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3. MATERYAL VE YÖNTEM

3.3. Yapay Sinir Ağları

3.3.3. Yapay hücre modeli

Defender os interesses da mulher é a idéia com que se apresenta a redacção do Jornal “Echo das Damas” na grande imprensa.

A nossa folha advoga uma causa santa que deve de merecer a consideração de todos aquelles que se interessão pelo progresso moral deste paiz.201

O periódico surge em 18 de abril de 1879, no Rio de Janeiro. Em seu primeiro número, a “folha” traz o seguinte subtítulo: “Órgão dedicado aos interesses da mulher: crítico, recreativo, scientífico, litterário e noticioso”, de propriedade de Amélia Carolina da Silva Couto & Comp. Logo no primeiro número aparece, na página inicial, informações relevantes: endereço do escritório, que ficava à Rua da Ajuda, nº 75; preço da assinatura anual, que correspondia ao valor de 6$000 e semestral a 4$000; e, em destaque, o aviso segundo o qual “os anúncios das senhoras assinantes seriam incluídos gratuitamente”.

Carolina Couto, no “Editorial”, explica que o objetivo da publicação é defender os interesses da mulher. Para concretizar sua intenção, espera:

o auxílio e empenho efetivo de todas as mulheres porque aquela iniciativa abre-lhes as portas de um futuro mais brilhante, destruindo os preconceitos que afastavam o sexo fraco dos labores da ciência e de outra missão mais útil perante a humanidade. 202

Com o intuito de provar que a mulher instruída poderia prestar importante serviço ao “mundo ilustrado”, a articulista cita o exemplo das americanas que já eram recebidas nas academias. Reivindica para as mulheres o desempenho das funções de professora e médica, alegando que elas estariam capacitadas, na prática, para exercerem tais profissões, visto que cuidam com muito mais dedicação, dos doentes sob suas responsabilidades e ensinam as primeiras letras aos filhos com extremado carinho, mesmo que com pouca instrução.

A autora do editorial denuncia que as mulheres vivem num “círculo de ferro”, quando muito, elas recebem pequenas noções de língua materna, tornando-se, assim, um autômato que se move à vontade do homem. Por sua vez, as mulheres reproduzem a mesma carência na educação das filhas, que crescem entre a vaidade da formosura e o perigo da ignorância. Conforme Carolina Couto, a mulher estudiosa — laureada por uma universidade — está mais no caso de receber a confiança e atenção da sociedade e, principalmente, das senhoras do que

201 COUTO, Carolina. Editorial. Echo das Damas, Rio de Janeiro, anno I, 18 abr. 1879, p. 01. Os números citados aqui foram digitalizados pelo CEDAP/UNESP ASSIS (SP) e pela Biblioteca de Rio Grande (RS). 202 Id. Ibid., p. 01.

qualquer homem nas mesmas condições.

Ao final do editorial, Carolina Couto acalma os possíveis leitores, preocupados com as iniciativas femininas, ao justificar que não pretende encher a mente das mulheres com ”loucas fantasias”, nem deseja “povoar-lhes o espírito de perniciosas aspirações aos triunfos da política”. A editora explicita o tipo de mulher educada, para quem ela advoga em causa: “ilustrada sob o ponto de vista humanitário e nunca debaixo da pressão e dos erros dos partidos militantes”.

Em seu primeiro número, o jornal inicia a publicação do texto: “A mulher na família e a mulher na sociedade”,203 de Maria Amália Vaz de Carvalho. Por meio desse texto,204 a autora questiona os motivos sociais, que resultaram na imposição às mulheres (referindo-se, especialmente, às portuguesas) da obrigação de se apresentarem com figurino e penteado irretocáveis. Ou seja, segundo Amália de Carvalho, as mulheres utilizavam todos “os recursos da imaginação” para agradarem aos maridos e à sociedade, ao ponto de serem “submissas escravas” para representarem à altura seu papel “no palco”.

O Echo das Damas publicava notícias sobre mulheres famosas, as que galgaram espaços de excelência no mundo público e as que protagonizaram fatos históricos, ocorridos em outros países. O repertório, assim conduzido, funcionava como tática de convencimento das habilidades e aptidões intelectuais e profissionais das mulheres. Em agosto de 1880, mesmo ano em que foi suspensa a circulação do jornal, Maria Amália publica o texto “As mulheres do século XVIII na França”.205 A autora portuguesa enfatiza a participação das mulheres no país de Voltaire e Rousseau, constatando:

os que têm folheado as crônicas e as memórias do século XVIII, conhecem a influência profunda que durante ele as mulheres exerceram sobre as letras, e as salas exerceram sobre as academias.

