3. MATERYAL VE YÖNTEM
3.2. Uygulama Safhaları
3.2.3. Analiz
Pensar a educação que transforme o ser humano da condição de espécie para a de gênero humano implica a adoção de uma teoria psicológica da aprendizagem e do desenvolvimento humano (BARROCO, 2007). A formação inicial e continuada de professores requer uma abordagem teórica que reflita sobre a constituição da natureza do ser humano, leve em conta a historicidade dessa constituição e dê conta de explicar e fundamentar o trabalho criativo do/a professor/a, contribuindo para o processo de constituição da personalidade humana consciente das novas gerações. Segundo Teixeira e Mello (2016) a teoria histórico-cultural, elaborada por Vigotski, é uma teoria capaz de orientar a prática docente numa perspectiva de promoção do desenvolvimento humano.
O processo de constituição da personalidade humana consciente, em que o ser humano deixa de ser um produto da natureza para tornar-se um produto da cultura e das suas relações sociais, no que diz respeito a evolução da humanidade no seu sentido mais amplo – a filogênese - mostra-nos que as qualidades propriamente humanas provêm da vida em sociedade. Já no seu sentido restrito, o conceito de humanização refere-se ao modo específico como cada pessoa constitui a sua personalidade humana, ou seja, a ontogênese – a constituição da personalidade humana consciente de cada indivíduo desde que ele nasce. Esse sentido mais significativo em termos educativos é o que norteará o estudo sobre a formação continuada de professores para atuação pedagógica inclusiva.
Vigotski (1931/2000) com base em Marx, afirma que o ser humano difere dos outros animais, porque por meio das ferramentas que cria e emprega consegue não somente compensar a sua fragilidade diante dos outros animais, como ampliar sua atividade ilimitadamente. As ferramentas e instrumentos criados e empregados pelos seres humanos, na sua luta pela vida, transformam profundamente a natureza e promovem o desenvolvimento das mãos e do cérebro, permitindo-lhe formas de condutas sistematizadas e registradas na história dos seres humanos. Essas formas de condutas sistematizadas são repassadas nas mediações que os sujeitos vivem e realizam produzindo cultura e sendo produzidos por ela.
Seguindo este enfoque, Leontiev (1978) afirma que o ser humano se desenvolve em um processo que é histórico e cultural, tornando-se humano, no sentido genérico, a partir das relações estabelecidas no trabalho. É pela objetivação e internalização das ferramentas e
instrumentos simbólicos criados culturalmente que o ser humano se relaciona com o mundo, apreendendo-o e intervindo sobre ele. Sendo assim, a cultura, ao mesmo tempo em que é condição para o ser humano humanizar-se é, também, o resultado dessa humanização. A cultura é uma produção humana, entretanto, o ser humano só se humaniza imerso na cultura.
Pino (2005), baseado no estudo das obras de Vigotski, define o conceito de cultura como [...] todas as produções humanas, ou seja, aquelas que reúnem características que lhe conferem o sentido do humano, são produções culturais e se caracterizam por serem construídas por dois componentes: um material e outro simbólico, um dado pela natureza e outro agregado pelo homem (p. 91).
Ao nascer a criança possui apenas o aparato biológico que a manterá viva graças a sua herança genética. Esse aparato biológico, por si só, no entanto, não é suficiente para a sobrevivência da espécie humana. As aptidões e as características tipicamente humanas não são transmitidas por hereditariedade biológica, mas são formadas ao longo da vida por meio da internalização da cultura criada pelas gerações precedentes. A partir do nascimento, o bebê é colocado sob os cuidados do “outro” que o inserirá, por meio do convívio e da interação, em seu meio social. Inserido em um meio social humano, o bebê tem todas as potencialidades para se desenvolver e transpor-se de seu estado de natureza para o estado humano ou cultural.
