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BÖLÜM 4: ORTAÖĞRETĐM DKAB ÖĞRETĐM PROGRAMININ

4.1. Programın Felsefesi

4.1.2. Dinbilimsel Yaklaşım

Duas características do romance As ligações perigosas nos chamam a atenção para as peculiaridades do seu ponto de vista. A nosso ver, as duas estão relacionadas e nos ajudam a entender melhor a perspectiva narrativa. A primeira delas, como já vimos, é a ambiguidade das motivações dos personagens para suas ações, reconhecida por vários estudiosos da obra, e que exige uma participação mais ativa do leitor, para sua interpretação. Afirma René Pomeau (1993, p. 142): “Suprimindo, aparentemente, o romancista onisciente, o romance por cartas institui um leitor onisciente, capaz de interpretar corretamente cada carta, porque ele as lê todas e pode estabelecer comparações”. Henri Coulet (1968, p. 480) ressalta: “[...] como em quase todos os romances por cartas que merecem esse nome, a verdade não está em nenhum personagem, ela está em um lugar onde convergem os diversos fragmentos de verdade e onde se compensam os diversos erros”. E Laurent Versini (1998, p. 188): “O leitor, em um romance epistolar, sobretudo polifônico, é sempre encarregado de construir a verdade ou uma verdade a partir de visões fragmentadas e parciais [...]”. Nesse sentido, tanto Pomeau quanto Versini mencionam a chamada “visão estereoscópica”.

A segunda característica diz respeito ao desfecho, na qual nenhum dos personagens é poupado da tragédia – nem mesmo as vítimas. Ou seja, o bem não triunfa, pois nenhum dos personagens é perfeito e cai sob o peso das próprias fraquezas: Merteuil e Valmont, o orgulho e a vaidade; Tourvel, Cécile e Danceny, a inexperiência, a ignorância e o autoengano. Versini (p. 162) destaca: “[...] trata-se de verdadeiros seres humanos e não de marionetes ao serviço

93 de uma tese”. Talvez o final infeliz para os três últimos nem chegue a espantar o leitor. Afinal, ao longo de todo o romance, foi dada a palavra aos sedutores, reforçando sua superioridade, e possivelmente impedindo a simpatia do público com suas presas, como observa Pomeau (p. 130): “Em um romance da sedução, entre o romancista e os sedutores, se estabelece uma colaboração que leva a uma cumplicidade”. Além de o bem não triunfar, o mal não é castigado, como bem observou Pomeau: Merteuil e Valmont têm um final trágico por terem desrespeitado os princípios libertinos, entregando-se aos sentimentos de vaidade, ciúme e orgulho e perdendo a frieza de jogadores que mantinham até então. Eles não apenas não se arrependem, como têm o lugar usurpado por outro libertino, Prévan.

Esse desfecho é completamente coerente com a concepção de mal de Laclos e de Rousseau. O mal é social e não pode perder no final do romance, pois a sociedade em questão não mudou. Merteuil e Valmont são o resultado de uma sociedade onde impera a desigualdade, não apenas econômica, mas sexual. As queixas de Merteuil (Carta 81), a respeito do lugar inferior destinado à mulher na sociedade, são pertinentes, mas ela escolheu a maneira errada de sobreviver, destruindo outros seres humanos, incluindo as representantes de seu próprio sexo. Valmont, como a própria marquesa define na mesma carta, escolhe a comodidade da vida de libertino, facilitada pelo seu lugar privilegiado na sociedade, como homem e aristocrata. O destino de Tourvel e Cécile denuncia a ineficácia da educação recebida pelas mulheres da época, onde havia muita religião e pouca informação. Nem mesmo a inocência da juventude – representada por Cécile e Danceny – escapa à corrupção da sociedade. A má formação é incapaz de corrigir as fraquezas de todos.

Para Jean-Luc Seylaz (1988), As ligações são, antes de tudo, uma “obra de desmistificação”, na qual é revelada “a verdadeira natureza do homem e a verdadeira significação desse comportamento” (p. 94). Ele afirma:

[…] o escândalo que o romance provoca, a fascinação que ele exerce, nascem bem menos dos costumes que Laclos estava denunciando, que do que triunfa nesses personagens sem idade e sem pitoresco: o que nós chamamos provisoriamente, para retomar uma expressão de Marcel A. Ruff, o “espírito do mal” (p. 96).

O autor acredita que o livro não apenas conta a história do ponto de vista do mal (Valmont e Merteuil, que são os dois grandes protagonistas do romance), como também derruba crenças fortes da época, como a da inocência da juventude (Cécile e Danceny) e a da força da virtude (Tourvel) – ambas são esmagadas sob a ação do “espírito do mal”, que

94 corrompe Cécile e Danceny, destrói Tourvel e, além de tudo, põe um fim à carreira libertina de Valmont e Merteuil. Seylaz explica (p. 92):

Trair o segredo, fazer explodir uma verdade escandalosa, não era revelar o comportamento real dessa sociedade ou publicar suas aventuras (o que vários outros romancistas da época já haviam feito, sem provocar o escândalo que provocou As

ligações). Mas era desnudar a significação profunda de uma atitude, o verdadeiro

rosto dos seres e o verdadeiro alcance de seus gestos.

