade contributiva. Apenas em 1946 os brasileiros tiveram expressamente no texto constitucional que os tributos teriam caráter pessoal sempre que possível e deveriam ser graduados segundo a capacidade econômica dos contribuintes. Mas, com advento da Emenda Constitucional 18, de 01/12/1965, veio o

      

144 ADI 4.276, Rel. Min. Luiz Fux.

145 DÓRIA, Antônio Roberto Sampaio. Direito Constitucional Tributário e "Due Process Of Law".

2. ed. Rio de Janeiro: Forense, 1986, p. 136.

146 BECKER, Alfredo Augusto. Teoria Geral do Direito Tributário. 5. ed. São Paulo: Noeses,

retrocesso e a supressão do enunciado que tratava da capacidade contributiva, permanecendo a omissão tanto na Constituição de 1967 e emendas.147

É expresso no art. 145, § 1º da Constituição vigente que,

Sempre que possível, os impostos terão caráter pessoal e serão graduados segundo a capacidade econômica do contribuinte, facultado à administração tributária, especialmente para conferir efetividade a esses objetivos, identificar, respeitados os direitos individuais e nos termos da lei, o patrimônio, os rendimentos e as atividades econômicas do contribuinte.

Assim, percebe-se que a Constituição de 1988 prescreve o princípio da capacidade contributiva nas exações tributárias pátrias.

Considerando que a capacidade contributiva aqui estudada, apesar das menções às Ciências das Finanças e disciplinas econômicas, é um conceito a ser trabalhado no plano jurídico-positivo, objetivando-se afastar a ambiguidade que a expressão porta. Pois, como bem ensina Becker148:

Dizer que as despesas públicas devem ser partilhadas entre os contribuintes conforme as respectivas possiblidades de suportar o peso do tributo é incorrer numa tautologia: as palavras ‘capacidade contributiva’, sem alguma outra especificação, não constituem um conceito científico. Elas nem oferecem um metro para determinar a prestação do contribuinte e para adequá-la às prestações dos demais; nem dizem se existe e qual seja o limite dos tributos. Esta expressão, por si mesma, é recipiente vazio que pode ser preenchido pelos mais diversos conteúdos; trata-se de locução ambígua que se presta às mais variadas interpretações. A doutrina aponta dois tipos de capacidade contributiva: i) absoluta ou objetiva; ii) relativa ou subjetiva.

A capacidade contributiva absoluta ou objetiva revela-se quando se verifica um fato que se constitua em manifestação de riqueza, ou seja, coaduna-se com a atividade de eleição feita pelo legislador, ao colher eventos que denotem situações aptas para custeio das despesas públicas. Dessa       

147 COSTA, Regina Helena. Princípio da Capacidade Contributiva. 4. ed. São Paulo: Malheiros,

2012, p. 21-22.

148 BECKER, Alfredo Augusto. Teoria Geral do Direito Tributário. 5. ed. São Paulo: Noeses,

forma, a colheita de tais eventos aponta para a existência de um sujeito passivo em potencial.149

No tocante à capacidade contributiva relativa ou subjetiva, tem-se, como o próprio nome sugere, a individualização do sujeito, referindo-se à aptidão de contribuir na medida das condições econômicas pessoais. Logo, o sujeito potencialmente capaz de contribuir (absoluta ou objetiva) torna-se efetivamente passivo e absorvedor da carga tributária.150

Paulo de Barros Carvalho ensina, acertadamente, que,

Consoante ousamos supor, no Brasil, o sistema do direito positivo exibe, em todas as figuras tributárias conhecidas, a observância do princípio da capacidade contributiva absoluta, uma vez que os fatos escolhidos são aqueles que denotam signos de riqueza. Em outras palavras, por capacidade contributiva deve entender-se apenas a absoluta e, mesmo assim, como dado pré-jurídico. Realizar o princípio da capacidade contributiva quer significar, portanto, a opção a que se entrega o legislador, quando elege para o antecedente das normas tributárias fatos de conteúdo econômico que, por terem essa natureza, fazem pressupor que as pessoas que deles participam apresentem condições de colaborar com o Estado mediante parcelas de seu patrimônio.151