Maria Amália cita Mme. Geoffrin, madame du Chatelêt, Mlle. de Lespinasse, Mme. du Tencin, Mme. du Deffaud, Mme. d’Epinay, Mme. de Grafigny, Mme. de la Tour Franqueville, Mme. de Staël Delaunay, como representantes importantes de uma geração de mulheres francesas, pois, conforme a autora, “a nova geração” fazia questão de apagar seus

203 CARVALHO, Maria Amália Vaz. A mulher na familia e a mulher na sociedade. Echo das Damas, Rio de Janeiro, 18 abr. 1879, p. 01. Texto também publicado no Almanach das Senhoras para 1880 em forma de artigo.

204 Não foi possível acompanhar a trajetória do folhetim, pois só tive acesso a alguns números do jornal.

205 CARVALHO, Maria Amália Vaz. As mulheres do século XVIII na França. Echo das Damas, Rio de Janeiro, 03 ago. 1880, p. 01 e 02. Aqui utilizo a versão do texto publicada no Almanach das Senhoras para 1872, já que o exemplar existente na BN está em péssimo estado para leitura. Cf. Almanach das Senhoras para o ano de 1872, Lisboa, p. 148-152, 1871.

nomes. Assim, declara:

Simpatizo com essas mulheres que a literatura nos apresenta muitas vezes sob um aspecto revoltante, sem se lembrar do entusiasmo apaixonado com que elas a levantaram à altura de uma instituição sagrada. [...] São elas que sonham na liberdade como num mito esplêndido, e que morrem depois na guilhotina animosas e altivas...

O jornal reapareceu em 1885, com mais força do que antes, defendendo a igualdade da mulher e seu direito à educação. Em 1886, apesar de aceitar com mais simpatia o voto feminino, sua editora, conforme Hahner, declarava que era muito cedo para as mulheres votarem em “eleições de caráter político” e aconselhava que estudassem “assuntos públicos”.206

No ano de 1887, o nome de Carolina Couto aparece em destaque como redatora. A assinatura anual estava custando 10$000 (dez mil réis) para a Corte e 12$000 (doze mil réis) para as Províncias. O jornal apresenta uma lista de colaboradoras: Emiliana de Morais, Anália Franco, Maria Zalina Rolim, Ignez Sabino, Marie Vincent, Atília Bastos, Adélia Barros, Mathilde Macedo e Emília Cortez.

Discussões filosóficas também faziam parte dos temas debatidos nas páginas do jornal. Nesse ano, Ignez Sabino publica o texto “Sobre Shopenhauer” na coluna “Ligeiros Estudos”. A baiana faz a trajetória biográfica do filósofo, de família tradicional cujo pai era um rico negociante e a mãe uma romancista renomada. Leitor assíduo de Kant e Platão, Shopenhauer torna-se um apaixonado pelas ciências, letras e filosofia, o que o leva a freqüentar as universidades de Goettingue e de Berlim. Sabino afirma que o filósofo era um homem sombrio desde a juventude e inimigo dos prazeres:

Celibatário por convicção, a sua vida era monótona e tão automática e pautada, que já velho, pela manhã preparava por si mesmo seu café, em seguida, escrevia algum pensamento que as brisas matutinas lhe trouxessem, tocava um pouco de flauta, completava o vestuário e saia. [...]

À tarde, jantava no hotel, dormia a sesta, passeava, lia o Times, depois alguns velhos autores, seus prediletos, ia ao teatro, ceiava, e dormia o sono bom daqueles que têm pura a consciência, e que são isentos de cuidados.207

Sobre o seu livro mais festejado, afirma:

206 HAHNER, 1981, p. 81.

207 SABINO, Ignez. Sobre Schopenhauer. Echo das Damas, Rio de Janeiro, 22 set. 1887, p. 01. O texto continua, conforme aviso inscrito ao final, mas só consegui o exemplar onde consta essa primeira. Exemplar digitalizado da Biblioteca de Rio Grande (RS).

Aos vinte anos, lançou ao público a sua primeira obra ‘O mundo como representação’. Esse esplêndido livro repleto de ascetismo, onde o filósofo expandiu as suas doutrinas, e, que, sendo até então um autor desconhecido, esse livro onde tinha gasto tantas noites de insônia, deu-lhe um nome brilhante, elevando a fama do seu autor por toda a Europa, que saudou com frenesi o talento do alemão.208

Comenta também sobre o encontro do filósofo alemão com Lord Byron, em Veneza, e afirma que ambos tinham uma “afinidade de caracteres”. Depois das aventuras vividas pelos dois na cidade italiana, Schopenhauer, segundo Sabino, escreve “Pensamentos e Fragmentos”, “Ensaios sobre a mulher” e “Metafísica do amor”.