A forma do romance por cartas contribui para dividir o peso do mal entre os personagens, uma vez que a correspondência possibilita o conhecimento da subjetividade dos vilões, mostrando suas motivações e fraquezas, ao mesmo tempo em que evidencia o lado não tão inocente de Tourvel, Cécile e Danceny, com suas próprias falhas e paixões, que contribuíram igualmente para a tragédia final. André Malraux (2007, p. 7), cuja análise do romance é anterior à de Seylaz e lhe serviu de inspiração, ressalta a predisposição das vítimas ao ataque do visconde e da marquesa:

As ligações são a narrativa de uma intriga [...] Intrigar tende sempre a “fazer acreditar” algo a alguém; toda intriga é uma arquitetura de mentiras; crer na intriga é acreditar de início que podemos agir sobre os homens – por suas paixões, que são

suas fraquezas. Há subjacente uma visão do homem que encontrou algumas

expressões literárias consideráveis [...] “conhecer os homens para agir sobre eles”.

Assim, não apenas a forma do romance epistolar, mas as informações transmitidas pelos cinco personagens são responsáveis pela criação da focalização interna múltipla e consequentemente da famosa ambiguidade de As ligações, nas quais os personagens não obedecem a uma classificação maniqueísta.

No caso de Valmont e Merteuil, o mal explícito é equilibrado com argumentos que mostram um lado positivo dessas personagens. Afinal, sua perversidade já está exposta desde as primeiras páginas (Carta 2, para Merteuil, e Carta 4, para Valmont), nas quais eles revelam seus planos de corrupção de Cécile e Tourvel. Anunciando seu plano de “amor” e “vingança” e pedindo a colaboração do visconde, a marquesa afirma que a esperança de se vingar acalma sua alma. Sobre Gercourt e sua preferência pelas mulheres loiras e educadas em um convento, ela se expressa ironicamente da maneira seguinte:

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Efetivamente, eu aposto que, apesar das 60 mil libras de renda da pequena Volanges [Cécile], ele não faria esse casamento se ela fosse morena ou se ela não tivesse estado em um convento. Vamos provar que ele não passa de um tolo [...] Como nós nos divertiríamos escutando-o se vangloriar no dia seguinte [ao casamento]! [...] além do mais, se você formar essa mocinha, Gercourt se tornará certamente a piada de Paris (p. 36-7).

Já na Carta 4, Valmont recusa a participação no plano de Merteuil, pois afirma ter outro objetivo em mente: a sedução de Tourvel: “Você conhece a Presidente de Tourvel, sua devoção, seu amor conjugal, seus princípios austeros. Eis o que eu vou atacar; eis o inimigo digno de mim; eis o objetivo que eu pretendo atingir [...]” (p. 40).

Ora, uma das maneiras mais utilizadas pelas narrativas para amenizar a maldade de personagens é a exposição de suas motivações para a prática do ato cruel. Essa é uma das técnicas utilizadas para garantir à marquesa o lugar de protagonista, especificamente nas Cartas 81 e 85, nas quais ela conta sua história, denunciando a frágil situação das mulheres na sociedade da época, e relata o episódio da sedução de Prévan – um conquistador que pretendia destruir sua reputação de virtude. A marquesa também tem a seu favor sua inteligência, superior até mesmo à de seu parceiro de libertinagem, Valmont, além de se mostrar como um dos fios condutores da narração, pela quantidade e pelo conteúdo das cartas enviadas e recebidas. A Carta 81 revela que Merteuil está longe de apresentar uma maldade gratuita. Sua crueldade é uma resposta, ainda que equivocada, à própria sociedade – mais uma vez a sociedade como fonte do mal. Essa carta, de uma sinceridade e lucidez espantosa, digna de uma feminista contemporânea, revela a consciência de Laclos a respeito do lugar da mulher na sociedade: “É preciso vencer ou morrer”, conclui a marquesa, ao final.

Já no caso de Valmont, é a possibilidade do amor real por Tourvel (Cartas 4, 125, 141, 145, etc.) e sua vulnerabilidade diante de Merteuil (Cartas 81, 144, 145, etc.) que podem torná-lo mais simpático ao leitor, além de sua posição como o segundo fio condutor da narração. Na Carta 4, ele já revela que sente uma paixão por Tourvel; nas Cartas 141 e 145, é Merteuil quem faz a análise dos sentimentos de Valmont, garantindo que ele ama perdidamente Tourvel; e assim por diante. Mas é principalmente na Carta 125 que nós podemos verificar traços de uma paixão real de Valmont pela presidente. A correspondência é enviada a Merteuil, para relatar os detalhes da conquista de Tourvel:

A embriaguez foi completa e recíproca; e, pela primeira vez, a minha sobreviveu ao prazer. Eu só saí de seus braços para cair aos seus joelhos e lhe jurar um amor eterno; e, é preciso confessar tudo, eu realmente acreditava no que estava dizendo. Enfim, mesmo depois de nos termos separado, sua lembrança não me abandonava, e eu tive que fazer algum esforço para me distrair (p. 366).

