1. KAYNAKLI ÇEVİRME BORUDAN İMAL EDİLEN DİKME (PUNTEL)
1.6. Yapımı
Considerando os cabeças de casa, ou seja, os que encabeçam as listas de moradores de cada habitação arrolada, têm-se que no arraial da Aldeota, quanto ao estado civil, existiam 3 homens e 6 mulheres solteiros, 32 homens casados e 9 viúvos, sendo 1 do sexo masculino e 8 do feminino. No caminho do Cocó, os solteiros dividiam-se em 3 homens e 4 mulheres, só havia homens casados (29) e viúvos compreendiam 1 homem e cinco mulheres. Na Rua do Pajeú, por sua vez, existiam 15 homens e 19 mulheres solteiros, os casados totalizavam 66 pessoas, dentre as quais apenas uma era do sexo feminino, e, além das 13 viúvas, 4 homens tinham a mesma condição. Nota-se que as mulheres que concorrem como cabeças das respectivas listas de moradores eram, em maioria, solteiras ou viúvas. Nas ruas onde havia grande ocorrência de habitações precárias, boa parte dos pobres era composta por mulheres que viviam sozinhas ou com filhos, tendo que suprí-los de alimentos e água. Quando alcançavam a idade de 7 anos, às vezes mesmo antes disso, já se tornavam úteis e ajudavam suas mães na lida diária pela sobrevivência. As que eram compreendidas por faixa etária inferior à idade da razão podiam ser um fardo a mais.375
Poucos ali sabiam ler, a maioria instruída era composta de homens. Somando os números daqueles três lugares, 24 homens dominavam mais ou menos a leitura, já as mulheres instruídas não passavam de 9. Os analfabetos do sexo masculino totalizavam 108 pessoas, as do feminino, 46. Nesse tocante, os dados dos moradores daqueles logradouros reproduzem o que ocorria na capital e no Ceará de modo geral. Entre a minoria instruída, os homens superavam as mulheres, mesmo nas classes pobres. O que leva a pensar em que medida aqueles, malgrado a precária condição social, encontram mais oportunidades de aprendizagem do que estas? Na cadeia, havia professor, todavia, nas ruas apinhadas de palhoças era mais difícil encontrar quem ensinasse a ler, vigorando, presumidamente, uma comunicação predominantemente oral. É difícil avaliar, naquele contexto, o quanto a incapacidade de ler influenciou na pobreza daqueles homens e mulheres que viviam mormente em choupanas; no entanto, sabe-se que, ao longo da segunda metade do Oitocentos, surgiam profissões que demandavam maior especialização, o que poderia incluir o domínio da linguagem escrita, ainda que fosse em nível rudimentar. Embora na Rua do Pajeú, nº 15, existisse um prédio onde funcionava uma escola pública, os pobres, em geral, não se beneficiavam do ensino oferecido ali.
As profissões catalogadas no que se refere ao arraial da Aldeota, ao caminho do Cocó e à Rua do Pajeú foram listadas na Tabela 7, apresentada abaixo.
375
CEARÁ. Arrolamento da População de Fortaleza de 1887. Freguesia de São José, 01/08/1887. Livros 383, p. 46-57; Livro 382, p. 85-97.
Tabela 7 Lista de profissões considerados os cabeças de casa (Aldeota, Cocó e Pajeú) - Censo de 1887
Arraial da Aldeota Caminho do Cocó Rua do Pajeú
Artista 1 Criador 1 Agência 3 (homens)
Jornaleiro 9 Jornaleiro 6 Alfaiate 1
Lavadeira 1 Lavrador 25 Artista 10
Marchante 1 Meretriz 4 Barbeiro 1
Meretriz 4 Sem profissão indicada 4
(mulheres)
Empregado Público 1
Negociante 1 Empregado aposentado 1
Padeiro 1 Guarda cívico 2
Parteira 1 Inválido 1
Pescador 1 Jornaleiro 32
Praça do 11º Batalhão 1 Marceneiro 1
Soldado Reformado 1 Meretriz 15 (1 também
lavadeira) Sem profissão indicada 10 (2
homens e 8 mulheres)
Músico da Polícia 1
Talhador de carne 1 Negociante 2 (1 é mulher e
meretriz) Vaqueiro 2 Ourives 1 Padeiro 2 Parteira 1 Praça Reformado 1 Praça do Bond 6 Praça de Polícia 3 Pedreiro 5 Sapateiro 2 Sargento do Bond 6 Sargento cívico 2
Sem profissão indicada 22 (5 homens e 17 mulheres)
Fonte: CEARÁ. GOVERNO DA PROVÍNCIA. SECRETARIA DE POLÍCIA (1887), p. 85-97.