Não poderia ser de outra forma, já que o legislador enuncia signos presuntivos de riqueza, ou seja, manifestações objetivas de riqueza do contribuinte e não sua real situação, como bem exemplifica Renato Lopes Becho152:

Podemos demonstrar que a capacidade contributiva é objetiva com o exemplo do devedor proposital que, a despeito de demonstrar vasta fortuna, é um endividado.

Se assim não fosse, poderíamos até criar uma situação extrema de um sujeito que afirmasse não ter capacidade contributiva, para honrar seus tributos sobre o patrimônio, apresentando a situação de devedor contumaz, possuidor de automóvel importado, de valor bastante elevado, porém pagando-o a duras prestações. Morador de mansão luxuosa,       

149 COSTA, Regina Helena. Princípio da Capacidade Contributiva. 4. ed. São Paulo: Malheiros,

2012, p. 28.

150 Ibid., loc. cit.

151 CARVALHO, Paulo de Barro. Direito Tributário: Linguagem e Método. São Paulo: Noeses,

2011, p. 335.

152 BECHO, Renato Lopes. Lições de Direito Tributário: teoria geral e constitucional. 2. ed. São

mas financiada. Seria fácil deixar de pagar certos tributos, à única atenção de se envolver em elevadas dívidas para adquirir portentoso patrimônio. Mesmo do Imposto sobre a Renda não se deve safar, pois que este tributa a renda, não a equação positiva entre débitos e créditos.

Se a capacidade contributiva fosse subjetiva, ele não recolheria impostos.

A jurisprudência do Supremo Tribunal Federal reconhece a necessidade de se respeitar a capacidade contributiva dos contribuintes asseverando que:

AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO EXTRAORDINÁRIO. TRIBUTÁRIO. ITR. PROGRESSIVIDADE DE ALÍQUOTAS EM PERÍODO ANTERIOR À EC 42/2003. LEI 8.847/1994. INEXISTÊNCIA DE CONTRARIEDADE À REDAÇÃO ORIGINAL DO 153, § 4º, DA CF. ART. 145, § 1º, DA CF. NECESSIDADE DE TODOS OS IMPOSTOS GUARDAREM RELAÇÃO COM A CAPACIDADE CONTRIBUTIVA DO SUJEITO PASSIVO, INDEPENDENTEMENTE DE POSSUIREM CARÁTER REAL OU PESSOAL. IMPOSTOS DIRETOS. UTILIZAÇÃO DE ALÍQUTOAS PROGRESSIVAS. CONSTITUCIONALIDADE. AGRAVO REGIMENTAL A QUE SE NEGA PROVIMENTO.

I – Nos termos do art. 145, § 1º, da CF, todos os impostos, independentemente de seu caráter real ou pessoal, devem guardar relação com a capacidade contributiva do sujeito passivo e, tratando- se de impostos diretos, será legítima a adoção de alíquotas progressivas.

II – Constitucionalidade da previsão de sistema progressivo de alíquotas para o imposto sobre a propriedade territorial rural mesmo antes da EC 42/2003.

III – Agravo regimental a que se nega provimento.153

Nesse passo, falar em alíquotas progressivas e capacidade contributiva nada mais é do que afirmar a objetividade dos signos presuntivos de riqueza. Em outras palavras, se os impostos deverão ser graduados segundo a capacidade econômica do contribuinte (art. 145, § 1º da CR), aqueles que apresentem maiores manifestações de riqueza, independentemente de ser ou não sua real situação (como bem pontuou Becho), deverão contribuir com alíquota maior, ou seja, compatível com sua       

capacidade de desfazer-se do próprio patrimônio sem prejuízo às necessidades vitais e de sustento de si e dependentes.

Benzer Belgeler