Comenta sobre a morte de Schopenhauer, em 1860, e sobre sua solidariedade ao deixar em testamento toda sua fortuna para a caixa de socorros de Berlim, em favor dos soldados feridos na revolução de 1848, de suas viúvas e seus órfãos. Mas, ao final do texto, revela, de forma perspicaz e crítica, as suas impressões de leitura sobre a obra do filósofo:

Confesso à leitora que a primeira vez que li um livro do hoje meu autor favorito, sacudi raivosa o volume no chão, jurando a mim mesma não continuar a lê-lo, e, sabe por quê?

Porque à mulher ele lançava mil injúrias, atribuindo-lhe a leveza do pensamento, a mentira, a fraude, o orgulho, o pedantismo, o rancor, e sei mais?... tantos defeitos que eu ferida no meu amor próprio, votei-lhe momentaneamente um ódio profundo.209

Em 1888,210 na primeira página, a redação do jornal informa na seção “Expediente” que passará também a ser editado em Nova York, sob os cuidados dos Srs. Drumont & C., bem como publica na seção “Álbum de Ouro”, 48 nomes de homens e duas mulheres, respectivamente, d. Eurydice B. de Oliveira e Mme. Lagarto, pessoas que contribuem para a publicação do periódico. Na edição de 28 de março desse mesmo ano, informa que a escritora e colaboradora do jornal Anália Franco presenteou a redação com 50 exemplares de “O chefe dos Ananbés”, drama de sua autoria, para que o dinheiro da venda pudesse ser revertido em benefício do jornal.

A publicação de folhetins fazia parte da política dos jornais. Ignez Sabino colabora com a crônica “Dia de Anno Bom”.211 A narração é iniciada tendo como ambiente a cidade de Recife, na noite de ano-novo. A autora descreve o luar da cidade pernambucana em meio ao

208 SABINO, 1987, 22 set. 1887, p. 01. 209 Id. Ibid., p. 01.

210 Echo das Damas, Rio de Janeiro, anno III, p. 01, 31 jan. 1888.

211 É um folhetim publicado em 1888. Tenho apenas cópia digitalizada dos dias 31 de janeiro, 04 e 28 de março, e 27 de maio.

toque dos sinos, do show pirotécnico que acontece no céu, e do encontro dos grupos nos cafés e nas ruas, para comemorar o instante em que o relógio marca meia-noite. Contrastando com o momento de confraternização, quando se exercem, ainda que de forma efêmera, os sentimentos de amizade, alegria e felicitações entusiasmadas, a cronista desloca o ambiente e transporta o leitor para o bairro pobre de São José, colocando-no na cena das comemorações:

O povo, ávido de distrações tradicionais, percorre pelas estradas, em bandos, ao som do violão com que acompanha modinhas graciosas, indo-se refrescar nas águas do Biberibe, não sentindo o estirado caminho, que é arenoso, mas cuja estrada é formosa, e orlada de mato.212

Ignez Sabino estende a narrativa, contando em detalhes a quietude das ruas, devido à corrida das pessoas para o campo no feriado do dia seguinte. A autora relata a ausência de transeuntes nas principais ruas da “Veneza brasileira”, principalmente de trabalhadores no corre-corre diário; uma ou outra moça no parapeito da janela a espreitar a rua; os apitos dos trens de ferro e dos bondes. Nesse momento, pára a história e faz um convite à sua leitora:

Eu, com o direito que me dá a pena, e com o poderio da imaginação, convido a minha leitora a ir comigo a uma meia légua de distância da cidade e pararmos em frente a uma residência campestre.

Transportemos o portão verde, que orna um muro pintado de roxo terra, e, ou penetremos num jardim bem plantado, onde o jardineiro vestido com roupa vistosa, colhe flores em abundância. 213

A partir desse estímulo, passa a descrever toda a propriedade a fim de que a leitora se sinta familiarizada e possa desfrutar, numa catarse, o ambiente natural. Depois, passa ao interior da casa e, mais uma vez, convoca suas acompanhantes para segui-la nessa aventura:

Curiosas, como devemos sê-lo, não desmentindo o sexo, ágeis, espreitemos por uma greta da porta, lançando um demorado olhar sobre uma salinha contígua ao salão de visitas, e, como pessoas de bom gosto, apreciemos as cadeiras de charão, a conversadeira que está no centro, os quadros de fantasias, uma estátua de mármore, cinzelada com gosto de mestre, o cavalete com uma tela, flores, ainda plantas, tapetes, cortinados, e numa estante dourada, livros encadernados belamente, mas ainda se revestindo do gosto que mencionamos.