Ali se nota que as profissões e ocupações de mulheres eram a de parteira (2), lavadeira (1), negociante (1) e meretriz (23). O censo de Fortaleza de 1887 permite olhar para dentro das habitações e, assim, enxergar alguns arranjos familiares e profissionais. O ofício de Luís Pereira da Silva, de 57 anos, era o de ourives; era casado e tinha cinco filhos. Maria Benedita Maciel, de 18 anos, era agregada em sua casa, e não há indicação de sua profissão. Os filhos mais velhos de Luís Pereira, Antônio Varonil, de 20 anos, e José Raimundo, de 17 anos, eram, respectivamente, tipógrafo e pedreiro. Somente aquele sabia ler376. Na mesma casa, tem- se uma diversidade de experiências e saberes práticos relativos ao mundo do trabalho.
376
CEARÁ. Arrolamento da População de Fortaleza de 1887. Freguesia de São José, 01/08/1887. Livro 382, p. 85.
As dinâmicas animadas pelo mundo do trabalho às vezes separavam famílias, o pai ou filho(s) podiam procurar serviço em outra região do País. Floriano da Costa Lima, jornaleiro, estava ausente em Manaús, quando do arrolamento da população citadina. Tinha seis filhos, com idades entre 12 e 4 anos, que ficaram sob os cuidados de sua mulher, filha de Maria Francisca das Dores, de 75 anos, que era africana.377 Os africanos relacionados naquele documento estavam na faixa etária dos que tinham idades acima de 70 anos. Maria Francisca das Dores não teve profissão ou ocupação apontada, no entanto, podia ainda ser bastante ativa como lavadeira, engomadeira, cozinheira, já que tinha netos jovens e crianças para ajudar a manter, na ausência do genro. Uma das ausências mais significantes do aludido censo refere-se à cor, não obstante, pode-se localizar as proximidades do riacho Pajeú como território de influência afro-brasileira, na medida em que sambas ocorriam ao longo de sua margem leste.
Outra lista de moradores que chama a atenção é a encabeçada por Raimundo Nonato da Silva, de 20 anos, solteiro, instruído e artista. Este convivia, na Rua do Pajeú, com outras seis mulheres, a saber, Benta Maria de Jesus, viúva de 38 anos, que negociava e sabia ler; sua filha, Maria Gomes dos Anjos, de 19 anos e solteira; Ângela Maria da Conceição, agregada, de 17 anos, solteira e meretriz; Maria, de 2 anos, filha desta, e Ana Maria de Jesus, de 39 anos, viúva, e mãe de Raimunda, de 3 anos378. Nessa casa dominada por mulheres, destaca-se o fato de a única considerada agregada trabalhar como meretriz. É provável que morassem juntos para dividir o custo do aluguel da moradia e, desde aí, experimentavam certa colaboração. A configuração de algumas casas sugere, diferentemente, que mulheres dadas como meretrizes eram exploradas nessa condição. Joana Rodrigues de Souza, de 45 anos, solteira, era uma das que vivia com outros homens. Manoel Pereira dos Santos, jornaleiro, separado da mulher, de 65 anos, era quem encabeçava a lista de moradores dali. Igualmente, jornaleiro de ofício e morador daquela casa sem número, era Manoel Canuto, de 22 anos e solteiro379. É um risco negligenciar a agência das mulheres que encontravam na prostituição um modo de manterem- se vivas. No entanto, não há indício no censo em tela que explique a ligação que Joana de Souza tinha com ambos. Não constituíam parentesco, nem ela era cônjuge ou amázia de qualquer um dos dois.
377 CEARÁ. Arrolamento da População de Fortaleza, de 1887. Freguesia de São José, 01/08/1887. Livro 382, p. 87.
378 CEARÁ. Arrolamento da População de Fortaleza, de 1887. Freguesia de São José, 01/08/1887. Livro 382, p. 87-88.
379
CEARÁ. Arrolamento da População de Fortaleza, de 1887. Freguesia de São José, 01/08/1887. Livro 382, p. 89.