Cada geração começa, portanto, a sua vida num mundo de objetos e de fenómenos criados pelas gerações precedentes. Ela apropria-se das riquezas deste mundo participando no trabalho, na produção e nas diversas formas de atividade humanas que se cristalizaram, encarnaram nesse mundo [...]. De facto, o mesmo pensamento e o saber de uma geração formam-se a partir da apropriação dos resultados da atividade cognitiva das gerações precedentes (LEONTIEV, 1978, p. 265 -266).
O ser humano é um ser social, que se constitui nas relações sociais que se concretizam nas práticas sociais. Segundo Pino (2005), as relações sociais são um sistema complexo de posições e papéis sociais, as quais definem como os atores sociais se situam uns em relação aos outros dentro de uma determinada formação social e quais as condutas que se esperam deles em razão desta posição. Podemos citar como exemplo a relação social entre pais e filhos, na qual cada um tem a sua função dentro de um grupo cultural, definidos pela posição que ocupam em relação ao outro.
As relações sociais se concretizam nas práticas sociais, na forma como um grupo social entende que deva ser as relações entre as pessoas. As funções mentais superiores, definidoras da personalidade humana consciente se constituem no sujeito à medida em que ele participa das práticas sociais de seu grupo cultural. Voltando ao exemplo dado, dentro das práticas sociais o pai exerce uma função determinada culturalmente, que está relacionada dialeticamente à função
exercida pelo filho. O produto das práticas sociais é convertido, mais tarde, em funções psíquicas e passam a regular internamente a conduta da pessoa.
As relações sociais internalizadas formam as funções psíquicas superiores, que em uma síntese superior constituem a estrutura social da personalidade humana consciente da pessoa.
A criança nos primórdios de seu desenvolvimento vale-se das funções naturais, ou seja, do seu aparato biológico e instintivo para estabelecer uma sociabilidade com os adultos ao seu redor, vital para a sua sobrevivência e satisfação de suas necessidades básicas de modo direto, sem grandes transformações em seu mundo. As funções naturais “se apoiam em sistemas relacionais percepto-sensoriais simples, diretos, visando o bem-estar biológico. A existência de tais funções está marcada nas estruturas genéticas da espécie e seu desenvolvimento é entendido como biogênese” (BARROCO, 2007, p. 247, grifo da autora).
À medida em que a criança se desenvolve, envolta em um meio histórico-cultural, vai adquirindo formas, de início rudimentar, de expressão e comunicação. A princípio, a criança relaciona-se com o mundo de vivências criado pelo adulto. O adulto é o centro de qualquer situação no primeiro ano de vida da criança. Porém, a partir do sexto mês de vida a criança sente uma necessidade específica de comunicar-se caracterizada pela busca ativa de contato, não somente com os adultos, mas também com as crianças de sua idade. Essa busca é manifestada por meio de balbucio, do sorriso, de estender os braços para que lhe ponham no colo e pelo choro quando se afastam dela. (VIGOTSKI, 1933/1996).
A imitação, que se inicia por volta dos dois anos, representa um salto na aquisição das funções psíquicas superiores, pois possui a qualidade de imitação humana, na qual a criança representa situações do seu convívio com os adultos do seu meio social. Segundo Barroco (2007) “é a partir daí e pelo processo inicial de imitação, sob todas as suas formas, que o broto da humanização emerge” (p. 250). Para Vigotski (1931/2000), a imitação configura-se como um processo complexo de desenvolvimento e uma das vias fundamentais no desenvolvimento da criança.
Barroco (2007) diz que “o homem cultural é aquele que, vivendo com outros homens, apropria-se e cria formas mediatas de estar no mundo, de apreendê-lo, de transformá-lo” (p. 245). Para tanto, utiliza-se de um sistema de signos, que possibilitará a formação do psiquismo propriamente humano, que passará a regular suas ações e permitirá a sua vivência junto aos demais seres humanos. Dessa forma, o ser humano domina cada vez mais novas formas de refletir a realidade por meio da experiência abstrata racional, transpondo o limite das experiências imediatas, o que caracteriza a singularidade fundamental da sua personalidade consciente.