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(G1-P2-M) Eu passo de ônibus assim

eu fico olhando assim lá dentro.

(G1-P1-M) (…) Achei meio assim parecendo um hospital rapaz (Todos) Risos. Eu tenho um medo de hospital e cês nem sabem como.

Figura 1 – Palácio das Artes

Fonte: Acervo Fundação Clóvis Salgado

Quem nunca foi quando era criança ao museu, ao teatro ou a alguma atividade denominada excursão promovida pela escola? Na memória dos jovens há relatos da ida a estes equipamentos quando eram estudantes do ensino fundamental. Talvez nos dias atuais este tipo de atividade seja até mais frequente que em outros tempos em função dos projetos de escola em tempo Integral.

O Palácio das Artes (FIGURA 1) é o maior Centro Cultural de Minas Gerais. Ele é mantido pela Fundação Clóvis Salgado, autarquia do Governo do Estado de Minas Gerais, ligado a Secretaria Estadual de Cultura. Está localizado no centro de Belo Horizonte, dentro do Parque Municipal. Teve suas obras iniciadas em

1942, pelo então Prefeito de Belo Horizonte, Juscelino Kubitschek, e terminadas pelo Governador Israel Pinheiro, em 1971.

Segundo informações oficiais53, ele é um dos raros equipamentos do Brasil e da América Latina que reúne em um único lugar diversos equipamentos culturais: O Grande Teatro, o Teatro João Ceschiatti, a Sala Juvenal Dias, o Cine Humberto Mauro e Galerias de Arte (Grande Galeria Alberto da Veiga Guignard, Galeria Genesco Murta, Galeria Arlinda Corrêa Lima e Espaço Mari'Stella Tristão). Conta ainda com biblioteca, midiateca, um centro de Formação Artística – CEFAR, que oferece cursos de dança, teatro, música além de manter uma Orquestra Sinfônica, um Coral Lírico e uma Cia de Dança.

Por ser um espaço de criação, produção e difusão junto ao público e ter a estrutura apresentada, ele mantém uma intensa programação durante todo o ano, a maioria gratuita ou a preços populares. Por isso ele salta aos olhos e talvez seja o equipamento mais conhecido da cidade. Assim o escolhemos para ilustrar a situação dos equipamentos centrais da cidade e por ter sido bastante comentado durante a conversa sobre os equipamentos centrais.

No Grupo Focal foi possível identificar que os jovens sabem onde se localizam os equipamentos culturais da cidade, mas que raramente entram em seu espaço. O Palácio das Artes apareceu nas memórias dos participantes quando eram crianças, estudantes do ensino fundamental. Um lugar tão distante na memória, que alguns chegaram a esquecer de que já tinham visitado conforme interação a seguir do Grupo 1:

(G1-P2-M) Nunca fui no Palácio das Artes (G1-P4-F) Eu também nunca fui

(G1-P2-M) Sempre passei lá e nunca fui (G1-P4-F) Eu também nunca fui

(Entrevistador/Mediador 1) Isto é lá dentro! (G1-P4-F) Dentro do Palácio? (Entrevistador/Mediador 1) Dentro do Palácio das Artes! (G1-P2-M) Tem

que ir então muitas vezes. Nunca fui véi! Sério! (G1-P1-M) O véi eu fui uma vez quando eu tinha oito anos de idade. (G1-P2-M) Não, eu acho que já fui quando eu era do Augusta Medeiros. Sério mesmo!

(Entrevistador/Mediador 1) A escola te levou lá? (G1-P2-M) É. Mas eu não

lembro nem como é que era lá. (Entrevistador/Mediador 1) Depois disto nunca mais? (G1-P2-M) Nunca! Eu passo de ônibus assim eu fico olhando assim lá dentro. Nunca fui lá!! G1-P7-M - Eu acho que fui numa peça do Rei Leão (G1-P1-M) Risos (G1-P2-M) Eu fui vê sabe qual que era? O mágico

53 Dados disponíveis no sítio http://www.fcs.mg.gov.br/conteudo/12,,palacio-das-artes.aspx Acesso em 29 Março 2013.

de OZ!! Nosso oh (estalando os dedos) Sério! Tirei até aquelas fotos assim (rindo) oh! Cê lembra? De lembrança Augusta Medeiros (Escola).

A ida de crianças aos equipamentos do “tipo cultural” é bastante frequente. O fato é que este trabalho não teve continuidade em outras fases da vida. A ida dos jovens aos equipamentos de lazer na infância e na vida escolar não foram suficientes para educá-los e encorajá-los a voltarem na juventude. Um jovem relatou ir ao Palácio ver teatro em concertos, mas que o dinheiro para ir com frequência é um limitador.