No que concerne à profissão de meretriz, reservar-se-á maior atenção sobre elas em momento mais oportuno. Por ora, destaque-se que era a ocupação que mais agregava mulheres naqueles referidos pontos da cidade. Na Rua do Pajeú, era comum haver moradias em que se encontrava um homem, de qualquer ofício (jornaleiro, guarda cívico, praça da polícia ou trabalhasse com agências), e uma mulher classificada como meretriz, sendo ambos solteiros e sem indicação de que vivessem amaziados. Em algumas cirunstâncias, deparava-se com famílias nucleares que contavam com agregadas meretrizes. Citem-se as famílias de Vicente Suares Barroso, 35 anos, jornaleiro, casado e com três filhos, e Maria Angélica, agregada, de 18 anos e solteira e Raimundo de Barros, de 40 anos, que trabalhava como artista, era casado e pai de duas filhas, de sete e seis anos, e tinha em sua residência, como agregada, Maria Francisca, de 25 anos380. Provavelmente, essas mulheres pobres eram acolhidas e gozavam de abrigo, pelo que pagavam com trabalhos domésticos – embora não tivessem sido classificadas como criadas ou empregadas em serviços domésticos, o que acontecia com algumas(uns) agregadas(os). Mas deviam, também, colaborar com a manutenção das depesas da família, relativos à própria alimentação, vestimentas, dentre outras despesas.
Quanto aos criados, poucos existiam na Rua do Pajeú, mas sob a autoridade de Antônio Rodrigues Leite, de 63 anos, instruído, casado e artista de profissão, estava o criado Felix Pereira, de 14 anos, que era jornaleiro381. Provavelmente, Felix tinha ido para aquela residência ainda mais jovem, quando criança. E ao passar dos anos aprendeu ali um saber prático conveniente a um ganhador de jornadas diárias de trabalho, o que talvez fosse dividido com o senhor Antônio Rodrigues.
O certo é que duas, às vezes, até três famílias compartilhavam o espaço do mesmo domicílio. Maria Magdalena, por exemplo, de 24 anos e meretriz, encabeçava a lista de moradores de uma choupana na Rua do Pajeú. Consigo, coabitavam a casa de palha, além de sua filha de 2 anos, Maria; Benedito Antônio dos Santos, de 33 anos e jornaleiro; sua esposa, Maria Ferreira Peixoto, de mesma idade, e seus filhos Amélia Peixoto, de 11 anos; João, de 6 anos, e Agostinho, de 3 anos382. Parentes tendiam a morar juntos devido às condições de moradia disponíveis para os pobres. Ou moravam apinhados em cômodos exíguos do domicílio de algum familiar, ou faziam casas de palha. Alguns pagavam aluguel. Nesse tocante, a
380 CEARÁ. Arrolamento da População de Fortaleza, de 1887. Freguesia de São José, 01/08/1887. Livro 382, p. 94.
381CEARÁ. Arrolamento da População de Fortaleza, de 1887. Freguesia de São José, 01/08/1887. Livro 382, p. 90.
382
CEARÁ. Arrolamento da População de Fortaleza, de 1887. Freguesia de São José, 01/08/1887. Livro 382, p. 95.
disposição de imóveis em Fortaleza quanto ao uso foi objeto da atenção de Margarida Farias Andrade (Tabela 8), que demonstrou o percentual de prédios residenciais destinados ao aluguel.383 A metodologia usada por Margarida Farias Andrade consistiu na sobreposição das décimas urbanas de 1872 e 1890.
Tabela 8 Demonstrativo do percentual de imóveis por rua quanto ao uso – 1890 Logradouro norte a sul Percentual de casas
alugadas
Percentual de casas de uso próprio
Total Rua Barão do Rio
Branco
84,1% 15,9% 291
Rua Senador Pompeu 78,8% 21,2% 283
Rua Major Facundo 80,0% 20,0% 249
Rua Floriano Peixoto 74,8% 25,2% 227
Rua General Sampaio 78,6% 21,4% 154
Rua 24 de Maio 81,3% 18,7% 139
Fonte:ANDRADE, Margarida Julia Farias de Salles. Op. Cit., p.158-159. Sobreposição das décimas urbanas de 1872-1890.