Lê-se nas costas de alguns: Shakespeare, Milton, Moore, May, Robinson Cruzoe e outros.214

A narradora anuncia a classe social a que pertencem os moradores: “Por toda parte

212 SABINO, Ignez. O dia de ano bom. Echo das Damas, Rio de Janeiro, anno III, 31 jan.; 04 mar.,; 28 mar. ; 27 maio 1888, p. 01.

213 Id. Ibid., 31 jan.; 04 mar.,; 28 mar. ; 27 maio 1888, p. 01. 214 Id. Ibid., 31 jan.; 04 mar.,; 28 mar. ; 27 maio 1888, p. 01.

admira-se o bom gosto, o luxo, a arte, notando-se nos pesados reposteiros da sala grande as iniciais: W.R.”.215 Mais adiante, a leitora inteira-se de que ali mora um casal inglês com três filhos.

É impossível acompanhar o desenrolar da história porque não tive acesso ao próximo número do jornal, somente consegui consultar o exemplar do dia 04 de março. Aqui a narrativa é retomada e aparece uma cena diferente em todos os aspectos daquela antes exposta. Nela, negros e mulatos comemoravam as festividades de ano novo com batuques, cantos, desafios e samba de roda. A inglesa estava observando, de longe a cena, mas nesse instante se afasta. Sobre essa atitude da personagem, a narradora comenta:

Se tivesse prestado mais atenção e com interesse continuasse a presenciar uma cena popularmente nossa, ouviria mais este verso com que terminamos a primeira parte da dança tresloucada e quase imoral com que se diverte a gente miúda da nossa sociedade.216 Após esse comentário, a narradora pede licença às leitoras para fazer uma digressão.217

Em 1888, Carolina Couto manifesta que a harmonia familiar pode ser traduzida pela boa ordem na casa. Assim, reforça a importância dos deveres domésticos, a dedicação ao marido e aos filhos. A autora enfatiza a idéia da função da dona de casa, de acordo com a qual a mulher é a responsável pelo bom ou mau andamento das tarefas do mundo privado:

A dona de casa – o seu principal cuidado é se esforçar em tornar o lar doméstico pacífico e agradável a todas as pessoas que compõem a sua família. […] O esquecimento desses deveres pode trazer inúmeras conseqüências desagradáveis e funestas para a moralidade e para o bem-estar das famílias.218

O ponto culminante da felicidade conjugal será a valorização da maternidade, ligada ao ideal de renúncia e de sacrifício. Esse tema é explorado e reafirmado no cotidiano pelo periódico, como podemos perceber na seguinte afirmação:

A arte de ser esposa e de ser mãe funda-se num segredo muito simples. Não se trata de sermos felizes às custas dos que são nossos, trata-se de fazermos felizes os nossos à nossa própria custa. Começamos pelo sacrifício, acabamos pela apoteose!219

Apesar de notarmos, na citação acima, uma ideologia bastante normatizadora no que

215 SABINO, 31 jan.; 04 mar.,; 28 mar. 27; maio 1888, p. 01. 216 SABINO, 04 mar. 1888, p. 01.

217 A partir daqui é impossível continuar.

218 Echo das Damas, 4 jan. 1888, (apud BICALHO, 1988, p. 155). 219 Echo das Damas, 14 jan. 1888, (apud BICALHO, 1988, p. 178-9).

diz respeito ao papel que deve ser desempenhado pela mulher, percebemos, em outros momentos, que a autora faz questão de noticiar conquistas femininas para que sirvam de exemplo para outras mulheres, que queiram trilhar o caminho da profissionalização. Desse modo ela procedeu na edição do dia 04 de janeiro de 1888, ao anunciar que Rita Lobato Velho Lopes havia se tornado, no ano anterior, a primeira mulher a receber o grau de médica no Brasil. O jornal proclamou-a um “exemplo para as jovens brasileiras, que só pela instrução poderão aspirar à independência e dignidade pessoal”.

Nas palavras de Maria Thereza Bernardes, também as jornalistas, como parte de uma elite feminina culturalmente diversificada, “mantinham relações de solidariedade com

mulheres de outras áreas intelectuais e artísticas, reconhecendo que os sucessos nelas obtidos redundavam numa vitória comum do sexo feminino”.220

Benzer Belgeler