A pesquisa desenvolvida culminou em outras perspectivas e temas a serem abordados em futuros trabalhos, transpassando a proposta inicial de um estudo de múltiplos casos sobre pólos de tecnologia da informação. Desde a primeira etapa, a procura por informações que levassem à maior compreensão dos assuntos relacionados ao tema de pesquisa acabou por incitar o pesquisador a propor outras questões frente ao que era visto. Algumas dessas questões podem se desdobrar em novos trabalhos, assim como apresentado a seguir. O surgimento de novas questões a respeito do tema denota que ainda há muitos elementos a serem analisados para que se esgotem as pesquisas sobre arranjos produtivos.
Os tópicos apresentados abaixo se justificam na inquietude do pesquisador em buscar explicações para a ausência de equidade de relevância no interior dos modelos estudados, fato que demonstra que ainda há muito a ser feito para que os modelos reais de arranjos produtivos se aproximem mais dos modelos ideais de desenvolvimento sistêmico.
7.2.1. Dependência Estrutural Interna
O conceito de dependência estrutural foi cunhado na sociologia, quando observadas as classes internas e externas que compõem o Estado Nacional (CARDOSO; FALLETO, 2004). Na economia, o conceito foi amplamente discutido no âmbito das relações entre países precocemente industrializados e aqueles considerados de industrialização tardia (CARDOSO DE MELLO, 1982), o que dimensionou uma divisão internacional do trabalho que concentrava as funções mais próximas da tecnologia de ponta no eixo do sistema e as demais funções na periferia (FURTADO, 2008). A idéia, frente à dinâmica dos arranjos produtivos, é recuperada de forma mais objetiva, no âmbito das redes de organizações. Não se trata de abandonar os preceitos que a economia política desenhou para o tema, mas da necessária adequação ao nível organizacional.
Em modelos produtivos mononucleados, a presença da grande organização nuclear é a força motriz do sistema. Suas relações alcançam, direta ou indiretamente, todas as unidades produtivas incluídas no sistema. Dessa forma, torna-se o grande referencial das demais
unidades do sistema, tanto diante das especificações de produtos, processos e estruturas, quando diante da visualização do mercado. Seja num cluster (concentração regional de empresas) ou em outro modelo de arranjo produtivo, as empresas que exercem a função de núcleo sistêmico carregam sobre si a responsabilidade da manutenção de todas as unidades conectadas a si.
Dos arranjos produtivos mononucleados, chega-se à variante mais drástica da temática que é o mercado mononucleado. Apenas uma unidade central fornece a maior parte dos produtos de um determinado segmento. Significa aumento relativo da importância da organização central do sistema produtivo frente aos seus concorrentes, dada a amplitude de sua atuação no mercado. Essa organização passa a influenciar de forma desmedida o nível de preços, o que não é interessante para o consumidor.
Nos mercados mononucleados, o consumidor é o grande prejudicado, por não possuir opções de mesmo nível técnico aos produtos oferecidos pelo agente central do mercado, uma vez que este compete apoiado no volume operacional, possibilitando custos mais baixos com qualidade melhor. Muitas vezes, a diferença de custos não é repassada para a formação de preços, diante da possibilidade do agente central ditar o preço do mercado por não possui concorrentes aptos a equalizar, concorrencialmente, oferta e demanda a um preço mais baixo. Dessa forma, o poder de mercado do agente central tende a significar o poder de estabelecimento dos níveis médios de preços praticados.
O mercado mononucleado é um estágio futuro do modelo produtivo mononucleado. A concentração de capital para fins produtivos, aglutinando os recursos sobre um único agente sistêmico, desdobra-se em impedimentos para o estabelecimento de novos concorrentes de menor porte. Em sistemas mononucleados, a estrutura criada possui alto grau de dependência em relação ao agente central. Significa dizer que se por algum motivo a organização no núcleo do sistema entrar em colapso, há um risco elevado de todo o sistema ruir. Se apesar da dependência interna do arranjo produtivo houver agentes externos que compitam no mercado de forma relevante, é possível que haja substituição do agente em colapso. Entretanto, no âmbito interno do arranjo produtivo, é possível que os demais agentes de menor porte não consigam subsistir à crise do modelo.