As ruas com maior percentual de imóveis alugados eram a Barão do Rio Branco (84,1%), a 24 de Maio (81,3%) e a Major Facundo (80%). De fato, a percentagem de casas locadas era bastante elevado no centro da capital cearense, e evidencia o processo de concentração de propriedades na malha urbana central. Nessa área da cidade, compreendida pelas ruas citadas na tabela acima, situavam-se importantes instituições de gestão e de criação de normas, a exemplo do Palácio do Governo, da Câmara Municipal, Assembleia, Tesouraria da Fazenda, do Quartel. Assim como, nota-se ali a presença da Matriz, da igreja do Rosário e da estação da Estrada de Ferro de Baturité.384
A proporção de casas ocupadas por proprietários e por inquilinos, nesse contexto de pós-Abolição no Ceará, foi bem delineada por Margarida Farias de Andrade, que sobrepondo dados da décima urbana de 1890 aos do censo de 1887, obteve que, nesse ínterim, houve aumento de 3.556 imóveis para 5.560, considerados os 70 do Arraial Moura Brasil e outros 57 do Mucuripe, onde haveria uma pequena povoação385. Todavia, como se verá, o Mucuripe constituía um dos pontos da cidade com maior número de habitantes – 1.063. Esta informação foi obtida baseando-se em dado oficial da décima urbana de 1890, que não contou os casebres
383ANDRADE, Margarida Julia Farias de Salles. Op. Cit., p. 156. 384
Idem. Ibidem, p. 152.
385
dos pobres que ali viviam. A seguir as informações oficiais da municipalidade, nota-se que a quantidade de palhoças, em relação aos imóveis mais bem estruturados, também cresceu significativamente, indo de 796 para 1.580, isto é, aumento de 100%. Conforme Margarida Farias de Andrade, “dos 5.560 imóveis arrolados, 3.999 eram de aluguel (71,92%), 1.405
habitados pelo dono (25,27%), 70 estavam em construção, 34 estavam fechados e 52 em ruínas”386.
As Ruas Formosa (Barão do Rio Branco, a partir de 1888) e do Patrocínio (24 de Maio, 1878)387 – renomeada assim em homenagem à abolição da escravidão no Império, e aludindo à data oficial da libertação dos escravos em Fortaleza, em 1883 – eram os logradouros onde se evidenciava a concentração de imóveis destinados ao aluguel. Grande parte dos investimentos dos maiores proprietários de prédios urbanos estava presente na antiga Rua Formosa, que dividia as duas freguesias da capital. Os irmãos Cunha Freire possuíam ali 8 imóveis (de modo que, sete eram do barão de Ibiapaba e 1 de Severiano Ribeiro da Cunha); Luiz Ribeiro da Cunha tinha 11; a família Silva Albano, 14 (José Francisco da Silva Albano com 7 e Manoel Francisco da Silva Albano com 8); Gonçalo Batista Vieira, barão de Aquiraz, 10 e Luiz de Seixas Correia, 9.388 Dentre esses, como se pode identificar, havia senhores envolvidos no tráfico interprovincial de escravos. Aliás, a Rua Formosa foi, ao longo dos anos 1870, recorrentemente citada como referência de endereço nos anúncios de compradores de trabalhadores cativos, a exemplo de um aviso n’O Cearense, nº 4, de janeiro de 1874, no qual Vicente Alves L. Filho declarava “compra[r] 10 escravos novos de ambos os sexos, para
satisfazer uma encomenda. 44 – Rua Formosa – 44”389. Na Rua Amélia, dentre aqueles com maior número de imóveis, estavam Luiz Ribeiro da Cunha, com 17, Luiz de Seixas Correia, com 8.390
Ainda quanto ao uso dos imóveis em Fortaleza, tem-se que das 4.352 unidades prediais (incluindo as choupanas, que embora não sejam prédios, têm no entanto natureza residencial), conforme os resultados de Margarida Farias de Andrade, 241 delas tinham finalidade comercial ou eram destinadas a serviços (5,53%); existiam 44 oficinas, dentre outras, de alfaiate, ferreiro, marceneiro, ourives, sapateiro e torneiro (1,01%); os de caráter
386Ibidem.
387NOGUEIRA, João. Fortaleza velha. Cit., p. 52-58.
388ANDRADE, Margarida Julia Farias de Salles. Op. Cit., p. 152.
