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Além da análise sistemática da produção infantil no conjunto das dez fábulas, a partir do sistema avaliativo de Cunha e Nunes (1993), aqui revisto, a presente pesquisa procurou chegar a uma classificação de cada protocolo em duas categorias: Clínico e Não clínico. Cabe esclarecer que essa classificação não se constitui como procedimento técnico padronizado pelo manual do Teste das Fábulas, porém foi aqui realizada por cada avaliador (de forma independente e às

cegas, visto que receberam os casos sem identificação de sua origem), para se testar a

precisão do sistema avaliativo utilizado.

No tocante à exploração das propriedades psicométricas do Teste das Fábulas, no que se refere à concordância entre avaliadores independentes na classificação das produções de G1, G2 e de G3, enquanto casos clínicos e não clínicos, os atuais achados mostram que houve grande concordância. Em apenas oito dos casos (13,3%) do total da amostra (n=60) houve discordância entre a avaliação dos dois examinadores externos de cada protocolo, sendo realizada nova avaliação por um terceiro juiz experiente para balizar a classificação final dos protocolos entre clínicos e não clínicos. Esses dados apontam concordância entre avaliadores independentes de 86,7%, sugerindo adequado índice de precisão no Teste das Fábulas.

Para além da concordância entre examinadores em valores em porcentagem, calculou-se o índice Kappa para os resultados obtidos nesse processo classificatório dasproduções diante do Teste das Fábulas como casos clínicos ou não clínicos. Obteve- se, dessa forma, o índice Kappa igual a 0,698 (p≤0,001). Fonseca, Silva e Silva (2007) afirmam que, “para o coeficiente Kappa, valores maiores que 0,75 representam nível excelente de concordância, valores abaixo de 0,40 representam baixa concordância e os situados entre 0,40 e 0,75 representam concordância mediana" (p. 50). Encontrou-se, portanto, mediano (tendendo a excelente) índice de concordância entre os juízes independentes na avaliação do conjunto da produção no Teste das Fábulas. Esses achados reiteram adequados indicadores técnicos de precisão para esse método projetivo de avaliação psicológica.

Ainda com objetivo de explorar a própria consistência dos achados com o Teste das Fábulas das crianças presentemente avaliadas, procurou-se contrapor sua classificação diagnóstica (caso clínico ou não clínico, a partir dos avaliadores

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independentes) com aquela obtida a partir do instrumento SDQ. Esse procedimento foi realizado para os casos de G2 e de G3, visto que os casos psiquiátricos de G1 (n=20) já haviam passado por amplo e completo processo psicodiagnóstico, com objetivos clínicos.

Vale ressaltar que essa classificação dos casos em clínicos e não clínicos foi realizada de modo a examinar a sensibilidade diagnóstica do Teste das Fábulas. Esse procedimento não interferiu ou alterou a classificação inicial realizada por meio do SDQ para compor os grupos amostrais escolares e discriminar se comporiam G2 ou G3, conforme descrito no método. Os resultados derivados dessa análise encontram-se na Tabela 14.

Tabela 14-Resultados da classificação diagnóstica de juízes independentes e às cegas em relação à produção das crianças de G2 e G3 (n=40) no Teste das Fábulas comparativamente ao resultado no SDQ.

Instrumento Teste das Fábulas SDQ Concordância entre instrumentos Classificação diagnóstica Acordo Desacordo Caso Clínico 24 (60%) 20 (50%) 28 (70%) 12 (30%)

Caso Não Clínico 16 (40%) 20 (50%)

No que se refere à classificação em categoria Clínica e Não Clínica, tomando como base o funcionamento psíquico e a qualidade das defesas utilizadas no Teste das Fábulas para os Grupos G2 e G3, os protocolos foram consistentes com a classificação obtida pelo SDQ em 28 ou 70% dos casos. Apenas em 12 casos (ou 30% dessa amostra de escolares) houve discordância entre a classificação do SDQ e a do Teste das Fábulas. Dos 12 casos de discordância entre a classificação dos instrumentos, em oito protocolos o SDQ não apontava dificuldades na criança e, pela análise do Teste das Fábulas, chegou-se à hipótese de caso clínico. Em outros quatro casos, o desacordo foi na direção contrária, ou seja, o SDQ apontava a criança como caso clínico e, pelo Teste das Fábulas, considerou-se o caso como não clínico. Desse modo, pode-se apontar que houve um acréscimo de casos na classificação “clínico”, segundo o Teste das Fábulas.

Nesses casos onde houve discordância entre classificação a partir do Teste das Fábulas e do SDQ, foi necessário examinar com mais detalhe possíveis elementos de

suas produções nos diferentes instrumentos.Entre esses dissidentes (12 casos), quatro casos (ou 33,3%) tinham sido classificados pelo SDQ como clínico e, por meio do Teste das Fábulas, foi possível identificar seus recursos e reclassificá-los como não clínicos. Em contrapartida, oito casos (ou 66,6%) foram classificados como não clínicos e, no Teste das Fábulas, foi possível identificar questões clínicas cujo SDQ não pôde identificar, sendo reclassificados como clínicos.

A comparação da classificação clínica e não clínica entre os dois instrumentos obteve Kappa de 0,40 (p=0,01). Desta forma, segundo Fonseca, Silva e Silva (2007)pode-se considerar que o valor de Kappa aqui encontradorepresenta nível médio de concordância entre a classificação clínica e não clínica obtida por meio do SDQ (instrumento rastreador de problemas de saúde mental) e o Teste das Fábulas (instrumento projetivo e que acessa o funcionamento da dinâmica interna do sujeito). Esse resultado aponta para adequada sensibilidade clínica e diagnóstica desse método projetivo de avaliação psicológica, fortalecendo seus achados.

Além disso, as evidências empíricas colecionadas a partir do contraponto dos achados de SDQ e Teste das Fábulas sugerem, para além de diferenças claras entre os respondentes (SDQ traz o relato dos pais, enquanto as Fábulas foram produzidas pelas crianças) e os métodos avaliativos em si, indicadores da sensibilidade do Teste das Fábulas para avaliar limites e recursos da criança, a partir de uma perspectiva qualitativa. A grande consistência entre os achados advindos do SDQ e do Teste das Fábulas revela a efetividade das informações obtidas por meio desse método projetivo de avaliação psicológica, evidenciando seus bons indicadores de validade.

Benzer Belgeler