96 Podemos citar ainda as condições misteriosas de sua morte (Carta 163), como veremos mais adiante, que não excluem um possível suicídio diante das consequências de seus crimes – incluindo a perda da mulher amada. Embora nem o amor por Tourvel nem o suicídio possam ser confirmados, sua simples possibilidade parece contribuir para amenizar as más ações do visconde, sugerindo uma evolução moral – na qual ele é transformado pelo amor romântico –, ou o que Pierre Brunel (2005, p. 259) chama de “grande tema romântico da redenção”, um “esquema ascensional”. O cruel Valmont recebe, assim, o benefício da dúvida. A seu favor, está ainda o fato de ter divulgado as cartas da marquesa.

No caso de Tourvel, Cécile e Danceny, o movimento é contrário. Como responsabilizar essas vítimas pelas ações de algozes tão contumazes? Pois Laclos o faz e de duas maneiras. Na primeira, deixando o julgamento dos fatos ao leitor, graças em grande parte à técnica do romance epistolar, que, como já dissemos, permite a exposição dos eventos, sem uma voz onisciente para analisá-los. Será que a inocência de Cécile seria a única causa de sua vulnerabilidade à corrupção, ou a moça já trazia em si um pendor para a libertinagem? Quanto a Danceny, sua paixão por Cécile não o impediu de tentar seduzi-la, que é o que ele faz desde o início – levando-se em consideração que o casamento era impossível, devido a sua posição inferior na sociedade (Cartas 61 e 62) –, nem de ter uma ligação amorosa com Merteuil (Cartas 146 e 148). Tourvel, por sua vez, e apesar de toda sua virtude e religião, não resistiu às investidas de Valmont e deixou-se seduzir, traindo seu marido. E isso foi realizado apesar de sua ciência do caráter de Valmont, sobre o qual ela só se enganou por pouco tempo: foi advertida várias vezes e por pelo menos duas pessoas: Madame de Volanges (Cartas 22 e 37) e a própria tia de Valmont, Madame de Rosemonde (Carta 103).

Mas Laclos também coloca na boca (ou na pena) das personagens o julgamento de umas sobre as outras. É assim que Madame de Rosemonde acusa Danceny (Carta 171), lembrando que ele foi o primeiro a tentar seduzir Cécile:

[…] pois enfim, qualquer ilusão que nós procuremos ter a favor de uma pretensa delicadeza de sentimentos, temos de reconhecer que aquele que primeiro tenta seduzir um coração ainda honesto e simples se torna, por isso mesmo, o primeiro responsável por sua corrupção, e deve ser para sempre culpado dos excessos e perdições que a seguem.

Danceny, por sua vez, é porta-voz de um julgamento duro sobre Cécile, para os leitores que porventura não tenham chegado à mesma conclusão. Ele afirma para Rosemonde (Carta 174): “Se você as ler [as cartas de Cécile], talvez não veja sem espanto que alguém possa reunir tanta ingenuidade e tanta perfídia”.

97 Quanto a Tourvel, depois do rompimento com Valmont, ela mesma assume sua responsabilidade pela situação (Carta 143), diante de Rosemonde:

O véu está rasgado, madame, sobre o qual estava pintada a ilusão de minha felicidade. A funesta verdade me ilumina e me deixa apenas ver uma morte segura e próxima, cujo caminho me é traçado pela vergonha e pelo remorso [...] Não é mais o tempo de se queixar, só resta sofrer [...] Eu chorarei meus erros, se eu puder chorar ainda!

Laclos escreveu um livro sobre as fraquezas humanas, sobre as ligações que estabelecemos com os outros e que podem se tornar perigosas apenas porque não somos capazes de dominar nossas paixões. As próprias incertezas que cercam o final da história realçam ainda mais as contradições dos personagens principais. A narrativa se tornaria mais trivial42 se fosse confirmada a evolução moral de Valmont através do amor de Tourvel, ou o sofrimento de Merteuil diante de suas desventuras. Ao que parece, Laclos preferiu advertir sobre a existência de um mal que, ainda que esteja em estado latente, está presente na sociedade e pode ser a razão da queda dos homens. Redimir Valmont e exibir o sofrimento de Merteuil seria negar a existência desse mal na vida humana. E isso, Laclos, o homem de família, o profissional competente, aparentemente preferiu não fazer.