389 O Cearense, ano XXVIII, nº 04, Fortaleza, Domingo, 11/01/1874, p. 04. Disponível em: <http://memoria.bn.br/pdf/709506/per709506_1874_00004.pdf>. Acesso em: 07 fev. 2014.
390
institucional – entre prédios públicos e igrejas – somavam 36 (0,82%) e os com finalidade residencial, incluindo as choupanas, chegavam ao total de 4.031 (92,62%).
Essas informações são aproximativas, os livros originais que resultaram do levantamento da população de Fortaleza em 1887, guardados no Arquivo Público do Ceará, estão em boa medida deteriorados. Conquanto exista a transcrição desse documento, não está completa, contendo algo em torno de 19 mil registros, o que, todavia, representa boa amostragem dos quase 27 mil arrolados pela Secretaria de Polícia.
Os dados acerca das totalizações desse arrolamento ganharam destaque nos periódicos então correntes, com pequenas variações de um para outro. O Pedro II informou haverem sido entrevistados 26.943 habitantes; sendo 14.709 na Freguesia de São José e 12.234 na de Nossa Senhora do Patrocínio. Os estrangeiros identificados totalizariam 319 indivíduos. Quanto aos sexos, haveriam 11.594 homens e 15.349 mulheres, perfazendo uma diferença de somente 3.755. No que toca ao estado civil dos fortalezenses, os solteiros constituiriam a maioria (18.556), os casados inteirariam a soma de 6.478 indivíduos e os viúvos comporiam o grupo menor (1.909). Teriam profissão conhecida 9.845 pessoas, número desproporcional em relação ao de considerados sem profissão: 17.098 – o que não significa que não trabalhassem. Pouco superior a este seria o contingente de analfabetos (17.287), por outro lado, saberiam ler, de acordo com o Pedro II, menos de 10 mil indivíduos (9.656).391
Já o perfil predial daquela cidade, conforme esse mesmo jornal, compunha-se de 72 sobrados, 4.389 casas, 1.178 choupanas, 26 edifícios públicos e 10 igrejas; contando, assim, 5.639 edificações. Os prédios comerciais devem ser compreendidos para efeitos de totalização, tais como armazéns, lojas de seco e molhados; e, além destes, as boticas, bodegas, escritórios. Havia o costume, de em sobrados, ocupar-se para fins diferentes o pavimento térreo e o superior. Este, em geral, para moradia e aquele para comércio. No sobrado nº 92, da Rua Formosa, por exemplo, funcionavam reuniões de um “culto católico” no pavimento superior, e, no térreo, uma loja de fazenda. Ali próximo, havia um consultório médico (casa nº 74), uma botica (casa nº 66), e os sobrados nº 46, onde morava o magistrado Olímpio Manoel do Santos Vital, Chefe de Polícia, e os de n.ºs 48 e 50, ambos de propriedade de Luiz Ribeiro da Cunha.392 Era a rua que concentrava a maioria dos sobrados, havendo ali 26 deles, sendo apenas 2 chefiados por mulheres; portanto, onde morava boa parte da classe dos mais ricos comerciantes
391 Pedro II, ano 48, nº 89, Fortaleza, Domingo, 06/11/1887, p. 01. Disponível em: <http://memoria.bn.br/pdf/216828/per216828_1887_00089.pdf>. Acesso em: 21 jan. 2016.
392
CEARÁ. Arrolamento da População de Fortaleza, de 1887. Freguesia Nossa Senhora do Patrocínio. Livro 355, p. 19.
da capital. Por outro lado, encontravam-se ali choupanas também, 20 delas (9 chefiadas por homens e 11 por mulheres).