Os modelos multinucleados possuem dependência interna diminuída, em função da inexistência de um agente que concentre o poder decisório. Modelos multinucleados de produção dificilmente se desdobram em modelos mononucleados de mercado. Obviamente, se um player se destaca dos demais a ponto de concentrar para si a maioria absoluta da participação do mercado, isso acaba se desdobrando em aumento de sua importância frente ao
seu segmento de atuação, mas nem sempre isso origina o aumento de importância no modelo produtivo em que opera.
7.2.2. A busca por dispositivos de mensuração
Ainda não existe na literatura da área de clusters e arranjos produtivos um estudo definitivo sobre possíveis índices de mensuração da dependência estrutural interna. Verifica- se que, dada a necessidade de uma análise criteriosa do nível de intensidade das relações estabelecidas entre empresas, quaisquer dispositivos passíveis de ser utilizados para composição de um índice que reflita a condição de dependência interna de um arranjo produtivo fatalmente passa pela adoção de parâmetros deterministas e impositivos, como a atribuição de pesos numéricos para uma determinada característica de relação. Entretanto, existem formas menos propensas à conceituação pessoal, como a análise do número de relações estabelecidas.
Analisando o modelo de arranjo produtivo mononucleado, as relações estabelecidas entre os agentes tendem a ser unidirecionadas no sentido do participante central (Figura 1). A temática a ser abordada na análise de número de relações possíveis é a de controle do poder político/normativo. Quanto maior a intensidade das relações estabelecidas em uma única via com o agente central do sistema, maior a dependência das unidades periféricas em relação ao núcleo. Se por algum motivo as unidades participantes do arranjo produtivo estabelecem outras relações de fornecimento ou dependência com outros agentes, o agente central perde relevância, pois o grau de dependência da relação diminui. No formato de controle ideal, onde o agente central é o intermediário exclusivo das relações entre as empresas inseridas no contexto do modelo mononucleado, todos os participantes diretos do processo produtivo possuem relação exclusiva com o núcleo. Dessa forma, o número de relações ideais estabelecidas é igual à quantidade de agentes no sistema produtivo menos um, todas em função do agente central.
Da mesma forma, o modelo de arranjo produtivo multinucleado tem um modelo ideal de relações, em que todas as unidades possuem relações de dupla via com todas as demais unidades do sistema. O número ideal de relações, que é também o número máximo de relações possíveis é dado pela equação:
(n-1)
n
2
Considera-se, desse modo, que as relações de dupla via são na verdade apenas uma relação, um tipo específico em que há dupla direção do fluxo informacional, e que n é o número de agentes do sistema. Entre dois agentes pode existir no máximo uma relação, com diferentes comportamentos de intensidade e direção dos fluxos.
Considerando os dois aspectos considerados como ideais, podemos situar o número de relações de um arranjo produtivo entre os dois extremos verificados. Assim, uma escala de número de relações ( ) dada estabelecidas em um arranjo produtivo seria:
(n-1)
n
2
<
<
(n-1)
Ainda que tenhamos uma escala para mensuração do nível de dependência interna pelo número de relações, não há como determinar a priori que valores de próximos de seus extremos configuram o modelo produtivo como mais dependente ou menos dependente, mas sim que quanto maior o valor de dentro da escala, mais próximo está de ser um arranjo produtivo multinucleado.
O desenvolvimento de um fator de ponderação de que leve em conta os graus de importância das relações de forma vetorial deverá contribuir em muito para o estabelecimento de um indicador de nível de dependência interna em arranjos produtivos. Contudo, esse tema não era objeto primário ou secundário dessa pesquisa, e fica aqui registrado como uma proposta para futuros trabalhos.