Lendo alguns editais e leis de incentivo a cultura é possível identificar que existe preocupação pelos formuladores das políticas culturais em formar público e, seguramente, o jovem seria o seguimento preferencial por estar na fase de explorar as novidades. Assim concordamos com Peralva (1997), ao afirmar que “enquanto o adulto vive ainda sob o impacto de um modelo de sociedade que se decompõe, o jovem vive em um mundo radicalmente novo” (PERALVA, 1997, p.23).

O Palácio das Artes é um dos vários equipamentos culturais do centro da cidade que não é frequentado pelos jovens. Na Conversa coletiva, além do Palácio, destacamos para estimular a conversa o Centro de Cultura de Belo Horizonte, o Centro Cultural da UFMG e o Museu de Artes e Ofícios. Este último é lembrado por suas fontes de água, uma jovem afirmou ter brincado nelas.

Como se não bastasse a centralização dos equipamentos que se deram em função da concepção da capital (SILVA e COUTO, 2013), assistimos nos últimos tempos a implementação de novos equipamentos culturais na região central da cidade, o que dá continuidade à lógica centralizadora. A Praça da Liberdade - antiga cidade do Poder (BUERE, 1997 p. 70), onde se localizava as Secretarias do Governo do Estado, foi toda transferida para a Região Norte da Cidade, com a construção da Cidade Administrativa Tancredo Neves.

Os antigos prédios da Administração Estadual deram lugar a dez novos equipamentos culturais do recém-criado Circuito Cultural Praça da Liberdade, que é divulgado por órgãos oficiais como o maior complexo cultural do Brasil54. São eles: Centro de Arte Popular Cemig, Espaço TIM UFMG do Conhecimento, Memorial

54

Minas Gerais Vale, Museu das Minas e do Metal, Palácio da Liberdade, Casa Fiat de Cultura, Centro Cultural Banco do Brasil, Centro de Referência da Economia Criativa Sebrae-MG, o Inhotim Escola e o Museu do Automóvel.

Completa o circuito o já existente Arquivo Público Mineiro, Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa, Museu Mineiro e Palácio da Liberdade. Segundo Guimarães (2013), estes novos espaços foram projetados para serem ocupados de forma dinâmica, mas estão muito aquém do planejado e atualmente estão subutilizados. São equipamentos que seguem a lógica global de criação de equipamentos culturais para atender principalmente turistas.

O ar de santuário e de sacralização dos equipamentos (MARCELLINO, 2008), também pode ser um fator que intimida a aproximação. Nas visitas que marcávamos com os jovens dos projetos sociais da Prefeitura era comum eles aguardarem do lado de fora até a chegada dos educadores para entrarem nos equipamentos.

O ar de sacralização dos equipamentos culturais está presente na maioria dos equipamentos culturais do centro da cidade. Segundo Julião (1992), a cidade, de inspiração europeia, nasceu sob o signo das luzes e da racionalidade científica. Assim, também foi importado o estilo arquitetônico vigente da época, o neoclássico, que está presente em quase todos os equipamentos do Circuito Cultural da Praça da Liberdade, por exemplo.

Embora não seja neoclássico o Palácio das Artes, projetado pelo Arquiteto modernista Oscar Niemayer, também remete ao ar de santuário, ou um ar de fobia, um dos jovens sem conseguir defini-lo o comparou a um hospital e afirmou ter medo de hospital, mas ficou interessado em conhecê-lo:

(Entrevistadora/Mediadora 2) Que mais deste lugares aí que vocês

frequentam ou não frequentam cês frequentam todos? (G1-P1-M) O único que eu quero, que vou frequentar é aí. Tenho que ir neste negócio aí. (G1-

P2-M) É! Eu também! (Entrevistador/Mediador 1) Palácio das Artes! (G1- P1-M) Achei até interessante. Porque eu não tava muito afim não. Achei

meio assim parecendo um hospital rapaz (Todos) Risos (G1-P1-M) Eu tenho um medo de hospital e cês nem sabem como. Mas é o seguinte eu vou ter que ir neste negócio.

Os equipamentos centrais, quando são utilizados pelos jovens, o são quando há divulgação em massa de algum evento. Por exemplo, ir ao Teatro foi

lembrado por um dos jovens como uma coisa boa para ir quando tem a Campanha de Popularização do Teatro e da Dança no início do ano.

Talvez seja o momento de pensar em uma política de formação cultural que leve os jovens do ensino médio aos equipamentos culturais, não somente para que estes conheçam o espaço, mas para que abram novas possibilidades de vivência de lazer e de formação humana.

Benzer Belgeler