Essas mulheres tendiam a viver sozinhas, pois apenas 3 das que chefiavam moradias foram classificadas como casadas; quanto às outras, 20 delas eram solteiras e 38, viúvas. O mesmo não se dava com os homens, a maior parte dentre os chefes de domícilio era casada (118), somente 35 foram tidos como solteiros e 9 como viúvos. Nos dois casos, as mulheres estavam presentes na governança das unidades habitacionais, quer enquanto cônjuges, quer como solteiras ou viúvas; pois apesar de os homens encarnarem o paradigma do líder de família, era competência das mulheres a economia doméstica. De todo modo, na rua Formosa, considerando os(as) chefes(as) de domicílios, 37,72% eram do sexo feminino, o que condizia com o percentual considerando a população fortalezense em geral, o que se verá oportunamente. Indiferentemente ao gênero, os proprietários de imóveis traçavam estratégias para uso mais proveitoso de suas edificações. Assim, nas casas, como nos sobrados, era comum dividirem-se os vãos entre moradia e ponto comercial – geralmente, a parte da frente –, que poderia ser alugado a terceiros.393
No tocante à ocorrência de comércios, fábricas e oficinas, a Rua Formosa contava com 17 armazéns, 6 lojas, 2 escritórios, 1 consultório médico – já indicado –, 1 botica – igualmente, aludida –, 1 refinaria de açúcar, 6 bodegas, 1 barbearia, 1 sapataria, 2 oficinas de marceneiro, 1 fábrica de selas, 1 oficina de sapateiro, 1 oficina de alfaiate, 1 oficina de encadernação e 1 açougue.394
Com relação às profissões arroladas, 52 foram identificadas (tabela 9). Não obstante variedade coligida, a taxonomia presente no arrolamento não dá conta das possibilidades de serviços que poderiam compreender. É o caso dos jornaleiros (10), dos artistas (5), dos trabalhadores em agências (4) e mesmo dos negociantes (35), que concorria como a de maior recorrência entre os homens. Outrossim, a categoria de caixeiro poderia designar uma gama de funções no âmbito de vários tipos de negócios e empresas, por exemplo, armazéns, lojas, escritórios, dentre outros, ou, mesmo, em residências, onde assumiam funções correlatas às de criados.
393 Pedro II, ano 48, nº 89, Fortaleza, Domingo, 06/11/1887, p. 01. Disponível em: <http://memoria.bn.br/pdf/216828/per216828_1887_00089.pdf>. Acesso em: 21 jan. 2016.
394
CEARÁ. Arrolamento da População de Fortaleza, de 1887. Freguesias Nossa Senhora do Patrocínio e de São José. Livros 355, p. 16-38, e 383, p. 30-46.
Tabela 9 Lista de profissões ou ocupações da rua Formosa - 1887 Agricultor 1 Despachante 1 Lavadeira 2 (1 também
meretriz)
Ourives 1 Advogado 2 Empregado Público 15
Artista 5 Engenheiro empregado público 1
Louceiro 2 Padaria 1
Alfaiate 3 Empregado aposentado 2 Magistrado 5 Pensionista 1 (mulher) Agências 4 Empregado Público
aposentado 1
Marceneiro 4 Pedreiro 4
Caixeiro 8 Farmacêcutico 1 Marchante 2 Praça Reformado 1 Caixeiro
despachante 1
Fugueteiro 1 Mascate 1 Proprietário 13 (11 eram mulheres)
Comerciante 2 Meretriz 5 Retratista 2
Cosinheira 1 Guarda Livro 2 Modista 2 Serviço Doméstico 2 (1 homem e 1 mulher) Músio 1
Carpina 3 Guarda Fiscal 1
Carpinteiro 1 Jornaleiro 10 (homens) Negociante 35 (homens)
Sacertode 2 Caixa de cobrança
1
Guarda Cívico 1 Oficial da Marinha 1 Sem profissão indicada 22 (mulheres)
Charuteiro 1 Costureira 11 (2 também meretriz)
Juiz Municipal 1 Oficial Reformado 2 Tabelião Público 1 Tecedeira 6 (1 é também meretriz)
Dentista 3 Oficial do Exército 1
Tecelão 4
Fonte: CEARÁ. GOVERNO DA PROVÍNCIA. SECRETARIA DE POLÍCIA (1887), p. 16-38, e 383, p. 30-46.
O censo de 1887 traz situações, a esse respeito, como a de Miguel Teixeira da Costa Sobrinho, de 17 anos, na residência de Confúcio Pamplona, negociante, de 28 anos. Miguel foi classificado, em relação a este proprietário, como “seu caixeiro”. O pronome possessivo não foi empregado sem razão. Provavelmente, trabalhava ali como caixeiro-vassoura, entre o comércio e a moradia; na medida em que, a propriedade de Confúcio Pomplana, casa nº 113, situava-se entre dois armazéns e era vizinha à fábrica de selas. Junto com Miguel trabalhavam nos serviços domésticos Justina, agregada, de 18 anos; Maria Saraiva de Menezes, de 12 anos,